Morte e Luto

Poemas neste tema

Louise Glück

Louise Glück

Parábola da fera

O gato anda em círculos na cozinha
com o passarinho morto,
sua nova possessão.

Alguém deveria discutir
ética com o gato enquanto ele
perscruta o débil passarinho:

nesta casa
nós não exercemos
a força deste jeito.

Diga isso ao animal,
seus dentes já
fundos na carne de outro animal.
1 040
Francisco Mallmann

Francisco Mallmann

IV

era então isso o que querias
me dizer ao ouvido fernando
a cantiga de morrer como um homem
viver como um homem querer amá-lo
num mesmo gesto desejar e desconfiar
de tudo o que leva consigo um nome
sei que me enxergas fernando
no entanto sei que não me vês
658
Ruy Belo

Ruy Belo

Turismo

Eu vi morrer um homem e caminho
Vários motivos de morte e uma
agenda mas
almoço
Há mesas e cadeiras e passeios e
sabe-me
a café
Mistério de maresia ou de ningué


Ruy Belo | "Obra Poética de Ruy Belo" - Vol. 1, pág. 124 | Editorial Presença Lda., 1984
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Ruy Belo

Ruy Belo

Necrologia

Portugal tem nove milhões de habitantes
Lisboa talvez tenha um milhão
Nada disto me pode consolar bem sei
Morreu antónio gião
Eu não o conhecia nunca o conhecerei



Ruy Belo | "Obra Poética de Ruy Belo" - Vol. 1, pág. 149 | Editorial Presença Lda., 1984
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Ruy Belo

Ruy Belo

Para dizer devagar

Pelo menos que ao fim teus sacramentos cubram de coragem
igual à de enviar-te, ao ver-se então de pé na tua frente,
aquele que nem sempre soube ser bastante transparente
para dele imprimir nos dias nada mais que a tua imagem



Ruy Belo | "Obra Poética de Ruy Belo" - Vol. 1, pág. 124 | Editorial Presença Lda., 1984
1 097
Ruy Belo

Ruy Belo

Percurso diário

Eu vou por este sol além
e ele é quotidiano até ao fim
como se até hoje ninguém
tivesse no sol e fora do sol também
morrido a morte por mim


Ruy Belo | "Obra Poética de Ruy Belo" - Vol. 1, pág. 50 | Editorial Presença Lda., 1984
1 465
Ruy Belo

Ruy Belo

Quadras quase populares

Sei tão de cor estes dias
que a única emoção forte
seria ele vir até mim
do fundo da sua morte

Nua a cruz a mesa lisa
Na mínima paisagem
branco e redondo de coragem
quanto couber no tempo agoniza


Ruy Belo | "Obra Poética de Ruy Belo" - Vol. 1, pág. 37 | Editorial Presença Lda., 1984
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Ruy Belo

Ruy Belo

Inscrição

Na face dele havia risos vivos
que lhe escorriam da alma para a boca

Já cá não está já não pisa estes prados
nem sobre ele se desdobra rubro este céu
Não há para ele palavra possível
Ele é como a camélia que morreu



Ruy Belo | "Obra Poética de Ruy Belo" - Vol. 1, pág. 22 | Editorial Presença Lda., 1984
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Ruy Belo

Ruy Belo

Requiem por um bicho

Está tudo muito certo mas a gata
que outro mundo trará a gata que morreu?


Ruy Belo | "Obra Poética de Ruy Belo" - Vol. 1, pág. 147 | Editorial Presença Lda., 1984
1 127
Ruy Belo

Ruy Belo

Humphrey Bogart

Era a cara que tinha e foi-se embora
Mas nunca foi tão visto como agora
O seu olhar é água pura água
Devassa-nos dá nome mesmo à mágoa
Ganhámo-lo ao perdê-lo. Não se perde um olhar
Não é verdade meu irmão humphrey bogart?


Ruy Belo | "Obra Poética de Ruy Belo" - Vol. 1, pág. 147 | Editorial Presença Lda., 1984
1 327
Ruy Belo

Ruy Belo

Certa conditio moriendi

Os poetas todos fitaram a morte
e reuniram-se depois numa assembleia de riso
para esquecer quem eram
Mas era a morte a única saída


Ruy Belo | "Obra Poética de Ruy Belo" - Vol. 1, pág. 41 | Editorial Presença Lda., 1984
1 142
Jorge Luis Borges

Jorge Luis Borges

Cuarteta

Del Diván de Almotásam el Magrebí (siglo XII).

Murieron otros, pero ello aconteció en el pasado,
que es la estación (nadie lo ignora) más propicia a la muerte.
¿Es posible que yo, súbdito de Yaqub Almansur,
muera como tuvieron que morir las rosas y Aristóteles?


Jorge Luis Borges | "Poesia Completa", pág. 155 | Debolsillo, 3ª. edição, 2016
1 895
Sophia de Mello Breyner Andresen

Sophia de Mello Breyner Andresen

Ii. Esse Que Humano Foi Como Um Deus Grego

Esse que humano foi como um deus grego
Que harmonia do cosmos manifesta
Não só em sua mão e sua testa
Mas em seu pensamento e seu apego

Àquele amor inteiro e nunca cego
Que emergia da praia e da floresta
Na secreta nostalgia de uma festa
Trespassada de espanto e de segredo

Agora jaz sem fonte e sem projecto
Quebrou-se o templo actual antigo e puro
De que ele foi medida e arquitecto

Python venceu Apolo num frontão obscuro
Quebrada foi desde seu eixo recto
A construção possível do futuro
1 664
Sophia de Mello Breyner Andresen

Sophia de Mello Breyner Andresen

Encruzilhada

Onde é que as Parcas Fúnebres estão?
— Eu vi-as na terceira encruzilhada
Com um pássaro de morte em cada mão.
2 124
Sophia de Mello Breyner Andresen

Sophia de Mello Breyner Andresen

Cante Jondo

Numa noite sem lua o meu amor morreu
Homens sem nome levaram pela rua
Um corpo nu e morto que era o meu.
2 153
Sophia de Mello Breyner Andresen

Sophia de Mello Breyner Andresen

Ifigénia

Ifigénia levada em sacrifício,
Entre os agudos gritos dos que a choram,
Serenamente caminha com a luz,
E o seu rosto voltado para o vento,
Como vitória à proa de um navio,
Intacto destrói todo o desastre.
1 835
Sophia de Mello Breyner Andresen

Sophia de Mello Breyner Andresen

O Soldado Morto

Os infinitos céus fitam seu rosto
Absoluto e cego
E a brisa agora beija a sua boca
Que nunca mais há-de beijar ninguém.

Tem as duas mãos côncavas ainda
De possessão, de impulso, de promessa.
Dos seus ombros desprende-se uma espera
Que dividida na tarde se dispersa.

E a luz, as horas, as colinas
São como pranto em torno do seu rosto
Porque ele foi jogado e foi perdido
E no céu passam aves repentinas.
3 382
Sophia de Mello Breyner Andresen

Sophia de Mello Breyner Andresen

Os Asphodelos

Colhe pálida sombra os asphodelos
Roxos do prado onde caminha a vida
Cujo destino foi só não ser vivida
Põe coroas de pranto em teus cabelos
1 726
Sophia de Mello Breyner Andresen

Sophia de Mello Breyner Andresen

Gráfico

I

Curva dos espaços, curva das baías,
Vida que não é vida com os gestos inúteis,
Quem me consolará do meu corpo sepultado?
II

Mostrai-me as anémonas, as medusas e os corais
Do fundo do mar.
Eu nasci há um instante.
III

A mulher branca que a noite traz no ventre
Veio à tona das águas e morreu.
IV

Chego à praia e vejo que sou eu
O dia branco.
2 288
Sophia de Mello Breyner Andresen

Sophia de Mello Breyner Andresen

Meditação do Duque de Gandia Sobre a Morte de Isabel de Portugal

Nunca mais
A tua face será pura limpa e viva
Nem o teu andar como onda fugitiva
Se poderá nos passos do tempo tecer.
E nunca mais darei ao tempo a minha vida.

Nunca mais servirei senhor que possa morrer.
A luz da tarde mostra-me os destroços
Do teu ser. Em breve a podridão
Beberá os teus olhos e os teus ossos
Tomando a tua mão na sua mão.

Nunca mais amarei quem não possa viver
Sempre,
Porque eu amei como se fossem eternos
A glória, a luz e o brilho do teu ser,
Amei-te em verdade e transparência
E nem sequer me resta a tua ausência,
És um rosto de nojo e negação
E eu fecho os olhos para não te ver.

Nunca mais servirei senhor que possa morrer.
4 222
Sophia de Mello Breyner Andresen

Sophia de Mello Breyner Andresen

Carta(S) a Jorge de Sena

I

Não és navegador mas emigrante
Legítimo português de novecentos
Levaste contigo os teus e levaste
Sonhos fúrias trabalhos e saudade;
Moraste dia por dia a tua ausência
No mais profundo fundo das profundas
Cavernas altas onde o estar se esconde
II

E agora chega a notícia que morreste
E algo se desloca em nossa vida
III

Há muito estavas longe
Mas vinham cartas poemas e notícias
E pensávamos que sempre voltarias
Enquanto amigos teus aqui te esperassem —
E assim às vezes chegavas da terra estrangeira
Não como filho pródigo mas como irmão prudente
E ríamos e falávamos em redor da mesa
E tiniam talheres loiças e vidros
Como se tudo na chegada se alegrasse
Trazias contigo um certo ar de capitão de tempestades
— Grandioso vencedor e tão amargo vencido —
E havia avidez azáfama e pressa
No desejo de suprir anos de distância em horas de conversa
E havia uma veemente emoção em tua grave amizade
E em redor da mesa celebrávamos a festa
Do instante que brilhava entre frutos e rostos
IV

E agora chega a notícia que morreste
A morte vem como nenhuma carta
1 713
Sophia de Mello Breyner Andresen

Sophia de Mello Breyner Andresen

Estelas Funerárias

Jovens sorridentes celebrando
Em todos os museus a própria morte

Tão direito e firme amor da vida
Aqueles que os amaram consagraram
A breve eternidade do seu povo

Agora expostos numa terra alheia
De seus ossos e cinza separados
Roubados ao lugar que os viu viver
O entreaberto lírio do sorriso
As paisagens sem luz iluminando
1 305
Sophia de Mello Breyner Andresen

Sophia de Mello Breyner Andresen

Janela

Janela rente ao mar e rente ao tempo
— Ó mãos poisadas sobre um Junho antigo —
De ano em ano de hora em hora
Caminho para a frente e cega me persigo

Quem me consolará do meu corpo sepultado?
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Sophia de Mello Breyner Andresen

Sophia de Mello Breyner Andresen

A Estátua

Nas suas mãos a voz do mar dormia
Nos seus cabelos o vento se esculpia

A luz rolava entre os seus braços frios
E nos seus olhos cegos e vazios
Boiava o rastro branco dos navios.
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