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Poemas neste tema

Murilo Mendes

Murilo Mendes

Joan Miró

Soltas a sigla, o pássaro, o losango.
Também sabes deixar em liberdade
O roxo, qualquer azul e o vermelho.
Todas as cores podem aproximar-se
Quando um menino as conduz no sol
E cria a fosforescência:
A ordem que se desintegra
Forma outra ordem ajuntada
Ao real — este obscuro mito.


Publicado no livro Tempo Espanhol (1964).

In: MENDES, Murilo. Antologia poética. Sel. João Cabral de Melo Neto. Introd. José Guilherme Merquior. Rio de Janeiro: Fontana; Brasília: INL, 197
2 557
Murilo Mendes

Murilo Mendes

Guernica

Subsiste, Guernica, o exemplo macho,
Subsiste para sempre a honra castiça,
A jovem e antiga tradição do carvalho
Que descerra o pálio de diamante.

A força do teu coração desencadeado
Contactou os subterrâneos de Espanha.
E o mundo da lucidez a recebeu:
O ar voa incorporando-se teu nome.


Publicado no livro Tempo Espanhol (1964).

In: MENDES, Murilo. Antologia poética. Sel. João Cabral de Melo Neto. Introd. José Guilherme Merquior. Rio de Janeiro: Fontana; Brasília: INL, 197
2 551
Raul de Leoni

Raul de Leoni

Pórtico

Alma de origem ática, pagã,
Nascida sob aquele firmamento
Que azulou as divinas epopéias,
Sou irmão de Epicuro e de Renan,
Tenho o prazer sutil do pensamento
E a serena elegância das idéias...

Há no meu ser crepúsculos e auroras,
Todas as seleções do gênio ariano,
E a minha sombra amável e macia
Passa na fuga universal das horas,
Colhendo as flores do destino humano
Nos jardins atenienses da Ironia...

(...)

Meu pensamento livre, que se achega
De ideologias claras e espontâneas,
É uma suavíssima cidade grega,
Cuja memória
É uma visão esplêndida na história
Das civilizações mediterrâneas.

Cidade da Ironia e da Beleza,
Fica na dobra azul de um golfo pensativo,
Entre cintas de praias cristalinas,
Rasgando iluminuras de colinas,
Com a graça ornamental de um cromo vivo:
Banham-na antigas águas delirantes,
Azuis, caleidoscópicas, amenas,
Onde se espelha, em refrações distantes,
O vulto panorâmico de Atenas...

Entre os deuses e Sócrates assoma
E envolve na amplitude do seu gênio
Toda a grandeza grega a que remonto;
Da Hélade dos heróis ao fim de Roma,
Das cidades ilustres do Tirreno
Ao mistério das ilhas do Helesponto...

Cidade de virtudes indulgentes,
Filha da Natureza e da Razão,
— Já eivada da luxúria oriental, —
Ela sorri ao Bem, não crê no Mal,
Confia na verdade da Ilusão
E vive na volúpia e na sabedoria,
Brincando com as idéias e com as formas...

(...)

Revendo-se num século submerso.
Meu pensamento, sempre muito humano,
É uma cidade grega decadente,
Do tempo de Luciano,
Que, gloriosa e serena,
Sorrindo da palavra nazarena,
Foi desaparecendo lentamente,
No mais suave crepúsculo das coisas...

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Publicado no livro Luz Mediterrânea (1922). Poema integrante da série Luz Mediterrânea.

In: LEONI, Raul de. Luz mediterrânea. Pref. Rodrigo Mello Franco de Andrade. 10.ed. São Paulo: Liv. Martins, 195
2 168
Murilo Mendes

Murilo Mendes

O Fósforo

Acendendo um fósforo
acendo Prometeu, o futuro, a liquidação dos falsos deuses,
o trabalho do homem.

o

O fósforo: tão rabbioso quanto secreto. Furioso, deli-
cado. Encolhe-se no seu casulo marrom; mas quando cha-
mado e provocado, polêmico estoura, esclarecendo tudo.
O século é polêmico.

o

O gás não funciona hoje. Temos greve dos gasistas. A
Itália tornou-se a Grevelândia. Mas preferimos essa semi-
-anarquia à "ordem" fascista.
O fósforo, hoje em férias, espera paciente no seu casulo
o dia de amanhã desprovido de greves. O dia racional, o
dia do entendimento universal, o dia do mundo sem classes,
o dia de Prometeu totalizado.

o

O fósforo é o portador mais antigo da tradição viva. Eu
sou pela tradição viva, capaz de acompanhar a correnteza
da modernidade. Que riquezas poderosas extraio dela!
Subscrevo a grande palavra de Jaures: "De l'autel des
ancêtres on doit garder non les cendres mais le feu."


Poema integrante da série Setor Micro-Lições de Coisas.

In: MENDES, Murilo. Poliedro: Roma, 1965/66. Pref. Eliane Zagury. Rio de Janeiro: J. Olympio, 1972
2 155
Olegário Mariano

Olegário Mariano

De Papo Pro Á, 1931

I

Não quero outra vida
Pescando no rio
De jereré
Tenho peixe bom...
Tem siri-patola
De dá com o pé

Quando no terreiro
Faz noite de luá
E vem a saudade
Me atormentá
Eu me vingo dela
Tocando viola
De papo pro á

II

Se compro na feira
Feijão rapadura
Pra que trabaiá
Eu gosto do rancho
O home não deve
Se amofiná
Estribilho


In: MASCARENHAS, Mário. O melhor da música popular brasileira. São Paulo: Irmãos Vitale, 1982. v.4, p.146-147

NOTA: Música de Joubert de Carvalh
937
Basílio da Gama

Basílio da Gama

Canto Terceiro (I)

(...)
Respirava descanso a natureza.
Só na outra margem não podia em tanto
O inquieto Cacambo achar sossego.
No perturbado interrompido sono,
Talvez fosse ilusão, se lhe apresenta
A triste imagem de Cepé despido,
Pintado o rosto do temor da morte,
Banhado em negro sangue, que corria
Do peito aberto, e nos pisados braços
Inda os sinais da mísera caída.
Sem adorno à cabeça, e aos pés calcada
A rota aljava, e as descompostas penas.
Quanto diverso do Cepé valente,
Que no meio dos nossos espalhava,
De pó, de sangue, e de suor coberto,
O espanto, a morte! E diz-lhe em tristes vozes:
Foge, foge, Cacambo. E tu descansas,
Tendo tão perto os inimigos? Torna,
Torna aos teus bosques, e nas pátrias grutas
Tua fraqueza, e desventura encobre.
(...)
(...) Assim dizendo
Se perdeu entre as nuvens, sacudindo
Sobre as tendas no ar fumante tocha;
E assinala com chamas o caminho.
Acorda o Índio valeroso, e salta
Longe da curva rede, e sem demora
O arco, e as setas arrebata, e fere
O chão com o pé: quer sobre o largo rio
Ir peito a peito a contrastar co'a morte.
Tem diante dos olhos a figura
Do caro amigo, e inda lhe escuta as vozes.
Pendura a um verde tronco as várias penas,
E o arco, e as setas, e a sonora aljava;
E onde mais manso, e mais quieto o rio
Se estende, e espraia sobre a ruiva areia,
Pensativo, e turbado entra; e com água
Já por cima do peito as mãos, e os olhos
Levanta ao Céu, que ele não via, e às ondas
O corpo entrega. (...)
(...)
Lá, como é uso do país, roçando
Dous lenhos entre si, desperta a chama,
Que já se ateia nas ligeiras palhas,
E velozmente se propaga. Ao vento
Deixa Cacambo o resto, e foge a tempo
Da perigosa luz; porém na margem
Do rio, quando a chama abrasadora
Começa a alumiar a noite escura,
Já sentido dos Guardas não se assusta,
E temerária, e venturosamente,
Fiando a vida aos animosos braços,
De um alto precipício às negras ondas
Outra vez se lançou, e foi de um salto
Ao fundo rio a visitar a areia.
Debalde gritam, e debalde às margens
Corre a gente apressada. Ele entretanto
Sacode as pernas, e os nervosos braços:
Rompe as escumas assoprando, e a um tempo
Suspendido nas mãos, voltando o rosto,
Via nas águas trêmulas a imagem
Do arrebatado incêndio, e se alegrava.
Não de outra sorte o cauteloso Ulisses,
Vaidoso da ruína, que causara,
Viu abrasar de Tróia os altos muros,
E a perjura Cidade envolta em fumo
Encostar-se no chão, e pouco a pouco
Desmaiar sobre as cinzas. (...)

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In: GAMA, Basílio da. O Uraguai. Anot. Afrânio Peixoto, Rodolfo Garcia e Osvaldo Braga. Rio de Janeiro: Academia Brasileira de Letras, 1941

NOTA: Poema composto de 5 canto
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Inácio José de Alvarenga Peixoto

Inácio José de Alvarenga Peixoto

Eu vi a linda Jônia e, namorado

Eu vi a linda Jônia e, namorado,
fiz logo voto eterno de querê-la;
mas vi depois a Nise, e é tão bela,
que merece igualmente o meu cuidado.

A qual escolherei, se, neste estado,
eu não sei distinguir esta daquela?
Se Nise agora vir, morro por ela,
se Jônia vir aqui, vivo abrasado.

Mas ah! que esta me despreza, amante,
pois sabe que estou preso em outros braços,
e aquela me não quer, por inconstante.

Vem, Cupido, soltar-me destes laços:
ou faze destes dois um só semblante,
ou divide o meu peito em dois pedaços!


In: LAPA, M. Rodrigues. Vida e obra de Alvarenga Peixoto. Rio de Janeiro: INL, 1960
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Domingos Caldas Barbosa

Domingos Caldas Barbosa

A Ternura Brasileira

Não posso negar, não posso,
Não posso por mais que queira,
Que o meu coração se abrasa
Da ternura Brasileira.

Uma alma singela, e rude
Sempre foi mais verdadeira,
A minha por isso é própria
Da ternura Brasileira.

Lembra na última idade
A paixão lá da primeira,
Tenho nos últimos dias
A ternura Brasileira.

Vejo a carrancuda morte
Ameigar sua viseira,
Por ver que ao matar-me estraga
A ternura Brasileira.

Caronte que chega à barca,
E que me chama à carreira,
Vê que o batel vai curvando
Co'a ternura Brasileira.

Mal piso sobre os Elísios,
Outra sombra companheira
Chega, pasma, e não conhece
A ternura Brasileira.

Eu vejo a infeliz Rainha
Que morre em ampla fogueira,
Por não achar em Enéias
A ternura Brasileira.

Do mundo a última parte
Não tem frase lisonjeira,
As três que a têm não conhecem
A ternura Brasileira.

Do mundo a última parte
Foi sempre em amar primeira,
Pode às três servir de exemplo
A ternura Brasileira.


Publicado no livro Viola de Lereno: coleção das suas cantigas, oferecidas aos seus amigos (1826).

In: BARBOSA, Caldas. Viola de Lereno. Pref. Francisco de Assis Barbosa. Rio de Janeiro: INL, 1944. 2v. (Biblioteca popular brasileira, 14, 15
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Sebastião Uchoa Leite

Sebastião Uchoa Leite

Tiranossauro, Penso em Ti

Há 100 milhões de anos
Apoiado na cauda
Dentes em serra o Terror
Dos ornitisquianos
Grande réptil predatório
A vida muda
Passou rápido o tempo
Em alegoria giratória
Penso em outros predadores
E também nas presas
Nos devorados
Nos vencidos

1989


Poema integrante da série Máquina de Signos.

In: LEITE, Sebastião Uchoa. A uma incógnita, 1989/1990. São Paulo: Iluminuras, 1991
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Marcus Accioly

Marcus Accioly

Predamar

Na véspera do sol
Ou antevéspera,
Deslogo quando os ventos
Soltos despertam,
O canto, céu de nuvens,
Bando de araras,
Entreabre as suas plumas
E acende as barras.

Quando a luz de verão
Do solão rubro
Na árvore do mar
Abre o seu fruto,
O canto, vela aberta
No mar de fora,
Inventa outra manhã
Dentro da aurora.

Quando o ouriço do sol
Rosa-dos-ventos
Remoinha no mar
Seus cataventos,
O canto, asa de garça,
Espuma branca,
Debruça sobre a praia
Sua varanda.

Aprendido-aprendiz
O canto escuta
A máquina do mar
Formando as lutas
As sirenes dos búzios
Os altos ventos
A voz-sempre do mar
E outros silêncios.

O canto, agulha e linha
Tecendo a rede
Com seu fio mais lógico,
Malha de peixe,
Calculando os espaços
No metro igual
Preciso e matemático
De João Cabral.

O canto, lente aquática
Que sabe as cores
Do arco-íris do sol,
Das antiflores,
Do oceano da América
E outras lembranças
Que debruçam Drummond
No mar da infância.

O canto, anzol de pesca,
Manuel Bandeira,
Arpão-fisga-espinhel,
Fruta praieira,
Flor-de-coral, cal-virgem,
Peixes marinhos,
Covos do mar, gaiolas
Sem passarinhos.

O canto, ondas diversas,
Jorge de Lima,
Piso do céu, maralto
Chovido em cima,
Vento, boca-de-barra
Que chama os rios,
Mar que devora os portos
E os seus navios

(...)


Poema integrante da série Feira de Pássaros - Canto III.

In: ACCIOLY, Marcus. Nordestinados. 2.ed. Rio de Janeiro: Tempo Brasileiro; Brasília: INL, 1978. p.140-142. (Tempoesia, 18)

NOTA: Poema composto de 3 partes, indicadas pelo sinal de parágrafo (§), todas compostas de 4 oitavas. Referência ao poema "América", do livro A ROSA DO POVO (1945), de Carlos Drummond de Andrad
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Marcus Accioly

Marcus Accioly

2

Ó Érato e Eros (deusa e deus)
deixai que eu cante a funda cavidade
da possuída gruta que me invade
de sensações nos duplos lábios seus
(ó Pietro Aretino e du Bocage
cessai a vossa glória ante este meu
sagrado dom profano) e vós (Orfeu)
doai à lira o seu decente traje
de indecentes palavras proibidas
pelas línguas que beijam mas não falam
(falos não flautas) pelas ressentidas
fêmeas e pelos machos ressentidos
que (surdos-mudos são os peixes) calam
a boca com o silêncio dos ouvidos

A

decerto não direi palavras ásperas
(embora eu goste delas) vosso exemplo
(poetas mais pesados que o silêncio)
não seguirei (eu quero as Odes sáficas
ou a Arte de Amar e Os Kama Sutra)
também direi metáforas (Ó gruta
de Pã) como os antigos e direi
como os modernos dizem (fruta e peixe)
ó Baco (pelo amor) deixai que eu deixe
os eróticos cantos que cantei
para aquela (a mulher) dentro da vulva
e para aquele (que sou eu) no pênis
(jogai a cinza do meu canto — Fênix —
às águas deste mar de esperma e espuma)


Poema integrante da série Introdução.

In: ACCIOLY, Marcus. Érato: 69 poemas eróticos e uma ode ao vinho. Pref. Antônio Houaiss. Il. Francisco Brennand. Rio de Janeiro: J. Olympio, 1990. p.1
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Marcus Accioly

Marcus Accioly

Prosação

— Senhores, vou lhes contar
Uma conversa ligeira
Que tive, faz muito tempo,
Num dia de quarta-feira
Do mês de outubro de um ano,
Do qual não me lembro a data,
Na mais agreste caatinga,
Depois da zona da Mata.
Havia fome na terra
E o povo se retirava
Levando os últimos bichos
Que a seca aos poucos matava.
Para esquecer essas coisas
Fui palestrar com Quintão,
Um cego que tinha fama
De sábio, em todo Sertão.

— "Já desde que tempo é tempo
E o mundo é mundo, que eu ouço
Muitas histórias contadas
Por retirantes, seu moço.
Histórias que falam sempre
Das secas com seus rigores,
Dos homens virando lendas
Na boca dos cantadores.
Histórias que a gente encontra
Escritas, de outra maneira,
Em verso e não mais em prosa,
Nesses folhetos de feira.
Histórias que são as mesmas
Que a gente sabe de cor,
Mas finge que nunca sabe
Para escutá-las melhor.

— Dessas estórias, lhe digo,
Me causa admiração
A vida do Padre Cícero
E a lenda de Lampião
Que tinha o corpo fechado
E um olho cego que via,
Por isso fechava o outro
Para fazer pontaria.
Pois que bastava somente
Para enxergar o perfil
Da tropa que o perseguia,
O olho do seu fuzil.
E que bastava o soldado
Sentir seu faro real,
Para vestir-se de terra
Após vestir seu punhal.

— Não sei se é lenda ou verdade,
Seu moço, falo por mim,
A lenda sempre começa
Quando uma história tem fim.
Pois se a história nos conta
Que Virgulino nasceu,
A lenda logo acrescenta
Que Lampião não morreu.
Além da história e da lenda
Existe o sonho do povo,
Que entre o que houve e não houve
Inventa tudo de novo.
Por isso a lenda é mais certa
Do que o sonho e a história,
Pois Lampião anda vivo
Dentro de cada memória.

(...)

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Poema integrante da série Sertão-Sertões - Canto II.

In: ACCIOLY, Marcus. Nordestinados. 2.ed. Rio de Janeiro: Tempo Brasileiro; Brasília: INL, 1978. p.118-119. (Tempoesia, 18)

NOTA: Poema composto de 13 estrofes de 16 verso
1 857
Sosigenes Costa

Sosigenes Costa

Iemanjá

(...)
— Ê vai ê vai
a rainha do mar
rompendo mar e vento.

Orungã, não faça isto
que o mundo vai se acabar.
Não te dói a consciência?
Não desonre esta sereia,
não manche a estrela do mar.

Ê vai ê vai
rompendo mar e vento
rainha da Guiné.

Onde mora Santa Barb'a
que quero me esconder.
Vai haver um castigo,
o mundo vai se arrasar.
Já estive numa casa
e era a casa de Bará.
Onde mora Santa Barb'a?
Minha gente, me responda:
Onde mora Santa Barb'a?

— Mora den'da lua
mora den'dum rochedo.

— Ai quem me dera que eu pudesse
me esconder dentro da lua.

E Iemanjá de tão cansada
já não podia correr mais.
Ia cai não cai caindo.

— Ô Iná marabô,
faça surgir um mar de Espanha,
Inaê ou Inaô,
um espinheiro e uma neblina,
ô Iná arauê
uma chuva de navalha
pra Orungã não te pear.

E Iemanjá já não podia
correr mais e desmaiou.
E caiu no chão de costas.
Porém antes que Orungã
alcançasse Iemanjá
e tocasse nos seu seios,
o seu corpo foi crescendo,
foi crescendo e agigantou-se
e os dois seios de Inaê
se tornaram do tamanho
de dois montes sem igual
e o céu estremeceu
e a terra se abalou
e o ceú veio arriando
e queria desabar.

Quando os bicos dos seus peitos
se afundaram pelas nuvens,
sustentando o firmamento
que queria desabar,
o anjo tocou a trombeta
e os dois seios da sereia
começaram a jorrar água
com estrondo e num dilúvio
e dois rios se formaram
da água de cada um,
e a água lavou o mundo.
E o espírito de Deus vagou naquelas águas
e foi então o princípio
e a pomba do Divino bebeu das águas bentas.

E eu botei o joelho em terra
para pedir pelos filhos de Deus.

Ai a água lava tudo,
lava o que nos mancha as almas,
lava o que nos envergonha.
Quem apaga o fogo?
É a água.

Dos teus seios, Janaína
se formaram estes dois rios
que a Bahia estão lavando
para tirar o que nos mancha
e também nos envergonha.
Ora, um é o S. Francisco
e o outro é o Jequitinhonha.
Quem apaga o fogo?
É a água.
(...)

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Poema integrante da série Obra Poética II.


In: COSTA, Sosígenes. Obra poética. 2.ed. rev. e aum. por José Paulo Paes. São Paulo: Cultrix; Brasília: INL, 197
2 207
Alcides Villaça

Alcides Villaça

Cromo

na seda sob spot de lençol
a sereia denise pisca um seio e cobre o outro com mãos de virgem
[maria

no choque da pele rosa
o bom diabo e a boa burguesia brincam de enformar
a deusa atávica das barbearias


In VILLAÇA, Alcides. Viagem de Trem. Il. Alberto A. Martins. São Paulo: Duas Cidades, 1988 (Claro enigma). Poema integrante da série O Jogo das Ondas
1 078
Colombina

Colombina

A Estátua

Impecável na forma, esplêndida na alvura
do mármore sem jaça, era mais que divina!
Inspirado, a criara um mestre da escultura
dessa eterna e genial península apenina.

Num museu de além-mar, um dia (peregrina
que, viajando, esquecer um grande mal procura),
pude ver e admirar, sob a luz matutina,
a extrema perfeição de sua formosura.

Não invejei, porém, sua beleza rara.
que, no mármore puro e rijo de Carrara,
se ostentava integral, magnífica e desnuda.

Quisera apenas ter igual serenidade
e contemplar o mundo, a vida, a humanidade,
num pedestal de bronze, indiferente e muda!


Publicado no livro Distância: poemas de amor e de renúncia (1948). Poema integrante da série Luzes na Neblina.

In: CAVALHEIRO, Maria Thereza. Colombina e sua poesia romântica e erótica: esboço biográfico e seleção de poemas. São Paulo: J. Scortecci, 1987. p.33-10
1 177
Santa Rita Durão

Santa Rita Durão

Canto VII [O mais rico e importante vegetável

XXVI

O mais rico e importante vegetável
É a doce cana, donde o açúcar brota,
Em pouco às nossas canas comparável;
Mas nas do milho proporção se nota:
Com manobra expedita e praticável,
Espremido em moenda, o suco bota,
Que acaso a antiguidade imaginava,
Quando o néctar e ambrósia celebrava.


In: DURÃO, Santa Rita. Caramuru: poema épico do descobrimento da Bahia, composto por Fr. José de Santa Rita Durão, da Ordem dos Eremitas de Santo Agostinho, natural da Cata Preta nas Minas Gerais. São Paulo: Cultura, 1945. p.167. (Série brasileiro-portuguesa, 30)

NOTA: O "Canto VII" é composto de 74 estrofe
2 612
Fontoura Xavier

Fontoura Xavier

Roast-Beef

A Artur Azevedo


Ela tem a beleza, a flácida estrutura,
Os contornos viris, geométricos, altivos,
A branca carnação dos bons modelos vivos
Do mágico buril dos Fídias da escultura.

Ressumbra-lhe a epiderme — alvíssima textura —
Os filtros sensuais, os tóxicos lascivos,
Que aos mártires da Fé, aos crentes primitivos,
Serviram de adoçar o cálix da amargura.

Ao vê-la, não cobiço os ócios dum nababo,
Nem penso num cavalo elástico do Cabo
Para furtá-la às mãos de um Jônatas patife.

Ouço um coro ideal e harmônico de beijos!
E sinto fervilhar-me o pego dos desejos
De um Tântalo faminto em face de um roast-beef!


In: XAVIER, Fontoura. Opalas. Apres. Regina Zilberman. 5.ed. Porto Alegre: Centro de Pesquisas Literárias - PUCRS, 1984. p.53. Poema integrante da série Clowns.

NOTA: Cabo = cidade da África do Sul. Jônatas = filho do rei Saul e amigo de Davi. Tântalo = na mitologia greco-romana, personagem condenado ao suplício de viver num lago sem poder beber nem come
1 684
Fontoura Xavier

Fontoura Xavier

Loura e Branca

I

Loura e branca, de lírio na brancura
Parece filha dum pincel divino!...
A gente, ao vê-la, lembra-se de Urbino
Tem ímpetos de pôr-lhe uma moldura.

Um garbo de velhice prematura
Nevou de leve a coma d'ouro fino...
Meneio e gesto lânguido e felino.
Firme e correta a linha da cintura.

Não sei quem fez daquilo um ser humano!
Sanzio, juntando um resplendor de aurora,
Faria a estância de seu gênio ufano!

Dante... não sei o que faria agora:
Mas Virgílio se a visse, o Mantuano
Fazia a Deusa que minh'alma adora!...

II

Eleva-me, arrebata-me os sentidos
Se a vejo ou se a contemplo um só momento!
De seu passo o mais leve movimento
Ecoa como um canto em meus ouvidos.

Ouço-lhe as formas, num deslumbramento,
A sonata do belo; e nos rugidos
Da cambraia e do linho dos vestidos
Vibram acordes de acompanhamento.

Todo seu corpo musical e adornos,
Na cadência dum ritmo que embala,
Estrugem na harmonia dos contornos!...

Caminha! — e o canto uníssono trescala,
Como por noites de langores mornos,
Toda a volúpia dum luar de opala!...


In: XAVIER, Fontoura. Opalas. Apres. Regina Zilberman. 5.ed. Porto Alegre: Centro de Pesquisas Literárias - PUCRS, 1984. p.75-76. Poema integrante da série Ruínas.

NOTA: Urbino = cidade natal do pintor italiano Rafael Sanzi
960
Álvaro Moreyra

Álvaro Moreyra

Pena

Dona Domitila, marquesa de Santos, eu gosto
muito da senhora.
O seu vestido foi o vestido mais bonito da
nossa terra.
Dona Domitila, marquesa de Santos, a senhora
se vestiu de amor...
Que pena não ter morrido moça, de cachos pretos,
de olhos alegres.
Que pena ter teimado em ficar velha, de vista
cansada, de cabelos brancos, dona Domitila, marquesa
de Santos...


In: MOREYRA, Álvaro. Circo. Rio de Janeiro: Pimenta de Mello, 1929
2 036
Moacyr Felix

Moacyr Felix

Iniciação

— Meu pai, o que é a liberdade?
— É o seu rosto, meu filho,
o seu jeito de indagar
o mundo a pedir guarida
no brilho do seu olhar.
A liberdade, meu filho,
é o próprio rosto da vida
que a vida quis desvendar.
É sua irmã numa escada
iniciada há milênios
em direção ao amor,
seu corpo feito de nuvens
carne, sal, desejo, cálcio
e fundamentos de dor.
A liberdade, meu filho,
é o próprio rosto do amor.

— Meu pai, o que é a liberdade?

A mão limpa, o copo d'água
na mesa qual num altar
aberto ao homem que passa
com o vento verde do mar.
É o ato simples de amar
o amigo, o vinho, o silêncio
da mulher olhando a tarde
— laranja cortada ao meio,
tremor de barco que parte,
esto de crina sem freio.

— Meu pai, o que é a liberdade?

É um homem morto na cruz
por ele próprio plantada,
é a luz que sua morte expande
pontuda como uma espada.
É Cuauhtemoc a criar
sobre o braseiro que o mata
uma rosa de ouro e prata
para a altivez mexicana.
São quatro cavalos brancos
quatro bússolas de sangue
na praça de Vila Rica
e mais Felipe dos Santos
de pé a cuspir nos mantos
do medo que a morte indica.
É a blusa aberta do povo
bandeira branca atirada
jardim de estrelas de sangue
do céu de maio tombadas
dentro da noite goyesca.
É a guilhotina madura
cortando o espanto e o terror
sem cortar a luz e o canto
de uma lágrima de amor.
(...)


Publicado no livro Canto para as Transformações do Homem (1964).

In: FÉLIX, Moacyr. Antologia poética. Rio de Janeiro: J. Olympio, 1993. p.4-
1 246
Moacyr Felix

Moacyr Felix

Por Que Não Concluir?

A Affonso Romano de Sant'Anna
e Marina Colasanti


Esquerda, direita, esquerda, direita:
assim militares e políticos marcham
sob suas bandeiras partidárias
e em seus discursos de guerra.

Telematicamente a história ri
nos minicomputadores. E movimenta
o rascunho de uma outra face para
o mundo de homens não mais divididos
em direita, esquerda e centro.

Os jornais amanhecem velhos
ao lado das garrafas do leite
misturado a coisas sujas.
Em frente da TV cada um é
o sentimento impreciso e vago
de que é preciso mudar tudo,
é preciso mudar radicalmente
o Poder e os seus cogumelos
de erros e de medo sobre a face
dos dias e das noites
em que nos matam aos poucos.
Ou do meio minuto em que a morte será
subitamente global.

Comemos mentira, meu filho, em cada prato servido
pelos dogmáticos e pelos fanáticos, esses cozinheiros
da vida podre e sem grandezas, da vida como um lixo
oferecido aos ratos nos porões da alma.


Publicado no livro Em Nome da Vida (1981).

In: FÉLIX, Moacyr. Antologia poética. Rio de Janeiro: J. Olympio, 1993. p.23
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Edimilson de Almeida Pereira

Edimilson de Almeida Pereira

Ouro Preto - Roteiro de Interpretação

Ao contemplar o barroco das igrejas
e a rouquidão do ouro, o visitante olhar
não funde o corpo ao tempo: outeiros
tão escuros e não compreende o silêncio
de um totem antes jamais percebido.
O barroco não é o cansaço do ouro
mas o direito do explorado corpo.


In: PEREIRA, Edimilson de Almeida. Ô Lapassi & Outros ritmos de ouvido. Belo Horizonte: Ed. da UFMG, 1990. p.60. (Coleção Prêmio de Literatura UFMG
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Alberto de Oliveira

Alberto de Oliveira

Os Amores da Estrela

Já sob o largo pálio a tenebrosa
Noite as estrelas nítidas e belas
Prendera ao seio, como mãe piedosa.

De umas as brancas lúcidas capelas,
De outras o manto e as clâmides de linho
Viam-se à luz da lua. Estas e aquelas,

Todas no lácteo sideral caminho
Dormiam, como bando alvinitente
De aves, à sombra, nos frouxéis de um ninho.

Vênus, porém, chorava; ela somente
De pé, cismando, o níveo olhar mais níveo
Que a prata, abria na amplidão dormente.

Olhava ao longo o célico declívio,
Como a buscar alguém que desejava,
Qual se deseja alguém que é doce alívio.

Só, no espaço desperta, como a escrava
Romana ao pé do leito da senhora
Velando à noite, a mísera velava.

Um deus de formas válidas adora;
São seus cabelos ouro puro, o peito
Veste a armadura de cristal da aurora.

Quando ele sai das púrpuras do leito,
O arco na mão, parece de diamantes
E rosados rubins seu rosto feito.

Dera por vê-lo agora as cintilantes
Lágrimas todas, líquido tesouro,
Que lhe tremem às pálpebras brilhantes...

Mas soa de repente um grande coro
Pelas cavas abóbadas... E logo
Assoma ao longe um capacete de ouro.

O deus ouviu-lhe o suplicante rogo!
Ei-lo que vem! seu plaustro os ares corta;
Ouve o relincho aos seus corcéis de fogo.

Já do roxo Levante se abre a porta...
E ao ver-lhe o vulto e as chamas da armadura,
Fria, trêmula, muda e quase morta,

Vênus desmaia na infinita altura.


Publicado no livro Poesias: segunda série. Poema integrante da série Alma Livre, 1898/1901.

In: OLIVEIRA, Alberto de. Poesias completas. Ed. crít. Marco Aurélio Mello Reis. Rio de Janeiro: Núcleo Ed. da UERJ, 1978. v.2. (Fluminense
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Dante Milano

Dante Milano

Objeto de Arte

Corpo de ancas opulentas,
Mulher de Angkor,
Coxas e tetas pedrentas
De árduo lavor.

Pedra, lição de escultura,
Da verdadeira
Carnadura, carne dura
Mais que a madeira

Ou o bronze que posto ao forno
Se liquefaz.
A pedra não; seu contorno
Mantém-se em paz

À maneira do medonho
Ser que no Egito
Contém o esfíngico sonho
Do granito.

Já no mármore a figura
Parece menos
Tosca; é mais branca, mais pura,
Mais lisa; é Vênus

Que, mesmo nua, ao expor
Sua vaidade,
Tem do mármore o pudor,
A castidade.

Ou então pedra-sabão,
Pedra-profeta,
Que da fêmea a carnação
Não interpreta.

Mas és da beleza o exemplo,
Pedra qualquer,
Se a figura em ti contemplo
De uma mulher,

Aparição singular,
Sem que me farte
Jamais o prazer de a olhar,
Objeto de arte.


In: MILANO, Dante. Poesia e prosa. Org. e apres. Virgílio Costa. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira: Núcleo Ed. da UERJ, 1979. p.177-178. (Coleção vária). Poema integrante da série Últimos Poemas
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