Desejo

Poemas neste tema

António Ramos Rosa

António Ramos Rosa

Dá-Me a Cor do Tempo

Dá-me a cor do tempo
numa lâmpada
formada pela carícia
das tuas mãos sedentas.
890
António Ramos Rosa

António Ramos Rosa

Enquanto Estamos Vivos

Enquanto estamos vivos
procuramos saber e, mais do que saber,
o sabor que dilata espesso e fúlgido
e que queima como uma axila ou como um púbis
e é nostalgia, paixão, ignorância,
vazio vibrante
e a delícia sem máscaras em que o ar resplandece.
907
António Ramos Rosa

António Ramos Rosa

Sim, Digamos Sim Sem o Dizer

Sim, digamos sim sem o dizer
por todos os poros,
sim, este fulgor, este sopro, este jardim
que é como um barco ou um pássaro silencioso,
sim, esta única carícia sobre um corpo que flui infinitamente.
1 037
António Ramos Rosa

António Ramos Rosa

Mediadora do Real

Suavidade e tumulto.
Aroma da nudez.
Luz redonda, luz delícia
de evidência.

Prodígio da terra, grande
enlace
de imediatas moradas
confiantes.

Profusa maravilha, o centro
abriu-se.
Júbilo da nudez. Delírio fulvo.
A alegria lê a fábula real.
1 143
António Ramos Rosa

António Ramos Rosa

Vem Secretamente Aberta

Vem secretamente aberta
para nascer no sedento repouso
de estar sentindo o sabor do ilimite
tão simplesmente côncava no rumor
que germina em palavras silenciosas.
1 050
António Ramos Rosa

António Ramos Rosa

Nada No Instante do Tremor

Nada no instante do tremor
nada precede nada
o movimento surge instando conduzindo
numa área de emergência ambígua
até que o enlace intangível nos desnude.
979
António Ramos Rosa

António Ramos Rosa

Na Densidade Em Que Nada Se Repete

Na densidade em que nada se repete
irradiam sombras leves, nomes
vindos do ritmo profundo.
O corpo arde no início. Tudo é um âmbito.
1 055
António Ramos Rosa

António Ramos Rosa

O Desejo a Surpresa

O desejo     A surpresa
Ou a maravilha
Não pela igual imagem
mas destroçando-a

Resíduos só ou a passagem dos sinais
que dizem a passagem
do que será
se for     o contacto imprevisível
do obscuro
inacessível corpo em outro corpo vivo
1 001
António Ramos Rosa

António Ramos Rosa

As Pernas São o Grito

As pernas são o grito
no rosto     no ventre     A língua
contra a língua
ou antes as duas línguas que a destroem

Vertigem dos limites
contra a vertigem
Explosão     esta figura
ao atingir a superfície branca
983
António Ramos Rosa

António Ramos Rosa

Ancas Intermináveis Flancos

Ancas intermináveis     Flancos
que trucidam quando oscilam     dançam
(Trucidemo-las)
já que elas rasgam templos
e o próprio tempo
e o espaço
1 088
António Ramos Rosa

António Ramos Rosa

Mais do Que Um Rosto Um Espaço

Mais do que um rosto um espaço
multiplicado e branco     para o desejo ou o obscuro
A palavra que o disser dissolver-se-á
dissolvê-lo-á
na brancura doutra
Outro desejo e o mesmo
na palavra nua
de um alento
e na surpresa nua
1 078
António Ramos Rosa

António Ramos Rosa

Algo Completo Não Sei Onde

Algo completo     Não sei onde
O desejo de o ver     Forma e contacto

Um outro espaço     ou este mesmo
Opaco                            Transparente

Intacto
1 049
António Ramos Rosa

António Ramos Rosa

Um Furor de Espuma Entre As Algas

Um furor de espuma entre as algas
e o abandono de qualquer coisa escura
A violência extrema     a extremidade
desejável
Que verde a violência e que brancura
Neste outro branco agora balbucio
pássaro branco
insecto
espuma
1 039
António Ramos Rosa

António Ramos Rosa

Descida Oblíqua Leve

Descida oblíqua         leve
iluminação do corpo

Inclinas-te
para o ângulo direito fascinante
os traços negros
incendeiam-se
e algo se estende algo se ilumina
935
António Ramos Rosa

António Ramos Rosa

A Mão Baixa

A mão baixa

aranha de ar

rápida     intranquila

as armas que respiram

o desejo                     e a surpresa
1 071
António Ramos Rosa

António Ramos Rosa

O Que Permanece Ainda Enterrado Pobre

O que permanece ainda enterrado     pobre

no vazio nocturno

minha terra latente

no tempo sem sinais em que os sinais prolongam

os sulcos de uma sombra maquinal e branca

e o meu desejo é uma imagem

minúscula

uma pobre frase com duas árvores nuas
920
António Ramos Rosa

António Ramos Rosa

Cor Viva Sem Figura

Cor viva sem figura

Ferida

árida     ávida
464
António Ramos Rosa

António Ramos Rosa

Que Importam Estas Pálpebras Na Cerração

Que importam estas pálpebras na cerração

da terra

um olho dilacerado vê     a nudez de um corpo

obstinada desordem dos membros dissolvidos

o latejante trajecto da obscura mão

atinge o vazio de um centro                     o limite vivo

boca na árvore

iluminado seio     caminho

do pulso
493
António Ramos Rosa

António Ramos Rosa

66. Arma de Folhas E de Folhas

66
Arma de folhas e de folhas
sobre o seio nu
na folha transparente.

O animal suspenso
pela forma do fruto incandescente
brilhando e fugindo entre a folhagem
ou o sangue fugitivo na praia do teu peito.

Na erva, ausente, respiro o ar da erva
busco a arma de folhas numa sombra
transparente que é o desenho das armas do teu peito.
1 030
António Ramos Rosa

António Ramos Rosa

22. a Pergunta da Mão Aberta

22
A pergunta da mão aberta
na manhã matinal do quarto
aberta ao espírito de suavidade.

Alimentando o fogo o feliz rosto
criando a lâmpada de amorosa noite
mão no puro centro do impuro centro
resumindo a luz em luz da boca.

Resumindo o corpo e o lábio branco
luz que vive a palavra suavidade
que vive o viver do sangue amante.
892
António Ramos Rosa

António Ramos Rosa

39. Esta É a Folha, E a Folha

39
Esta é a folha, e a folha
de terra, mas a água da lâmpada
breve.

Que ela me diga a não-palavra
de palavra, a terra
e o corpo renascendo sob a árvore
e o espaço que é o espaço
o espaço.

E a terra da terra, o corpo
da figura
soprando a nuvem sobre as pernas
da mulher descoberta na ilha do seu quarto.
531
António Ramos Rosa

António Ramos Rosa

Terra Para Pronunciar…

Terra para pronunciar com os dentes da terra, terra escalavrada, presença e memória e espaço da ausência, espaço e desejo de espaço, e já o espaço do desejo, assim a terra negra, escalavrada, corpo branco e mudo.
1 238
António Ramos Rosa

António Ramos Rosa

Pedra Plana,…

Pedra plana, quase escrita e indelével, e a pulsação plana aflora o corpo e a frase estala, pedra e toalha, sinal vivo do caminho que não espera, que avança como se o mar aflorasse e o corpo vivo chegasse ao cimo da água, à frase sem memória, fonte de desejo.
1 195
António Ramos Rosa

António Ramos Rosa

Desejo E Deserto,…

Desejo e deserto, primeira e última sombra suscitando sobre o muro a respiração de um nada, estática sombra de ar, clarão de pedra negra que mal vejo, que retém o nada da sombra, a sombra de um nada quase terra, indelével a para sempre nesse instante perdida, aérea no muro.
1 215