Desejo

Poemas neste tema

António Ramos Rosa

António Ramos Rosa

11. o Desenlace a Marca o Timbre

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O desenlace a marca o timbre
razão de escrever viver morrer
na ideia exemplar do jamais aqui.

Mas será aqui o cacho apaixonante
da uva desses olhos de um frio branco
o rosto da irmã amante de altas pernas.

Será no pó sem a estrutura e na estrutura
do território agreste o rosto brusco
gritando o rosto aqui ou o rastro dele.
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António Ramos Rosa

António Ramos Rosa

Os Primeiros Sinais Diferentes…

Os primeiros sinais diferentes no caminho, as sombras que afloram nas pedras escritas, nomes de nenhuma boca mas que aliciam a boca, a aligeiram até à saliva salva como a água do encontro entre boca e boca, palavra e palavra, pulso e terra.
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António Ramos Rosa

António Ramos Rosa

A Boca Desviada,…

A boca desviada, sem o segredo do ar, sem o saber do outro, a boca solitária espera, sem sono e sem sombras, só com a água da sua sede, com o árido desejo da palavra dela e da outra boca que lê.
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António Ramos Rosa

António Ramos Rosa

O Corpo Não Ardente

O corpo não ardente
mas obscuro
um sulco e os sombrios flancos
da imagem sob a lâmpada

No contacto não perfeito
inacabado braço inalcançável pulso
querer é dilacerar escrever rasgar

A imagem não se fixa nenhum contorno
exacto
Por um corpo inabalável pelo braço
pela dor branca pelo suplício exacto
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António Ramos Rosa

António Ramos Rosa

Vem de Noite É Um Murmúrio

Vem de noite é um murmúrio
na mão sobre a areia

Vem não um volume aceso
mas quem o lê na folha quem
o transforma
nos sinais que buscam a imagem
que a outra boca
muda
modela
no próprio corpo diverso e semelhante
à sua imagem

Vem com a lâmpada da terra
e o sabor às raízes e aos dentes no deserto
na aridez que inflama os seus sinais
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António Ramos Rosa

António Ramos Rosa

Eis a Primeira Proposição Clara

Eis a primeira proposição clara
a que trouxe o vinho e o cristal da terra

Derramaste o óleo no limiar da face
e sobre as pernas deslizou a chama verde
e sobre as pálpebras os cordões da terra
a boca soçobrou no limiar da treva

Eis a última proposição da terra
a tua língua abriu a ferida viva
a palavra soltou-se do sexo da terra
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António Ramos Rosa

António Ramos Rosa

Conduz a Mão

Conduz a mão
a negro
vela plástica
rugosa e larga grave
ó boca que
te entreabres
devagar e sobre a perna
silenciosa Soberba linha que
se fez trave
e torno
e dói de ser
torso da latitude pura e alta

lâmina quente
gume cume gomo
coxas para envolver cabeças braços
um arranque total
o ser no vértice
do chão
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António Ramos Rosa

António Ramos Rosa

Fina Nobreza de Ombros Que Persigo

Fina nobreza de ombros que persigo
animal esplendor loucura
cabem num arco de solidão suave
de ternura

E os pulsos de que ardor e perfeição
de que ânsia de delícia exacta
que número absoluto e doloroso e puro
que dourada pulsação no escuro!
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António Ramos Rosa

António Ramos Rosa

Refaz a Pequena Chama da Montanha

Refaz a pequena chama da montanha
refaz a ardente fuga dos flancos
chama os joelhos e as nádegas sob as ondas

Chama e refaz o rosto sob as máscaras
na nudez sem perdão no perdão da nudez
reclama outro nome outra música outras pedras
Deita-te sobre os seios e o sexo da terra
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António Ramos Rosa

António Ramos Rosa

Entre Tarde E Noite

Liguei-te, na minha febre seca, ao dia dos meus passos.
Lâmina justa contra o peito — um dorso obscuro e doce
entre tarde e noite.
Adormecida moita à minha beira,
com olhos de silêncio.
É noite já, entre tarde e noite.
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António Ramos Rosa

António Ramos Rosa

Quem Bate a Uma Porta de Folhas

Quem bate a uma porta de folhas na noite
uma porta de folhas na noite
Quem toca a dura casca do teu nome na noite
a uma porta de folhas

Uma porta de folhas uma porta
Quem bate a essa porta de folhas
Quem bate a essa porta de folhas na noite
Quem bate a essa porta sou eu
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António Ramos Rosa

António Ramos Rosa

Alta No Chão

Alta no chão,
ainda há pouco erguida.
Agora lâmina,
lenha penetrável,
ardente, cega.

Rastejante boca
que a língua me inunda.
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António Ramos Rosa

António Ramos Rosa

Horizonte Imediato

Todos os dias me apoio em qualquer coisa
ando, como, esqueço
alguma coisa aprendo
e desaprendo
alguma coisa limpa nua grave

surge
ao lado passa
eu não sou este desejo
que às vezes arde
alto sobre o chão
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António Ramos Rosa

António Ramos Rosa

A Caminho de Ti, Em Ti

Leve mobilização de um maquinismo suave e ardente.

A alta fenda do ar que se me abre.

A torre acessível ao meu abraço, inteira e viva.

Percorro-te, inundo-te: cálido tronco de água.

Energia liberta, seda que vibra.
Minha mulher viva.
1 010
António Ramos Rosa

António Ramos Rosa

Sugaï

Conter-te, corpo liso,
que o vento dê na face,
que os dedos tenham olhos,
que a boca sopre: folha.

Abraçar-te sem braços,
ó poço aberto e liso,
ó olho perfumado,
tapete e alga e prado.

Três traços verticais.
Um gesto feito em pele.
Uma certeza de osso
(sem sombra nem desgosto).
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Nuno Júdice

Nuno Júdice

Fonte

Um fauno, à tarde, procura onde beber;
e se a fonte está cheia, límpida
como o corpo da mulher, sacia a sede,
pensando que não é tarde nem cedo
para ver a água correr.



Nuno Júdice | "A pura inscrição do amor", pág. 85 | Publicações Dom Quixote, 1ª. edição. Jan. 2018
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Sophia de Mello Breyner Andresen

Sophia de Mello Breyner Andresen

Como Uma Flor Vermelha

À sua passagem a noite é vermelha,
E a vida que temos parece
Exausta, inútil, alheia.

Ninguém sabe onde vai nem donde vem,
Mas o eco dos seus passos
Enche o ar de caminhos e de espaços
E acorda as ruas mortas.

Então o mistério das coisas estremece
E o desconhecido cresce
Como uma flor vermelha.
4 193
Sophia de Mello Breyner Andresen

Sophia de Mello Breyner Andresen

O Teu Rosto

Onde os outros puseram a mentira
Ficou o testemunho do teu rosto
Puro e verdadeiro como a morte

Ficou o teu rosto que ninguém conhece
O teu desejo sempre anoitecido
Ficou o ritmo exacto da má sorte
E o jardim proibido.
2 156
Susana Thénon

Susana Thénon

Aqui

Crava-te, desejo
em meu lado raivoso
e molha suas pupilas
por minha última morte.
Aqui o sangue,
aqui o beijo dissoluto,
aqui a torpe fúria de deus
florescendo em meus ossos.
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Susana Thénon

Susana Thénon

Habitante

É o habitante
de meus desejos proibidos.
teu ritmo se levanta
perto de meu lado mais tênue.
Tua credencial
é um gemido.
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Susana Thénon

Susana Thénon

Ser

Morder teu significado
Nesta escala de magnitudes
Inateráveis.
Ser, ao extremo
de teu meridiano,
um ponto,
um breve sinal
peregrino por tuas fronteiras.
Desfazer teu limite,
afundar em tua sonora latitude,
reconhecer um por um teus portos
e nomeá-los por seus nomes.
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Nuno Júdice

Nuno Júdice

Epigrama gastronómico

Há mil e cem anos
de poesia num só dia
mil e cem palavras
numa só sílaba,
mil e cem páginas
numa linha
-quando abro o livro
do teu corpo, e provo mil
e cem receitas num só
amor.
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Fernando Pessoa

Fernando Pessoa

IV - As minhas ansiedades caem

IV

As minhas ansiedades caem
Por uma escada abaixo
Os meus desejos balouçam-se
Em meio de um jardim vertical.

Na Múmia a posição é absolutamente exacta.

Música longínqua,
Música excessivamente longínqua,
Para que a Vida passe
E colher esqueça aos gestos.
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Fernando Pessoa

Fernando Pessoa

Eu te pedi duas vezes

Eu te pedi duas vezes
Duas vezes, bem o sei.
Que por fim me respondesses
Ao que não te perguntei.
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