Escritas

Sociedade

Poemas neste tema

Pedro Oom

Pedro Oom

As virtudes dialogais

Dentro
de mim
há uma planta
que cresce
alegremente
que diz
bom dia
quando nos amamos
ao entardecer
e boa noite
quando florimos
à alvorada
uma árvore
que não está com o tempo
este tempo
a que chamamos
nosso.
1 419
Luiza Neto Jorge

Luiza Neto Jorge

Anos Quarenta, os Meus

De eléctrico andava a correr meio mundo
subia a colina ao castelo-fantasma
onde um pavao alto me aflorava muito
em sonhos à noite. E sofria de asma

alma e ar reféns dentro do pulmao
( como um chimpanzé que à boca da jaula
respirava ainda pela estendida mao ).
Salazar tres vezes, no eco da aula.

As verdiças tranças prontas a espigar
escondiam na auréola os mais duros ganchos.
E o meu coito quando jogava a apanhar
era nesse tronco do jardim dos anjos

que hoje inda esbraceja numa árvore passiva.
Níqueis e organdis, espelhos e torpedos
acabou a guerra meu pai grita "Viva".
Deflagram no rio golfinhos brinquedos.

Já bate no cais das colunas uma
onda ultramarina onde singra um barco
pra cacilhas e, no céu que ressuma
névoas águas mil, um fictício arco-
-irís como é, no seu cor-a-cor,
uma dor que ao pé doutra se indefine.
No cinema lis luz o projector
e o FIM através do tempo retine.

1 331
Alberto Moravia

Alberto Moravia

Curiosamente, os votantes não se

Curiosamente, os votantes não se sentem responsáveis pelos fracassos do governo em que votaram.
954
Anatole France

Anatole France

A majestosa igualdade das leis,

A majestosa igualdade das leis, que proíbe tanto o rico como o pobre de dormir sob as pontes, de mendigar nas ruas e de roubar pão.
1 381
Henry David Thoreau

Henry David Thoreau

É preferível cultivar o respeito

É preferível cultivar o respeito do bem que o respeito pela lei.
2 828
Winston Churchill

Winston Churchill

Um apaziguador é alguém que

Um apaziguador é alguém que alimenta um crocodilo esperando ser o último a ser devorado.
3 518
William Shakespeare

William Shakespeare

Pobre é o amor que

Pobre é o amor que pode ser contado
3 839
Oscar Wilde

Oscar Wilde

O mundo pode ser um

O mundo pode ser um palco, mas o elenco é um horror.
3 141
George Bernard Shaw

George Bernard Shaw

Ele nada sabe e pensa

Ele nada sabe e pensa que tudo sabe. Isso aponta claramente para uma carreira política.
2 764
Ernest Hemingway

Ernest Hemingway

Nunca pense que a guerra,

Nunca pense que a guerra, por mais necessária ou justificável que seja, não é um crime.
3 053
Benjamin Franklin

Benjamin Franklin

Nunca houve uma guerra boa

Nunca houve uma guerra boa nem uma má paz.
3 034
Albert Einstein

Albert Einstein

Não sei como será a

Não sei como será a 3a Guerra Mundial, mas posso dizer como será a Quarta: Com paus e pedras.
2 918
Albert Camus

Albert Camus

A política e os destinos

A política e os destinos da humanidade são forjados por homens sem ideais nem grandeza. Aqueles que têm grandeza interior não se encaminham para a política.
3 066
Juan Gelman

Juan Gelman

todo o dia vivi com tua ausência

todo o dia vivi com tua ausência melhor dizendo
todo o dia vivi da tua ausência já que os
terramotos
e outros desastres internacionais
não me distraíram de ti

eu sou um homem do mundo interessa-me
a revolução no Paquistão a falta
de revolução no Yorkshire onde
vi uma vez gente a chorar
de fome ou de raiva nem mais

como é então possível
entre as tempestades ou calmarias
que vêm a dar no mesmo em
certo ponto de vista eu

não esquecer a tua firmeza
a aparência suave que tens
e tudo ser como o teu cheiro depois de amar
em vez de amar ser como o teu cheiro?
1 390
Juan Gelman

Juan Gelman

Opiniões

Um homem desejava violentamente uma mulher
a algumas pessoas não lhes parecia bem
Um homem desejava loucamente voar
a algumas pessoas lhes parecia mal
Um homem desejava ardentemente a Revolução
E contra a opinião da grande maioria
Subiu pelos muros secos do devido
Abriu o peito e retirando os arredores de seu coração
Agitava violentamente uma mulher
Voava loucamente pelo tecto do mundo
E os povos ardiam, as bandeiras
1 388
Vasco Graça Moura

Vasco Graça Moura

Princípio do prazer

à sua volta os pombos cor de lava 
nos arabescos pretos do basalto 
e gente, muita gente que passava 
e se detinha a olhá-la em sobressalto 

no seu olhar havia uma promessa 
nos seus quadris dançava um desafio 
num relance de barco mas sem pressa 
que fosse ao sol-poente pelo rio 

trazia nos cabelos um perfume 
a derramar-se em praias de alabastro 
e um brilho mais sombrio quase lume 
de fogo-fátuo a coroar um mastro 

seu porte altivo punha à vista o puro 
princípio do prazer que caminhava 
carnal e nobre e lúcido e seguro 
com qualquer coisa de uma orquídea brava 

e nas ruas da baixa pombalina 
sua blusa encarnada era a bandeira 
e o grito da revolta na retina 
de quem fosse atrás dela a vida inteira. 
2 382
Oscar Wilde

Oscar Wilde

É difícil não sermos injustos

É difícil não sermos injustos com aquilo que amamos
2 848
José Afonso

José Afonso

TERESA TORGA

No centro da Avenida
No cruzamento da rua
Às quatro em ponto perdida
Dançava uma mulher nua

A gente que via a cena
Correu para junto dela
No intuito de vesti-la
Mas surge António Capela

Que aproveitando a barbuda
Só pensa em fotografá-la
Mulher na democracia
Não é biombo de sala

Dizem que se chama Teresa
Seu nome é Teresa Torga
Muda o pick-up em Benfica
Atura a malta da borga

Aluga quartos de casa
Mas já foi primeira estrela
Agora é modelo à força
Que o diga António Capela

T'resa Torga T'resa Torga
Vencida numa fornalha
Não há bandeira sem luta
Não há luta sem batalha
1 422
Ada Ciocci

Ada Ciocci

Consciência

Neste exato momento, porém,
sei e sinto também,
que apesar de ter sido simples criatura,
das que cuidam bem da casa,
dos filhos, das amizades e do marido,
e de contar estórias para outros lerem,
nada fiz de especial,
assim, como, por exemplo,
um feito patriótico.

Isso, porém, no momento,
pouco importa.

O que está mesmo pra valer incomodando
é não saber eu, quando é que nossos políticos,
deputados, senadores e ministros
irão descobrir a maneira certa,
para libertarem a nossa gentil Pátria amada Brasil
do julgo norte-americano
1 032
Jorge Pedro Barbosa

Jorge Pedro Barbosa

Canção de embalar

"Dorme Maninho
pra não vir Ti Lobo..."

Maninho
volta-se e dorme
no colchão de saco vazio
sobre a terra batida.

Ao lado no chão dormindo também
o naviozinho de lata
que fez com suas mãos...

Apaga-se a luz.
Maninho acorda depois
por causa da voz falando baixinho
segredando
no meio escuro...

Não fala de mamãe...
Ti Lobo talvez...
Mas nhô Chico Polícia há dias contava:
"Ti Lobo não tem..."

Essa voz nocturna segredando...
O homem branco talvez
que lá vai de vez enquando...

"Dorme Maninho
pra não vir Ti Lobo..."

Volta-se e torna a dormir...

Amanhã cedo vai correr o naviozinho de lata
nas poças da Praia Negra...
1 238
Oswaldo Osório

Oswaldo Osório

Cavalos de silex

ainda estávamos em guerra quando fomos à lua
e tínhamos fome e feridas nos olhos de cegar

agarrávamos o futuro com a luz do laser
e as flores gelavam aqui donde partíamos com carbúnculos nos braços

pássaros de pio futuro por onde andávamos
deixámos a terra grávida de salamandras esventradas

ganhávamos o pão nosso cada dia com medidas de suor
e um inverno de vómito estarrecia sob as raizes

as galáxias mediam-se por braçadas de legumes ou milho ou arroz
que no-las distanciavam e as estrelas fugiam perseguidas
por cavalos de sílex

o sonho criava lodo cada manhã
as palavras mal nasciam apodreciam em limo

nesta situação-limite os seios o sexo o sémen
convenceram os homens nas suas fábricas
de cavalos de sílex


tarde

peitos punhos pulsos resolvemos ousar nosso pão
1 098
Heliodoro Baptista

Heliodoro Baptista

Como um cão

Como um cão curvo-me
e procuro ler nas marcas
que a noite não pôde
recolher o tempo.

Anima-me a superfície fabulária
onde o olhar do dia revolve
o que foi alvoroço vida
ou sinal te'nue.

Detenho-me na pegada junto à cama
e a mão precavida incha a memo'ria
nenhuma sensação acende
o que já está perdido.

(Perdidos os meus passos? A minha voz?
é assim tão terrível o amor ao homem?
a justiça foi calcinada em que ritual?)

Pouso então devagarinho
o ouvido na parede húmida
e eis que uma sombra volta-se
num largo aceno de simpatia.

Na paz indizível sopra
a fina aragem desanoitecida
a leve impressão
de um cochichar
uma porta entreaberta
onde pulsa uma esperança.

(Ontem já foi passado
e o minuto que vem
já é futuro).
1 097
Orlando Mendes

Orlando Mendes

Para um fabulário

Fazei as medições convencionais
Por esbatido que seja o horizonte

Declarai que existe uma fronteira
Onde a dor já não possa calar-se

Guardai incontaminada a esperança
Pelo desespero de um e outro lado

Apagai na vossa terra bem amada
Os vestígios de passos paralelos

Deixai envelhecer nos rostos viris
As rugas impregnadas de silêncio

Escutai a noite que o vento possui
Com a sedução das palavras matinais

Escolhei um dia claro e fecundo
De flores abertas, amor consumado

E contai a todas as crianças, contai
Que se fundou o pais das maravilhas.
1 000
Raimundo Correia

Raimundo Correia

Tristeza de Momo

Pela primeira vez, ímpias risadas
Susta em prantos o deus da zombaria;
Chora, e vingam-se dele, nesse dia,
Os silvanos e as ninfas ultrajadas;

Trovejam bocas mil escancaradas,
Rindo; arrombam-se os diques da alegria,
E estoira descomposta vozeria
Por toda a selva, e apupos e pedradas.

Fauno o indigita; a Náiade o caçoa;
Sátiros vis, da mais indigna laia,
Zombam. Não há quem dele se condoa!

E Eco propaga a formidável vaia,
Que além, por fundos boqueirões reboa,
E, como um largo mar, rola e se espraia...


In: CORREIA, Raimundo. Poesias completas. Org. pref. e notas Múcio Leão. São Paulo: Ed. Nacional, 1948. v.1, p.8
3 365