Tempo e Passagem
Poemas neste tema
Vasko Popa
- Debaixo da terra
João Apolinário
A pressa de chegar...
correr correr
sem poder esperar
Chegar para morrer
–
A pressa de chegar
O desvario obtuso
O medo de parar
gasto pelo uso
de estar
–
A pressa de chegar
A pressa a louca pressa
de poder encontrar
aquilo que me esqueça
de levar
–
A pressa de chegar
correr correr
sem poder esperar
Chegar para morrer
.
.
.
Vasko Popa
Quartzo
Aparece
Com o emocionado pulso das ocasiões
Move-se
Com o passo atrevido dos tempos
Tudo cinge
Em seu terrível
Interno abraço
Tronco liso branco exato
Sorri com a sobrancelha da lua
Rui Knopfli
Maxilar triste
atenuando o bordo rijo
desse rosto derradeiro
de brancura infinita.
Impugnando-lhe a doçura,
a antinomia do tempo
acentuará os duros ângulos
num mapa de tristeza
irreparável. O sorriso
vago nela projecta um
brilho fosco de loiça antiga:
espreitando na carne
os dentes anunciam o resto.
Paulo Leminski
a gente ia ser homero
a gente ia ser homero
a obra nada menos que uma ilíada
depois
a barra pesando
dava pra ser aí um rimbaud
um ungaretti um fernando pessoa qualquer
um lorca um eluárd um ginsberg
por fim
acabamos o pequeno poeta de província
que sempre fomos
por trás de tantas máscaras
que o tempo tratou como a flores
Isabel Câmara
Ilógica
é a Bigorna que o modifica
Sandro Penna
Se passa uma beleza que se apressa
não te ensombra a alma não tê-la estreitado.
Voltas o rosto para o verde ocaso.
Numa bicicleta passou a Beleza.
:
Se passa una bellezza che va in fretta
non hai l'anima nera, per non averla stretta.
Tu guardi al cielo verde nella prima
sera. Passata è la Bellezza in bicicletta.
de Croce e delizia (1958)
Sandro Penna
Juventude, amor, belas palavras,
que coisa brilha em vós e vos resseca?
Resta apenas um odor de merda seca
ao longo do caminho ensolarado.
:
Amore, gioventù, liete parole,
cosa splende su voi e vi dissecca?
Resta un odore come merda secca
lungo le siepe cariche di sole.
de Croce e delizia (1958)
Henriqueta Lisboa
Calendário
fictícia
caindo da árvore
dos dias
de Reverberações (1976)
Jaime Gil de Biedma
Voltar
no instante, de ti:
essa expressão e um matiz
dos olhos, um pouco suave
na inflexão de tua voz,
e teus bocejos furtivos
de lebréu que dormiu mal
toda a noite em meu quarto.
Voltar, passados os anos,
rumo à felicidade
— para ver-se e recordar
que estou também mudado.
(de Moralidades)
Donizete Galvão
Fachada
Luís Filipe Castro Mendes
A CAMILO PESSANHA, PASSANDO EM JAIPUR
Vasco Graça Moura
As aves migram em Setembro
nem vou com elas, nem
guardo delas
a mínima memória.
escurece mais cedo,
o tempo não se rouba,
escoa-se como o frio
por uma camisola
até dentro da pele.
as aves migram
calmamente, eu
permaneço aqui
de guarda à água lisa que viu passar seus bandos
e em que hás-de debruçar-te.
Luís Filipe Castro Mendes
Glosa a uns versos de Nemésio
Se com quase quarenta anos mal começa,
ovo de tanta coisa, o coração,
que direi hoje, com quase sessenta anos?
Que névoa fria cerca agora o coração
e que voz de dentro resiste a essa névoa,
pois o amor não pára enquanto continuar
o mundo?
Abre os olhos, meu amor:
o mundo é vasto e diverso e brilha
por entre a névoa mais densa.
Ana Paula Ribeiro Tavares
Cerimónia de Passagem
a pedra produziu lume"
a rapariga provou o sangue
o sangue deu fruto
a mulher semeou o campo
o campo amadureceu o vinho
o homem bebeu o vinho
o vinho cresceu o canto
o velho começou o círculo
o círculo fechou o princípio
"a zebra feriu-se na pedra
a pedra produziu lume"
Péricles Eugênio da Silva Ramos
Fonte
na água trêmula
Publicado no livro Lua de Ontem (1960). Poema integrante da série Um Homem e seus Fantasmas.
In: RAMOS, Péricles Eugênio da Silva. Poesia quase completa. Rio de Janeiro: J. Olympio, 197
Eunice Arruda
Sentença
iniciarmos
cedo
As coisas são demoradas
E não é bom
colher os frutos
quando a boca não
conseguir mais
saboreá-los
In: ARRUDA, Eunice. Invenções do desespero. São Paulo: Ed. da autora, 1973
Eudoro Augusto
78 [a uva da luxúria depois de seca
dá uma passa deliciosa
dizem
In: AUGUSTO, Eudoro. Cabeças: 88 poemas. Rio de Janeiro: s.n., 1981. (Capricho)
Péricles Eugênio da Silva Ramos
Céus Nossos
nossa é a graça,
a graça de existir por um momento.
Chamas, ensinai-nos a lição
de iluminar morrendo.
In: RAMOS, Péricles Eugênio da Silva. A noite da memória. São Paulo: Art Ed., 1988
Ilka Brunhilde Laurito
Folclírica 3
entrada e saída.
Eu:
estou de visita.
(Quem pôs
a vassoura
atrás da porta
do invisível?)
1975
Poema integrante da série Inéditos, 1971/1977.
In: LAURITO, Ilka Brunhilde. Sal do lírico: antologia poética. São Paulo: Quíron, 1978. p.111. (Sélesis, 13
Henriqueta Lisboa
Calendário
fictícia
caindo da árvore
dos dias
Publicado no livro Reverberações (1976).
In: LISBOA, Henriqueta. Obras completas I: poesia geral, 1929/1983. Pref. Fábio Lucas. São Paulo: Duas Cidades, 198
Armando Freitas Filho
Micro
Não há saída viva da vida.
Murmúrio de rádio através dos muros.
Vozes miúdas
roendo por dentro
no dia-a-dia
de mordidas mínimas e minuciosas.
16 nov. 89
In: FREITAS FILHO, Armando. Cabeça de homem, 1987/1990. Pref. Luiz Costa Lima. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1991. (Poesia brasileira)
Zuca Sardan
Menino Precoce
e da cigana Astúcia,
o Tempo foi um bebê difícil,
muito manhoso e macambúzio
que fazia xixi
na barba branca ...
In: SARDAN, Zuca. Osso do coração. Il. do autor. Campinas: Ed. da Unicamp, 1993. (Matéria de poesia)
Eunice Arruda
Não Mudamos
não mudamos
o tempo
escorreu
água entre
os dedos
pena
pássaros coloridos alcançam as nuvens
todos os dias
ficamos
Raízes.
In: ARRUDA, Eunice. Os momentos. Pref. Álvaro Alves de Faria. São Paulo: Nobel: Secretaria de Estado da Cultura, 1981
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