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Sexualidade

Poemas neste tema

Paulo Leminski

Paulo Leminski

sim

sim
eu quis a prosa
essa deusa
só diz besteiras
fala das coisas
como se novas

não quis a prosa
apenas a idéia
uma idéia de prosa
em esperma de trova
um gozo
uma gosma

uma poesia porosa

1 879
Augusto dos Anjos

Augusto dos Anjos

Ariana

Ela é o tipo perfeita da ariana,
Branca, nevada, púbere, mimosa,
A carne exuberante e capitosa
Trescala a essência que de si dinama.

As níveas pomas do candor da rosa,
Rendilhando-lhe o colo de sultana,
Emergem da camisa cetinosa
Entre as rendas sutis de filigrana.

Dorme talvez. Em flácido abandono
Lembra formosa no seu casto sono
A languidez dormente da indiana.

Enquanto o amante pálido, a seu lado
Medita, a fronte triste, o olhar velado
No Mistério da Carne soberana.

2 184
Eloise Petter

Eloise Petter

SOMBRA DE UM ABUTRE INSIDIOSO

Declaro a mim mesmo estes versos
Que a nuvem da paixão tornam dispersos
Encontrar meus desígnios absortos
Sombra de um abutre insidioso

Lua incandescente a derreter
Neste céu escuro deste ser
Carne flamejante, tenebrosa
Vaporosa se dissolve de prazer

Corpo insaciável desta vida
Lingua louca, contingente oceano
Nas palavras que te podem ser ditas
Não sucumbem à frieza ao teu encanto

Incorpórea sombra dança intermitente
Eu a sigo, apaixonada peregrina
Sobre o céu clemente e lento, eu me despeço
Uma noite no sepulcro do universo

868
Cruz e Sousa

Cruz e Sousa

GRANDEZA OCULTA

Últimos Sonetos

Estes vão para as guerras inclementes,
os absurdos heróis sanguinolentos,
alvoroçados, tontos e sedentos
do clamor e dos ecos estridentes.

Aqueles para os frívolos e ardentes
prazeres de acres inebriamentos:
vinhos, mulheres, arrebatamentos
de luxúrias carnais, impenitentes.

Mas Tu, que na alma a imensidade fechas,
que abriste com teu Gênio fundas brechas
no mundo vil onde a maldade exulta,

ó delicado espírito de Lendas!
fica nas tuas Graças estupendas,
no sentimento da grandeza oculta!

1 299
Álvares de Azevedo

Álvares de Azevedo

DESALENTO

Lira dos Vinte Anos
Primeira Parte

Por que havíeis passar tão doces dias?
A. F. DE SERPA PIMENTEL

Feliz daquele que no livro d'alma
Não tem folhas escritas
E nem saudade amarga, arrependida,
Nem lágrimas malditas!

Feliz daquele que de um anjo as tranças
Não respirou sequer
E nem bebeu eflúvios descorando
Numa voz de mulher...

E não sentiu-lhe a mão cheirosa e branca
Perdida em seus cabelos,
Nem resvalou do sonho deleitoso
A reais pesadelos...

Quem nunca te beijou, flor dos amores,
Flor do meu coração,
E não pediu frescor, febril e insano
Da noite à viração!

Ah! feliz quem dormiu no colo ardente
Da huri dos amores,
Que sôfrego bebeu o orvalho santo
Das perfumadas flores...

E pôde vê-la morta ou esquecida
Dos longos beijos seus,
Sem blasfemar das ilusões mais puras
E sem rir-se de Deus!

Mas, nesse doloroso sofrimento
Do pobre peito meu,
Sentir no coração que à dor da vida
A esperança morreu!...

Que me resta, meu Deus? aos meus suspiros
Nem geme a viração...
E dentro, no deserto do meu peito,
Não dorme o coração!

1 957
Carlos Enrique Ungo

Carlos Enrique Ungo

O unicórnio existe amor

O unicórnio existe amor
é a risada das crianças
o milagre de um beijo
a carícia que queima
as asas tíbias de um sonho.

O unicórnio existe amor
é a poesia de todos
o canto das aves
o rumor da terra
o perfume das flores.

O unicórnio existe amor
é o eco de teu nome
a agonia de tua ausência
o manto tíbio de tuas mãos
a rosa sagrada de teu sexo.

O unicórnio existe amor
é a luz de teu olhar
as estrelas de tua noite
o suave mar de teus cabelos
o território proibido de teu corpo.

O unicórnio existe amor
e ressurge brioso
selvagem
vitorioso
quando minha boca pronuncia teu nome.

2 117
Ana Mafalda Leite

Ana Mafalda Leite

Papoilas

estou opiada de ti
e percorres-me os nervos todos
com papoilas borboletas vermelhas

o meu corpo entrança-se de sonhos
e sente-se caminhando por dentro

aspiro-te
como se me faltasse o ar
e os perfumes dançam-me

qualquer coisa como uma droga bem forte
corpo e alma
rezam pequenas orações
gestos ritmados ao abraçar-te como que abraça
sonhos

coisa estranha

opiada me preciso ou apenas vestida de papoilas e
muito sol com luas por dentro

para poder mastigar estes sonhos
reais como mandrágoras

1 526
Nálu Nogueira

Nálu Nogueira

Fazer estrelas

Fazer amor como
quem faz estrelas
pari-las
vê-las
surgir em explosões
orgásticas
fantásticas
beleza plástica
de pernas entrelaçadas
peles entremeadas
ungidas
pêlos, sêmen,
suores bênçãos
soluços cálidos
sussurros tímidos
urgentes.

Passear a língua no
corpo
como alpinista
montes, depressões
escalas, o pico
o ápice
o pênis pulsa
tórrido
mármore
a língua feito artista
a desenhar sóis
nos mamilos
pernas abertas
frondosas árvores
sulcos
suculentos frutos
saliva
filetes
falsetes das vozes
roucas.

783
Ana Hatherly

Ana Hatherly

Ela vem

Ela vem
quando eu cerro as pálpebras pesadas
e apoio a cabeça na escuridão do desejado sono.
Vem muito branca, muito lenta.
Fita-me calada
e muito direita
começa desatando seus cabelos negros.
Abre a boca num riso que eu não oiço
deixa cair o seu vestido todo.
E enquanto eu olho fascinada o seu ventre coroado de negro
seis homens pequeninos e muito encarquilhados
agarram suas seis tetas
e sugam-lhes os bicos
rosados e rijos de prazer.

1 912
Manuela Amaral

Manuela Amaral

Coreografia

No palco da noite bailado de corpos

Cenário de sombras
esculpidas em nu

Tu danças as mãos
inscreves contornos
na minha nudez

Eu sou dimensão
que dança em teu espaço

Não temos cansaço

Só temos volúpia
Desejo
Harmonia
Vontade de luta

Ao longo de ti descubro caminhos. Trajecto de boca

E danço contigo
E esqueço a memória

Eu sou o teu sangue
A mesma saliva
O mesmo suor

Nós somos a mesma
Mulher-Repetida.

1 635
Réca Poletti

Réca Poletti

Caminhando

vou abocanhando leve
as peles morenas
ou pálidas
vou deitando
em cada uma
me plantando
em cada corpo
vou beijando
bocas pretas
e vermelhas
e tocando as línguas quentes
vou bebendo
todos os amores
cuspindo
todos os venenos.



919
Manuela Amaral

Manuela Amaral

De nós em limite

Na luta da posse
meu corpo guerreiro
batalha no teu
Meus beijos em seta
percorrem a meta
atingem loucura

No espaço liberto
da minha procura
tu és o limite



1 568
Angela Santos

Angela Santos

Volúpia

Noite
mansamente me convidas…
e um instante mágico
te transforma num enlace
de mulher…

E por dentro de mim
oiço só o coração…
e agitada abandono-me
à volúpia do amor na noite.
na noite…

1 094
Angela Santos

Angela Santos

Eva

Mordo
a tua boca
rosa, carne viva
provo o teu sabor
ao jeito de Eva
subversiva

Ousadia do gosto
meu fruto proibido
mordo o teu corpo
virgem
e reencontro o paraíso.

831
Angela Santos

Angela Santos

Estrela

Se
a noite vier vestida de branco
e lenta me fizer
desfiar as horas do meu sono,
eu vou lembrar uma estrela
a que minhas mãos tocaram,
a que de luz meus olhos encheu.

Se a noite de branco vier,
eu vou chamar a minha estrela
a que luz na minha vida
a que mora nos meus dias,
minha estrela d`Alva
minha estrela-guia.
Amo-te

1 118
Angela Santos

Angela Santos

Flor de Lótus

Vejo-te
ao raiar do dia
como espiga que seguro e desfolho

Vejo-te acordar, espreguiçar
como a flor de lótus
sacudindo finíssimas gostas de orvalho
que sobraram da noite de amor.

Vejo-te abrir um sorriso manso
traçado na tua boca sensual…

beijo-te, sorris
e ao beijar-te sinto
que me atravessa a claridade
que em teus olhos brilha
e encho-me de luz.

668
Angela Santos

Angela Santos

Estrada de Luz

Depois do assombro daqueles dias
sobre um mar de punhais feito caminho
cuidando não saber aonde iria,
secretos meus passos em busca foram
do porto onde fundear se achassem

despida dos grilhões que ao medo assomam
foi na nudez da alma reflectida
que desvendei de mim escuros cantos
onde acolhi, às vezes a alma ferida....

na estrada de luar que então se abria
por sobre um mar nocturno embarcava
toda a esperança que a aurora anuncia
depois do breu que veio sem esperar

não soube eu no instante em que ardia
a alma feita lava consumida
que dos porões cavados nesses dias
haveria de erguer-se a voz antiga
arauta do que havia de chegar....

Foi naquela hora precisa em que vieste
que os sonhos antigos se reverteram
aos olhos mergulhados na luz branca
do mistério anunciado onde jaziam

e agora são teus os passos que oiço
nos sonhos novos que em meus dias teço
e é tua a voz que vem
acordar o tempo que esperei.

1 043
Angela Santos

Angela Santos

Lua de Prata

Sobre
areias finas,
num lugar distante
te amarei...
desaguando no teu mar
minha longa espera

e sob um por de sol,
nesse lugar que eu sei
me amarás...

Do enleio dos teus braços
cativa ser,
do teu corpo a extensão.
no teu sexo estremecer,
no teu colo repousar
adormecer.....

E se uma lua de prata
vier reflectir-se no nosso olhar,
achas acesas na noite seremos ..
e depois do amor dois lagos serenos…
dois corpos amantes espelhando à luz
almas de mulher.

1 028
Angela Santos

Angela Santos

O acordar dos sentidos

Emudecida,

ante a nudez da alma que o corpo espelha,
sigo os meus olhos
na busca de cada movimento, ou arquejo do peito
sigo o ouvido
atenta ao sussurro e ao suspiro
sigo a minha boca
em busca do sal de cada maré viva que sobe à orla do desejo
sigo as minhas mãos
que em cada esquina do teu corpo reencontram o tempo
que um dia foi de todos os sentidos
que de novo emergem à tona dos meus dias.

1 074
Angela Santos

Angela Santos

Amor e Sotaque

Tem um
modo de você saber
aquelas coisas
que as palavras complicam
ao jeito doce que você me ensinou,
com minhas mãos,
meus quadris
minhas coxas,
minha boca,
meu sexo extático
se diluindo no seu
como é fácil dizer: amor.
E nesse cocktail
de línguas e sotaques
coco e pitangas
caipiras  e fado,
negros e brancos
ourixás, samba e axé
Pessoa  e Quintana
Verde vermelho
Azul amarelo.
Nós
no final  misturando ainda
tu com  você.
1 030
Anjo Hazel

Anjo Hazel

Soneto à Musa Materializada

Ah, menina
de sorriso meigo...
Ah, mulher de mil véus !
De beijos infinitos como os céus
e luxúria ao me recostar em teu seio...

Ah, teus olhos castanhos...
Ah, teus castanhos cabelos...
Suaves abraços, enlevos,
amor rebelde e estranho.

Toco tua silhueta diáfana
reconfortante como edredon
e percorro cauteloso tuas curvas...

Imagem nada sagrada,
tua íris como néon
ardendo nas noites de chuva.
1 015
Isabel Machado

Isabel Machado

Diz

Sim... pode
falar...
fale de paixão
fale de tesão
fale do teu jeito
que não é maldito
fale sussurrando tudo
ao meu ouvido
como um zumbido
de prazer...

Diga... diga que está apaixonado
diga que és o meu amado
desde outra vida
e que nada será violado
além da paixão
e que sempre haverá o cuidado
de nos pertencer...
... proteção...

Diz... diz que desejas o meu último sorriso
diz tudo aquilo que eu preciso
diga o que quer
e o que não quer
teu coração...
é tudo permitido
êxtase de emoção.

902
Jorge de Sena

Jorge de Sena

Em Louvor da Promiscuidade

Quem tem de amor,
físico amor, ideia
que os olhos não possuem qual amor façamos
e que ele não vive do que os outros façam
ante os curiosos olhos com que bebamos
o ritmo das ancas como as formas
enlaçadas por mãos e pernas, sexos e bocas,
de pudicícia desastrada e matrimónica
com prostituta ou esposa. ou vive
de imaginar paixões por um só corpo
que não são mais que tê-lo tido e o hábito
de continuar a tê-lo. amor-amor
é uma outra coisa, mas não isto
nem o prazer que é feito de um prazer alheio
feito só de prazer sem pensamento
- que no promiscuo amor o imaginar
é só imaginar-se o que varia em acto.
3 823
Fernando Tavares Rodrigues

Fernando Tavares Rodrigues

Verbo

Amar a
mulher
É também sentir
Antes de a beijar, antes de a despir,
Esse sabor doce
Como se ela fosse uma rosa a arder

Esse verbo tão difícil e tão fácil de dizer...

1 136