Tristeza e Melancolia

Poemas neste tema

Antero Coelho Neto

Antero Coelho Neto

Agora Tenho que Partir

Agora tenho de partir
para longe e sempre
sem nunca mais voltar.

Eu devo novamente fugir
como tantas vezes durante a vida
indo embora sem chorar
depois de outra luta perdida.

Parto mas hoje eu sei
que jamais voltarei
aqui ou a qualquer lugar.

1 206
Antonio Ferreira dos Santos Júnior

Antonio Ferreira dos Santos Júnior

Todo Dia

Todo dia
Pedaços de mim
Em esgotos.

Toda noite
A alma triste
E o desgosto.

No rio final
Afinal o encontro:
Esgotos, desgostos.

742
Antonio Ferreira dos Santos Júnior

Antonio Ferreira dos Santos Júnior

Sempre em Todos na Manhã

Sempre em todos na manhã
A noite na face

De manhã
Ao meio-dia, à tarde,
À noite,
A noite na face.

Nos profundos
E magoados olhos fundos
A noite.

Na noite,
Pleno encontro de tudo,
De todos.

742
Amadeu Fontana

Amadeu Fontana

Haicai

Despetala a rosa
o vento... Que desalento
na tarde chuvosa

Rosa, a rosa flor,
caída ao chão, esquecida,
lembra um pobre amor

903
Antônio Fernando Guardado

Antônio Fernando Guardado

Haicai

no hálito do planeta
ligeiro sopro desbotado
asfixia

fragmento de azul
no espelho das águas
as nuvens despedem-se

831
Alfred Edward Housman

Alfred Edward Housman

THE SIGTH THAT HEAVES

O suspiro que erva ondula
Onde jamais te hás-de erguer,
É só do ar que ali passa
Sem de suspiros saber.

As lágrimas de diamante
Que adornam teu leito ali
São por certo da manhã -
Que chora, mas não por ti.

1 034
Alfred Edward Housman

Alfred Edward Housman

THEY SAY MY VERSE

Dizem: meu verso é triste: não admira.
Abarca a estreita medida
Tristes lágrimas de ira:
Não minhas: da vida.

Isto se escreve para os não-nascidos.
Gerados em vão,
Lerem quando se virem consumidos,
E eu não.

998
Liz Christine

Liz Christine

Meu chocolate

Ao leite ou derretido
Com passas ou crocante
Puro ou pervertido
Com recheio
É excitante
Eu saboreio
Te mordo
E meu corpo todo
Lambuzada
Chocolate
Fina arte
Transformada
Misturada
Ao sabor supremo
Meu chocolate
Meu veneno
Você é arte
Só você extermina
Minha melancolia
Você, serotonina
Que me vicia

911
Helga Holtz

Helga Holtz

Ausente

Ele dorme ausente dos meus olhos abertos,
guarda para si paisagens que desejo sonhar.
Sob pálpebras alvas de tecido sonolento
percebo o claro volume genital do seu olhar.
Desejo amparo de algum sono, quero fugir
do olho molhado, vermelho, recém-acordado,
intumescido de sono e que me espia chorar.

918
Paul Celan

Paul Celan

ESTOU SOZINHO,coloco a flor de cinza

no corpo cheio de negrume amadurecido.Boca de irmã,
tu dizes uma palavra que sobrevive diante das janelas,
e sem ruído trepa,o que eu sonhei,por mim acima.

Estou de pé na profusão das horas murchas
e poupo uma resina para um pássaro tardio:
ele traz o floco de neve nas penas vermelho-vivo;
com o grão de gelo no bico,atravessa o verão.

1 111
Paul Celan

Paul Celan

DO AZUL

DO AZUL,que ainda busca o seu olho,bebo eu em primeiro lugar.
Da marca do teu pé bebo eu e vejo:
rolas-me entre os dedos,pérola,e cresces!
Cresces como todos os que foram esquecidos.
Rolas:o granizo preto da melancolia
cai num lenço,todo branco de dizer adeus.

(tradução
de João Barrento e y.k.Centeno)

1 153
Paul Verlaine

Paul Verlaine

Chanson dautomne

Chanson dautomne

Les sanglots longs

Des violons

De lautomne

Blessent mon coeur

Dune langueur

Monotone.

Tout suffocant

Et blême, quand

Sonne lheure,

Je me souviens

Des jours anciens

Et je pleure

Et je men vais

Au vent mauvais

Qui memporte

Deçà, delà,

Pareil à la

Feuille morte.

1 348
Juan-Eduardo

Juan-Eduardo

Ni la luz

de la luna
La noche enferma
duerme lejos del río.No me escuches,
no me oigas llorar cuando amanece.
Dime:¿has tocado mis ojos
con tus dedos de hielo?

Es que estoy enterrado;
no pises nunca el césped,
no pises la tristeza,
ni la luz de la Luna
cuando pone lejanos los caminos.

Muchacha,
no me escuches,no.No me escuches.

872
Abrahão Cost'Andrade

Abrahão Cost'Andrade

Hidrofobia

Lívido olhar
destravava o outono
de brava tristeza.

923
Áurea de Arruda Féres

Áurea de Arruda Féres

Primavera

O vento acalanta
o inconsolável chorão
no seu desalento...

907
Carlos Eduardo Bandeira de Mello Gomes

Carlos Eduardo Bandeira de Mello Gomes

O Silêncio

O silêncio
morre na boca azul da lua
"temos todo o tempo do mundo"
só não tenho tempo de viver
mas vivo, claro verbo profundo
"parece cocaína mas é só tristeza"
o silêncio
nasce no ventre branco do lírio
passa o colírio
e uma gota de orvalho do teu incêndio

816
Luís Amaro

Luís Amaro

Intermédio

Alguém que se ignora
Passeia a sua mágua
Lá pela noite fora.

Já sem saber se existe,
Entre silêncio e treva,
Nem alegre nem triste,

Alguém que a própria sorte
Enjeita, vai absorto
Num sonho que é a morte
E é vida — sendo morto.

(In Antologia de Poetas Alentejanos,
de Orlando Neves)

939
Daniel Faria

Daniel Faria

Como doem as árvores

Como doem as árvores
Quando vem a Primavera
E os amigos que ainda estão de pé

de Explicação das Árvores e de Outros Animais(1998)
1 713
Fernando Pessoa

Fernando Pessoa

ALENTEJO SEEN FROM THE TRAIN

ALENTEJO SEEN FROM THE TRAIN

Nothing with nothing around it
And a few trees in between
None of which very clearly green,
Where no river or flower pays a visit.
If there be a hell, I've found it,
For if ain't here, where the Devil is it?

1907
5 412
Fernando Pessoa

Fernando Pessoa

Bem sei que todas as mágoas

Bem sei que todas as mágoas
São como as mágoas que são
Parecidas com as águas
Que continuamente vão...

Quero, pois, ter guardada
Uma tristeza de mim
Que não possa ser levada
Por essas águas sem fim.

Quero uma tristeza minha
Uma mágoa que me seja
Uma espécie de rainha
Cujo trono se não veja.


09/10/1934
4 233
Fernando Pessoa

Fernando Pessoa

Um dia baço mas não frio...

Um dia baço mas não frio...
Um dia como
Se não tivesse paciência pra ser dia,
E só num assomo,
Num ímpeto vazio
De dever, mas com ironia,
Se desse luz a um dia enfim
Igual a mim,
Ou então
Ao meu coração,
Um coração vazio,
Não de emoção
Mas de buscar, enfim –
Um coração baço mas não frio.


18/03/1935
4 281
Fernando Pessoa

Fernando Pessoa

Desce a névoa da montanha,

Desce a névoa da montanha,
Desce ou nasce ou não sei quê...
Minha alma é a tudo estranha,
Quando vê, vê que não vê.
Mais vale a névoa que a vida...
Desce, ou sobe: enfim, existe.
E eu não sei em que consiste
Ter a emoção por vivida,
E, sem querer, estou triste.


02/09/1935
4 855
Fernando Pessoa

Fernando Pessoa

Ladram uns cães a distância,

Ladram uns cães à distância,
Cai uma tarde qualquer,
Do campo vem a fragrância
De campo, e eu deixo de ver.

Um sonho meio sonhado,
Em que o campo transparece,
Está em mim, está a meu lado,
ora me lembra ou me esquece.

E assim neste ócio profundo
Sem males vistos ou bens,
Sinto que todo este mundo
É um largo onde ladram cães.


25/12/1932
4 671
Fernando Pessoa

Fernando Pessoa

Verdadeiramente

Verdadeiramente
Nada em mim sinto.
Há uma desolação
Em quanto eu sinto.
Se vivo, parece que minto.
Não sei do coração.

Outrora, outrora
Fui feliz, embora
Só hoje saiba que o fui.
E este que fui e sou,
Margens, tudo passou
Porque flui.


06/04/1934
4 487