Corpo

Poemas neste tema

António Ramos Rosa

António Ramos Rosa

Mediadora da Nudez

Um corpo aquece
ascende
liberta-se
dos círculos cinzentos.

Uma língua se tece
dentro da pele
as pálpebras compreendem
as cordas do silêncio.

Aroma global
da ferida e da resina
os extremos são barcas
nudez completa.
887
António Ramos Rosa

António Ramos Rosa

Mediadora do Opaco

Para o mínimo olhar a terra negativa,
os poços infantis,
lanças, palmas, dentes,
concavidades, placas, declives.

Não já a flor nem a folha soberana
mas os impulsos negros, a incoerência viva
do informulado: algo entre
vermes e excrementos explode

no opaco. Onde as palavras
circulares, concêntricas
se apagam.
973
António Ramos Rosa

António Ramos Rosa

Vem Secretamente Aberta

Vem secretamente aberta
para nascer no sedento repouso
de estar sentindo o sabor do ilimite
tão simplesmente côncava no rumor
que germina em palavras silenciosas.
1 050
António Ramos Rosa

António Ramos Rosa

No Extremo da Abolição, a Entrega Toda.

No extremo da abolição, a entrega toda.
O insondável puro é o vazio da água.
A terra inteira entrega-se num corpo.
830
António Ramos Rosa

António Ramos Rosa

Na Cavidade da Simplicidade

Na cavidade da simplicidade
deslizando no imóvel
somos animais marinhos de uma delícia verde.
516
António Ramos Rosa

António Ramos Rosa

Nela Se Curva a Luz

Nela se curva a luz
como se um feixe de músculos tocássemos
sob a pele.
1 062
António Ramos Rosa

António Ramos Rosa

No Vislumbre da Visão

No vislumbre da visão
o tacto do repouso a dispersão
do acaso e os campos de abandono
onde a nudez habita.
1 037
António Ramos Rosa

António Ramos Rosa

Impenetrável Gérmen Que Adormece

Impenetrável gérmen que adormece
no livre abandono de uma pálpebra.
Lento equilíbrio que suporta
o súbito vagar do ar.
1 111
António Ramos Rosa

António Ramos Rosa

No Abrigo Idêntico Ao Intacto Aceso,

No abrigo idêntico ao intacto aceso,
habitando o esplendor
da nudez material. Sentir
a morada íntegra, primeira
sobre o suporte imprescrutável.
998
António Ramos Rosa

António Ramos Rosa

Tudo Começa Aqui

Tudo começa aqui
no desamparo do horizonte nulo
aqui nasce o corpo no seu espaço virgem
de súbito uma espiral se ergue
ou quase o arco ainda entre o céu e o céu.
1 107
António Ramos Rosa

António Ramos Rosa

Na Densidade Em Que Nada Se Repete

Na densidade em que nada se repete
irradiam sombras leves, nomes
vindos do ritmo profundo.
O corpo arde no início. Tudo é um âmbito.
1 055
António Ramos Rosa

António Ramos Rosa

Gravitação Total Em Torno

Gravitação total em torno
de um contorno adormecido, forma ausente
de uma dança germinal que se retrai,
carícia de um sono imaculado.
949
António Ramos Rosa

António Ramos Rosa

Uma Delícia Intacta É o Seu Corpo

Uma delícia intacta é o seu corpo
numa irradiante atmosfera luminosa.
Gracioso repouso de irredutível sentido
e de enigma suave. Nudez de água
intensa
sobre areias verdes.
Um sopro grácil conduz o seu trabalho.
1 006
António Ramos Rosa

António Ramos Rosa

Não Já Sinais Nem Tropos Nem Imagens

Não já sinais nem tropos nem imagens
mas só o corpo na noite do contacto
o interior obscuro mas sem lugar
o espaço em que os traçados
se desfazem.
1 023
António Ramos Rosa

António Ramos Rosa

A Mão Silenciosa Percorre o Dorso Cálido

A mão silenciosa percorre o dorso cálido
que é um adormecer contínuo nos limites.
Nada mais que terra e solidão solar.
Nada treme e tudo está suspenso no vazio.
Nada se diz. É o silêncio da palavra.
1 053
António Ramos Rosa

António Ramos Rosa

Uma Felicidade Nos Dedos

Uma felicidade nos dedos
um fluir cálido o sol
captado no repouso sobre a mesa
e escrito aqui um sol tão rápido

Nada se separa sob os dedos
ignorantes da divisão do vidro
E se o pássaro fica
sem o canto
não o sabem os dedos

Eles deslizam sobre a superfície
na absoluta densidade indesvendável
1 061
António Ramos Rosa

António Ramos Rosa

Limiar Ou o Silêncio

Limiar ou o silêncio
de um corpo obscuro e branco
As hastes vivas
envolvem-no na clareira
em que a sua nudez promete o nome

A fenda escura e verde
em que desliza a mão
sem atingir o inseparável ou o núcleo

Imagens múltiplas
até que os limites se conjuguem
no novo corpo ou na palavra
que o transpõe
1 032
António Ramos Rosa

António Ramos Rosa

Ei-La Despida Ou

Ei-la despida ou
dir-se-ia a altura de uma nuvem
a árvore seria densa espada

A expressão é forte
é ela própria o que diz
e mais forte ainda quando
se implanta no músculo
por onde

O vento é a inteligência libertada

E agora a árvore se adensa
no músculo
para que o acto da forma seja intenso
967
António Ramos Rosa

António Ramos Rosa

O Desejo a Surpresa

O desejo     A surpresa
Ou a maravilha
Não pela igual imagem
mas destroçando-a

Resíduos só ou a passagem dos sinais
que dizem a passagem
do que será
se for     o contacto imprevisível
do obscuro
inacessível corpo em outro corpo vivo
1 001
António Ramos Rosa

António Ramos Rosa

As Pernas São o Grito

As pernas são o grito
no rosto     no ventre     A língua
contra a língua
ou antes as duas línguas que a destroem

Vertigem dos limites
contra a vertigem
Explosão     esta figura
ao atingir a superfície branca
983
António Ramos Rosa

António Ramos Rosa

A Que Aparece Nua

A que aparece nua
na trama variável
figura numa teia viva
entre rupturas
alta adormecida
ou sem pálpebras perante o monstro
e informe perde-se sonâmbula
mas não o traço nem as sílabas
nem os resíduos de frescura
no obstinado escuro trajecto
983
António Ramos Rosa

António Ramos Rosa

Ancas Intermináveis Flancos

Ancas intermináveis     Flancos
que trucidam quando oscilam     dançam
(Trucidemo-las)
já que elas rasgam templos
e o próprio tempo
e o espaço
1 088
António Ramos Rosa

António Ramos Rosa

Verde a Lentidão

Verde        A lentidão
da curva
A anca surge branca
A forma vive na folhagem o seu dia

Nuvem cintilante        ou forma
sobre forma
Surpresa dita ou por dizer
um outro sempre

É preciso cingi-lo
inventar-lhe os limites
à superfície branca
Aqui quando se diz
1 085
António Ramos Rosa

António Ramos Rosa

Descida Oblíqua Leve

Descida oblíqua         leve
iluminação do corpo

Inclinas-te
para o ângulo direito fascinante
os traços negros
incendeiam-se
e algo se estende algo se ilumina
935