Literatura e Palavras

Poemas neste tema

António Ramos Rosa

António Ramos Rosa

Terra de Um Sabor Denso

Terra de um sabor denso
e o olhar retido no tronco
para que o inerte se transforme
no triunfo de uma palavra viva

A seiva escorre cor de ferrugem
os insectos desviam-se
circulam sobre as inscrições

A folhagem desperta sobre o muro
Há um caminho pequeno
E alto e forte
o tumulto da aragem aqui afirma
a saída do chão outra palavra viva
949
António Ramos Rosa

António Ramos Rosa

Mais Raso

Mais raso
onde não é aqui
e o que vibra apenas vibra
ou nada vibra

quase     ou já o limiar
incessante
que requer o limite ou o obstáculo
contra o grito

Aqui quando se diz
aqui
o desejo e o espaço
a palavra     limite e não limite
do vazio
1 085
António Ramos Rosa

António Ramos Rosa

A Palavra Oscila

A palavra oscila
avança e vibra no vazio
1 053
António Ramos Rosa

António Ramos Rosa

Dizem Que É Jardim

Dizem que é jardim
porque repousa

E diz-se também que se ilumina
em pausas
repentinas

Mas que dizer da trama
em movimento?

Que dizer do vento?
Que se prepara o incêndio
aqui na folha
889
António Ramos Rosa

António Ramos Rosa

A Superfície da Água Móvel

A superfície da água móvel
agita as nuvens
a claridade é urgente
para a linha única a marca
branca

O que germina na espessura
oscila em mil percursos
Os juncos seguem os meandros da água subterrânea
o ar move-se dança sobre a areia
As palavras dizem o que diz o ar
1 056
António Ramos Rosa

António Ramos Rosa

A Decisão Inteira

A decisão inteira
mas imprevista a cada espaço
Pleno vazio vazio sempre

A coerência de um todo incoerente
entre uma rede opaca
atravessada por uma luz branca e lívida
E algo único sobre o branco
e no branco que respira
nulo e pleno
a trama solta cerrada
na obscura evidência dos vocábulos
933
António Ramos Rosa

António Ramos Rosa

Limiar Ou o Silêncio

Limiar ou o silêncio
de um corpo obscuro e branco
As hastes vivas
envolvem-no na clareira
em que a sua nudez promete o nome

A fenda escura e verde
em que desliza a mão
sem atingir o inseparável ou o núcleo

Imagens múltiplas
até que os limites se conjuguem
no novo corpo ou na palavra
que o transpõe
1 032
António Ramos Rosa

António Ramos Rosa

Talvez Cante Um Pássaro E o Céu Talvez Seja Na Aparente

Talvez cante um pássaro e o céu talvez seja na aparente
tranquilidade um liso tecido
Mas não se sabe como nomeá-lo indefinido vago
móvel sem as formas nítidas através do vidro
Talvez seja mais tarde o céu de novo em seus
pedaços ou o que através da palavra se mudou num
tecto imponderável
1 022
António Ramos Rosa

António Ramos Rosa

O Que Conta As Letras

O que conta as letras
esquece o viscoso e o obscuro
não vai mais longe que
o dicionário

O que ouve a música das sílabas
não se perde no prazer
a fugitiva luz está presente
em algo simples inacessível

Tocaste o lábio desse monstro
abre-se a ferida de uma estátua
um mugido ondula
e é ele próprio o sopro da brancura
971
António Ramos Rosa

António Ramos Rosa

Um Pouco Um Quase Nada Não Para o Fogo da Palavra

Um pouco um quase nada Não para o fogo da palavra
Arde só o branco e são as folhas disjuntas unindo-se
desfazendo-se Incertas Exactas No despojamento
o fogo branco
e altas crespas ervas
percorridas pela sombra
1 096
António Ramos Rosa

António Ramos Rosa

Nada Se Transcreve Quando

Nada se transcreve quando
simplesmente se passa
num lugar Mas tudo vai transpor-se num silêncio de
passos sobre o chão feliz ou uma terra a descer em
cada linha
e cai no papel em chão deserto
ou um eco de um princípio
inacessível

Escrever é perder     perder para respirar
489
António Ramos Rosa

António Ramos Rosa

A Casa Animal

A casa             animal

de calor e sombra

respira

sobre a página
1 102
António Ramos Rosa

António Ramos Rosa

O Ar Passa

O ar                 passa

a t r a v é s d a s p a l a v r a s
497
António Ramos Rosa

António Ramos Rosa

Atravesso

Atravesso

a terra

com a rapidez de uma palavra
904
António Ramos Rosa

António Ramos Rosa

Vejo a Altura do Branco

Vejo a altura do branco

o nome é espaço

espaço
1 329
António Ramos Rosa

António Ramos Rosa

A Água E o Vento

A água e o vento

palavras vivas

a água     o vento
499
António Ramos Rosa

António Ramos Rosa

O Brilho da Palavra Igual Ao Brilho do Silêncio

O brilho da palavra     igual ao brilho do silêncio
1 019
António Ramos Rosa

António Ramos Rosa

Como Dizer a Outra Face Num Vislumbre

Como dizer a outra face num vislumbre
uma figura respirando
na transparência
e a face transposta no suplício ou no prazer
das linhas
no branco     o novo solo
Lê-las ou pisá-las com o estrume
tremendo no temor de estarem vivas
com raízes inextricáveis e vivazes
520
António Ramos Rosa

António Ramos Rosa

Nervuras Nítidas

Nervuras Nítidas
Tal é a língua que não soçobra quando
se perde noutro sulco branco
Vertical e verde
não já aqui ou quando
mas
transposta exactamente
noutro espaço inflectido
onde a branco e negro
outro objecto se refaz numa outra língua
758
António Ramos Rosa

António Ramos Rosa

Não Compreendo As Palavras Deste Chão Vejo-As No

Não compreendo as palavras deste chão Vejo-as no
limite de ver e já no branco em que se dissipam como
folhas ou papéis Não é comparação mas um avanço
para o cúmplice espaço do silêncio
É necessário um texto com os poros
ao vento e à poeira     opaco
e luminoso
não o lugar aqui
mas o lugar fictício e súbito evidente
998
António Ramos Rosa

António Ramos Rosa

A Trave do Sol Pisada Entre Ramos

A trave do sol pisada entre ramos
A noite perto respira
Fragmentos de luz formam um pólen
sob os passos em branco
O sopro imóvel nas letras
sobre o solo
imóvel a palavra
o espaço alto de árvores negras
a nitidez da página     o vento
que limpa e desloca estas palavras
1 130
António Ramos Rosa

António Ramos Rosa

76. Linha E Sóbria, Desesperada Pedra

76
Linha e sóbria, desesperada pedra
contida em sua linha de água e dança
vertida na palavra que não dança.

Ela a retida, livre — na cidade —
desocupada na página ou no lancil
lançada à vertigem viva de uma escrita.

Por ela a terra roda a vila pesa
a pedra é pedra e sol e água e
entre o lugar e a ausência o nome é branco.
490
António Ramos Rosa

António Ramos Rosa

84. a Incerteza E a Certeza Dessa Escrita

84
A incerteza e a certeza dessa escrita
não filha de um futuro
na folha     chamamento
dilacerante e no entanto mudo.

E que incerta insistência, fogo vago
sobre casas desertas, sobre quartos
de insectos
quanta inércia quantas pálpebras

caídas     e a sombra
de um só corpo se existisse
a dúvida criando este suporte.
947
António Ramos Rosa

António Ramos Rosa

79. a Abstracta Figura Concretiza-Se

79
A abstracta figura concretiza-se
em pedras e pedras sucessivas
num sincopado fluxo de água e de detritos.

Vejam a lâmpada negra da aranha
que entre paredes busca a sintaxe inversa
busquem a pedra essencial a pedra.

Mas o esforço é abandono rouco
às pulsões da terra branca desta escrita
que é animal para ser animal livre.
1 013