Dor e Desespero
Poemas neste tema
Angela Santos
Humanum
Nada
mais,
além deste humano sentir…
à força de quê
calar a mágoa que nos afoga ?
Humano querer,
simples traço da humanidade,
indelével marca impressa
na verdade de humano
ser.
mais,
além deste humano sentir…
à força de quê
calar a mágoa que nos afoga ?
Humano querer,
simples traço da humanidade,
indelével marca impressa
na verdade de humano
ser.
642
Angela Santos
Mordaça
Quanto
grito amordaçado
à garganta preso trago …
quanto desejo amortalhado
sem razão
quanto de mim renegado
à força de um qualquer não.
Força em tumulto
que me traz inquieta
e a ânsia em sinais que não decifro,
grades douradas que não quis
e contudo vivo.
grito amordaçado
à garganta preso trago …
quanto desejo amortalhado
sem razão
quanto de mim renegado
à força de um qualquer não.
Força em tumulto
que me traz inquieta
e a ânsia em sinais que não decifro,
grades douradas que não quis
e contudo vivo.
1 157
Angela Santos
À Margem
Expiro
numa praia longínqua
dentro de mim
Expiro
à margem de mim
onda desfeita no movimento
incessante
Expiro
aspirando à luz
que não alcanço.
numa praia longínqua
dentro de mim
Expiro
à margem de mim
onda desfeita no movimento
incessante
Expiro
aspirando à luz
que não alcanço.
1 080
Angela Santos
Resistência
No caminhar silente
cresce um ventre
prenhe de vozes que não sei
mas adivinho,
eco sussurrante, tão perto , tão irmão…
ainda te oiço…
rompe o silencio
rasga as paredes de solidão
a estreitarem dentro de mim…
quase cedo…
à impotência de gestos,
à recusa de passos,
à inutilidade de cada grito que amordaço.
cresce um ventre
prenhe de vozes que não sei
mas adivinho,
eco sussurrante, tão perto , tão irmão…
ainda te oiço…
rompe o silencio
rasga as paredes de solidão
a estreitarem dentro de mim…
quase cedo…
à impotência de gestos,
à recusa de passos,
à inutilidade de cada grito que amordaço.
969
Angela Santos
Ao Largo
Vaga
esqueleto de navio
ausência de mastro e velas,
um piloto exausto no convés
navio a desfazer-se nas ondas
sem outro destino,
distante de um porto
a que ancorar.
Sonho partidas, chegadas
portos ignotos,
águas claras,
e uma ilha lá longe
onde espraiar o cansaço.
esqueleto de navio
ausência de mastro e velas,
um piloto exausto no convés
navio a desfazer-se nas ondas
sem outro destino,
distante de um porto
a que ancorar.
Sonho partidas, chegadas
portos ignotos,
águas claras,
e uma ilha lá longe
onde espraiar o cansaço.
1 229
Angela Santos
Contradição
Não
me lembres o tempo
que me lembras de mim
e eu quero a amnésia
não sentir…não pensar…
eu louca em busca
da paz e do silencio
quando a tempestade
é que me contagia.
me lembres o tempo
que me lembras de mim
e eu quero a amnésia
não sentir…não pensar…
eu louca em busca
da paz e do silencio
quando a tempestade
é que me contagia.
982
Mauricio Segall
Descalço e nu
Descalço
e nu
na escuridão de cada madrugada,
quando meus olhos em água
nem conseguem enxergar a caminhada,
Do quarto à sala
da sala ao quarto
Tropeço minha maratona,
treinando não sei por que
nem para que medalha
só pensando chegar à alvorada.
e nu
na escuridão de cada madrugada,
quando meus olhos em água
nem conseguem enxergar a caminhada,
Do quarto à sala
da sala ao quarto
Tropeço minha maratona,
treinando não sei por que
nem para que medalha
só pensando chegar à alvorada.
919
Angela Santos
A um Suicída
(11/12/85)
A
manhã chegava
de orlas nocturnas adornada
Nos trilhos de um comboio
a vida parara de correr…
A manhã chegava
e despontava negro
o dia
a lógica e o absurdo
sob o manto matinal de brumas
nas letras a preto e branco
de um jornal.
A
manhã chegava
de orlas nocturnas adornada
Nos trilhos de um comboio
a vida parara de correr…
A manhã chegava
e despontava negro
o dia
a lógica e o absurdo
sob o manto matinal de brumas
nas letras a preto e branco
de um jornal.
1 063
Hilda Hilst
Cantares do Sem Nome e de Partida
Ó tirânico Amor, ó caso vário
Que obrigas um querer que sempre seja
De si contínuo e áspero adversário...
Luiz Vaz de Camões
Cubram-lhe
o rosto, meus olhos ofuscam-se;
ela morreu jovem.
John Webster
Que obrigas um querer que sempre seja
De si contínuo e áspero adversário...
Luiz Vaz de Camões
Cubram-lhe
o rosto, meus olhos ofuscam-se;
ela morreu jovem.
John Webster
1 679
Almandrade
VI
Agora devo
dormir
e deixar
o apetite
dos morcegos
devorar
as lágrimas noturnas
indiferentes
aos meus afetos
dormir
e deixar
o apetite
dos morcegos
devorar
as lágrimas noturnas
indiferentes
aos meus afetos
935
Silvaney Paes
Só Um Sopro
Um
sopro
De um amor que sofro
Não pouco
Só louco
Pegajoso
Da alma que achou-se pouca
Ainda sofro
E louco morro
Aguardo o sopro
De um amar louco
Não pouco
Igual ao outro
E aí então, não serei só louco
Nem só sopro
Serei vento e sopros
Um do outro
Nem loucos
Nem poucos
sopro
De um amor que sofro
Não pouco
Só louco
Pegajoso
Da alma que achou-se pouca
Ainda sofro
E louco morro
Aguardo o sopro
De um amar louco
Não pouco
Igual ao outro
E aí então, não serei só louco
Nem só sopro
Serei vento e sopros
Um do outro
Nem loucos
Nem poucos
1 046
Hugo Pires
Milénio
Por dois mil calhaus subi,
Tropeçando nas suas arestas áridas.
Dois mil socalcos escavei,
Rasgando a terra com as minhas mãos.
Duas mil videiras plantei,
Regando seus pés com a minha esperança.
Dois mil frutos colhi,
E de seu sumo vinho fiz,
E em dois mil litros de desilusão,
Mergulhei enfim sem salvação.
Tropeçando nas suas arestas áridas.
Dois mil socalcos escavei,
Rasgando a terra com as minhas mãos.
Duas mil videiras plantei,
Regando seus pés com a minha esperança.
Dois mil frutos colhi,
E de seu sumo vinho fiz,
E em dois mil litros de desilusão,
Mergulhei enfim sem salvação.
1 024
Antonio Rogerio Czelusniak
Vôo
Num voo
sem destino
desabalo carreiras sem fim
procuro pousada
negam abrigo
eu....
pássaro ferido
pela mão
pela arma
pelo não.
Voarei uma eternidade
descansarei na saudade
morrerei
ao alvorecer.
sem destino
desabalo carreiras sem fim
procuro pousada
negam abrigo
eu....
pássaro ferido
pela mão
pela arma
pelo não.
Voarei uma eternidade
descansarei na saudade
morrerei
ao alvorecer.
338
Nana Corrêa de Lima
Yanomani
Yanomani
Hoje é dia de índio.
Deixo aqui pequena lágrima,
rolando na agonia
que antecede o final de tudo.
Anoitece o sangue na tribo....
Hoje é dia de índio.
Deixo aqui pequena lágrima,
rolando na agonia
que antecede o final de tudo.
Anoitece o sangue na tribo....
888
Nana Corrêa de Lima
Medo
Medo
Amo, mas sem certeza.
E é com dor nas entranhas
que assumo meus medos todos.
Vagarosamente,
Sem anestésico algum .....
Amo, mas sem certeza.
E é com dor nas entranhas
que assumo meus medos todos.
Vagarosamente,
Sem anestésico algum .....
823
Nelson Motta
Noite Interna
ao longo da longa noite
luzem luas, lumem luzes
que no entanto não clareiam
minha busca da manhã.
faltam forças
frágil fraquejo e por fim
fujo da faceminha que me fita:
feroz figura, feia criatura,
fruta fenecida a me fitar no espelho.
luzem luas, lumem luzes
que no entanto não clareiam
minha busca da manhã.
faltam forças
frágil fraquejo e por fim
fujo da faceminha que me fita:
feroz figura, feia criatura,
fruta fenecida a me fitar no espelho.
1 143
Madi
Dor
Dor
Se o grito aliviasse a minha dor,
o meu soaria inconsolável
Se o grito aliviasse a minha dor,
o meu soaria inconsolável
651
Madi
Tempo de Umidade
Tempo de Umidade
Há um leite que transborda morno,
suficiente e consistente em mim
Meu leite é farto
Não seco e nem disfarço
o tempo de umidade
Todo dia, em tempo integral,
meu leite escorre
E de umas manhãs para cá
a fonte deu para doer
Há um leite que transborda morno,
suficiente e consistente em mim
Meu leite é farto
Não seco e nem disfarço
o tempo de umidade
Todo dia, em tempo integral,
meu leite escorre
E de umas manhãs para cá
a fonte deu para doer
850
Carlos Augusto Viana
Os Corredores da Memória - I
1
quantos roçados de pranto
regados
prosseguem
no rosto
sobreviventes raizes
soturnos
percorremos
os silentes corredores da memória
2
cal e sofrimento
recompõem
o território em ruinas
no tecido da linguagem
estampam-se
palavras e paisagens
3
serpenteia-se
a procissão
dos mortos
não trazem
chamas
cânticos ou incensos:
apenas
anunciação
quantos roçados de pranto
regados
prosseguem
no rosto
sobreviventes raizes
soturnos
percorremos
os silentes corredores da memória
2
cal e sofrimento
recompõem
o território em ruinas
no tecido da linguagem
estampam-se
palavras e paisagens
3
serpenteia-se
a procissão
dos mortos
não trazem
chamas
cânticos ou incensos:
apenas
anunciação
790
Vivaldo Beldade
A Morte da Arvore
Leio nos teus ramos desnudados
e nas hastes quebradas
a luta travada na noite em que tombaste.
As tuas veias sem sangue
trazem-me aos sentidos a sinfonia da morte
no último acorde da tempestade.
Arvore agonizante,
eu sinto a dor da última folha que te abandona
e a prece desesperada do fim
na última lágrima que aspiras à terra.
e nas hastes quebradas
a luta travada na noite em que tombaste.
As tuas veias sem sangue
trazem-me aos sentidos a sinfonia da morte
no último acorde da tempestade.
Arvore agonizante,
eu sinto a dor da última folha que te abandona
e a prece desesperada do fim
na última lágrima que aspiras à terra.
1 007
Valdir L. Queiroz
Dissertação I
Grito no espaço procurando
o teu grito, que tu não gritaste
não sei porque ou por que...
mas tu me ensinaste,
não sei como nem onde,
a procurar o meu grito que
morre no teu, qual sombra
sem luz que forma uma cruz
e os olhos não vê.
o teu grito, que tu não gritaste
não sei porque ou por que...
mas tu me ensinaste,
não sei como nem onde,
a procurar o meu grito que
morre no teu, qual sombra
sem luz que forma uma cruz
e os olhos não vê.
898
Rodrigo Carvalho
Livro
à Soares Feitosa,
sobre o seu espantoso
"Requiem em Sol da Tarde"
Quem ao ler um livro,
chora,
como à morte de um querido ente,
sente,
o peso e a dor das palavras,
e cada gota de sangue e lágrimas,
como manchas,
em cada página.
E tem a alma leve, pura,
voando livremente...
Salvador, 12 de novembro de 1996
sobre o seu espantoso
"Requiem em Sol da Tarde"
Quem ao ler um livro,
chora,
como à morte de um querido ente,
sente,
o peso e a dor das palavras,
e cada gota de sangue e lágrimas,
como manchas,
em cada página.
E tem a alma leve, pura,
voando livremente...
Salvador, 12 de novembro de 1996
871
Ruy Pereira e Alvim
Sou Náufrago Solitário
Não vejo,
não ouço,
não sinto.
Sou cálice de absinto
bebido no meu naufrágio...
Horas para sonhar
tempo sem dimensão...
Não vejo,
não ouço,
não sinto.
E com certeza não minto
ao cantar minha evasão!...
Sou náufrago solitário
na ilha da solidão...
não ouço,
não sinto.
Sou cálice de absinto
bebido no meu naufrágio...
Horas para sonhar
tempo sem dimensão...
Não vejo,
não ouço,
não sinto.
E com certeza não minto
ao cantar minha evasão!...
Sou náufrago solitário
na ilha da solidão...
748
Silva Avarenga
Madrigal III
Voai, suspiros tristes;
Dizei à bela Glaura o que eu padeço,
Dizei o que em mim vistes,
Que choro, que me abraso, que esmoreço.
Levai em roxas flores convertidos
Lagrimosos gemidos, que me ouvistes:
Voai, suspiros tristes;
Levai minha saudade;
E, se amor ou piedade vos mereço,
Dizei à bela Glaura o que eu padeço.
Dizei à bela Glaura o que eu padeço,
Dizei o que em mim vistes,
Que choro, que me abraso, que esmoreço.
Levai em roxas flores convertidos
Lagrimosos gemidos, que me ouvistes:
Voai, suspiros tristes;
Levai minha saudade;
E, se amor ou piedade vos mereço,
Dizei à bela Glaura o que eu padeço.
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