Saudade e Ausência

Poemas neste tema

Emílio Moura

Emílio Moura

Marinha

Grito teu nome aos ventos.
Olha: há uma revoada marítima.
O horizonte se afasta, há um ritmo largo
de ondas que se espreguiçam.

Velas esguias,
para onde voam?

Sulcos de prata,
para onde levam?
Amiga, amiga! Ah, dize-me depressa:
Quem grita aos ventos o teu nome?
O mar, ou eu,
o grande mar que o está cantando?

946
Cynara Novaes

Cynara Novaes

Meus noturnos

Meus noturnos
amanhecem
em tuas alvoradas
e continuam dia a fora
noite a dentro
invetendo fuso horários
enlouquecidos pela
falta das estrelas.

857
Cynara Novaes

Cynara Novaes

O barco passou

O barco passou
e o vento passou
e o sol não veio
não veio

A nuvem passou
a manhã passou
e a alegria não veio
não veio

A menina passou
a moça passou
e a lua não veio
não veio

A menina ficou
o tempo ficou
pois a vida não veio
não veio

957
Claudia Moraes Rego

Claudia Moraes Rego

No seu colo

Cabeça no seu colo
orelha colada em sua perna
ouvindo
palavras fiadas em conversa
conduzidas, transmitidas
através
de carnes e ossos
com ecos e reverberações
intrigantes:
orelha colada na pele
friinha (mistério!)
macia e perambulante.

Hoje
minha mãe
é a lembrança de um corpo
--- auscultado ---
ontem.

989
Cleonice Rainho

Cleonice Rainho

Viagem

Lá vai o navio,
cortando o mar.

Lá vai o avião,
furando o ar.

É azul o céu
e verde o mar.

E eu fico pensando
na cor da saudade
que os viajantes levam
da terra e do lar.

1 194
Carlos Nóbrega

Carlos Nóbrega

Pipa

como dá adeus
longe
a mão desse menino

608
Carlos Nóbrega

Carlos Nóbrega

Substantivo Concreto

No quarto do morto
ainda sentíamos
das noites mais fundas
A matéria dos seus sonhos
--
Tocar-nos

907
Aída Godinho

Aída Godinho

Haicai

Sabiás não cantam
nos ramos cheios de flor.
Onde está, amor?

No céu cintilante
mil vaga-lumes brincando:
Mil sonhos vagando.

1 008
Alfredo José Assunção

Alfredo José Assunção

Lembranças

Um violino, uma mulher.Um trago, uma dose.Um alguém que não quis.

Este alguém que me falta.esta luz que perdi,é o violino sozinho.Sou uma orquestra sem solo.

O beijo que bebiaé a dose que não tenho.O trago, transe maior,é o gozo que me foste.

Sem ti sou tão só!...Masturbo lembrançasde um violino, uma mulher,um trago, uma dose...

1 000
Antonio Ferreira dos Santos Júnior

Antonio Ferreira dos Santos Júnior

Pressentida Saudade

Pressentida saudade
Deste presente
Nos longes do meu futuro.

Corpo que apalpo
E que enlaço
E que prevejo a perda.

A saudade futura
Me oprime o presente
Que vivo.

919
Emily Dickinson

Emily Dickinson

MINHA VIDA ACABOU DUAS VEZES

Já morri duas vezes, e vivo.
Resta-me ver enfim
Se terceira vez na outra vida
Sofrerei assim

Dor tão funda e desesperada,
O pungir quotidiano e eterno.
Só sabemos do Céu que é adeus,
Basta a saudade como Inferno.

(Tradução
de Manuel Bandeira)

1 991
Alfred Edward Housman

Alfred Edward Housman

THE SIGTH THAT HEAVES

O suspiro que erva ondula
Onde jamais te hás-de erguer,
É só do ar que ali passa
Sem de suspiros saber.

As lágrimas de diamante
Que adornam teu leito ali
São por certo da manhã -
Que chora, mas não por ti.

1 033
Friedrich Hölderlin

Friedrich Hölderlin

Pôr do sol

Onde estás? A alma anoitece-me bêbeda
De todas as tuas delícias; um momento
Escutei o sol, amorável adolescente,
Tirar da lira celeste as notas de ouro do seu canto da noite.

Ecoavam ao redor os bosques e as colinas;
Ele no entanto já ia longe, levando a luz
A gentes mais devotas
Que o honram ainda.

 

1 085
Alfred Edward Housman

Alfred Edward Housman

WITH RUE MY HEART

De mágoa o coração me pesa
Por áureos amigos que tive,
Donzelas de lábios rosados
E moços ligeiros e esbeltos.

De rios que um salto não vence
Os moços repousam nas margens;
E estão dormindo as donzelas
Em campos que às rosas descoram.

957
Alfred Edward Housman

Alfred Edward Housman

FAREWELL TO A NAME

Adeus a um número e um nome
Que foi chamado
À treva, silêncio e sono
Do sangue derramado.

Assim cessa em acto
E volta ao fim.
Soldado à pátria barato
E caro para mim.

Assim em sangue se afoga
O chamejante açoite
De uma verdade que volta
Ao pó e à noite.

1 187
Geraldo Ângelo Rasputim

Geraldo Ângelo Rasputim

Púbis carente

Púbis carente
Saudades
Momentos contentes
gozo,
êxtases
suspiros

Gemidos
Gritos.

Pecado
Volúpia
Boca molhada
Pêlos molhados
Suor
pecados
Líquido salgado

Saudades
Púbis carente

870
Silvia Brito

Silvia Brito

Beijo

Beijo partido de vidro
incandescente.
De cores escorridas
e pincéis sujos.
Beijo de papel branco
No canto jogado.
Beijo cheio de ausências,
de cortes e dores,
De braços cansados.
Beijo de caminho sem volta,
de quarto vazio.
Beijo sem boca,
Sem corpo, sem custo.
Beijo no claro e vazio da minha alma
Que se solta...
Calma.

1 250
Gilka Machado

Gilka Machado

Saudades

De quem é esta saudade
que meus silêncios invade,
que de tão longe me vem?

De quem é esta saudade,
de quem?

Aquelas mãos só carícias,
Aqueles olhos de apelo,
aqueles lábios-desejo...

E estes dedos engelhados,
e este olhar de vã procura,
e esta boca sem um beijo...

De quem é esta saudade
que sinto quando me vejo?

2 703
Ana C. Pozza

Ana C. Pozza

Palpitando alucinado

Não bateu inspiração...
O que me move
É esta enlouquecida paixão
Que dispara o coração
A cada suspiro de saudade
Quando aumenta a vontade
De encontrar os doces lábios teus...

E todo o meu corpo,
Palpitando alucinado,
Volta-se a esta saudade
Espreguiçando-se num cansaço
Só pra ter o teu abraço
Enlaçando apertado
Todo o desejo meu...

1 169
Paul Celan

Paul Celan

DO AZUL

DO AZUL,que ainda busca o seu olho,bebo eu em primeiro lugar.
Da marca do teu pé bebo eu e vejo:
rolas-me entre os dedos,pérola,e cresces!
Cresces como todos os que foram esquecidos.
Rolas:o granizo preto da melancolia
cai num lenço,todo branco de dizer adeus.

(tradução
de João Barrento e y.k.Centeno)

1 153
Amparo Jimenez

Amparo Jimenez

Obsequio

(A Rosamaría)

Este orgasmo,
tan celosamente
guardado
para tí,
hoy,
amorosa,
lo entregué a mi mano.

1 188
Juan-Eduardo

Juan-Eduardo

Regresa

Usaré mi ternura
contra ese muro muerto que persiste,
mientras pasan los días y los cielos
que te alejan de mí.

¿No lo recuerdas?

Hay un lugar lejano
donde las lilas crecen,
donde crecen las rosas,
y en tu amor sobrevivo.

Restablece mi noche,
regresa por aquel sendero yerto.
Oigo el mar que golpea.
Oigo el mar en mi puerta.

982
Jorge Melícias

Jorge Melícias

À beira das salinas os homens declinam,

as cabeças como cometas fulminantes.

De longe a longe vêm os filhos,

trazem a solidão como um metal aceso nas costas

trazem um enxame de dardos.

E a memória é um pulso atravessado.

Quando partem fecham atrás de si as portas,

e os homens voltam a sentar-se sobre as estacas

e brilham.

de A Luz nos Pulmões(2000)

852
Natália Correia

Natália Correia

O Livro dos Amantes IX

Pusemos tanto azul nessa distância
ancorada em incerta claridade
e ficamos nas paredes do vento
a escorrer para tudo o que ele invade.

Pusemos tantas flores nas horas breves
que secam folhas nas árvores dos dedos.
E ficámos cingidos nas estátuas
a morder-nos na carne dum segredo.

1 868