Corpo

Poemas neste tema

António Ramos Rosa

António Ramos Rosa

O Ar

O ar

um sulco

os dedos

o círculo de água     ou cal
1 041
António Ramos Rosa

António Ramos Rosa

A Mão Baixa

A mão baixa

aranha de ar

rápida     intranquila

as armas que respiram

o desejo                     e a surpresa
1 072
António Ramos Rosa

António Ramos Rosa

Quase

Quase

a garganta forte     a respiração do tronco

obsessão branca

a casa do nome

com o vento das ervas

e o fogo sem o nome
1 015
António Ramos Rosa

António Ramos Rosa

A Duna

A duna

ou quando

o sol

do sangue
498
António Ramos Rosa

António Ramos Rosa

Os Dedos E Os Dentes

Os dedos e os dentes

sem mãos

sem boca
490
António Ramos Rosa

António Ramos Rosa

Toco Os Pés de Terra

Toco os pés de terra

e os ombros da parede

sobre as nuvens
1 025
António Ramos Rosa

António Ramos Rosa

A Mão

A mão

prolonga

o pulso

quando

a água ondula
1 057
António Ramos Rosa

António Ramos Rosa

Garganta Aberta

Garganta aberta

às nuvens

brancas
530
António Ramos Rosa

António Ramos Rosa

Consonância do Intacto

Consonância do intacto

com o corpo

nudez

de pedra

exacta
994
António Ramos Rosa

António Ramos Rosa

85. Vagos Sinais Dentes Na Pedra

85
Vagos sinais     dentes na pedra
sem solução de árvore
marcação de um traço único

este, não o rosto, este
limite que não transponho que
não tem além o além o fogo azul

e

que nenhuma sombra atravessou
porque subsiste ou não algum ardor
porque os dentes enterram-se na pedra.
451
António Ramos Rosa

António Ramos Rosa

O Tronco: o Tronco do Tronco

O tronco:    o tronco do tronco

na boca

sem saliva
1 105
António Ramos Rosa

António Ramos Rosa

O Que Escrevo É o Corpo

O que escrevo é o corpo

que não escrevo
1 186
António Ramos Rosa

António Ramos Rosa

Que Importam Estas Pálpebras Na Cerração

Que importam estas pálpebras na cerração

da terra

um olho dilacerado vê     a nudez de um corpo

obstinada desordem dos membros dissolvidos

o latejante trajecto da obscura mão

atinge o vazio de um centro                     o limite vivo

boca na árvore

iluminado seio     caminho

do pulso
494
António Ramos Rosa

António Ramos Rosa

Pedra de Sol Na Boca

Pedra de sol na boca

língua verde

ombros no horizonte

próximos
943
António Ramos Rosa

António Ramos Rosa

66. Arma de Folhas E de Folhas

66
Arma de folhas e de folhas
sobre o seio nu
na folha transparente.

O animal suspenso
pela forma do fruto incandescente
brilhando e fugindo entre a folhagem
ou o sangue fugitivo na praia do teu peito.

Na erva, ausente, respiro o ar da erva
busco a arma de folhas numa sombra
transparente que é o desenho das armas do teu peito.
1 030
António Ramos Rosa

António Ramos Rosa

54. Os Aspectos da Figura Livre

54
Os aspectos da figura livre
nos quartos claros e sombrios
fragmentos flagrantes
da forma — incandescência breve.

Queda de conjuntos e do grito
no espelho — negação no vidro
água de outro copo e negação do copo.

Às apagadas pernas e às pedras
junta-se a terra dos nomes e sem nome
desce-se pela escadaria sobre as nuvens
brancas.
951
António Ramos Rosa

António Ramos Rosa

22. a Pergunta da Mão Aberta

22
A pergunta da mão aberta
na manhã matinal do quarto
aberta ao espírito de suavidade.

Alimentando o fogo o feliz rosto
criando a lâmpada de amorosa noite
mão no puro centro do impuro centro
resumindo a luz em luz da boca.

Resumindo o corpo e o lábio branco
luz que vive a palavra suavidade
que vive o viver do sangue amante.
893
António Ramos Rosa

António Ramos Rosa

53. Lâmina — Dirá, E Escrita

53
Lâmina — dirá, e escrita
da rapariga incerta em certa escrita
da mão suave suspensa sobre
um vazio límpido.

E qual seja a forma
e o aspecto da figura escrita
será o fruto carnal de uma impureza
igual ao corpo livre não escrito.

E qual e qual a folha
a abrir a folha
do corpo — lâmina suspensa
e todavia dita da figura incerta.
985
António Ramos Rosa

António Ramos Rosa

38. Tu Sabes o Sabor do Sono E a Pausa

38
Tu sabes o sabor do sono e a pausa
do sono sobre as pernas luminosas
e mais a secreta terra não vermelha.

Não ardente a escrita aqui: do campo
aranha inocente
de patas musicais
silenciosa deusa na verdura.

Condensando a cabeça e o tronco branco
decepado sobre o não sentir ou não viver
eis o braço o pedaço ardente e frio.
1 033
António Ramos Rosa

António Ramos Rosa

39. Esta É a Folha, E a Folha

39
Esta é a folha, e a folha
de terra, mas a água da lâmpada
breve.

Que ela me diga a não-palavra
de palavra, a terra
e o corpo renascendo sob a árvore
e o espaço que é o espaço
o espaço.

E a terra da terra, o corpo
da figura
soprando a nuvem sobre as pernas
da mulher descoberta na ilha do seu quarto.
531
António Ramos Rosa

António Ramos Rosa

40. o Cão Sem Sombra E a Face Oblíqua

40
O cão sem sombra e a face oblíqua
na infância azul da face
uma janela alta o vazio os astros.

Um gesto da matéria amorosa negra
a flecha do não ser na ferrugem do muro
a questão interrompida o sexo nu.

Quando no opaco a oblíqua ferida
rasga as paralelas do ser e a flecha fere
a outra flecha vermelha na ferrugem.
1 005
António Ramos Rosa

António Ramos Rosa

Terra Para Pronunciar…

Terra para pronunciar com os dentes da terra, terra escalavrada, presença e memória e espaço da ausência, espaço e desejo de espaço, e já o espaço do desejo, assim a terra negra, escalavrada, corpo branco e mudo.
1 238
António Ramos Rosa

António Ramos Rosa

Corpo Solto Instantâneo…

Corpo solto instantâneo entre as árvores e o mar, margem de uma claridade de lâmina deserta, corpo devastado pela usura última, caminhando como na primeira página do deserto e já pressentindo e perdendo a primeira palavra do mar.
1 032
António Ramos Rosa

António Ramos Rosa

14. Este (Aqui Formulado) Sobre Os Cílios

14
Este (aqui formulado) sobre os cílios
ou as pestanas pretas pretas mesmo
sob o deserto dele, a casa nuvem.

Terra (designação que nega) areia
do grito das pestanas, cílios sérios,
adormecendo a noite da folhagem.

Arranca à aragem o perfume sóbrio
desses cílios negros cílios
e colhe aí a perfumada imagem.
989