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Poemas neste tema

Bob Cobbing

Bob Cobbing

Este é um poema quadrado

Este é um poema quadrado.
Este poema é um quadrado.
É um poema este quadrado?
Este quadrado é um poema,
Este quadrado é. Um poema
É um poema – este quadrado.
Este é um quadrado-poema.
Um quadrado-poema é este
Poema. Este é um quadrado.
Um poema quadrado é este
Quadrado. Este é um poema,
este é. Um quadrado-poema.
922
Tite de Lemos

Tite de Lemos

áspera Prisma lápice cria'anza

áspera Prisma lápice cria'anza
la flecsa sena pied ah! senz' aPap
a imagignota iu velo, cino, manza
lar a mañan lefeu los fus deh lap

? ah , ssim, Uz prism a sphera vossos olhos
des fhh' olhamsse çus brutos vanall'ar
y oyo loero siam lahor come si molhan
as cquerras infinitamente du vagar

os músculos extrêmeros a musa
quem trouxe o ver a nua nau a única
rainha do oceano acolhedor e fundo

nozes loslazos vozla te enlaçassem
eu sou teu caçador e eu sou a tua casa
e si un undécimo varvar das Portas

: prisma. Ver



754
Hilda Hilst

Hilda Hilst

O Poeta Inventa Viagem, Retorno e Morre de Saudade (I)

Se for possível, manda-me dizer:
- É lua cheia. A casa está vazia -
Manda-me dizer, e o paraíso
Há de ficar mais perto, e mais recente
Me há de parecer teu rosto incerto.
Manda-me buscar se tens o dia
Tão longo como a noite. Se é verdade
Que sem mim só vês monotonia.
E se te lembras do brilho das marés
De alguns peixes rosados
Numas águas
E dos meus pés molhados, manda-me dizer:
- É lua nova -
E revestida de luz te volto a ver.
in Júbilo Memória Noviciado da Paixão (1974)
1 128
Juan Gelman

Juan Gelman

Limites

Quem disse alguma vez: até aqui a sede,
até aqui a água?

Quem disse alguma vez: até aqui o ar,
até aqui o fogo?

Quem disse alguma vez: até aqui o amor,
até aqui o ódio?

Quem disse alguma vez: até aqui o homem,
até aqui não?

Somente a esperança tem joelhos nítidos.
Sangram.

(tradução de Antonio Miranda)

:

Límites

¿Quién dijo alguna vez: hasa aquí la sed,
hasta aquí el agua?

¿Quién dijo alguna vez: hasta aquí el aire,
hasta aquí el fuego?

¿Quién dijo alguna vez: hasta aquí el amor,
hasta aquí el odio?

¿Quién dijo alguna vez: hasta aquí el hombre,
hasta aquí no?

Sólo la esperanza tiene las rodillas nítidas.
Sangran.

1 854
Affonso Ávila

Affonso Ávila

Advertência da gerontóloga

rosto composto mosto decomposto em cara-
quadro vegetal de arcimboldo
retro old man maquiado de fimbrias desfibradas
do diabo guisado requentado em rescaldo ou
rescoldo
(sabe-se aqui o que de culinária quando muito de
azia e suas carquejadas)
de rabanete nabo quiabo em babas mal
temperadas
mas vá lá vadio pé-de-valsa goliardo goliold(o)
young old man without gold or god oficial de
ofício das madrugadas
o dia foi duro irmão durão as favas a fatiota de
dom Bertoldo


975
Bronisława Wajs

Bronisława Wajs

Historinha cigana

Ela molda uma andorinha
sob minha janela o ninho,
andorinha negra
como a Ciganinha.
Ela nos apontou bons caminhos.
Ela viveu em estábulos e casas.
Ela morreu num pântano.
697
Zbigniew Herbert

Zbigniew Herbert

O Sr. Cogito lê o jornal

A primeira página diz
120 soldados mortos

a guerra foi longa
você se acostuma

bem ao lado a notícia
de um crime incrível
e a foto do assassino

o olhar do Sr Cogito
se move indiferente
pela hecatombe de soldados
e mergulha com deleite
no macabro quotidiano

camponês de trinta anos
então maníaco depressivo
matou a própria esposa
e mais duas criancinhas

contam o modo exato
com que foram mortos
a posição dos corpos
e outros detalhes

é inútil tentar achar
120 perdidos num mapa
a distância tão remota
esconde como floresta

não falam à imaginação
há demasiados deles
o zero no fim os transforma
em mera abstração

um tema para refletir:
a aritmética da compaixão.

(tradução de Dirceu Villa)


.
.
.
844
Pat Lowther

Pat Lowther

Antes que chegue o demolidor

Antes que cheguem os demolidores
Arranque pela raiz o lírio
No ângulo duro de terra
Ao lado da casa.
Agache-se sobre o lixo e os despojos
Contra a escada gradeada do porão
(O relâmpago repentino
De sol
Nas suas costas
Por entre o abrir
E fechar
Do varal aos sopros de março,
Ascensão e queda de luz ágil
Como a golpes.)
Aqui o ensaboar em mucos
De uma vida inteira
Azeda a terra,
Neste canto
Sob a escada,
Mas não matou
Os bichos-de-conta
Nem as pupas das mariposas
Que roçam seus dedos
Ao cavar
Em busca da raiz robusta, redonda,
A raiz do lírio
Que de alguma forma, sem sentido,
Tampouco foi morta
Mas cresceu a cada ano
Uma assombrada infância,
Uma arregalada Páscoa.
Encaixote-a entre as fotos,
O polidor da prataria,
E as últimas roupas por lavar
Que não mais
Hão de subir e tremular
Ao sol que destroça.
Marque sua caixa: X
Duas linhas que se cruzam,
Um ponto em grade
Do tempo
E das estações do ano.
Antes que cheguem os demolidores,
Carregue para longe
O bulbo-relâmpago do sol.
(tradução de Ricardo Domeneck)
269
Paulo Leminski

Paulo Leminski

desta vez não vai ter neve

desta vez não vai ter neve como em petrogrado aquele dia
o céu vai estar limpo e o sol brilhando
você dormindo e eu sonhando

nem casacos nem cossacos como em petrogrado aquele dia
apenas você nua e eu como nasci
eu dormindo e você sonhando

não vai mais ter multidões gritando como em petrogrado
[aquele dia
silêncio nós dois murmúrios azuis
eu e você dormindo e sonhando

nunca mais vai ter um dia como em petrogrado aquele dia
nada como um dia indo atrás do outro vindo
você e eu sonhando e dormendo

3 108
Miklós Radnóti

Miklós Radnóti

Céu espumante

No céu que espuma, a lua oscila.
Estar vivo me causa espécie.
A morte assídua espreita a Idade:
quem ela encontre, empalidece.
O ano grita e depois desmaia.
(Gritara olhando ao seu redor.)
Que outono ronda-me de novo?
Que inverno embotado de dor?
Sangrava o bosque; mesmo as horas
sangravam no vaivém dos dias.
Ventos riscavam, sobre a neve,
cifras enormes e sombrias.
Já vi de tudo; o ar me esmaga
com seu peso; um silêncio cresce
ruidoso, cálido e me abraça
como fez antes que eu nascesse.
Detenho-me junto de um tronco
que agita iroso as frondes plenas
e estende um galho. Há de esganar-me?
Não é fraqueza ou medo – apenas
cansaço. Calo. E o galho apalpa
os meus cabelos, mudo, aflito.
Cabe esquecer – mas não há nada
de que já tenha me esquecido.
Espuma afoga a lua; o miasma
estria os céus, verde e agressivo.
Sem pressa, enrolo com cuidado
o meu cigarro. Eu estou vivo.
(tradução de Nelson Ascher)
:
Tajtékos ég
Miklós Radnóti
Tajtékos égen ring a hold,
csodálkozom, hogy élek.
Szorgos halál kutatja ezt a kort
s akikre rálel, mind olyan fehérek.
Körülnéz néha s felsikolt az év,
körülnéz, aztán elalél.
Micsoda osz lapul mögöttem ujra
s micsoda fájdalomtól tompa tél!
Vérzett az erdo és a forgó
idoben vérzett minden óra.
Nagy és sötétlo számokat
írkált a szél a hóra.
Megértem azt is, ezt is,
súlyosnak érzem a levegot,
neszekkel teljes, langyos csönd ölel,
mint születésem elott.
Megállok itt a fa tövében,
lombját zúgatja mérgesen.
Lenyúl egy ág. Nyakonragad?
nem vagyok gyáva, gyönge sem,
csak fáradt. Hallgatok. S az ág is
némán motoz hajamban és ijedten.
Feledni kellene, de én
soha még semmit sem feledtem.
A holdra tajték zúdúl, az égen
sötétzöld sávot von a méreg.
Cigarettát sodrok magamnak,
lassan, gondosan. Élek.
1 111
Kenneth Rexroth

Kenneth Rexroth

Num Cemitério Militar

Estranho, quando vier a Washington
Diga a eles que aqui deitados
Aguardamos suas ordens.
c/ Simônides
ON A MILITARY GRAVEYARD
Stranger, when you come to Washington
Tell them that we lie here
Obedient to their orders.
after Simonides
582
Bessie Head

Bessie Head

Coisas de que não gosto

Eu sou negra.
Tá bem?
Sol forte e disposição geográfica
Fizeram-me negra;
E através de minha pele
Muita coisa acontece comigo
DE QUE NÃO GOSTO
E acordo toda manhã
Com sangue homicida nos olhos
Porque um malandro me roubou de novo,
Levando o pouco que tinha nas mãos
Com todo o mundo assistindo
E fazendo nada
Tá bem?
Ah, não.
Hoje é meu dia.
Vou recuperar tintim por tintim,
Tudo o que me roubaste.
Vou à briga até que tu e eu
Estejamos no chão esvaindo-nos em sangue,
E não me importa quem morra, tu ou eu,
Mas vou para a briga -
Tá bem?
:
Things I Don't Like
I am Black.
Okay?
Hot sun and the geographical set-up
Made me Black;
And through my skin
A lot of things happen to me
THAT I DON'T LIKE
And I wake each morning
Red murder in my eyes
'Cause some crook's robbed me again,
Taken what little I had right out of my hands
With the whole world standing by
And doing nothing
Okay?
Oh no.
Today is my day.
Going to get back tit-for-tat,
All you stole.
Going to fight you till you or I
Lie smashed and bleeding dead
And don't care who dies, You or I,
But going to fight -
Okay?
656
Paulo Colina

Paulo Colina

Forja

entre uma calmaria
e outra
do mar de nossas peles
me bastaria amor cantar o fogo
que somos na nascente
de suas coxas
mas há essa dor de outros tempos
e corpos
essa rosa dos ventos sem norte
na memória sitiada da noite
embora o gesto possa ser
no mais todo ternura
o poema continua um quilombo
no coração
1 255
Hashem Shaabani

Hashem Shaabani

Sete razões pelas quais eu deveria morrer

Por sete dias eles gritaram comigo:
Você trava uma guerra contra Alá!
Sábado, porque você é árabe!
Domingo, bem, você vem de Ahvaz
Segunda, lembre-se que você é iraniano
Terça: você zomba da revolução sagrada
Quarta, você não ergue sua voz pelos outros?
Quinta, você é um poeta e um bardo
Sexta: você é um homem, não basta para morrer?
(tradução de Eduardo Sterzi, a partir da tradução inglesa)
581
Tchicaya U Tam'si

Tchicaya U Tam'si

O sangue ruim (andante)

I
Brota tua canção – Sangue ruim – como viver
o lixo à flor da alma, ser de carne lamento
a atrocidade do sangue flor de estrela, encarniçado
Serpentes na noite silvavam como cobres
Anágua mil sóis ressaca para um canto de órgãos
meu sangue se dispersou pois um solerte amanhã
falará de minha terra tudo como um belo destino
não iremos mais chorar sob o céu gris dos necrotérios
Eu serei a gaivota a morte por falta de sorte
Uma grande forca erguida reposta para as penas
ergue-me alto e confiante com roupas de festa
Chora o infortúnio virá enternecer os diamantes
Teu sangue te espanca, ó meus corações esbaforidos
Eu sou negro filho solar à mão com cantar demente.
(tradução de Leo Gonçalves)
:
Le mauvais sang (andante)
Tchicaya U Tam´si
I
Pousse ta chanson – Mauvais sang – comment vivre
l’ordure à fleur de l’âme, être a chair regret
l’atrocité du sang fleur d’étoile, nargué
Des serpentes dans la nuit sifflaient comme des cuivres
Cotillon mille soleils ressac pour un chant d’orgues
mon sang s’est disperse car un preux demain
dira sur ma ville tout comme un beau destin
nous n’irons plus pleurer sous le ciel gris des morgues
Je serai la mouette la morte par déveine
Un grand gibet levé remise pour les peines
m’emporte haut et fier en habits festonnés
Pleure le malheur viendra ternir les diamants
Ton sang te matraque, ô mes coeurs époumonés
Je suis noir fils solaire à main le chant demente.
(1955)
814
Jean Follain

Jean Follain

Pensamentos de outubro

Como amamos
esse ótimo vinho
que bebemos sozinhos
quando a noite ilumina as colinas com cobre
nenhum caçador mira
as aves de caça na planície
as irmãs de nossos amigos
parecem mais bonitas
há no entanto ameaça de guerra
um inseto pausa
depois segue

:

Pensées d´Octubre
Jean Follain


On aime bien
ce grand vin
que l’on boit solitaire
quand le soir illumine les collines cuivrées
plus un chasseur n’ajuste
les gibiers de la plaine
les soeurs de nos amis
apparaissent les plus belles
il y a pourtant menace de guerre
un insecte s’arrête
puis repart.




661
John Berryman

John Berryman

26

As glórias do mundo me bateram, fizeram-me ária, certa vez.
- Que então, Mr. Bones?
se tu num se incomoda.
- Henry. Henry tomou interesse pelo corpo das mulheres,
suas virilhas foram & foram palco de feitos estupendos.
Estupor. De joelhos, meu bem. Ore.

Todos as saliências & suavidades de, Deus meu,
o agachar-se & a confusão isto enxameava em Henry,
certa vez.
- Que então, Mr. Bones?
tu parece como que excitado.
Descaiu Henry, as costas no crime que origina: arte, rima

além dum sentimento do alheio, Deus meu, Deus meu,
e inveja da honra (vivente) de sua terra.
o que haveria de mais estranho?
e desgosto das gangues prosperantes & de heróis.
- Que então, Mr. Bones?
Tive uma sorte veramente fabulosa. Morri.

(tradução de Ismar Tirelli Neto)



Dream Song 26
John Berryman


The glories of the world struck me, made me aria, once.
-- What happen then, Mr. Bones?
if be you cares to say.
-- Henry. Henry became interested in women's bodies,
his loins were & were the scene of stupendous achievement.
Stupor. Knees, dear. Pray.

All the knobs & softnesses of, my God,
the ducking & trouble it swarm on Henry,
at one time.
-- What happen then, Mr. Bones?
you seems excited-like.
-- Fell Henry back into the original crime: art, rime

besides a sense of others, my God, my God,
and jealousy for the honour (alive) of his country,
what can get more odd?
and discontent with the thriving gangs & pride.
-- What happen then, Mr. Bones?
-- I had a most marvellous piece of luck. I died.



744
Leónidas Lamborghini

Leónidas Lamborghini

O sabotador arrependido

No meu rosto está escrita a aceita
renúncia
tanto vil ostracismo
depois soube
o trabalho é saúde, é fator
dignifica
e o outro é o crime
a poesia maldita

Eu era o braço direito agora não sou nada

Esta guitarra já cai
tombada da minha alma
sua última nota
espera.

727
Erich Fried

Erich Fried

Ela

Ela devora seus filhos
ela bebe o sangue de seus mortos
ela prega aos surdos
ela desconhece valores superiores
Ela perde o caminho
ela cambaleia de traição em traição
de erro em erro
ela dorme nas derrotas
Que ela é desnecessária
toda criança aprende na escola
que o povo não a deseja
finalmente percebeu o povo
Que ela não pode vencer
foi provado por a + b
Os que o provaram
não dormem muito bem
Os que nela creem
cansam-se às vezes com as dúvidas
alguns que a odeiam
sabem que ela está a caminho
:
Sie
Sie frisst ihre Kinder
Sie trinkt das Blut ihrer Toten
Sie predigt den Tauben
Sie kennt keine höheren Werte
Sie vergisst ihren Weg
Sie wankt von Verrat zu Verrat
Von Fehler zu Fehler
Sie schläft in den Niederlagen
Dass sie unnötig ist
Lernt jedes Kind in der Schule
Dass das Volk sie nicht will
Hat das Volk sich endlich gemerkt
Dass sie nicht siegen kann
Ist zehnmal genau bewiesen
Die es bewiesen haben
Schlafen nicht gut
Die an sie glauben
Sind manchmal müde von Zweifeln
Einige die sie hassen
Wissen sie kommt.
913
Antonio Cisneros

Antonio Cisneros

Karl Marx died 1883 aged 65

Ainda estou pronto para recordar a casa de minha avó e
esse par de gravuras:
Um cavalheiros na casa do alfaiate, Grande desfile militar
em Viena, 1902.
Dias em que mais nada de ruim podia acontecer. Todos levavam
seu pé de coelho na cintura.
Também minha tia-avó - vinte anos e o chapéu de palha sob o sol,
preocupando-se apenas
com manter a boca, as pernas bem fechadas.
Eram os homens de boa vontade e as orelhas limpas.
No music hall apenas os anarquistas, loucos barbudos e envoltos
em cachecóis.
Que outonos, que verões!
Eiffel fez uma torre que dizia: “até aqui chegou o homem”.
Outra gravura:
Virtude e amor e ciúme protegendo as melhores famílias.
E dizer que o velho Marx ainda não cumprira os vinte anos de idade
debaixo desta erva
- gorda e eriçada, conveniente para os campos de golf.
As coroas de flores e o caixão tinham três descanços
ao pé da colina
e depois foi enterrado
junto ao túmulo de Molly Redgrove “bombardeado pelo inimigo
em 1940 e logo reconstruído”.
Ah o velho Marx moendo e derretendo na marmita os diversos metais
enquanto os filhos pulavam das torres de Spiegel às ilhas de Times
e sua mulher fervia as cebolas e a coisa não avançava e depois
sim e então
veio o da Praça Vendome e aquilo de Lênin e o montão de revoltas
e então
as damas temeram algo mais do que mão nas nádegas
e os cavalheiros puderam suspeitar
que a locomotiva a vapor já não era mais o rosto
da felicidade universal.
“Assim foi, e estou te devendo, velho estraga-festas”.
(tradução de Aníbal Cristobo e Carlito Azevedo)
:
Todavía estoy a tiempo de recordar la casa de mi tía
abuela y ese par de grabados:
Un caballero en la casa del sastre, Gran desfile militar
en Viena, 1902.
Días en que ya nada malo podía ocurrir. Todos llevaban
su pata de conejo atada a la cintura.
También mi tía abuela —veinte anos y el sombrero de
paja bajo el sol, preocupándose apenas
por mantener la boca, las piernas bien cerradas.
Eran los hombres de buena voluntad y las orejas limpias.
Sólo en el music-hall los anarquistas, locos barbados y
envueltos en bufandas.
Qué otoños, qué veranos.
Eiffel hizo una torre que decía "hasta aquí llegó el
hombre".
Otro grabado:
Virtud y amor y cela protegiendo a las buenas familias.
Y eso que el viejo Marx aún no cumplía los veinte años
de edad bajo esta yerba
—gorda y erizada, conveniente a los campos de golf.
Las coronas de flores y el cajón tuvieron tres descansos al
pie de la colina
y después fue enterrado
junto a I
la tumba de Molly Redgrove "bombardeada por
el enemigo en 1940 y vuelta a construir".
Ah el viejo Karl moliendo y derritiendo en la marmita
los diversos metales
mientras sus hijos saltaban de las torres de Spiegel a las
islas de Times
y su mujer hervía las cebollas y la cosa no iba y después
sí y entonces
vino lo de Plaza Vendome y eso de Lenin y el montón
de revueltas y entonces
las damas temieron algo más que una mano en las naIgas
y los caballeros pudieron sospechar
que la locomotora a vapor ya no era más el rostro
de la felicidad universal.
"Así fue, y estoy en deuda contigo, viejo aguafiestas:”
.
.
.
487
Lois Pereiro

Lois Pereiro

¿Que es Galicia?

a. Agua. Aire. La Amnesia del vencido, la Atracción del Abismo, el Árbol junto al Árbol, y la alegría del espacio circundante. El Alma es el Atlántico y es el Acantilado el cuerpo de su llamada Atroz.

b. Barroco: la Belleza usual hecha materia en piedra en el Borde del Bosque omnipresente.

c. Calma. Castelao, Curros, Cunqueiro, Cultura, Celebración y Culpa: una conciencia Céltica del Cosmos.

d. Difícil definir ese Dolor, Doblegar el Destino, conseguir que el Deseo nos siga siendo útil. (Diluvia)

e. Espiral en el Espacio Esférico. Emigración: Estímulo de nuestro Exilio interior que nos lleva por el Este hacia Europa, por el mar hacia el Éxito y hacia la Enfermedad, y siempre hacia el eterno Extrañamiento del espíritu.

f. Fuego de hogar. Fantasía. Fábricas, Fiebre y Formas del Futuro, Figuras del pasado. El Fenómeno atmosférico de la Felicidad, y todas las Fiestas del mañana…

g. Gráficas del Granito, agua y silencio, donde transborda el alma de la Gulfstream. El gemir de las Gaitas, y en el carácter esa amable presencia de la Grasa.

h. Historia: Herbicida el olvido. La Humedad, el “Horror vacui” y la Humildad nos impiden convertir la Historia en Heroísmo. Nuestra Heredad adiestrada en la huída, con la sabiduría de las heridas viejas, por nuestras propias manos solamente vencidos.

i. Ironía: arte de convertir el Infierno en un cuento de Invierno.

j. Sonido oriental. Rotundidad sureña.

k. Kilowatios por tierra sumergida.

l. Luto: manchas en el paisaje, bolas negras sobre el tapete verde.

m. Lega muertos el Misterio de la Música, pero el Miño se va llevando ese Misterio al Mar.

n. Norte. Noche. Niebla. Negro: materia poética nacional.

ñ. Nh/ gn/ ñ.

o. Oeste: “Galicia atiende y obedece a la llamada del Oeste” (R. Otero Pedrayo). Tantos siglos de Ofensas y de Olvido crean anticuerpos en el Organismo de un pueblo, y esa continua Ofensa de la historia generará en el Orgullo de este pueblo apacible el destructivo Oxígeno del Odio, la Obsesión del fracaso y de la culpa.

p. Poesía. Patria. Pasión. Peligro de extinción, perdidos en nuestra propia Pureza, de la necesidad de ser un Pueblo. Nuestra indiferencia alimentará el Proceso de Autogenocidio que vivimos. Paisajes dispersos, alineados entre los Perfiles del Pasado, con la Presencia de una vegetal sensación de eternidad. Pasión y Poses “punk”, reflejos Postmodernos y altas horas en los diques urbanos de la noche.

q. Química del dolor Quintaesencia del miedo. ¿Ahí, pegado a mí, quién se ríe?

r. Río: el Rumor de la vida, la Religión de las aguas. Las Risas surgen siempre donde Reina la calma, en la quietud profunda de quien conoce el Riesgo y lo domina. Rural: corre sangre rural por estas venas; y si alguna vez la Razón opone Resistencia, se Reconoce el gallego en la tierra, en la lenta vitalidad del árbol, en la invencible resignación de la hierba.

s. El Sonido de la Soledad y el Silencio. El Salvaje Sarcasmo de los Sueños del presente, y la Silente atracción por el Suicidio: el Sil. El Miño es nuestra Sangre, el Sil su sombra. Serenos y Sombríos, finalmente trasciende la Sonrisa astuta.

t. Tierra. Y el Tiempo, y el Trastorno y sus Tinieblas. La Tradición de una
triste Ternura. La Tierra es el principio, y todo existe en ella y para ella.

u. Utopía: compaginar el deseo y la necesidad de nuestros sueños.

v. Vacas en Valles mojados, y la férrea Voluntad de los Viejos encadenados a la tierra, con el Vicio de su fatalismo escéptico. Verde. Verde y más Verde sobre otros Verdes, y por detrás: Verde.

w. Whisky: noche urbana. ¿Galicia es Wagneriana, o és más bien un Wolfgang Amadeus enfermo de paisaje, soñando con Sibelius?.

x. 25 de Xullo*.

y. y

z. Fin
945
Vitorino Nemésio

Vitorino Nemésio

Poema de Outra Viagem ao Porto

Noite movida, meu corpo é uma hora antes
Caixa de sangue pronta a amplo socorro.
Eu vou como as manhãs e as sarjas aos doentes:
Sou eu mesmo que morro.
Falto como o menino à vida, escola de ermos.
Quem me dará meus anos, se os perdi?
Só Deus tem paz onde homens gume e fogo,
Do mais não resolvi.
Aqui lá de astro quem
Sobre as águas adusto,
Que nem vendo direi se cumpro ou rego flor?
Tu darás às palavras o que é delas
Como altura com vidros dá janelas
E amor é quando se tem.
Assim te reproduzes.
No redondo das rosas adianto
Como tempo é minha alma por jardim.
Agora não sei mais. Vou para o Porto
Timbre de honra é morar limpo no espanto.
Eu pessoalmente morto.

1 261
Vitorino Nemésio

Vitorino Nemésio

Teu Só Sossego aqui Contigo Ausente

Teu só sossego aqui contigo ausente
Na casa que te veste à justa de paredes,
Tenho-te em móveis, nos perfumes, na semente
Dos cuidados que deixas ao partir,
A doce estância toda povoada
Dos mínimos sinais, dos sapatos de plinto
Que te elevam, Terpsícore ou Mnemósine,
Como uma estátua fiel ao labirinto.
Aqui, androceu da flor, o cálice abre aromas,
Farmácia chamo à tua colecção de vidros
Onde, à margem de planos e de somas,
Tenho remédio para os meus alvidros.
O chá é forte e adstringente,
O leite grosso sabe à ordenha,
E até nos quadros vive gente
À espera que a dona venha.
Porque tudo nos tectos é coroa,
No chão as traînes, os passinhos salpicados
Como o vento ainda longe de Lisboa
Escolheu a gaivota do balanço
Que no cais engolfado melhor voa:
Um vácuo, enfim, que o não será — tão logo
Chegues no ar medido e a aço propulso:
Por isso um pouco de fogo
Bate sanguíneo em meu pulso,
Pois o amor de quem espera
É uma graça a vencer.
Uma casa sem hera
É como gente sem viver.

1 278
Adão Ventura

Adão Ventura

Natal

um natal lerdo
num lençol de embira
mesmo qu´uma fonte
de estimada ira.

um menino lama
num anzol que fira
algum porte e corpo
e alma de safira.

um menino cápsula
de tesoura e crime
— ritual de crisma
sem fé ou parafina.

um menino-corpo
de machado e chão
a arrastar cueiros
de chistes e trovão.

1 219