Árvores florestas e montanhas

Poemas neste tema

Pablo Neruda

Pablo Neruda

Manhã - XVIII

Pelas montanhas vais como vem a brisa
ou a corrente brusca que baixa da neve
ou melhor tua cabeleira palpitante confirma
os altos ornamentos do sol na espessura.


Toda a luz do Cáucaso cai sobre teu corpo
como numa pequena vasilha interminável
em que a água se muda de vestido e de canto
a cada movimento transparente do rio.


Pelos montes o velho caminho de guerreiros
e embaixo enfurecida brilha como uma espada
a água entre muralhas de mãos minerais,


até que tu recebes dos bosques de repente
o ramo ou o relâmpago de umas flores azuis
e a insólita flecha de um aroma selvagem.
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Pablo Neruda

Pablo Neruda

Tarde - LVIII

Entre os espadões de ferro literário
passo eu como um marinheiro remoto
que não conhece as esquinas e que canta
porque sim, porque como se não fosse por isso.


Dos atormentados arquipélagos trouxe
meu acordeão com borrascas, aragem de chuva louca,
e um costume lento de coisas naturais:
elas determinaram meu coração silvestre.


Assim quando os dentes da literatura
trataram de morder meus honrados talões3,
eu passei, sem saber, cantando com o vento


para os almazéns chuvosos de minha infância,
para os bosques frios do Sul indefinível,
para onde minha vida se completou com teu aroma.






LIX
(G.M.)


POBRES poetas a quem a vida e a morte
perseguiram com a mesma tenacidade sombria
e logo são cobertos por impassível pompa,
entregues ao rito e ao dente funerário.


Eles – obscuros como pedrinhas – agora
detrás dos cavalos arrogantes, estendidos
vão, governados ao fim pelos intrusos,
entre os acompanhantes, a dormir sem silêncio.


Antes e já seguros de que está morto o morto
fazem das exéquias um festim miserável
com pavões, porcos e outros oradores.


Espreitaram sua morte e então a ofenderam:
só porque sua boca está fechada
e já não pode contestar seu canto.




3 Talões – no sentido de calcanhares. (N.T.)
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Pablo Neruda

Pablo Neruda

Faz Tempo

Faz tempo, numa viagem
descobri um rio,
era apenas um menino, um cão,
um pássaro, aquele rio nascente.
Sussurrava e gemia
entre as pedras
da ferruginosa cordilheira,
implorava existência
entre a solidão de céu e neve,
lá longe, acima.

Eu me senti cansado
como um cavalo velho
junto à criatura natural
que começava a correr,
a saltar e crescer,
a cantar com voz clara,
a conhecer a terra,
as pedras, o transcurso,
a caminhar noite e dia,
a converter-se em trovão,
até chegar a ser vertiginoso,
até chegar à tranqüilidade,
até ser largo e presentear a água,
até ser patriarcal e navegado,
este pequeno rio,
pequeno e torpe
como um peixe metálico
deixando aqui escamas ao passar,
gotas de prata agredida,
um rio
que chorava ao nascer,
que ia crescendo
ante meus olhos.
Ali nas cordilheiras de minha pátria
alguma vez e faz tempo
eu vi, toquei e ouvi
o que nascia:
um latido, um som entre as pedras
era o que nascia.
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Pablo Neruda

Pablo Neruda

Tarde - LXIII

Não só pelas terras desertas onde a pedra salina
é como a rosa única, é flor pelo mar enterrada,
andei; mas pela margem de rios que cortam a neve.
As amargas alturas das cordilheiras conhecem meus passos.


Emaranhada, silvante região de minha pátria selvagem,
lianas cujo beijo mortal se encadeia na selva,
lamento molhado da ave que surge lançando seus calafrios,


oh região de perdidas dores e pranto inclemente!
Não só são meus a pele venenosa do cobre
ou o salitre estendido como estátua jazente e nevada,
mas a vinha, a cerejeira premiada pela primavera,


são meus, e eu pertenço como átomo negro
às áridas terras e à luz do outono nas uvas,
a esta pátria metálica elevada por torres de neve.
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Pablo Neruda

Pablo Neruda

Filosofia

Fica provada a certeza
da árvore verde na primavera
e do córtex terrestre
— alimentam-nos os planetas
apesar das erupções
e o mar nos oferece peixes
apesar de seus maremotos —
somos escravos da terra
que também é dona do ar.

Passeando por uma laranja
eu passei mais de uma vida
repetindo o globo terrestre
— a geografia e a ambrosia —
os jogos cor de jacinto
e um cheiro branco de mulher
como as flores da farinha.

Nada se consegue voando
para se escapar deste globo
que te aprisionou ao nascer.
E há que confessar esperando
que o amor e o entendimento
vêm de baixo, se levantam
e crescem dentro de nós
como cebolas, azinheiras,
como tartarugas ou flores,
como países, como raças,
como caminhos e destinos.

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Pablo Neruda

Pablo Neruda

Canto IX - Que acorde o lenhador

I
Que acorde o lenhador

A oeste do Colorado River
há um lugar que amo.
Acorro ali com tudo o que palpitando
transcorre em mim, com tudo
o que fui, o que sou, o que mantenho.
Há umas altas pedras vermelhas, o ar
selvagem de mil mãos
as fez edificar estruturas:
o escarlate cego subiu do abismo
e nelas se fez cobre, fogo e força.
América estendida como a pele do búfalo,
aérea e clara noite do galope,
lá para as alturas estreladas,
bebo a tua taça de verde orvalho.

Sim, por acre Arizona e Wisconsin nodoso,
até Milwaukee levantada contra o vento e a neve
ou nos excitados pântanos de West Palm,
perto dos pinheirais de Tacoma, no espesso
odor de aço de teus bosques,
andei pisando terra mãe,
folhas azuis, pedras de cachoeira
, furacões que tremiam como toda música,
rios que rezavam como os monastérios,
marrecos e maçãs, terras e águas,
infinita quietude para que o trigo nasça.

Ali pude, em minha pedra central, estender ao ar
olhos, ouvidos, mãos, até ouvir
livros, locomotivas, neve, lutas,
fábricas, tumbas, vegetais, passos,
e de Manhattan a lua no navio,
o canto da máquina que fia,
a colher de ferro que come terra,
a perfuratriz com seu golpe de condor
e tudo o que corta, oprime, corre cose:
seres e rodas repetindo e nascendo.

Amo o pequeno lar do farmer. Recentes mães dormem
aromadas como o xarope do tamarindo, os panos
recém-passados. Arde
o fogo em mil lares rodeados de cebolas
. (Os homens quando cantam perto do rio têm
uma voz rouca como as pedras do fundo:
o tabaco saiu de suas largas folhas
e como um duende do fogo chegou a estes lares.)
Vinde para dentro de Missouri, olhai o queijo e a farinha,
as tábuas olorosas, rubras como violinos,
o homem navegando a cevada,
o potro azul recém-montado cheira
o aroma do pão e da alfafa:
sinos, papoulas, ferrarias,
e nos destrambelhados cinemas silvestres
o amor abre a sua dentadura
no sonho nascido da terra.
É tua paz que amamos, não a tua máscara.
Não é formoso o teu rosto guerreiro.
És formosa e vasta, América do Norte.
Vens de humilde berço como uma lavadeira,
junto de teus rios, branca.
Edificada no desconhecido,
em tua paz de colmeia o doce teu.
Amamos o teu homem com as mãos vermelhas
do barro de Oregon, teu menino negro
que te trouxe a música nascida
em sua comarca de marfim: amamos
tua cidade, tua substância,
tua luz, teus mecanismos, a energia
do oeste, o pacífico
mel, de colmeal e aldeia,
o gigante jovem no trator,
a aveia que herdaste
de Jefferson, a roda rumorosa
que mede a tua terrestre oceania,
o fumo de uma fábrica e o beijo
número mil de uma colônia nova:
teu sangue lavrador é o que amamos:
a tua mão popular cheia de azeite.

Sob a noite dos prados já faz tempo
repousam sobre a pele do búfalo em grave
silêncio as sílabas, o canto
do que fui antes de ser, do que fomos.
Melville é um abeto marinho, de seus ramos
nasce uma curva de carena, um braço
de madeira e navio. Whitman inumerável
como os cereais, Poe em sua matemática
treva, Dreiser, Wolfe,
frescas feridas de nossa própria ausência,
Lockridge recente, atados à profundidade,
quantos outros, atados à sombra:
sobre eles a mesma aurora do hemisfério arde
e deles está feito o que somos,
Poderosos infantes, capitães cegos,
entre acontecimentos e folhagens às vezes amedrontados,
interrompidos pela alegria e pela dor,
sob os prados cruzados de tráfico,
quantos mortos nas planícies antes não visitadas:
inocentes atormentados profetas recém-impressos,
sobre a pele do búfalo dos prados.

Da França, de Okinawa, das coralinas
de Leyte (Norman Mailer o deixou escrito),
do ar enfurecido e das ondas,
retornaram quase todos os rapazes
. Quase todos ... Foi verde e amarga a história
de lama e suor: não ouviram
bastante o canto dos arrecifes
nem tocaram talvez a não ser para morrer nas ilhas, as coroas
de fulgor e fragrância:
sangue e esterco
os perseguiram, a imundície e as ratazanas,
e um cansado e desolado coração que lutava.
Mas já voltaram,
os recebestes
no vasto espaço das terras estendidas
e se fecharam (os que voltaram) como uma corola
de inumeráveis pétalas anônimas
para renascer e olvidar.


II
Mas além disso encontraram
um hóspede em casa,
ou trouxeram novos olhos (ou foram cegos antes)
ou a hirsuta ramaria lhes rompeu as pálpebras
ou novas coisas há nas terras da América.
Aqueles negros que combateram contigo, os
duros e sorridentes, olhai:
puseram uma cruz ardendo
diante de seus casarios,
enforcaram e queimaram o teu irmão de sangue:
fizeram-no combatente, hoje lhe negam
palavra e decisão: juntam-se
à noite os verdugos
encapuzados, com a cruz e o chicote.
(Outra coisa
se ouvia em além-mar combatendo.)
Um hóspede imprevisto

como um velho octópode roído,
imenso, circundante,
instalou-se em tua casa, soldadinho:
a imprensa destila o antigo veneno, cultivado em Berlim .
Os jornais (Times, Newsweek, etc.) converteram-se
em amarelas folhas de delação: Hearst,
que cantou o canto de amor aos nazistas, sorri
e afia as unhas para que partais de novo
para os arrecifes ou para as estepes
a combater por este hóspede que ocupa a tua casa.
Não te dão trégua: querem continuar vendendo
aço e balas, preparam uma nova pólvora
e é preciso vendê-la logo, antes que lhe passe à frente
a fresca pólvora e caia em novas mãos.
Por todas as partes os amos instalados
em tua mansão aumentam suas falanges,
amam a Espanha negra e uma taça de sangue te oferecem
(um fuzilado, cem): o coquetel Marshall.
Escolhei sangue jovem: camponeses
da China, prisioneiros
da Espanha,
sangue e suor de Cuba açucareira,
lágrimas de mulheres,
das minas de cobre e do carvão no Chile,
logo batei com energia
como um golpe de garrote
não esquecendo pedacinhos de gelo e algumas gotas
do canto Defendemos a cultura cristã.
É amarga esta mistura?
Já te acostumarás, soldadinho, a bebe-la.
Em qualquer lugar do mundo, à luz da lua,
ou pela manhã, no hotel de luxo,
pede esta bebida que dá vigor e refresca
e paga-a com uma boa nota
com a imagem de Washington.

Descobriste também que Charlie Chaplin, o último
pai da ternura no mundo,
deve fugir, e que os escritores (Howard Fast, etc.),
os sábios e os artistas
em tua terra
devem sentar-se para ser julgados por “un-american” pensamentos
diante dum tribunal de mercadores enriquecidos pela guerra.
Até os últimos confins do mundo chega o medo.
Minha tia lê essas notícias assustada,
e todos os olhos da terra olham
para esses tribunais de vergonha e vingança.
São os estrados dos Babbits sangrentos, `
dos escravagistas, dos assassinos de Lincoln,
são as novas inquisições levantadas agora
não pela cruz (e então era horrível e inexplicável)
mas pelo ouro redondo que bate
nas mesas dos prostíbulos e nos bancos
e que não tem, o direito de julgar.

Em Bogotá uniram-se Moríñigo, Trujillo,
González Videla, Somoza, Dutra, e aplaudiram.
Tu, jovem americano, não os conheces: são
os vampiros sombrios de nosso céu, amarga
é a sombra de suas asas:
prisões,
martírio, morte, ódio: as terras
do sul com petróleo e nitrato
conceberam monstros.
À noite no Chile, em Lota,
na humilde e molhada casa dos mineiros,
chega a ordem do verdugo. Os filhos
acordam chorando.
Milhares deles
encarcerados, pensam.
No Paraguai
a densa sombra florestal esconde
os ossos do patriota assassinado, um tiro
soa
na fosforescência do verão.
Morreu
ali a verdade.
Por que não intervêm
em São Domingos para defender o Ocidente Mr. Vandenberg,
Mr. Armour, Mr. Marshall, Mr. Hearst?
Por que na Nicarágua o senhor presidente,
despertado à noite, atormentado, teve
de fugir para morrer no desterro?
(Ali há bananas a defender e não liberdades,
e para isso basta Somoza.)
As grandes
vitoriosas idéias estão na Grécia
e na China para auxílio
de governos manchados como alfombras imundas.
Ai, soldadinho!
 

III
Também eu mais além de tuas terras, América,
ando e faço minha casa errante, vôo, passo,
canto e converso através dos dias.
Na Ásia, na URSS, nos Uraís me detenho
e estendo minha alma empapada de soledades e resina.
Amo o quanto nos espaços
a golpes de amor e luta o homem criou.
Ainda rodeia a minha casa nos Urais
a antiga noite dos pinheiros
e o silêncio como uma alta coluna.
Trigo e aço aqui nasceram
da mão do homem, de seu peito.
E um canto de martelos alegra o bosque antigo
como um novo fenômeno azul.
Daqui olho extensas zonas do homem,
geografia de meninos e mulheres, amor,
fábricas e canções, escolas
que brilham como goivos na selva
onde morou até ontem a raposa selvagem.
Daquele ponto abarca a minha mão no mapa
o verde dos prados, o fumo
de mil oficinas, os aromas
têxteis, o assombro
da energia dominada.
Volto nas tardes
pelos novos caminhos recém-traçados
e entro nas cozinhas
onde ferve o repolho e de onde sai
um novo manancial para o mundo.
Também aqui regressaram os rapazes,
mas muitos milhões ficaram atrás,
enganchados, pendurados nas forcas,
queimados em fornos especiais,
destruídos até não ficar deles
mais que o nome na lembrança.
Também foram assassinadas suas povoações:
a terra soviética foi assassinada:
milhões de vidros e ossos se confundiram,
vacas e fábricas, até a primavera
desapareceu tragada pela guerra.
Voltaram os rapazes, no entanto,
e o amor pela pátria construída
se havia mesclado neles com tanto sangue
que Pátria dizem com as veias,
União Soviética cantam com o sangue.
Foi alta a voz dos conquistadores
da Prússia e de Berlim quando voltaram
para que renascessem as cidades,
os animais e a primavera.

Walt Whitman, ergue a tua barba de relva,
olha comigo do bosque,
destas magnitudes perfumadas.
Que vês aí, Walt Whitman?
Vejo, me diz meu irmão profundo,
vejo como trabalham as usinas,
nas cidades que os mortos recordam,
na capital pura,
na resplandecente Stalingrado.
Vejo da planície combatida
do padecimento e do incêndio
nascer na umidade da manhã
um trator rechinante na direção das planuras.
Dá-me a tua voz e peso de teu peito enterrado,
Walt Whitman, e as graves
raízes de teu rosto
para cantar estas reconstruções!
Cantemos juntos o que se levanta
de todas as dores, o que surge
do grande silêncio, da grave
vitória:
Stalingrado, surge a tua voz de aço,
renasce andar por andar a esperança
como uma habitação coletiva,
e há um tremor de novo em marcha
ensinando,
cantando
e construindo.
Do sangue surge Stalingrado
como uma orquestra de água, pedra e ferro
e o pão renasce nas padarias,
a primavera nas escolas,
sobe novos andaimes, novas árvores,
enquanto o velho e férreo Volga palpita.
Estes livros,
em frescas caixas de pinho e cedro,
estão reunidos sobre o túmulo
dos verdugos mortos:
estes teatros feitos nas ruínas
cobrem martírio e resistência:
livros claros como monumentos:
um livro sobre cada herói,
sobre cada milímetro de morte,
sobre cada pétala desta glória imutável.

União Soviética, se juntássemos
todo o sangue derramado em tua luta,
todo o que deste como mãe ao. mundo
para que a liberdade agonizante vivesse,
teríamos um novo oceano,
grande como nenhum outro,
profundo como nenhum outro,
vivente como todos os rios,
ativo como o fogo dos vulcões araucanos.
Neste mar mergulha a tua mão,
homem de todas as terras,
e levanta-a depois para afogar nele
aquele que esqueceu, que ultrajou,
o que mentiu e o que manchou,
o que se uniu com cem pequenos cachorros
da lixeira do Ocidente
para insultar o teu sangue, Mãe dos livres!

Do fragrante odor dos pinheiros urais
olho a biblioteca que nasce
no coração da Rússia,
o laboratório no qual o silêncio
trabalha, olho os trens que levam
madeira e canções a novas cidades,
e nesta paz balsâmica cresce um latejar
como em novo peito:
à estepe moças e pombas
regressam agitando a brancura,
os laranjais se povoam de ouro:
o mercado tem hoje
a cada amanhecer
um novo aroma,
um novo aroma que chega das altas terras
nas quais o martírio foi maior:
os engenheiros fazem tremular o mapa
das planícies com os seus números
e as tubulações se envolvem como longas serpentes
nas terras do novo inverno vaporoso.
Em três aposentos do velho Kremlin
vive um homem chamado José Stálin.
Tarde se apaga a luz de seu quarto.
O mundo e sua pátria não lhe dão repouso.
Outros heróis deram à luz uma pátria,
ele além disso ajudou a conceber a sua,
a edificá-la,
a defendê-la.
Sua imensa pátria é, pois, parte dele mesmo
e não pode descansar porque ela não descansa.
Em outro tempo a neve e a pólvora
o encontraram diante dos velhos bandidos
que quiseram (como agora mais uma vez) reviver
o knut, e a miséria, a angústia dos escravos,
a dor adormecida de milhões de pobres.
Ele esteve contra os que como Wrangel e Denikin
foram enviados do Ocidente para “defender a cultura”.
Lá deixaram o couro aqueles defensores
dos verdugos, e no vasto terreno
da URSS, Stálin trabalhou noite e dia.
Porém mais tarde chegaram numa onda de chumbo
os alemães cevados por Chamberlain.
Stálin os enfrentou em todas as vastas fronteiras,
em todas as retiradas, em todos os assaltos
e até Berlim os seus filhos como um furacão de povos
chegaram e levaram a paz vasta da Rússia.

Molotov e Vorochilov
lá estão, eu os vejo,
com os outros, os altos generais,
os indomáveis.
Firmes como nevadas azinheiras.
Nenhum deles tem palácios.
Nenhum deles tem regimentos de servos.
Nenhum deles se tornou rico na guerra
vendendo sangue.
Nenhum deles vai como um pavão real
ao Rio de Janeiro ou a Bogotá
comandar pequenos sátrapas manchados de tortura:
nenhum deles tem duzentos trajes:
nenhum deles tem ações em fábricas de armamentos,
e todos eles têm
ações
na alegria e na construção
do vasto país onde ressoa a aurora
erguida na noite da morte.
Eles disseram “camarada” ao mundo.

Eles fizeram rei o carpinteiro.
Por essa agulha não entrará um camelo.
Lavaram as aldeias.
Repartiram a terra.
Elevaram o servo.
Apagaram o mendigo.
Aniquilaram os cruéis.
Fizeram luz na espaçosa noite.
 
Por isso a ti, moça de Arkansas, ou, melhor ainda,
a ti, jovem dourado de West Point, ou, melhor,
a ti, mecânico de Detroit, ou, ainda,
a ti, carregador da velha Orleans, a todos
falo e digo: firma teu passo,
abre teu ouvido ao vasto mundo humano,
não são os elegantes do State Department
nem os ferozes donos do aço
os que te estão falando,
mas um poeta do extremo sul da América,
filho dum ferroviário da Patagônia,
americano como o ar andino,
hoje fugitivo duma pátria na qual
o cárcere, o tormento, a angústia imperam
enquanto o cobre e o petróleo lentamente
se convertem em ouro para reis alheios.
Tu não és
o ídolo que numa mão leva o ouro
e na outra a bomba.
Tu és
o que sou, o que fui, o que devemos
amparar, o fraternal subsolo
da América puríssima, os singelos
homens dos caminhos e das ruas.
Meu irmão Juan vende sapatos
como o teu irmão John,
minha irmã Juana descasca batatas,
como a tua prima Jane,
e meu sangue é mineiro e marinheiro
como o teu sangue, Peter.

Tu e eu vamos abrir as portas
para que passe a brisa dos Urais
através da cortina de tinta,
tu e eu vamos dizer ao furioso:
“My dear guy, daqui não passarás”,
daqui pra cá a terra nos pertence
para que não se ouça a rajada
da metralhadora, porém uma
canção, e outra canção, e outra canção.



IV
Porém se armas as tuas hostes, América do Norte,
para destruir essa fronteira pura
e levar o magarefe de Chicago
ao governo da música e da ordem
que amamos,
sairemos das pedras e do ar
para morder-te:
sairemos da última janela
para derramar-te fogo:
sairemos das ondas mais profundas
para cravar-te com espinhos:
sairemos do eito para que a semente
golpeie como um punho colombiano,
sairemos para negar-te pão e água,
sairemos para queimar-te no inferno.

Não ponhas então o pé, soldado,
na doce França, porque lá estaremos
para que as verdes vinhas dêem vinagre
e as moças pobres te mostrem o local
no qual está fresco o sangue alemão.
Não subas pelas secas serras da Espanha
porque cada pedra se converterá em fogo,
e lá mil anos combaterão os valentes:
não te percas entre os olivais porque
nunca tornarás a Oklahoma, mas não entres
na Grécia, que até o sangue que hoje estás derramando
se levantará da terra para deter-vos.
Não venhais pescar então em Tocopilla
porque o peixe-espada conhecerá vossos despojos
e o obscuro mineiro da Araucania
procurará as antigas flechas cruéis
que esperam enterradas novos conquistadores.
Não confieis no gaúcho cantando uma vidalita,
nem no operário dos frigoríficos. Eles
estarão em todas as partes com olhos e punhos,
como os venezuelanos que vos esperam nessa ocasião
com uma garrafa de petróleo e uma guitarra nas mãos.
Não entres, não entres tampouco na Nicarágua.
Sandino dorme na selva até tal dia,
seu fuzil se encheu de cipós e de chuva,
seu rosto não tem pálpebras,
mas as feridas com que o matastes estão vivas
como as mãos de Porto Rico que esperam
as luzes das facas.
Será implacável o mundo para vós.
Não só as ilhas serão despovoadas, mas o ar
que já conhece as palavras que lhe são queridas.

Não chegues a pedir carne de homem
no alto Peru: na névoa roída dos monumentos
o doce antepassado de nosso sangue afia
contra ti as suas espadas de ametista,
e pelos vales o rouco caracol de batalha
congrega os guerreiros, os fundeiros
filhos de Amaru. Nem pelas cordilheiras mexicanas
busques homens para levá-los a combater a aurora;
os fuzis de Zapata não estão dormidos,
são azeitados e apontados para as terras do Texas.
não entres em Cuba, que do fulgor marinho
dos canaviais suarentos
há um único escuro olhar que te espera
e um único grito até matar ou morrer.
Não chegues
à terra de partisanos na rumorosa
Itália: não passes das filas dos soldados com jacquet
que manténs em Roma, não passes de São Pedro:
além os santos rústicos das aldeias,
os santos marinheiros do pescado
amam o grande país da estepe
no qual floresceu de novo o mundo.
Não toques
nas pontes da Bulgária, não te darão passagem,
os rios da Romênia, jogaremos neles sangue fervendo
para que queimem os invasores:
não cumprimentes o camponês que hoje conhece
os túmulos dos feudais, e vigia
com seu arado e seu rifle: não olhes para ele
porque te queimará como uma estrela.
Não desembarques
na China: já não existirá Chang, o Mercenário,
rodeado de sua apodrecida corte de mandarins:
haverá para esperar-vos uma selva
de foices labregas e um vulcão de pólvora.
Em outras guerras existiram fossos com água
e depois cercas de arame, com puas e garras,
mas este fosso é maior; estas águas mais fundas,
estes arames mais invencíveis que todos os metais.
São um átomo e outro do metal humano,
são um nó e mil nós de vidas e vidas:
são as velhas dores dos povos
de todos os remotos vales e reinos,
de todas as bandeiras e navios,
de todas as covas onde foram amontoados,
de todas as redes que saíram contra a tempestade,
de todas as ásperas rugas da terra,
de todos os infernos nas quentes caldeiras,
de todos os teares e das fundições,
de todas as locomotivas perdidas ou congregadas.
Este arame dá mil voltas no mundo:
parece dividido, desterrado,
e de repente se juntam seus ímãs
para encher a terra.
Porém ainda
mais longe, radiantes e determinados,
acerados, sorridentes,
para cantar ou combater
vos esperam
homens e mulheres da tundra e da taiga,
guerreiros do Volga que venceram a morte,
meninos de Stalingrado, gigantes da Ucrânia,
toda uma vasta e alta parede de pedra e sangue,
ferro e canções, coragem e esperança.
Se tocardes neste muro caireis
queimados como o carvão das usinas
, os sorrisos de Rochester se farão trevas
que logo a neve enterrará a brisa da estepe
e logo a neve enterrará para sempre.
Virão os que lutaram desde Pedro
Até os novos heróis que assombraram a terra
E farão de suas medalhas pequenas balas frias
Que silvarão sem trégua de toda
A vasta terra que hoje é alegria.
E do laboratório coberto de trepadeiras
Sairá também o átomo desencadeado
Na direção de vossas cidades orgulhosas.

 

V
Que nada disso aconteça.
Que desperte o Lenhador.
Que venha Abraham com seu machado
E com o seu prato de madeira
Para comer com os camponeses.
Que a sua cabeça de córtice,
Seus olhos vistos nas tábuas,
Nas rugas do carvalho,
Voltem a olhar o mundo
Subindo sobre as folhagens,
Mais altos que as sequóias.
Que entre para comprar nas farmácias,
Que tome um ônibus em Tampa,
Que morda uma maçã amarela,
Que entre num cinema, que converse
Com toda a gente simples.

Que desperte o Lenhador.

Que venha Abraham, que faça crescer
Seu velho fermento a terra
Dourada e verde de Illinois,
E levante o machado no meio do seu povo
Contra os novos escravagistas,
Contra o chicote do escravo,
contra o veneno da imprensa,
contra a mercadoria
sangrenta que querem vender.
Que marchem cantando e sorrindo
o jovem branco, o jovem negro,
contra as paredes de ouro,
contra o fabricante de ódio,
contra o mercador de sangue,
cantando, sorrindo e vencendo.

Que desperte o Lenhador.

VI
Paz para os crepúsculos que chegam,
paz para a ponte, paz para o vinho,
paz para as letras que me procuram
e que em meu sangue sobem enredando
v velho canto com terra e amores,
paz para a cidade na manhã
quando desperta o pão, paz para o rio
Mississípi, rio das raízes:
paz para a camisa de meu irmão,
paz para o livro como um selo de aragem,
paz para o grande colcós de Kíev,
paz para as cinzas destes mortos
e destes outros mortos, paz para o ferro
negro de Brooklyn, paz para o carteiro
de casa em casa como o dia,
paz para o coreógrafo que grita
com um megafone, às campanhas,
paz para a minha mão direita,
que só quer escrever Rosario:
paz para o boliviano secreto
como uma pedra de estanho, paz
para que tu te cases, paz para todas
as serrarias de Bío-Bío,
paz para o coração dilacerado
da Espanha guerrilheira:
paz para o pequeno museu de Wyoming,
no qual o mais doce
é um travesseiro com um coração bordado,
paz para o padeiro e seus amores
e paz para a farinha: paz
para todo o trigo que deve nascer,
para todo o amor que buscará folhagem,
paz para todos os que vivem: paz
para todas as terras e todas as águas.


Aqui eu me despeço, volto
para casa, em meus sonhos,
volto para a Patagônia, onde
o vento bate nos estábulos
e respinga e gela o oceano.

Não sou mais que um poeta: amo todos vós,
ando errante pelo mundo que amo:
em minha pátria encarceram mineiros
e os soldados mandam nos juízes.

Porém eu amo até as raízes
de meu pequeno país frio.

Se tivesse que morrer mil vezes
lá quero morrer:
se tivesse de nascer mil vezes
lá quero nascer,
perto da araucária selvagem,
do vendaval do vento sul,
dos sinos recém-comprados.

Que ninguém pense em mim.

Pensemos na terra toda,
batendo com amor na mesa.

Não quero que volte o sangue
a empapar o pão, os feijões,
a música: quero que venha
comigo, o mineiro, a menina,
o advogado, o marinheiro,
o fabricante de bonecas,
que entremos no cinema e saiamos
para beber o vinho mais rubro.


Não venho para resolver nada.


Vim aqui para cantar
e para que cantes comigo.

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Pablo Neruda

Pablo Neruda

Canto XV - Eu Sou

I
A fronteira (1904)

O primeiro que vi foram árvores, barrancos
decorados com flores de selvagem formosura,
úmido território, bosques que se incendiavam
e o inverno detrás do mundo, transbordado.

Minha infância são sapatos molhados, troncos partidos
tombados na selva, devorados por cipós
e escaravelhos, doces dias sobre a aveia,
e a barba dourada de meu pai saindo
para a majestade da ferroviária.


Diante de minha casa a água austral cavava
fundas derrotas, lameiros de argilas enlutadas,
que no verão eram atmosfera amarela
por onde as carretas rangiam e choravam
prenhadas com nove meses de trigo.

Rápido sol do sul:

restolhos, fumaradas
em caminhos de terras escarlates, ribeiras
de rios de redonda linhagem, currais e potreiros
em que reverberava o mel do meio-dia.


O mundo poeirento entrava grau por grau
nos galpões, entre barricas e cordéis,
nas adegas carregadas com o resumo rubro
da aveleira, todas as pálpebras do bosque.


Pareceu-me ascender com o traje tórrido
do verão, com as máquinas debulhadoras,
pelas costas, na terra envernizada de boldos
erguida entre os carvalhos, indelével,
agarrando-se às rodas como carne esmagada.


Minha infância percorreu as estações: entre
os trilhos, os castelos de madeira recente,
a casa sem cidade, apenas protegida
por reses e maçãs de perfume indizível
fui eu, delgado menino cuja pálida forma
se impregnava de bosques vazios e adegas.




II
O fundeiro (1919)

Amor, talvez amor indeciso, inseguro:
só um golpe de madressilvas na boca,
só umas tranças cujo movimento subia
até minha solidão como uma fogueira negra,
e o mais: o rio noturno, os sinais
do céu, a fugaz primavera molhada,
a enlouquecida fronte solitária, o desejo
levantando as suas cruéis tulipas na noite.

Eu desfolhei as constelações, ferindo-me,
afiando os dedos no tacto das estrelas,
afiando fibra por fibra a contextura gelada
dum castelo sem portas,
ó destroçados amores
cujo jasmim detém sua transparência em vão,
ó nuvens que no dia do amor desembocam
como um soluço entre as ervas hostis,
nua solidão amarrada a uma sombra,
a uma ferida adorada, a uma lua indomável.

Nomeai-me, disse talvez aos rosais:
eles talvez, a sombra de confusa ambrosia,
cada tremor do mundo conhecia meus passos,
me esperava o rincão mais oculto, a estátua
da árvore soberana na planície:
tudo na encruzilhada chegou a meu desvario
debulhando o meu nome sobre a primavera.

E então, doce rosto, açucena queimada,
tu, a que não dormiste com o meu sonho, bravia,
medalha perseguida por uma sombra, amada
sem nome, feita de toda a estrutura do pólen,
de todo o inverno ardendo sobre estrelas impuras:
ó amor, desenredado jardim que se consome,
em ti se levantaram meus sonhos e cresceram
como um fermento de pães tenebrosos.




III
A casa

Minha casa, as paredes cuja madeira fresca,
recém-cortada, cheira ainda: destrambelhada
casa de fronteira, que rangia
a cada passo, e silvava com o vento de guerra
do tempo austral, fazendo-se elemento
de tempestade, ave desconhecida
sob cujas geladas plumas cresceu o meu canto.

Vi sombras, rostos que como plantas
em torno de minhas raízes cresceram, parentes
que cantavam toadas à sombra duma árvore
e disparavam entre os cavalos molhados,
mulheres escondidas na sombra
que deixavam as torres masculinas,
galopes que fustigavam a luz,
enrarecidas
noites de cólera, cachorros que latiam.

Meu pai com a alva escura
da terra, para que perdidos arquipélagos
em seus trens que uivavam se deslizou?
Mais tarde amei o odor do carvão no fumo,
os azeites, os eixos de precisão gelada,
e o grave trem cruzando o inverno estendido
sobre a terra, como uma lagarta orgulhosa.

De repente trepidaram as portas.

É meu pai.

Rodeiam-no os centuriões do caminho:
ferroviários envoltos em suas mantas molhadas,
o vapor e a chuva com eles revestiram
a casa, a sala de jantar se encheu de relatos
enrouquecidos, os copos se verteram,
e até mim, dos seres, como uma separada
barreira, em que viviam as dores,
chegaram as aflições, as carrancudas
cicatrizes, os homens sem dinheiro,
a garra mineral da pobreza.




IV
Companheiros de viagem (1921)

Logo cheguei à capital, vagamente impregnado
de névoa e chuva.
Que ruas eram essas?
Os trajes de 1921 pululavam
num odor atroz de gás, café e tijolos.

Entre os estudantes passei sem compreender,
reconcentrando em mim as paredes, buscando
cada tarde em minha pobre poesia os ramos,
as gotas e a lua que se haviam perdido.

Acudi ao fundo dela, submergindo
cada tarde em suas águas, agarrando impalpáveis
estímulos, gaivotas de um mar abandonado,
até fechar os olhos e naufragar no meio
de minha própria substância.

Foram trevas, foram
apenas escondidas, úmidas folhas do subsolo?
De que matéria ferida se debulhou a morte
até tocar os meus membros, conduzir meu sorriso
e cavar nas ruas um poço desgraçado?

Saí a viver: cresci e endurecido
fui pelas ruelas miseráveis,
sem compaixão, cantando nas fronteiras
do delírio.
Os muros se encheram de rostos:
olhos que não olhavam a luz, águas torcidas
que iluminavam um crime, patrimônios
de solitário orgulho, cavidades
cheias de corações arrasados.

Com eles fui: só em seu coro
a minha voz reconheceu as solidões
onde nasceu.


Comecei a ser homem
cantando entre as chamas, acolhido
por companheiros de condição noturna
que cantaram comigo nas pousadas,
e que me deram mais de uma ternura,
mais de uma primavera defendida
por suas mãos hostis,
único fogo, planta verdadeira
dos desmoronados arrabaldes.




V
A estudante (1923)

Ó tu, mais doce, mais interminável
que a doçura, carnal enamorada
entre as sombras: de outros dias
surges enchendo de pesado pólen
a tua taça, na delícia.

Da noite cheia
de ultrajes, noite como o vinho
destampado, noite de oxidada púrpura,
em ti caí como uma torre ferida,
e entre os pobres lençóis a tua estrela
palpitou contra mim queimando o céu.


Ó redes do jasmim, ó fogo físico
alimentado nesta nova sombra,
trevas que tocamos apertando
a cintura central, golpeando o tempo
com sanguinárias rajadas de espigas.


Amor sem nada mais, no vazio
duma borbulha, amor com ruas mortas,
amor, quando morreu toda a vida
e nos deixou acendendo os rincões.


Mordi mulher, me afundei desvanecendo-me
desde minha força, entesourei cachos de uva,
e saí a caminhar de beijo em beijo,
atado às carícias, amarrado
a esta gruta de fria cabeleira,
a estas pernas por lábios percorridas:
faminto entre os lábios da terra,
devorando com lábios devorados.




VI
O viajante (1927)

E saí pelos mares aos portos.


O mundo entre as gruas
e as adegas da praia sórdida
mostrou em sua greta chusmas e mendigos,
companhias de famintos espectrais
no costado dos navios.

Países
recostados, ressequidos, na areia,
trajes talares, mantos fulgurantes
saíam do deserto, armados
como escorpiões, guardando o buraco
do petróleo, na empoeirada
rede dos calcinados poderios.


Vivi na Birmânia, entre as cúpulas
do metal poderoso, e a mataria
onde o tigre queimava os seus anéis
de ouro sangrento.
De minhas janelas
em Dalhousie Street, o odor
indefinível, musgo nos pagodes,
perfumes e excrementos, pólen, pólvora,
de um mundo saturado pela umidade humana,
subiu até mim.


As ruas me chamaram
com os seus inumeráveis movimentos
de telas de açafrão e escarros vermelhos,
junto à suja marulhada do Irrawaddy, da
água cuja espessura, sangue e azeite,
vinha descarregando a sua linhagem
desde as terras altas cujos deuses
pelo menos dormiam rodeados por seu barro.




VII
Longe daqui

Índia, não amei a tua dilacerada roupa,
a tua desarmada população de farrapos.

Por anos fui com olhos que queriam
subir aos promontórios do desprezo,
entre cidades como cera verde,
entre os talismãs, os pagodes
cuja pastelaria sanguinária
espalhava terríveis aguilhões.

Vi o miserável acumulado, em cima
do outro, do sofrimento de seu irmão,
as ruas como rios de aflição,
as pequenas aldeias esmagadas
entre as grossas unhas das flores,
e fui na multidão, sentinela
do tempo, separando enegrecidas
cicatrizes, cerrames de escravos.

Entrei nos templos, estuque e pedraria
fazem os degraus, sangue e morte sujos,
e os bestiais sacerdotes, ébrios
do estupor ardente, disputando
moedas revolvidas no chão,
enquanto, ó pequeno ser humano,
os grandes ídolos de pés fosfóricos
estiravam as línguas vingativas,
ou sobre um falo de pedra escarlate
deslizavam as pedras trituradas.




VIII
As máscaras de gesso

Não amei.
.
.
Não sei se foi piedade ou vômito.

Corri pelas cidades, Saigon, Madras,
Khandy, até as enterradas, majestosas
pedras de Anuradhapura, e na rocha
do Ceilão, como baleias
as efígies de Siddhartha, fui mais longe:
no saibro de Penang, pelas ribeiras
dos rios, na selva
do silêncio puríssimo, culminado
pelo rebanho das intensas vidas,
para além de Bangkok, as vestimentas
de bailarinas com máscaras de gesso.

Golfos pestilenciais elevavam
tetos de pedraria transbordante,
em largos rios a vivenda
de milhares de pobres, apertados
nas embarcações, e outros, todos
cobriam a infinita terra,
para além dos rios amarelos,
com uma única pele de animal roto,
pele dos povos, pelanca humilhada
por uns e outros amos.

Capitães e príncipes
viviam sobre o úmido estertor
de agonizantes lâmpadas, sangrando
a vida dos pobres artesãos,
e entre as garras e chicotes, mais alto
era a concessão, o europeu,
o norte-americano do petróleo,
fortificando templos de alumínio,
arando sobre a pele desamparada,
estabelecendo novos sacrifícios de sangue.




IX
O baile (1929)

Na profundidade de Java, entre as sombras
territoriais: aqui está o palácio iluminado.

Passo entre arqueiros verdes, aderidos
aos muros, entro
na sala do trono.
Está o monarca,
apoplético porco, pavão impuro,
carregado de cordões, constelado,
entre dois de seus amos holandeses,
mercadores carrancudos que vigiam.

Que repugnante grupo de insetos, como arremessam sobre os seres, conscienciosamente,
pauladas de vileza.

As sentinelas sórdidas
das longínquas terras, e o monarca
como um saco cego, arrastando
a sua carne espessa e as suas estrelas falsas
sobre uma humilde pátria de prateiros.

Mas entraram de repente
do remoto fundo do palácio
dez bailarinas, lentas como um sonho
debaixo das águas.

Cada pé se aproximava
de costas, avançando mel noturno
como um peixe de ouro, e suas máscaras ocre
levavam sobre o cabelo de azeitada espessura
uma coroa fresca de flores de laranjeira.

Até que se colocaram
diante do sátrapa, e com elas a música, um rumor
de élitros de cristal, a dança pura
que cresceu como flor, as mãos claras
construindo uma estátua fugitiva,
a túnica batida nos calcanhares
por um golpe de onda ou de brancura,
e em cada movimento de pomba
feita em metal sagrado, o sussurrante
ar do arquipélago, aceso
como uma árvore nupcial na primavera.




X
A guerra (1930)

Espanha, envolta em sonho, despertando
como uma cabeleira com espigas,
te vi nascer, entre as brenhas
e as trevas, lavradora,
levantar-te entre os carvalhos e os montes
e percorrer o ar com as veias abertas.

Mas te vi atacada nas esquinas
pelos antigos bandoleiros.
Iam
mascarados, com as suas cruzes feitas
de víboras, com os pés metidos
no glacial pântano dos mortos.

Então vi o teu corpo desprendido
de matagais, quebrado
sobre a areia encarniçada, aberto,
sem mundo, aguilhoado na agonia.

Até hoje corre a água de tuas penhas
entre os calabouços, e susténs
a tua coroa de farpas em silêncio,
para ver quem pode mais, se tuas dores
ou os rostos que cruzam sem olhar-te.

Eu vivi com a tua aurora de fuzis,
e quero que de novo povo e pólvora
sacudam as ramagens desonradas
até que trema o sonho e se reúnam
os frutos divididos na terra.




XI
O amor

O firme amor, Espanha, me deste com teus dons.

Veio a mim a ternura que esperava
e me acompanha a que leva o beijo
mais profundo a minha boca.

Não puderam
apartá-la de mim as tempestades
nem as distâncias acrescentaram terra
ao espaço de amor que conquistamos.

Quando antes do incêndio, entre as messes
da Espanha apareceu a tua vestimenta,
eu fui dupla noção, luz duplicada,
e a amargura resvalou em teu rosto
até cair sobre pedras perdidas.

De uma grande dor, de arpões eriçados
desemboquei em tuas águas, amor meu,
como um cavalo que galopa em meio
à ira e à morte, e o recebe
de súbito uma maçã matutina,
uma cascata de tremor silvestre.

Desde então, amor, te conheceram
os páramos que fizeram a minha conduta,
o oceano escuro que me segue,
e os castanhos do outono imenso.


Quem não te viu, amorosa, doce minha,
na luta, a meu lado, como uma
aparição, com todos os sinais
da estrela? Quem, se andou
entre as multidões a procurar-me,
porque sou grão do celeiro humano,
não te encontrou, agarrada a minhas raízes,
elevada no canto de meu sangue?

Não sei, meu amor, se terei tempo e lugar para
escrever outra vez a tua sombra fina
estendida em minhas páginas, esposa:
são duros estes dias e radiantes,
e recolhemos deles a doçura
amassada com pálpebras e espinhos.

Não sei recordar quando começas:
estavas antes do amor,
vinhas
com todas as essências do destino,
e antes de ti, a solidão foi tua,
foi talvez a tua adormecida cabeleira.

Hoje, taça de meu amor, te nomeio apenas,
título de meus dias, adorada,
e no espaço ocupas como o dia
toda a luz que tem o universo.




XII
México (1940)

México, de mar a mar te vivi, transpassado
por tua férrea cor, subindo montes
sobre os quais aparecem monastérios
cheios de espinhos,
o ruído venenoso
da cidade, os dentes solapados
do pululante poetiso, e sobre
as folhas dos mortos e os degraus
que construiu o silêncio irredutível,
como coto dum amor leproso,
o esplendor molhado das ruínas.


Porém do acre acampamento, rude
suor, lanças de grãos amarelos,
sobe a agricultura coletiva
repartindo os pães da pátria.


Outras vezes calcárias cordilheiras
interromperam o meu caminho,
formas
das metralhadas nevadas
que despedaçam a casca escura
da pele mexicana, e os cavalos
que cruzam como o beijo da pólvora
sob os patriarcais arvoredos.


Aqueles que apagaram bravamente
a fronteira do prédio e entregaram
a terra conquistada pelo sangue
entre os esquecidos herdeiros,
também aqueles dedos dolorosos
atados ao sul das raízes,
a minuciosa máscara teceram,
povoaram de floral quinquilharia
e de fogo têxtil o território.


Não soube que mais amei, se a escavada
antigüidade de rostos que guardaram
a intensidade de pedras implacáveis,
ou a rosa recente, construída
por uma mão ontem ensangüentada.


E assim de terra em terra fui tocando
o barro americano, minha estatura,
e subiu por minhas veias o esquecimento
recostado no tempo, até que um dia
estremeceu a minha boca a sua linguagem.




XIII
Nos muros do México (1943)

Os países se estendem junto aos rios, buscam
o suave peito, os lábios do planeta,
tu, México, tocaste
os ninhos do espinho,
a desértica altura da águia sangrenta,
o mel da coluna combatida.


Outros homens buscaram o rouxinol, acharam
o fumo, o vale, regiões como a pele humana:
tu, México, enterraste as mãos na terra,
tu cresceste na pedra de olhar selvagem.

Quando chegou a tua boca a rosa do rocio
o látego do céu a converteu em tormento.

foi a tua origem um vento de punhais
entre dois mares de irritada espuma.


Tuas pálpebras se abriram na espessa papoula
de um dia enfurecido
e a neve estendia sua espaçosa brancura
onde o fogo vivo começava a habitar-te.

conheço a tua coroa de nopais
e sei que sob as tuas raízes
a tua subterrânea estátua, México, se constrói
com as águas secretas da terra
e os lingotes cegos das minas.


Ó terra, ó esplendor
de tua perpétua e dura geografia,
a derramada rosa do mar da Califórnia,
o raio verde que Yucatán derrama,
o amarelo amor de Sinaloa,
as pálpebras rosadas de Morelia,
e o longo fio da piteira fragrante
que amarra o coração à tua estatura.


México augusto de rumor e espadas,
quando a noite na terra era maior,
repartiste o berço do milho entre os homens.

Levantaste a mão cheia de pó santo
e a puseste em meio a teu povo
como uma nova estrela de pão e de fragrância.

O camponês então à luz da pólvora
olhou a sua terra desencadeada
brilhar sobre os mortos germinais.


Canto a Morelos.
Quando caía
seu fulgor verrumado,
uma pequena gota ia chamando
sob a terra até encher a taça
de sangue, e da taça um rio
até chegar a toda a silenciosa praia
da América, empapando-a de misteriosa essência.


Canto a Cuauhtémoc.
Toco
a sua linhagem de lua
e seu fino sorriso de deus martirizado.

Onde estás, perdeste,
antigo irmão, a tua dureza doce?
Em que te converteste?
Onde vive a tua estação de fogo?
Vive na pele de nossa mão escura,
vive nos cinzentos cereais:
quando, depois da noturna sombra
se debulham as cepas da aurora,
os olhos de Cuauhtémoc abrem a sua luz remota
sobre a vida verde da folhagem.


Canto a Cárdenas.
Eu estive;
eu vivi a tormenta de Castilla.

Eram os dias cegos das vidas.

Altas dores como ramos cruéis
feriam a nossa mãe angustiada.

Era o abandonado luto, os muros do silêncio
quando
se atraiçoava, se assaltava e feria
essa pátria da alva e do loureiro.

Então
só a estrela vermelha da Rússia e o olhar
de Cárdenas brilharam na noite do homem.

General, presidente da América, te deixo neste canto
algo do resplendor que recolhi na Espanha.

México, abriste as portas e as mãos
ao errante, ao ferido,
ao desterrado, ao herói.

Sinto que isto não possa se dizer de outra forma
e quero que se agarrem as minhas palavras
outra vez como beijos em teus muros.

De par em par abriste a tua porta combatente
e encheu-se de estranhos filhos a tua cabeleira
e tocaste com as tuas duras mãos
as faces dos filhos
que te pariu com lágrimas e tormenta do mundo.


Aqui termino, México,
aqui te deixo esta caligrafia
sobre as fontes para que a idade
vá apagando este novo discurso
de quem te amou por livre e por profundo.

Adeus te digo, mas não me vou.

Vou-me, mas não posso
dizer-te adeus.


Porque na minha vida, México, vives como uma pequena
águia equivocada que circula nas minhas veias,
e só no fim a morte dobrará as asas
sobre o meu coração de soldado adormecido.




XIV
O regresso (1944)

Regressei.
.
.
O Chile me recebeu com o rosto amarelo do deserto.

Peregrinei sofrendo
de árida lua em cratera arenosa
e encontrei os domínios agrestes do planeta,
a lisa luz sem pâmpanos, a retidão vazia.

Vazia? Mas sem vegetais, sem garras, sem esterco
me revelou a terra sua dimensão nua
e lá longe a sua longa linha em que nascem
aves e peitos ígneos de suave contextura.


Porém mais longe homens cavavam as fronteiras,
recolhiam metais duros, disseminados
alguns como a farinha de amargos cereais,
outros como a altura calcinada do fogo,
e homens e lua, tudo me envolveu em sua mortalha
até perder o fio vazio dos sonhos.


Me entreguei aos desertos e o homem da escória
saiu de seu buraco, de sua aspereza muda
e soube as dores de meu povo perdido.


Então, fui por ruas e curules e disse
o quanto vi, mostrei as mãos que tocaram
os torrões enfartados de dor, as vivendas
da desamparada pobreza, o miserável
pão e a solidão da lua esquecida.


E lado a lado com meu irmão sem sapatos
quis mudar o reino das moedas sujas.


Fui perseguido, mas a nossa luta continua.


A verdade é mais alta que a lua.


É vista, como se estivessem num navio negro,
pelos homens das minas quando a olham à noite.


E na sombra a minha voz é repartida
pelas mais duras estirpes da terra.




XV
A linha de madeira

Eu sou um carpinteiro, cego, sem mãos.
Vivi
sob as águas, consumindo frio,
sem construir as caixas fragrantes, as moradas
que cedro a cedro erguem a grandeza,
porém meu canto foi procurando fios do bosque,
secretas fibras, ceras delicadas,
e foi cortando ramos, perfumando
a solidão com lábios de madeira.

Amei cada matéria, cada gota
de púrpura ou de metal, água e espiga
e entrei em espessas camadas resguardadas
por espaço e areia tremulante
até cantar com a boca destruída,
como um morto, nas uvas da terra.


Argila, barro, vinho, me cobriram,
enlouqueci tocando os quadris
da pele cuja flor foi sustida
como um incêndio sob a minha garganta,
e pela pedra passearam os meus sentidos
invadindo fechadas cicatrizes.


Como mudei sem ser, desconhecendo
o meu ofício antes de ser,
a metalurgia
que estava destinada à minha dureza,
às serranias olfateadas
pelas cavalgaduras no inverno?

Tudo se fez ternura e mananciais
e servi somente para noturno.




XVI
A bondade combatente
Mas não tive a bondade morta nas ruas.

Rechacei o seu aqueduto purulento
e não toquei o seu mar contaminado.


Extraí o bem como um metal, cavando
além dos olhos que mordiam,
e entre as cicatrizes foi crescendo
meu coração nascido nas espadas.


Não saí desbocado, descarregando
terra ou punhal entre os homens.

Não era
meu ofício o da ferida ou o veneno.

Não sujeitei o inerme em ataduras
que lhe atravessassem chicotes gelados,
não fui à praça procurar inimigos
espreitando com a mão mascarada:
não fiz mais que crescer com as minhas raízes,
e o chão que estendeu o meu arvoredo
decifrou os vermes que jaziam.


Veio morder-me Segunda-feira e lhe dei algumas folhas
Veio insultar-me Terça-feira e fiquei dormindo.

Chegou logo Quarta-feira com dentes iracundos.

Eu a deixei passar construindo raízes.

E quando Quinta-feira veio com uma venenosa
lança negra de urtigas e de escamas
eu a esperei em meio à minha poesia
e em plena lua lhe parti um cacho de uva.


Venham aqui estrelar-se nesta espada.


Venham se desfazer em meus domínios.


Venham em amarelos regimentos,
ou na congregação dos sulfurosos.


Morderão sombra e sangue de sinos
sob as sete léguas do meu canto.




XVII
Reúne-se o aço (1945)

Vi o mal e o mau, mas não em seus covis.


É uma história de fadas a maldade com caverna.


Aos pobres depois de terem tombado
em farrapos, à mina desgraçada,
povoaram-no com bruxas o caminho.

Encontrei a maldade sentada nos tribunais:
no Senado a encontrei vestida
e penteada, torcendo os debates
e as idéias para os próprios bolsos.

O mal e o mau
acabavam de sair do banho: estavam
encadernados em satisfações,
e eram perfeitos na suavidade
de seu falso decoro.

Vi o mal, e para
desterrar esta pústula vivi
com outros, acrescentando vidas,
fazendo-me secreta cifra, metal sem nome,
invencível unidade de povo e pó.


O orgulhoso estava feramente
combatendo em seu armário de marfim
e passou a maldade em meteoro
dizendo: “É admirável
a sua solitária retidão.

Deixai-o”.


O impetuoso tirou o seu alfabeto
e montado em sua espada se deteve
a perorar na rua deserta.

Passou o mal e lhe disse: “Que valente!”
e se foi ao clube para comentar a façanha.


Mas quando fui pedra e argamassa,
torre e aço, sílaba associada:
quando apertei a mão de meu povo
e fui ao combate com o mar inteiro;
quando deixei a minha solidão e pus
o meu orgulho no museu, a minha vaidade no
desvão das carruagens desengonçadas,
quando me fiz partido com outros homens, quando
se organizou o metal da pureza,
então veio o mal e disse: “Duro
com eles, no cárcere, morram!”

Mas já era tarde, e o movimento
do homem, meu partido,
é a invencível primavera, dura
sob a terra, quando foi esperança
e fruto geral para mais tarde.




XVIII
O vinho

Vinho da primavera.
.
.
Vinho do outono, dai-me
meus companheiros, uma mesa em que caiam
folhas equinociais, e o grande rio do mundo
que empalideça um pouco movendo o seu som
longe de nossos cantos.

Sou um bom companheiro.


Não entraste nesta casa para que te arrancasses
um pedaço do ser.
Talvez quando te vás
leves algo meu, castanhas, rosas ou
uma segurança de raízes ou navios
que quis compartilhar contigo, companheiro.


Canta comigo até que as taças
se derramem deixando púrpura desprendida
sobre a mesa.

Esse mel vem à tua boca
da terra, de seus obscuros racimos.


Quantos me faltam, sombras do canto,
companheiros
que amei oferecendo a face, tirando de minha vida
a incomparável ciência varonil que professo,
a amizade, arvoredo de rugosa ternura.


Dá-me a mão, encontra-te comigo,
simples, não busques nada em minhas palavras,
a não ser a emanação duma planta nua.

Por que me pedes mais que a um operário? Já sabes
que a golpes fui forjando minha enterrada forja,
e que não quero falar a não ser como ê minha língua.


Sai a procurar doutores se não te agrada o vento.


Nós cantaremos com o vinho áspero
da terra: golpearemos as taças do outono,
e a guitarra ou o silêncio irão trazendo
linhas de amor, linguagem de rios que não existem,
estrofes adoradas que não têm sentido.




XIX
Os frutos da terra

Como sobe a terra pelo milho, buscando
leitosa luz, cabelos, marfim endurecido,
a primorosa rede da espiga madura
e todo o reino de ouro que se vai debulhando?

Quero comer cebolas, traze-me do mercado
uma, um globo pleno de neve cristalina,
que transformou a terra em cera e equilíbrio
como uma bailarina detida em seu vôo.

Dá-me umas codornizes de caça, cheirando
a musgo da selva, um pescado vestido
como um rei, destilando profundidade molhada
sobre a fonte,
abrindo pálidos olhos de ouro
sob o multiplicado mamilo dos limões.


Vamo-nos, e sob a castanheira a fogueira
deixará o seu tesouro branco sob as brasas,
e um cordeiro com toda a sua oferenda irá dourando
a sua linhagem até ser âmbar para a tua boca.


Dá-me todas as coisas da terra, torcazes
recém-tombadas, ébrias de cachos selvagens,
doces enguias que ao morrer, fluviais,
alongaram as suas pétalas diminutas,
e uma bandeja de ácidos ouriços
darão o seu alaranjado submarino
ao fresco firmamento das alfaces.


E antes que a lebre marinada
encha de aroma o ar do almoço
como silvestre fuga de sabores,
para as ostras do sul, recém-abertas,
em seus estojos de esplendor salgado,
vai o meu beijo empapado nas substâncias
da terra que amo e que percorro
com todos os caminhos do meu sangue.




XX
A grande alegria

A sombra que indaguei já não me pertence.

Eu tenho a alegria duradoura do mastro,
a herança dos bosques, o vento do caminho
e um dia decidido sob a luz terrestre.


Não escrevo para que outros livros me aprisionem,
nem para encarniçados aprendizes de lírio,
mas para singelos habitantes que pedem
água e lua, elementos da ordem imutável,
escolas, pão e vinho, guitarras e ferramentas.


Escrevo para o povo ainda que ele não possa
ler a minha poesia com seus olhos rurais.

Virá o instante em que uma linha, a aragem
que removeu a minha vida, chegará aos seus ouvidos,
então o labrego levantará os olhos,
o mineiro sorrirá quebrando pedras,
o caldeireiro limpará a fronte,
o pescador verá melhor o brilho
dum peixe que palpitando lhe queimará as mãos,
o mecânico, limpo, recém-lavado, cheio
do aroma do sabão, olhará meus poemas,
e talvez eles dirão: “Foi um camarada”.


Isso é bastante, essa é a coroa que quero.


Quero que à saída da fábrica e das minas
esteja a minha poesia aderida à terra,
ao ar, à vitória do homem maltratado.

Quero que um jovem ache na dureza
que construí, com lentidão e com metais,
como uma caixa, abrindo-a, cara a cara, a vida,
e afundando a alma toque as rajadas que fizeram
minha alegria, nas alturas tempestuosas.




XXI
A morte

Renasci muitas vezes, desde o fundo
de estrelas derrotadas, reconstruindo o fio
das eternidades que povoei com as minhas mãos,
e agora vou morrer, sem nada mais, com terra
sobre o meu corpo, destinado a ser terra.


Não comprei uma parcela do céu que vendiam
os sacerdotes, nem aceitei trevas
que o metafísico manufaturava
para despreocupados poderosos.


Quero estar na morte com os pobres
que não tiveram tempo de estudá-la,
enquanto os espancavam os que têm
o céu dividido e arrumado.


Tenho pronta a minha morte, como uma roupa
que me espera, da cor que amo,
da extensão que procurei inutilmente,
da profundidade que necessito.


Quando o amor gastou a sua matéria evidente
e a luta debulha os seus martelos
em outras mãos de acrescentada força,
vem a morte para apagar os sinais
que foram construindo tuas fronteiras.




XXII
A vida

Que outro se preocupe com os ossários.
.
.

O mundo

tem uma cor nua de maçã: os rios
arrastam um caudal de medalhas silvestres
e em todas as partes vive Rosalía, a doce,
e Juan, o companheiro.
.
.

Ásperas pedras fazem
o castelo, e o barro mais suave que as uvas
com os restos do trigo fez minha casa.

Vastas terras, amor, sinos lentos,
combates reservados à aurora,
cabeleiras de amor que me esperaram,
depósitos adormecidos de turquesa:
casas, caminhos, ondas que constroem
uma estátua varrida pelos sonhos,
padarias na madrugada,
relógios educados na areia,
papoulas do trigo circulante,
e estas mãos escuras que amassaram
os materiais de minha própria vida:
para viver acendem-se as laranjas
sobre a multidão dos destinos!

Que os coveiros escarvem as matérias
aziagas: que levantem
os fragmentos sem luz da cinza,
e falem do idioma do verme.

Diante de mim só tenho sementes,
desenvolvimentos radiantes e doçura.




XXIII
Testamento (I)

Deixo aos sindicatos
do cobre, do carvão e do salitre
a minha casa junto ao mar de Isla Negra.

Quero que lá repousem os maltratados filhos
da minha pátria, saqueada por machados e traidores,
desbaratada em seu sangue sagrado,
consumida em vulcânicos farrapos.


Quero que ao limpo amor que percorresse
o meu domínio, descansem os cansados,
se sentem a minha mesa os obscuros,
durmam sobre a minha cama os feridos.


Irmão, esta é a minha casa, entra no mundo
de flor marinha e pedra constelada
que ergui lutando em minha pobreza.

Aqui nasceu o som na minha janela
como num crescente caracol
e logo estabeleceu as suas latitudes
em minha desordenada geologia.


Vens de abrasados corredores,
de túneis mordidos pelo ódio,
pelo salto sulfúrico do vento:
aqui tens a paz que te destino,
água e espaço de minha oceania.




XXIV
Testamento (II)

Deixo meus velhos livros, recolhidos
pelos rincões do mundo, venerados
em sua tipografia majestosa,
aos novos poetas da América,
aos que um dia
fiarão no rouco tear interrompido
as significações de amanhã.


Eles terão nascido quando o agreste punho
de lenhadores mortos c mineiros
haja dado uma vida inumerável
para limpar a catedral torcida,
o grão desengonçado, o filamento
que enredou as nossas ávidas planícies.

Toquem eles o inferno, este passado
que esmagou os diamantes, e defendam
os mundos cereais de seu canto,
o que nasceu na árvore do martírio.


Sobre os ossos de caciques, longe
de nossa herança traída, em pleno
ar de povos que caminham sós,
eles vão para povoar o estatuto
dum longo sofrimento vitorioso.


Que amem como eu amei meu Manrique, meu Góngora
meu Garcilaso, meu Quevedo:
foram
titânicos guardiães, armaduras
de platina e nevada transparência,
que me ensinaram o rigor, e busquem
em meu Lautréamont velhos lamentos
entre pestilenciais agonias.

Que em Maiakóvski vejam como ascendeu a estrela
e como de seus raios nasceram as espigas.




XXV
Disposições

Companheiros, enterrai-me em Isla Negra,
diante do mar que conheço, de cada área rugosa
de pedras e ondas que meus olhos perdidos
não tornarão a ver.

Cada dia do oceano
meu trouxe, névoa ou puros precipícios de turquesa,
ou simples extensão, água retilínea, invariável,
o que pedi, o espaço que devorou minha face.


Cada passagem enlutada de cormorão, o vôo
de grandes aves grises que amavam o inverno,
e cada tenebroso círculo de sargaço
e cada grave onda que sacode o frio,
e ainda mais, a terra que um escondido herbário
secreto, filho de brumas e sais, roído
pelo ácido vento, minúsculas corolas
da costa agarradas à infinita areia:
todas as chaves úmidas da terra marinha
conhecem cada estado da minha alegria, sabem
que lá quero dormir entre as pálpebras
do mar e da terra.
.
.

Quero ser arrastado
abaixo nas chuvas que o selvagem
vento do mar combate e esmiúça,
e logo pelos caudais subterrâneos, seguir
até a primavera profunda que renasce.


Abri junto a mim o vazio da que amo, e um dia”
deixai-a que outra vez me acompanhe na terra.




XXVI
Vou viver (1949)

Não vou morrer.
Saio agora
neste dia cheio de vulcões
para a multidão, para a vida.

Aqui deixo arrumadas estas coisas
hoje que os pistoleiros passeiam
com a “cultura ocidental” nos braços,
com as mãos que matam na Espanha
e as forcas que oscilam em Atenas
e a desonra que governa o Chile
e paro de contar.

Aqui fico
com palavras e povos e caminhos
que me esperam de novo, e que batem
com mãos consteladas em minha porta.




XXVII
A meu partido

Me deste a fraternidade para o que não conheço.

Me acrescentaste a força de todos os que vivem.

Me tornaste a dar a pátria como em um nascimento.

Me deste a liberdade que não tem o solitário.

Me ensinaste a acender a bondade, como o fogo.

Me deste a retidão que necessita a árvore.

Me ensinaste a ver a unidade e a diferença dos homens.

Me mostraste como a dor de um ser morreu na vitória de todos.

Me ensinaste a dormir nas camas duras de meus irmãos.

Me fizeste construir sobre a realidade como sobre uma rocha.

Me fizeste adversário do malvado e muro do frenético.

Me fizeste ver a claridade do mundo e a possibilidade da alegria.

Me fizeste indestrutível porque contigo não termino em mim mesmo.




XXVIII
Aqui termino (1949)

Este livro termina aqui.
Nasceu
da ira como uma brasa, como os territórios
de bosques incendiados, e desejo
que continue como uma árvore vermelha
propagando a sua clara queimadura.

Mas não somente cólera em seus ramos
encontraste: não somente as suas raízes
procuraram a dor mas também a força,
e força sou de pedra pensativa,
alegria de mãos congregadas.


Por fim, sou livre dentro dos seres.


Entre os seres, como o ar vivo,
e da solidão acurralada
saio para a multidão dos combates,
livre porque em minha mão vai a tua mão,
conquistando alegrias indomáveis.


Livro comum de um homem, pão aberto
é esta geografia do meu canto,
e uma comunidade de lavradores
algum dia recolherá o seu fogo
e semeará as suas chamas e suas folhas
outra vez na nave da terra.


E nascerá de novo esta palavra,
talvez em outro tempo sem dores,
sem as impuras fibras que aderiram
negras vegetações em meu canto,
e outra vez nas alturas estará ardendo
meu coração queimante e estrelado.

Assim termina este livro, aqui deixo
meu Canto geral escrito
na perseguição, cantando sob
as asas clandestinas de minha pátria.

Hoje, 5 de fevereiro, neste ano
de 1949, no Chile, em “Godomar
de Chena”, alguns meses antes
dos quarenta e cinco anos de minha idade.




1 420
Pablo Neruda

Pablo Neruda

Meio-Dia - LI

Teu riso pertence a uma árvore entreaberta
por um raio, por um relâmpago prateado
que do céu tomba quebrando-se na copa,
partindo em duas a árvore com uma só espada.


Nas terras altas da folhagem com neve apenas
nasce um riso como o teu, bem-amante,
é o riso do ar desatado na altura,
costumes de araucária, bem-amada.


Cordilheirana minha, chillaneja2 evidente,
corta com as facas de teu riso a sombra,
a noite, a manhã, o mel do meio-dia,


e que saltem ao céu as aves da folhagem
quando como uma luz esbanjadora
rompe teu riso a árvore da vida.








2 Chillaneja – espécie de pequena raposa. (N.T.)
1 171
Pablo Neruda

Pablo Neruda

Manhã - XXIV

Amor, amor, as nuvens à torre do céu
subiram como triunfantes lavadeiras,
e tudo ardeu em azul, foi tudo estrela:
o mar, a nave, o dia se desterraram juntos.


Vem ver as cerejeiras da água constelada
e a clave redonda do rápido universo,
vem tocar o fogo do azul instantâneo,
vem antes que suas pétalas se consumam.


Aqui não há senão luz, quantidades, cachos,
espaço aberto pelas virtudes do vento
até entregar os últimos segredos da espuma.


E entre tantos azuis-celestes, submergidos,
se perdem nossos olhos adivinhando apenas
os poderes do ar, as chaves submarinas.
1 112
Pablo Neruda

Pablo Neruda

Manhã - XXXI

Com loureiros do Sul e orégão de Lota
cinjo-te a coroa, pequena monarca de meus ossos,
e não pode faltar-te essa coroa
que elabora a terra com bálsamo e folhagem.


És, como o que te ama, das províncias verdes:
de lá trouxemos barro que nos corre no sangue,
na cidade andamos, como tantos, perdidos,
temerosos de que fechem o mercado.


Bem-amada, tua sombra tem olor de ameixa,
teus olhos esconderam no Sul suas raízes,
teu coração é uma pomba de alcanzia,


teu corpo é liso como as pedras na água,
teus beijos são cachos com orvalho,
e eu a teu lado vivo com a terra.
1 155
Pablo Neruda

Pablo Neruda

Iv - a Terra

Amarelo, amarelo continua sendo
o cachorro que por trás do outono circula
fazendo entre as folhas circunferências de ouro,
ladrando para os dias desconhecidos.
Assim vereis o imprevisto de certas situações:
junto ao explorador das terríveis fronteiras
que abrem o infinito, eis aqui o predileto,
o animal perdido do outono.
O que pode mudar de terra a tempo, de sabor a estibordo,
de luz velocidade a circunstância terrestre?
Quem adivinhará a semente na sombra
se como cabeleiras as mesmas frondes
deixam cair orvalho sobre as mesmas ferraduras,
sobre as cabeças que o amor reúne,
sobre as cinzas de corações mortos?
Este mesmo planeta, o tapete de mil anos,
pode florescer mas não aceita a morte nem o repouso:
as cíclicas fechaduras da fertilidade
se abrem em cada primavera para as chaves do sol
e ressoam os frutos fazendo-se cascata,
sobe e desce o fulgor da terra para a boca
e o humano agradece a bondade de seu reino.


Louvada seja a velha terra cor de excremento,
suas cavidades, seus ovários sacrossantos,
as adegas da sabedoria que encerraram
cobre, petróleo, ímãs, ferragens, pureza,
o relâmpago que parecia descer desde o inferno
foi entesourado pela antiga mãe das raízes
e cada dia saiu o pão para nos saudar
sem se importar com o sangue e a morte que nós homens vestimos,
a maldita progênie que faz a luz do mundo.
1 210
Pablo Neruda

Pablo Neruda

Iii - Mas Deu Fruto

Porém quando
entre os áridos
sistemas dos píncaros
aparece
o homem,
transformado,
quando
da yurta
brota o homem
que lutará com a natureza,
o homem que é não só
de uma tribo,
mas da incendida massa humana,
não o errante
prófugo das altas solidões,
ginete da areia,
mas meu camarada,
associado ao destino de seu povo,
solidário de todo o ar humano,
filho e continuador da esperança,
então,
cumpriu-se a tarefa
entre as cicatrizes dos montes:
ali também o homem é nosso irmão.

Ali a terra dura deu seu fruto.
1 127
Pablo Neruda

Pablo Neruda

O amor

Te amei sem por quê, sem de onde, te amei sem olhar, sem medida,
e eu não sabia que ouvia a voz da férrea distância,
o eco chamando à greda que canta pelas cordilheiras,
eu não supunha, chilena, que tu eras minhas próprias raízes,
eu sem saber como entre idiomas alheios li o alfabeto
que teus pés miúdos deixavam andando na areia
e tu sem tocar-me acudias ao centro do bosque invisível
a marcar a árvore de cuja casca voava o aroma perdido.
557
Pablo Neruda

Pablo Neruda

Eu Me Chamava Reyes

Eu me chamava Reyes, Catrileo,
Arellano, Rodriguez, tenho esquecido
meus nomes verdadeiros.
Nasci com sobrenome
de carvalho velho, de árvores recentes,
de madeira que assobia.
Eu fui depositado
nas folhas caídas,
afundou o recém-nascido
na derrota e no nascimento
de bosques que caíam
e casas pobres que recém choravam.
Eu não nasci mas me fundaram,
me puseram todos os nomes
de uma só vez,
me chamei matagal,
depois ameixeira, lariço e depois trigo,
por isso sou tanto e tão pouco,
tão multidão e tão desamparado,
porque venho debaixo,
da terra.
1 078
Pablo Neruda

Pablo Neruda

Manhã - XXX

Tens do arquipélago as fibras do alerce,
a carne trabalhada pelos séculos do tempo,
veias que conheceram o mar das madeiras,
sangue verde caído do céu à memória.


Ninguém recolherá meu coração perdido
entre tantas raízes, no frescor amargo
do sol multiplicado pela fúria da água,
ali vive a sombra que não viaja comigo.


Por isso tu saíste do Sul como uma ilha
povoada e coroada por plumas e madeira
e eu senti o aroma dos bosques errantes,


achei o mel escuro que conheci na selva,
e toquei em teus quadris as pétalas sombrias
que nasceram comigo e construíram minha alma.
1 379
Pablo Neruda

Pablo Neruda

País

Pequeno país que sobre os montes bravios e a água infinita
transcorres levando entre torvas rugas a luz mineral e as uvas do vinho
e de um lugar a outro ao chileno moreno e errante
que fura a pedra de sua sepultura vulcânica
com a calça remendada e os olhos feridos.

Vem visitar-me estrangeiro entre Arica e a Terra do Fogo:
faz frio nas ilhas e o mar hasteia o moinho de seu movimento,
as moradas se encolhem ao passo do céu que como um cavalo irritado
galopa na noite frenética golpeando os tetos do homem.

Abriu o vendaval a janela e entrou na cozinha buscando
o fogo que coze as pobres batatas do povo perdido.

País, torre erguida na altura do agroplaneta,
queimado por uma coroa de cruéis relâmpagos
e depois entregado às locomotivas dos terremotos
e depois à fervente imundície dos arrabaldes
e depois ao deserto que espera e devora o viajante
e depois os mares hirsutos que rompem os olhos dos pescadores
e depois no campo a sede da terra, a sede amarela,
e depois o carvão que em sua cova aniquila os heróis negros
e depois a pobre família atacada pelos buracos
do teto e da roupa, olhando a sapataria,
divisa os pés dos anjos com sapatos novos no Paraíso.
537
Pablo Neruda

Pablo Neruda

A nostalgia

Daquelas aldeias que cruzam o inverno e as ferrovias
invicto saía apesar dos anos meu escuro relâmpago
que ainda ilumina as ruas adversas onde se uniram o frio
e a lama como as duas asas de uma ave terrível:
agora ao chegar à minha vida teu aroma escarlate
tremeu minha memória na sombra perdida como se no bosque
rompesse um elétrico canto a palpitação da terra.
1 125
Pablo Neruda

Pablo Neruda

Descrição de Capri

A vinha na rocha, as gretas do musgo, os muros que enredam
as trepadeiras, os plintos de flor e de pedra:
a ilha é a cítara que foi colocada na altura sonora
e corda por corda a luz ensaiou do dia remoto
sua voz, a cor das letras do dia,
e do seu fragrante recinto voava a aurora
derrubando o orvalho e abrindo os olhos da Europa.
1 364
Pablo Neruda

Pablo Neruda

Os sonhos

Irmã da água empenhada e de suas adversárias
as pedras do rio, a argila evidente, a tosca madeira;
quando levantavas sonhando a fronte na noite de Capri
caíam espigas de tua cabeleira, e em meu pensamento
voava o hipnótico enxame do campo do Chile;
meu sonho desviava seus trens para Antofagasta;
entravam chovendo na alva de Pillanlelbún,
ali onde o rio recolhe o cheiro do velho curtume
e a chuva salpica o recinto dos derrubados.
1 059
Pablo Neruda

Pablo Neruda

A doce pátria

A terra, minha terra, meu barro, a luz sanguinária do orto vulcânico
a paz claudicante do dia e a noite dos terremotos,
o boldo, o loureiro, a araucária ocupando o perfil do planeta,
o pastel de milho, a corvina saindo do forno silvestre,
o pulsar do condor subindo na ascética pele da neve,
o colar dos rios que ostentam as uvas de lagos sem nome,
os patos selvagens que emigram para o polo magnético riscando o crepúsculo dos litorais,
o homem e sua esposa que leem após a comida novelas heroicas,
as ruas de Rengo, Rancágua, Renaico, Lancoche,
a fumaça do campo no outono perto de Quirihue,
ali onde minha alma parece uma pobre guitarra que chora
cantando e caindo a tarde nas águas escuras do rio.
1 095
Pablo Neruda

Pablo Neruda

III - A ilha

Antiga Rapa Nui, pátria sem voz,
perdoa a nós, os tagarelas do mundo:
viemos de todas as partes para cuspir em tua lava,
chegamos cheios de conflitos, de divergências, de sangue,
de pranto e digestões, de guerras e de pêssegos,
em pequenas fileiras de inimizade, de sorrisos
hipócritas, reunidos pelos dados do céu
sobre a mesa de teu silêncio.

Mais uma vez chegamos para ofender-te.

Saúdo primeiro a cratera, Ranu Raraku, suas pálpebras
de lodo e seus velhos lábios verdes:
é amplo, e altos muros o circundam, o encerram,
más a água lá em baixo, mesquinha, suja, negra,
vive, se comunica com a morte
como um iguana imóvel, sonolenta, escondido.

Eu, aprendiz de vulcões, conheci,
criança ainda, as línguas do Aconcágua,
o vômito incendiado do vulcão Tronador,
na noite espantosa vi cair
a luz do Villarrica fulminando as vacas,
torrencial, abrasando plantas e acampamentos,
crepitar derrubando penhascos na fogueira.

Mas se aqui minha infância tivesse me deixado,
neste vulcão morto já faz mil anos,
neste Ranu Raraku, umbigo da morte,
teria uivado de terror e teria obedecido:
teria deslizado minha vida em silêncio,
teria caído no medo verde, na boca da cratera desdentada,
transformando-me em lodo, em línguas do iguana.

Silêncio depositado no vale, terror
da boca lunária, há um minuto, uma hora
pesada como si o tempo tivesse parado
para converter-se em imensa pedra:
é um momento, logo
também dissolve o tempo sua nova estátua impossível
e fica o dia imóvel, como um encarcerado
dentro da cratera, dentro do cárcere da cratera,
dentro dos olhos do iguana da cratera.
1 049
Pablo Neruda

Pablo Neruda

Meio-Dia - XLVII

Detrás de mim no ramo quero ver-te.
Pouco a pouco te converteste em fruto.
Não te custou subir das raízes
cantando com tua sílaba de seiva.


E aqui estarás primeiro em flor fragrante,
na estátua de um beijo convertida,
até que o sol e terra, sangue e céu,
te concedam a delícia e a doçura.


No ramo verei tua cabeleira,
teu sinal madurando na folhagem,
acercando as folhas a minha sede,


e tua substância encherá minha boca,
o beijo que subiu da terra
com teu sangue de fruta enamorada.
1 158
Pablo Neruda

Pablo Neruda

La Chascona

A pedra e os pregos, a tábua e a telha se uniram: eis aqui levantada
a casa enredada com água que corre escrevendo em seu idioma,
as sarças guardavam o sítio com sua sanguinária ramagem
até que a escada e seus muros souberam teu nome
e a flor encrespada, a vide e seu alado pingente,
as folhas de figueira que como estandartes de raças remotas
erguiam suas asas escuras sobre tua cabeça,
o muro de azul vitorioso, o ônix abstrato do solo,
teus olhos, meus olhos, estão derramados em rocha e madeira
por todas as partes, os dias febris, a paz que constrói
e continua ordenada a casa com tua transparência.

Minha casa, tua casa, teu sonho em meus olhos,
teu sangue continuando o caminho do corpo que dorme
como uma pomba fechada em suas asas imóvel persegue
seu voo
e o tempo recolhe em sua taça teu sonho e o meu
na casa que apenas nasceu das mãos despertas.
A noite encontrada por fim na nave que construímos,
a paz de madeira cheirosa que continua com pássaros,
que segue o sussurro do vento perdido nas folhas
e das raízes que comem a paz suculenta do húmus
enquanto sobrevém sobre mim adormecida a lua da água
como uma pomba do bosque do Sul que dirige o domínio
do céu, do ar, do vento sombrio que te pertence,
adormecida, dormindo na casa que fizeram tuas mãos,
delgada no sonho, no germe do húmus noturno
e multiplicada na sombra como o crescimento do trigo.

Dourada, a terra te deu a armadura do trigo,
a cor que os fornos cozeram com barro e delícia,
a pele que não é branca nem é negra nem vermelha nem verde,
que tem a cor da areia, do pão, da chuva,
do sol, da pura madeira, do vento,
tua carne cor de sino, cor de alimento fragrante,
tua carne que forma a nave e encerra a onda!

De tantas delgadas estrelas que minha alma recolhe na noite
recebo o orvalho que o dia converte em cinza
e bebo a taça de estrelas defuntas chorando as lágrimas
de todos os homens, dos prisioneiros, dos carcereiros,
e todas as mãos me buscam mostrando uma chaga,
mostrando a dor, o suplício ou a brusca esperança,
e assim sem que o céu e a terra me deixem tranquilo,
assim consumido por outras dores que mudam de rosto,
recebo no sol e no dia a estátua de tua claridade
e na sombra, na lua, no sonho, o racimo do reino,
o contato que induz meu sangue a cantar na morte.

O mel, bem-amada, a ilustre doçura da viagem completa
e ainda, entre longos caminhos, fundamos em Valparaíso uma torre,
por mais que em teus pés encontrasse minhas raízes perdidas
tu e eu mantivemos aberta a porta do mar insepulto
e assim destinamos à La Sebastiana o dever de chamar os navios
e ver sob a fumaça do porto a rosa incitante,
o caminho cortado na água pelo homem e suas mercadorias.

Mas azul e rosado, roído e amargo entreaberto entre suas teias de aranha,
eis aqui, sustentando-se em fios, em unhas, em trepadeiras,
eis aqui vitorioso, andrajoso, cor de sino e mel,
eis aqui vermelhão e amarelo, purpúreo, prateado, violeta,
sombrio e alegre, secreto e aberto como uma melancia
o porto e a porta do Chile, o manto radiante de Valparaíso,
o sonoro estupor da chuva nos cerros carregados de
padecimentos
o sol resvalando no escuro olhar, nos olhos mais belos do mundo.

Eu te convidei para a alegria de um porto agarrado à fúria do alto marulho,
metido no frio do último oceano, vivendo em perigo,
formosa é a nave sombria, a luz vesperal dos meses antárticos,
a nave de teto amaranto, o punhado de velas ou casas ou vidas
que aqui se vestiram com trajes de honra e bandeiras
e se sustiveram caindo no terremoto que abria e fechava o inferno,
tomando ao fim pela mão os homens, os muros, as coisas,
unidos e desvencilhados no estertor planetário.

Cada homem contou com suas mãos os bens funestos, o rio
de suas extensões, sua espada, sua rédea, seu gado,
e disse à esposa “Defende teu páramo ardente ou teu campo
de neve”
ou “Cuida da vaca, dos velhos teares, da serra ou do ouro”.

Muito bem, bem-amada, é a lei dos séculos que foram atando-se
dentro do homem, em um fio que atava também suas cabeças:
o príncipe jogava as redes com o sacerdote enlutado,
e enquanto os deuses calavam, caíam no cofre moedas
que ali acumularam a ira e o sangue do homem nu.

Por isso, erigida a base e abençoada por corvos escuros
subiu o interesse e dispôs na peanha seu pé mercenário,
depois à Estátua impuseram medalhas e música,
jornais, rádios e televisores cantaram a loa do Santo Dinheiro,
e assim até o provável, até quem não pode ser homem,
o manumitido, o nu e faminto, o pastor lacerado,
o empregado noturno que rói em trevas seu pão disputado aos ratos,
acreditaram que aquele era deus, defenderam a Arca suprema
e se sepultaram no humilhado indivíduo, cansados de
orgulho emprestado.
1 497
Pablo Neruda

Pablo Neruda

XLI

Quanto dura um rinoceronte
depois de ser enternecido?

Que contam de novo as folhas
da recente primavera?

As folhas vivem no inverno
em segredo, com as raízes?

Que aprendeu a árvore da terra
para conversar com o céu?
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