Desilusão e Desamor

Poemas neste tema

Marcial

Marcial

EPIGRAMAS

I, 24 - A COTA

Com quem te não banhaste, não convidas nunca,
E só nos balneários teus convivas buscas.
A mim me perguntava como nunca o fora:
E agora sei que, nu, não pude encher-te os olhos.

1 041
Lord Byron

Lord Byron

SO, WELL GO NO MORE A-ROVING

Não mais prazer nos daremos
até a noite acabar,
se bem que inda nos amemos
e como antes brilhe o luar.

A espada à bainha gasta,
as almas cansam o seio.
Coração que não se afasta
pode até ficar em meio.

Para o amor a noite é feita,
e depressa chega o dia.
Mas o prazer nos enjeita
à luz da lua sombria.

1 153
Caio Valério Catulo

Caio Valério Catulo

LXX

Minha mulher diz que prefere ninguém mais
Do que eu para se casar, caso o próprio
Júpiter não se imponha. Assim ela tem dito:
Mas o que uma mulher diz ao amante
Apaixonado deveria ser escrito
Sobre o vento e na água torrencial.

1 284
Jean Cocteau

Jean Cocteau

DORSO DE ANJO

Em sonhos rua que encanta
e uma trombeta irreal
mentiras são que levanta
um anjo celestial.

Que seja sonho ou não seja,
logo a mentira se afunda,
se a gente de cima o veja,
que todo o anjo é corcunda.

Pelo menos é-o a sombra
na parede do meu quarto.

2 007
Roberta Cazal

Roberta Cazal

Aquela noite

Naquela noite eu disse: eu te amo

E acordei suada
Tua saliva pelo corpo
Mente nublada de sono

E levantei curada
Das marcas que deixaste em mim
Mas não sei bem se despertei feliz

Me encostei amuada
No teu peito e repeti: Eu te amo, eu te amo!
Naquela noite eu sonhei em preto e branco

851
Silvia Brito

Silvia Brito

Beijo

Beijo partido de vidro
incandescente.
De cores escorridas
e pincéis sujos.
Beijo de papel branco
No canto jogado.
Beijo cheio de ausências,
de cortes e dores,
De braços cansados.
Beijo de caminho sem volta,
de quarto vazio.
Beijo sem boca,
Sem corpo, sem custo.
Beijo no claro e vazio da minha alma
Que se solta...
Calma.

1 249
Amparo Jimenez

Amparo Jimenez

Ilusión Marina

(A Rosamaría)

Tu lengua,
pececillo inquieto en mi rostro.
Tu boca,
ostra que juega con mis labios.
Tu piel,
arena ardiente sobre mi cuerpo todo.
Tu voz,
canto de sirena que me llama y espera.
Mi piel y mi alma responden
pero tú, sirena mía,
te esfumas con el sol
al bajar la marea.

989
Almeida Garrett

Almeida Garrett

Não te amo

Não te amo, quero-te: o amor vem dalma.
E eu nalma tenho a calma,
A calma do jazigo.
Ai! Não te amo, não.

Não te amo, quero-te: o amor é vida.
E a vida - nem sentida
A trago eu já comigo.
Ai, não te amo, não!

Ai! Não te amo, não; e só te quero
De um querer bruto e fero
Que o sangue me devora,
Não chega ao coração.

3 118
Natália Correia

Natália Correia

O Livro dos Amantes IX

Pusemos tanto azul nessa distância
ancorada em incerta claridade
e ficamos nas paredes do vento
a escorrer para tudo o que ele invade.

Pusemos tantas flores nas horas breves
que secam folhas nas árvores dos dedos.
E ficámos cingidos nas estátuas
a morder-nos na carne dum segredo.

1 867
Aldir Blanc

Aldir Blanc

Desencontro Marcado

Da série "Árias para folha de fícus" - I

É, não vem,
não vou.
Deixa pra lá,
depois se vê.
Você queima
e eu não ponho
a mão no fogo por você.

1 526
Aldir Blanc

Aldir Blanc

Lamas

Da série "Árias para folha de fícus" - II

Ter coragem de olhar
pela última vez
e mentir calmamente:
quem sabe?... Talvez...
como se a última vez
ficasse pra outra vez

1 334
Cláudio Ferro

Cláudio Ferro

O Vento Leve

O vento breve,
assim tão leve,
carregou a flor.
Ai! Que dor!
Sem detê-lo,
ou tê-la ao zelo,
penso:
O amor é grande besteira.
De todas, a maior asneira,
que os meus olhos vêem.
Que os meus olhos vêem?
Que será aquilo?
Que doce cor!
Que belo perfume!
Que Flor!
E se for?
Será o fim deste azedume?
05 de Junho de 1997 01:36

857
Jaumir Valença da Silveira

Jaumir Valença da Silveira

Fluminense FM

O sol, o céu e o sal;
onda cobrindo a areia.

Calçada, porrada, breu,
cerveja noite adentro.

Segredo tanto eu tenho,
só você que escutava,

acho que agora eu morro
um pouco sem tua voz

ouvido, garganta, língua,
sobra um pouco de nada.

Saudade de quem te acredita.
Adeus,
maldita.

919
Paulo Leminski

Paulo Leminski

ALÉM ALMA (UMA GRAMA DEPOIS)

Meu coração lá de longe
faz sinal que quer voltar.
Já no peito trago em bronze:
NÃO TEM VAGA NEM LUGAR.
Pra que me serve um negócio
que não cessa de bater?
Mais parece um relógio
que acaba de enlouquecer.
Pra que é que eu quero quem chora,
se estou tão bem assim,
e o vazio que vai lá fora
cai macio dentro de mim?

2 132
Fernando Pessoa

Fernando Pessoa

III - From my villa on the hill I long looked down;

From my villa on the hill I long looked down
Upon the muttering town;
Then one day drew (life sight-sick, dull hope shed)
My toga o'er my head
(The simplest gesture being the greatest thing)
Like a raised wing.
3 416
Fernando Pessoa

Fernando Pessoa

Era isso mesmo

Era isso mesmo –
O que tu dizias,
E já nem falo
Do que tu fazias...

Era isso mesmo...
Eras outra já,
Eras má deveras,
A quem chamei má...

Eu não era o mesmo
Para ti, bem sei.
Eu não mudaria,
Não – nem mudarei...

Julgas que outro é outro.
Não: somos iguais.


06/10/1934
4 777
Fernando Pessoa

Fernando Pessoa

No meu sonho estiolaram

No meu sonho estiolaram
As maravilhas de ali,
No meu coração secaram
As lágrimas que sofri.
Mas os que amei não acharam
Quem eu era, se era em si,
E a sombra veio e notaram
Quem fui e nunca senti.


10/08/1932
3 987
Fernando Pessoa

Fernando Pessoa

Renego, lápis partido,

Renego, lápis partido,
Tudo quanto desejei.
E nem sonhei ser servido
Para onde nunca irei.

Pajem metido em farrapos
Da glória que outros tiveram,
Poderei amar os trapos
Por ser tudo que me deram.

E irei, príncipe mendigo,
Colher, com a boa gente,
Entre o ondular do trigo
A papoula inteligente.


12/04/1934
4 336
Fernando Pessoa

Fernando Pessoa

Ó sorte de olhar mesquinho

Ó sorte de olhar mesquinho
E gestos de despedida,
Apanha-me do caminho
Como a uma coisa caída...

Resvalei à via velha
Do colo de quem sonhava.
Leva-me como na celha
O sabão de quem lavava...

Quem quer saber de quem fora
Quem eu fora se outro fosse...
Olha-me e deita-me fora
Como quem farta de doce.


24/06/1930
4 131
Fernando Pessoa

Fernando Pessoa

Maravilha-te, memória!

Maravilha-te, memória!
Lembras o que nunca foi,
E a perda daquela história
Mais que uma perda me dói.

Meus contos de fadas meus –
Rasgaram-lhe a última folha...
Meus cansaços são ateus
Dos deuses da minha escolha...

Mas tu, memória, condizes
Com o que nunca existiu...
Torna-me aos dias felizes
E deixa chorar quem riu.


21/08/1930
8 619
Fernando Pessoa

Fernando Pessoa

Meus dias passam, minha fé também.

Meus dias passam, minha fé também.
Já tive céus e estrelas em meu manto.
As grandes horas, se as viveu alguém,
Quando as viver, perderam já o encanto.


1924
4 263
Fernando Pessoa

Fernando Pessoa

Tudo quanto sonhei tenho perdido

Tudo quanto sonhei tenho perdido
Antes de o ter.
Um verso ao menos fique do inobtido,
Música de perder.

Pobre criança a quem não deram nada,
Choras? É em vão.
Como eu choro à beira da erma estrada.
Perdi o coração.

A ti talvez, que não te tens dado,
Daria enfim...
A mim... Sei eu que duro e inato fado
Me espera a mim?


1920
4 454
Fernando Pessoa

Fernando Pessoa

Ah, toca suavemente

Ah, toca suavemente
Como a quem vai chorar
Qualquer canção tecida
De artifício e de luar –
Nada que faça lembrar
A vida.

Prelúdio de cortesias,
Ou sorriso que passou...
Jardim longínquo e frio...
E na alma de quem o achou
Só o eco absurdo do voo
Vazio.


08/11/1922
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