Saudade e Ausência

Poemas neste tema

Jaumir Valença da Silveira

Jaumir Valença da Silveira

Fluminense FM

O sol, o céu e o sal;
onda cobrindo a areia.

Calçada, porrada, breu,
cerveja noite adentro.

Segredo tanto eu tenho,
só você que escutava,

acho que agora eu morro
um pouco sem tua voz

ouvido, garganta, língua,
sobra um pouco de nada.

Saudade de quem te acredita.
Adeus,
maldita.

919
Daniel Faria

Daniel Faria

O meu projecto de morrer

O meu projecto de morrer é o meu ofício
Esperar é um modo de chegares
Um modo de te amar dentro do tempo

de Explicação das Árvores e de Outros Animais(1998)
2 112
Maria Gertrudes Novais

Maria Gertrudes Novais

Partiste

Numa densa nuvem, partiste!
Ficou o eco da tua voz
E o doce afago do teu olhar.
Este amor, que em mim persiste,
Põe a minha alma mais triste
Por te não poder beijar.
Também eu um dia irei,
Contigo aí ficarei
Para te acariciar,
Talvez então nesse dia,
Eu sinta mais alegria
E já não queira voltar.

743
Fernando Pessoa

Fernando Pessoa

X - We, that both lie here, loved. This denies us.

We, that both lie here, loved. This denies us.
My lost hand crumbles where her breasts' lack is.
Love's known, each lover is anonymous.
We both felt fair. Kiss, for that was our kiss.
3 757
Fernando Pessoa

Fernando Pessoa

Na véspera de nada

Na véspera de nada
Ninguém me visitou.
Olhei atento a estrada
Durante todo o dia
Mas ninguém vinha ou via,
Ninguém aqui chegou.

Mas talvez não chegar
Queira dizer que há
Outra estrada que achar,
Certa estrada que está,
Como quando da festa
Se esquece quem lá está.


11/10/1934
4 627
Fernando Pessoa

Fernando Pessoa

Eram varões todos,

Eram varões todos,
Andavam na floresta
Sem motivo e sem modos
E a razão era esta.

E andando iam cantando
O que não pude ser,
Nesse tom mole e brando
Como um anoitecer.

Em querer cantar quanto
Não há nem é e dói
E que tem disso o encanto
De tudo quanto foi.


1934
4 058
Fernando Pessoa

Fernando Pessoa

Há um murmúrio na floresta,

Há um murmúrio na floresta,
Há uma nuvem e não há.
Há uma nuvem e nada resta
Do murmúrio que ainda está
No ar a parecer que há.

É que a saudade faz viver,
E faz ouvir, e ainda ver,
Tudo o que foi e acabará
Antes que tenha de o esquecer
Como a floresta esquece já.


08/03/1931
4 919
Fernando Pessoa

Fernando Pessoa

Tenho sono em pleno dia.

Tenho sono em pleno dia.
Não sei de quê, tenho pena.
Sou como uma maresia.
Dormi mal e a alma é pequena.

Nos tanques da quinta de outrem
É que gorgoleja bem.
Quanto as saudades encontrem,
Tanto minha alma não tem.


05/04/1931
4 152
Fernando Pessoa

Fernando Pessoa

E ou jazigo haja

E ou jazigo haja
Ou sótão com pó,
Bebé foi-se embora.
Minha alma está só.


26/08/1930
4 276
Fernando Pessoa

Fernando Pessoa

Aqui, dizeis, na cova a que me abeiro,

Aqui, dizeis, na cava a que me abeiro,
Não está quem eu amei. Olhar nem riso
Se escondem nesta leira.
Ah, mas olhos e boca aqui se escondem!
Mãos apertei, na alma, e aqui jazem.
Homem, um corpo choro!


06/07/1927
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