Tristeza e Melancolia

Poemas neste tema

Helena Parente Cunha

Helena Parente Cunha

Sem Palavras

por que que me fiz
só e triste
sem palavras?

o rosto escasso
traça os silêncios
que empenho

sucedo
horizontes vagos
rotas sem metas

espera vã
da hora súbita
por que dizer

1 152
Francisco Handa

Francisco Handa

Inverno

Geou de manhã:
passarinho congelado
aquecendo os ovos.

Menino da feira
molhado pela garoa
arrasta a sacola.

869
Helena Ortiz

Helena Ortiz

Soco

essa lágrima que dói
esse sufoco
essa boca seca

sempre esse eco
no espaço chumbo
esse galho
que escurece
e cai

943
Hidemasa Mekaru

Hidemasa Mekaru

Haicai

recaída punk

o ácido do cotidiano
corrói o meu sonho
feito sal na lesma

hoje

estou feito
gato escaldado
na cumeeira do tédio

876
Glícia Rodrigues

Glícia Rodrigues

Nada

Num dia cinza
Mais triste que uma vida triste
Peguei uma cebola
Meticulosamente tirei
Capa por capa
Querendo descobrir não sei quê
Desmanchei-a cuidadosamente
Para nada machucar
Não chorei
Também não choveu
Como das outras vezes aprontei o jantar
E nada absolutamente nada aconteceu
E a noite continuou coma a mesma triste dor.

811
Flávio Villa-Lobos

Flávio Villa-Lobos

Desencontro

Tantas mentiras dissemos um
ao outro
querendo esconder a verdade
que nos atinge.
Pertencemos a mesma sina
cantamos a mesma música
somos o vértice
da mesma esquina.

Paira no ar um certo
desvario
(depois de tua enésima partida)
e me faz pensar
como a vida
é cheia de lugares vazios,
de tolos pensamentos,
de horas mal vividas.

810
Gabriel Archanjo de Mendonça

Gabriel Archanjo de Mendonça

Segredo

Eu quis depositar o meu segredo
nas tuas mãos de brasa
e desnudar minha alma ressequida
ante a crepitação de teus olhos.
Mas o vento
que me embalava o sonho
e que me trouxe a teus pés
soprou o sol
que forrava a tua imagem
e a noite se fez.
Que o vento
vomite as cinzas de meu sonho
por sobre a realidade
do meu leito.

852
Fanny Luíza Dupré

Fanny Luíza Dupré

Inverno

Rua esburacada.
Brincando nas poças d’água.
O menino tosse.

960
Emílio Moura

Emílio Moura

Renúncia

Se eu cheguei a esta renúncia total, foi porque o meu sofrimento me transfigurou sem que eu o percebesse.
Aqui estou, tímido e humilde.
Parece que aqui estou há séculos.

Meus olhos já não compreendem outra realidade.

A realidade que amei dorme na sombra.

1 032
Emílio Moura

Emílio Moura

Despedida

Ventura que nunca tive,
paz irreal que nunca veio.
A vida fecha o horizonte,
chega a noite sem rumor.

Cala-se a voz. (já era tímida).
Meu eco morre aqui mesmo.
Que importa à sombra que desce
o grito que não se ouviu?

1 012
Adriano Espínola

Adriano Espínola

Haicai

Tristeza

Uma árvore torta.
Uma ave cantando grave.
A tarde já morta.

Outono

Folhas. Ventania.
Cajus se despencam nus:
apodrece o dia.

2 661
Daniel Orlandi Mattos Edmundson

Daniel Orlandi Mattos Edmundson

Para os Amigos

Se eu pudese dizer o que sinto,
E, eu juro que não minto,
Não teria mais amigos
E não estaria mais vivo

Longe daqui,
Me poria a olhar, a observar
E quando a saudade intensa chegar,
Me poria a chorar.

Por isso prefiro não ver,
Ver que não tenho amigos.
Graças a Deus; que me deu o dom,
O dom de não ver.

890
Fernanda Teixeira

Fernanda Teixeira

Nos Campos do Senhor

Nos campos do senhor,
aqui,
reflito,
penso:
vida

Nos campos do senhor,
aqui compartilho
lágrimas:
me obrigam a pedir:

Oh, tristeza!
Cadê teu fim?

831
Donizete Galvão

Donizete Galvão

Sim, One

O que sinto , a língua não fala.

Há uma dor que não tem nome.

Musgo de abismo que o sopro

da voz alcança e macera.

Dont let me be misunderstood.

I dont want to be alone.

871
Cynara Novaes

Cynara Novaes

O barco passou

O barco passou
e o vento passou
e o sol não veio
não veio

A nuvem passou
a manhã passou
e a alegria não veio
não veio

A menina passou
a moça passou
e a lua não veio
não veio

A menina ficou
o tempo ficou
pois a vida não veio
não veio

957
Carlos Magalhães de Azeredo

Carlos Magalhães de Azeredo

Despedida

Não me coroes, Alma querida, de rosas: o encanto
Da juventude é efêmero; e a minha é quase extinta.

Também não me coroes de louros: a Glória não fala
Ao coração, nem o ouve; passa, longínqua e fria.

Coroa-me des heras, que abraçam as graves ruínas:
São da humildade símbolo e da tristeza eterna ...

843
Clinio Jorge de Souza

Clinio Jorge de Souza

Haicai

Seca... urubus
na vida vazia o vento
assobia blues

Cigarra vadia:
vida-melodia escorrida
da casca vazia

1 111
Claudia Moraes Rego

Claudia Moraes Rego

Exílio e Miopia (para Julia)

"Olha o balão!"
Não via.
Não falava nada.

"Olha o gavião!"
Não via.
Calava.

"Olha o Cristo Redentor!"
Puxa, não via!
Mas fingia

"O bondinho!"
Nada.
Era assim.

Certamente,
sem dúvida nenhuma,
fazia parte
(tinha caído do lado)
da tribo dos exilados
do prazer.

828
Carlos Nóbrega

Carlos Nóbrega

O Passado

Tudo vive a cair
lentamente
Lentamente
indo ao chão
como um som
vem caindo
em busca de repouso
- lentamente
à sua cova de silêncio

982
Castro Alves

Castro Alves

Fragmento

HÁ FLORES tristes, que nascendo à noite
Só têm o açoite
Do cruento sul
E sem que um raio lhes alente a seiva,
Rolam na leiva
De seu vil paul.

Eu sou como elas. A vagar sozinho

Sigo um caminho
De ervaçais e pó

A luz de esprança bruxuleia a custo
Tremo de susto,
De morrer tão só.

4 167
Antônio de Oliveira

Antônio de Oliveira

Décima

Tanto Pirene chorou
Que em fonte se converteu:
Mas Diana que a ofendeu
Por que em fonte a transformou?
Porque como desejou
Ter uma fonte perene
(Qual a famosa Hipocrene)
De Pirene a fonte faz:
Porque no nome já traz
O ser perene Pirene.

1 228
Almeida Garrett

Almeida Garrett

Tronco Despido (1828)

Virgílio,
Sine nomine corpus
Qual tronco despido
De folha e de flores,
Dos ventos batido
No inverno gelado
De ardentes queimores
No estio abrasado,
De nada sentido,
Que nada ele sente...
Assim ao prazer,
À dor indifrente,
Vão-me as horas da vida
Comprida
Correndo,
Vivendo,
Se é vida
Tam triste viver.

3 048
Alfredo José Assunção

Alfredo José Assunção

Mais uma Abstração

Não quero música.Não quero amor.Não quero tempo, espaço ...

Quero ficar aquiouvindo os carros,vendo o mar parado.

Sentindo os pingos frioscaindo-me nos pés,fechando-me as mãos.

Não quero intervir em nada.Quero apenas ser mais uma abstração.

656
Alexandre Marino

Alexandre Marino

Águas

pés na enxurrada
eu vou chovendo
enquanto o dia chora

e a vida
por dentro
me molha.

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