Céu, Estrelas e Universo
Poemas neste tema
Forough Farrokhzad
só o som permanece
por que eu deveria deter-me, por quê?
os pássaros partiram em busca
da direção azul.
o horizonte é vertical, vertical
e o movimento uma fonte;
e nos limites da visão
planetas brilhantes giram.
a terra elevando-se alcança a repetição,
e poços de ar
tornam-se túneis de conexão;
e o dia é uma vastidão,
que não cabe na mente estreita
de vermes de jornal.
por que deveria deter-me?
a estrada passa pelos capilares da vida,
a qualidade do ambiente
na nau do útero da lua
matará as células corrompidas.
e no espaço químico após a aurora
há som apenas,
som que atrairá as partículas do tempo.
por que me deter?
o que pode ser um pântano?
o que pode ser um pântano senão campo de fermentação
de insetos corruptos?
cadáveres inchados rabiscam os pensamentos do necrotério,
o impotente esconde
sua falta de virilidade em escuridão,
e o besouro... ah,
se o besouro fala,
por que eu me deteria?
cooperação em letras de chumbo é fútil,
eu não salvarei o pensamento baixo.
sou descendente da casa das árvores.
respirar esse ar velho me deprime.
um pássaro morto aconselhou-me
guardar o voo para a memória.
o âmbito final dos poderes é a união,
unindo-se ao princípio luminar do sol
e derramando-se na compreensão da luz.
é natural que moinhos desmoronem.
por que me deter?
eu aperto contra o peito
os feixes verdes de trigo
e os amamento.
som, som, só som,
o som do desejo límpido
da água em fluir,
o som da queda de luz em estrela
no muro da feminilidade da terra,
o som dos laços do esperma do sentido
e a expansão da mente do amor em partilha.
som, som, som,
apenas som permanece.
na terra de anões,
os critérios de comparação
sempre viajaram a órbita do zero.
por que me deter?
eu obedeço os quatro elementos
e a tarefa de delinear
a constituição do meu coração
não é negócio
para o governo local dos cegos.
o que é o selvagem e longo gemido
dos órgãos sexuais de animais para mim?
o que para mim é o movimento humilde
do verme em seu vácuo carnal?
a ancestralidade que sangra das flores
comprometeu-me com a vida.
você tem familiaridade com o que sangra
da ancestralidade das flores?
(paráfrase de Ricardo Domeneck)
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1 010
1
Daniel Faria
Acontecera que as coisas se destruíssem
Acontecera que as coisas se destruíssem sem que nelas sobrevivesse
E era tarde.
Sozinho em tempos não fora a falta de ninguém
E o que doía não tinha o quisto da doença
Só o espaço sereno das coisas que se deixam.
Acontecera que nada se fizera fora
Do coração.
Acontecera que passara a noite a abrir os olhos
Para não se interromper
A estender a mão para estar vivo
E certo de que nem ele próprio se abeiraria de si mesmo
Pois ocupara-se rigorosamente de ausentar-se.
Mesmo se caminhara muito devagar
Sem outro meio para esperar que o visitassem.
Ele que é agora o que nunca repousou
O que nunca encontrará o sítio do sossego
A não ser que haja o equilíbrio na vertigem
Uma luz parada no meio da voragem.
E era tarde.
Sozinho em tempos não fora a falta de ninguém
E o que doía não tinha o quisto da doença
Só o espaço sereno das coisas que se deixam.
Acontecera que nada se fizera fora
Do coração.
Acontecera que passara a noite a abrir os olhos
Para não se interromper
A estender a mão para estar vivo
E certo de que nem ele próprio se abeiraria de si mesmo
Pois ocupara-se rigorosamente de ausentar-se.
Mesmo se caminhara muito devagar
Sem outro meio para esperar que o visitassem.
Ele que é agora o que nunca repousou
O que nunca encontrará o sítio do sossego
A não ser que haja o equilíbrio na vertigem
Uma luz parada no meio da voragem.
1 532
1
Léopold Sédar Senghor
Máscara negra
a Pablo Picasso
Ela dorme e repousa sobre a candura da areia
Kumba Tam dorme. Uma palma verde vela a febre dos cabelos, a fronte curva cobre
As pálpebras fechadas, corte duplo e fontes seladas.
Esse estreito crescente, este lábio mais negro e até pesado
– onde o sorriso da mulher cúmplice?
As patenas das faces, o desenho do queixo cantam o acordo mudo.
Rosto de máscara fechado ao efêmero, sem olhos sem matéria
Cabeça de bronze perfeita e sua pátina de tempo
Que não suja ruge nem rubor nem rugas, nem marcas de lágrimas nem de beijos
Oh rosto tal como Deus te criou antes da própria memória das eras
Rosto do amanhecer do mundo não te abra como um colo terno para emocionar a minha carne.
Eu te adoro, oh Beleza, com meu olho monocórdio!
(tradução de Leo Gonçalves)
:
Masque nègre
a Pablo Picasso
Elle dort et repose sur la candeur du sable.
Koumba Tam dort. Une palme verte voile la fièvre des cheveux, cuivre le front courbe
Les paupières closes, coupe double et sources scellés.
Ce fin croissant, cette lèvre plus noire et lourde à peine
– où le sourire de la femme complice?
Les patènes des joues, le dessin du menton chantent l’accord muet.
Visage de masque fermé à l’éphémère, sans yeux sans matière
Tête de bronze parfaite et as patine de temps
Que ne souillent fards ni rougeur ni rides, ni traces de larmes ni de baisers
O visage tel que Dieu t’a créé avant la mémoire même des ages
Visage de l’aube du monde, ne t’ouvre pás comme um col tendre pour émouvoir ma chair.
Je t’adore, ô Beauté, de mon oeil monocorde!
Ela dorme e repousa sobre a candura da areia
Kumba Tam dorme. Uma palma verde vela a febre dos cabelos, a fronte curva cobre
As pálpebras fechadas, corte duplo e fontes seladas.
Esse estreito crescente, este lábio mais negro e até pesado
– onde o sorriso da mulher cúmplice?
As patenas das faces, o desenho do queixo cantam o acordo mudo.
Rosto de máscara fechado ao efêmero, sem olhos sem matéria
Cabeça de bronze perfeita e sua pátina de tempo
Que não suja ruge nem rubor nem rugas, nem marcas de lágrimas nem de beijos
Oh rosto tal como Deus te criou antes da própria memória das eras
Rosto do amanhecer do mundo não te abra como um colo terno para emocionar a minha carne.
Eu te adoro, oh Beleza, com meu olho monocórdio!
(tradução de Leo Gonçalves)
:
Masque nègre
a Pablo Picasso
Elle dort et repose sur la candeur du sable.
Koumba Tam dort. Une palme verte voile la fièvre des cheveux, cuivre le front courbe
Les paupières closes, coupe double et sources scellés.
Ce fin croissant, cette lèvre plus noire et lourde à peine
– où le sourire de la femme complice?
Les patènes des joues, le dessin du menton chantent l’accord muet.
Visage de masque fermé à l’éphémère, sans yeux sans matière
Tête de bronze parfaite et as patine de temps
Que ne souillent fards ni rougeur ni rides, ni traces de larmes ni de baisers
O visage tel que Dieu t’a créé avant la mémoire même des ages
Visage de l’aube du monde, ne t’ouvre pás comme um col tendre pour émouvoir ma chair.
Je t’adore, ô Beauté, de mon oeil monocorde!
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1
Daniel Faria
Estranho é o sono que não te devolve.
Estranho é o sono que não te devolve.
Como é estrangeiro o sossego
de quem não espera recado.
Essa sombra como é a alma
de quem já só por dentro se ilumina
e surpreende
e por fora é
apenas peso de ser tarde.Como é
amargo não poder guardar-te
em chão mais próximo do coração.
Como é estrangeiro o sossego
de quem não espera recado.
Essa sombra como é a alma
de quem já só por dentro se ilumina
e surpreende
e por fora é
apenas peso de ser tarde.Como é
amargo não poder guardar-te
em chão mais próximo do coração.
1 390
1
Lúcio Cardoso
Poema do ferro e do sangue
Esqueceram os campos revolvidos
onde vegetam perdidos
os ossos obscuros
calcinados
de dez milhões de mortos.
Esqueceram as cruzes improvisadas
erguendo para o alto
preces de galhos retorcidos.
E esqueceram o rumor das granadas
revolvendo a terra e os vivos
devorando os mortos
destruindo.
onde vegetam perdidos
os ossos obscuros
calcinados
de dez milhões de mortos.
Esqueceram as cruzes improvisadas
erguendo para o alto
preces de galhos retorcidos.
E esqueceram o rumor das granadas
revolvendo a terra e os vivos
devorando os mortos
destruindo.
907
1
Cruz e Sousa
Litania dos pobres
Os miseráveis, os rotos
São as flores dos esgotos.
São espectros implacáveis
Os rotos, os miseráveis.
São prantos negros de furnas
Caladas, mudas, soturnas.
São os grandes visionários
Dos abismos tumultuários.
As sombras das sombras mortas,
Cegos, a tatear nas portas.
Procurando o céu, aflitos
E varando o céu de gritos.
Faróis à noite apagados
Por ventos desesperados.
Inúteis, cansados braços
Pedindo amor aos Espaços.
Mãos inquietas, estendidas
Ao vão deserto das vidas.
Figuras que o Santo Ofício
Condena a feroz suplício.
Arcas soltas ao nevoento
Dilúvio do Esquecimento.
Perdidas na correnteza
Das culpas da Natureza.
Ó pobres! Soluços feitos
Dos pecados imperfeitos!
Arrancadas amarguras
Do fundo das sepulturas.
Imagens dos deletérios,
Imponderáveis mistérios.
Bandeiras rotas, sem nome,
Das barricadas da fome.
Bandeiras estraçalhadas
Das sangrentas barricadas.
Fantasmas vãos, sibilinos
Da caverna dos Destinos!
Ó pobres! o vosso bando
É tremendo, é formidando!
Ele já marcha crescendo,
O vosso bando tremendo...
Ele marcha por colinas,
Por montes e por campinas.
Nos areiais e nas serras
Em hostes como as de guerras.
Cerradas legiões estranhas
A subir, descer montanhas.
Como avalanches terríveis
Enchendo plagas incríveis.
Atravessa já os mares,
Com aspectos singulares.
Perde-se além nas distâncias
A caravana das ânsias.
Perde-se além na poeira,
Das Esferas na cegueira.
Vai enchendo o estranho mundo
Com o seu soluçar profundo.
Como torres formidandas
De torturas miserandas.
E de tal forma no imenso
Mundo ele se torna denso.
E de tal forma se arrasta
Por toda a região mais vasta.
E de tal forma um encanto
Secreto vos veste tanto.
E de tal forma já cresce
O bando, que em vós parece.
Ó Pobres de ocultas chagas
Lá das mais longínquas plagas!
Parece que em vós há sonho
E o vosso bando é risonho.
Que através das rotas vestes
Trazeis delícias celestes.
Que as vossas bocas, de um vinho
Prelibam todo o carinho...
Que os vossos olhos sombrios
Trazem raros amavios.
Que as vossas almas trevosas
Vêm cheias de odor das rosas.
De torpores, d’indolências
E graças e quint’essências.
Que já livres de martírios
Vêm festonadas de lírios.
Vem nimbadas de magia,
De morna melancolia!
Que essas flageladas almas
Reverdecem como palmas.
Balanceadas no letargo
Dos sopros que vem do largo...
Radiantes d’ilusionismos,
Segredos, orientalismos.
Que como em águas de lagos
Bóiam nelas cisnes vagos...
Que essas cabeças errantes
Trazem louros verdejantes.
E a languidez fugitiva
De alguma esperança viva.
Que trazeis magos aspeitos
E o vosso bando é de eleitos.
Que vestes a pompa ardente
Do velho Sonho dolente.
Que por entre os estertores
Sois uns belos sonhadores.
2 998
1
Sebastião Alba
Sem título
Para isto de dar
um bambo passo entre as estrelas
não se vai com a grande ocasião reclinada
na cabeça a ouvir Puccini
Breve empanadas as estrelas
não mais se acenderão e apagarão
O rumo estará raso
O silêncio a nada obrigará
De pouco serve a ida ao lugar de ausência
que o teu sono já não é extensível
Aboliu-se uma posição relativa na noite
Não circulando em ti com a sua mistura
o ar atravessará o esqueleto
E tudo será sem data e sem prenúncio
E não acrescentarei ao poema ainda um verso relvado Que buxo!
Ele não seria a medida ou a balança Seu inconcreto molde
restaria quebrado entre outros cacos
(Se bem que da infância suba até mim o coro admonitório dos anjos.)
um bambo passo entre as estrelas
não se vai com a grande ocasião reclinada
na cabeça a ouvir Puccini
Breve empanadas as estrelas
não mais se acenderão e apagarão
O rumo estará raso
O silêncio a nada obrigará
De pouco serve a ida ao lugar de ausência
que o teu sono já não é extensível
Aboliu-se uma posição relativa na noite
Não circulando em ti com a sua mistura
o ar atravessará o esqueleto
E tudo será sem data e sem prenúncio
E não acrescentarei ao poema ainda um verso relvado Que buxo!
Ele não seria a medida ou a balança Seu inconcreto molde
restaria quebrado entre outros cacos
(Se bem que da infância suba até mim o coro admonitório dos anjos.)
1 107
1
Maura Lopes Cançado
Meus sapatos amarelos
Meus sapatos amarelos
um passo adiante na minha solidão.
Eu os vi mil vezes através de lágrimas,
na sua ingenuidade gasta, resignada,
Ó, meus sapatos - amarelo-girassol.
(28/10/1959)
1 132
1
Oscar Wilde
Enquanto a guerra for considerada maldita
Enquanto a guerra for considerada maldita será sempre uma fascinação.
Só quando for vista como vulgar deixará de ser popular.
Só quando for vista como vulgar deixará de ser popular.
1 950
1
Henry David Thoreau
Se você construiu castelos no
Se você construiu castelos no ar, não pense que desperdiçou seu trabalho; eles estão onde deveriam estar. Agora construa os alicerces.
3 849
1
Confúcio
É melhor acender uma pequenina
É melhor acender uma pequenina vela do que maldizer a escuridão.
3 078
1
Martin Luther King Jr.
A lei do olho por
A lei do olho por olho acaba por deixar todo mundo cego.
3 596
1
Voltaire
Acredito no Deus que criou
Acredito no Deus que criou os homens, e não no Deus que os homens criaram.
4 331
1
Lao Zi
O oleiro faz um vaso,
O oleiro faz um vaso, manipulando a argila, mas é o oco do vaso que lhe dá utilidade.
3 446
1
John F. Kennedy
Quase sempre preferimos o conforto
Quase sempre preferimos o conforto da opinião sem o desconforto da reflexão.
3 438
1
Oscar Wilde
Definir é limitar
Definir é limitar
3 547
1
Napoleão Bonaparte
O amor é uma tolice
O amor é uma tolice feita entre dois.
3 085
1
Platão
Os números governam o mundo
Os números governam o mundo
4 142
1
Sigmund Freud
Seriamos muito melhores se não
Seriamos muito melhores se não quiséssemos ser tão bons.
3 501
1
Hipócrates
A vida é breve, a
A vida é breve, a arte vasta, a ocasião instantânea, a experiência incerta, o juízo difícil.
3 218
1
Friedrich Nietzsche
Quanto mais nos elevamos, menores
Quanto mais nos elevamos, menores parecemos aos olhos daqueles que não sabem voar
4 039
1
Groucho Marx
Lembro muito bem da primeira
Lembro muito bem da primeira vez que fiz sexo. Até guardei até o recibo.
3 085
1
Friedrich Nietzsche
Na solidão, o solitário consome-se
Na solidão, o solitário consome-se a si mesmo; na multidão a multidão consome-o. Agora escolhe.
3 545
1
Friedrich Nietzsche
A arte existe para que
A arte existe para que a verdade não nos destrua.
5 404
1
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