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Poemas neste tema

Alphonsus de Guimaraens

Alphonsus de Guimaraens

XIV - Salmos da Noite

A ALVES DE FARIAS


Proserpina do mal, dá-me o veneno, dá-me
A delícia que escorre em teu seio de neve...
Para que ainda eu te ame,
Abre o rio do beijo ensanguentado e leve,
O Létis que me faz esquecer que és infame.

Eu sonho que o teu leito é a barca de Caronte,
Que desce pelo mar brumoso das orgias;
E fronte unida à fronte
Vamos nós, eu e tu, tu e eu, noites e dias,
Sem ar no peito sem clarões pelo horizonte.

Abre o seio infernal, abre o olhar negro e terno,
Onde geme o calor, onde soluça o frio.
Tu que és filha do inferno,
Podes abrir no peito um sepulcro sombrio,
Onde a minh'alma durma um sono mau e eterno.

Filha ideal de Satã, que o meu olhar absorto
Pouse nos olhos teus, pego medonho e atro
Onde paira o conforto,
E a dor, como as visões de um tenebroso teatro,
Onde uma palhaço canta, onde repousa um morto.

Beijo talhada em carne, abismo eternamente
Sombrio e mau, por onde espio e me debruço,
Abre o seio dormente,
Chora o teu pranto falso, e que em cada soluço
Do teu peito, eu escute a voz de uma serpente.


In: GUIMARAENS, Alphonsus de. Obra completa. Organização de Alphonsus de Guimaraens Filho. Introdução de Eduardo Portella. Notas biográficas de João Alphonsus. Rio de Janeiro: J. Aguilar, 1960. p. 548-549. (Biblioteca luso-brasileira. Série brasileira, 20). Poema integrante da série Salmos da Noite
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Sousa Caldas

Sousa Caldas

Ode III - Sobre a Necessidade da Revelação

(...)

Antístrofe 3a.

Ó México! ó cidades desgraçadas
Do novo aflito mundo!
Parece-me que vejo inda ensopadas
Em sangue as vossas casas; furibundo
Voraz fogo nos ares estalando,
Os vossos débeis muros arrasando.

Epodo 3o.

Embora cante a fama
A constante invencível fortaleza
De Colombo imortal, do invicto Gama:
A Européia crueza
Manchou depois a sua nobre empresa.

(...)


In: CALDAS, Sousa. Obras poéticas: poesias sacras e profanas. Org. e notas Francisco de Borja Garção-Stockler. Paris: Of. de P.N. Rougeron, 1821. v.
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Dante Milano

Dante Milano

Salmo Perdido

Creio num deus moderno,
Um deus sem piedade,
Um deus moderno, deus de guerra e não de paz.

Deus dos que matam, não dos que morrem,
Dos vitoriosos, não dos vencidos.
Deus da glória profana e dos falsos profetas.

O mundo não é mais a paisagem antiga,
A paisagem sagrada.

Cidades vertiginosas, edifícios a pique,
Torres, pontes, mastros, luzes, fios, apitos, sinais.
Sonhamos tanto que o mundo não nos reconhece mais,
As aves, os montes, as nuvens não nos reconhecem mais,
Deus não nos reconhece mais.


Publicado no livro Poesias (1948). Poema integrante da série Terra de Ninguém.

In: MILANO, Dante. Poesias. Pref. Ivan Junqueira. Petrópolis: Ed. Firmo, 1994. p.89. (Pedra mágica, 1
767
Cassiano Ricardo

Cassiano Ricardo

Retorno à Rua

I
Turba-multa multicor. Em tumulto.

O ideal e a fome reunidos
em algum lugar da terra na rua.

Contra a exploração do osso humano
pelo cachorro humano.

Subvivos, no anseio de sobreviver.
O povo
na rua.

E já os policiais, geometricamente
chovidos de botões de ouro, na mão
a metralhadora portátil,
leve e breve;
na rua.

Vultos baralhados cuspindo furiosas
sílabas de sangue, uns na
face dos outros
de um a outro lado
da rua.

Bairro contra bairro, relâmpagos
de fuzis e o saldo:
(rubras rosas
monstruosas) que desabrocharam
na rua.

Bocas sem lábios que ficaram rindo
na rua

Dedos brotando avulsos pelos
vãos dos sapatos
na rua.

Olhos parados no rosto das calçadas
máquinas azuis-fixas fotografando
o juízo final
na rua.

Braços com mãos despetaladas, sem
uma cabeça que lhes sirva de
lanterna
e os recomponha,
na rua.

O interrogatório. Os sobreviventes.
Pedregulhos nos olhos.
Salvos
à fúria bélico-purpúrea da lei
na rua.

II

Outro saldo: o dos sobreviventes
indignos. Os que não saíram
de casa.

Os que faltaram a seus compr'
omissos
com a rua.

Os omissos.


In: RICARDO, Cassiano. Os sobreviventes: acompanhados de um poema circunstancial e de uma tradução. Pref. Eduardo Portella. Rio de Janeiro: J. Olympio, 1971. p.184-185. Poema integrante da série O Bloco dos Suicidas
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Tomás Antônio Gonzaga

Tomás Antônio Gonzaga

Carta 3a

Em que se contam as injustiças e violências,
que Fanfarrão executou por causa de uma cadeia,
a que deu princípio.

(...)
Aqui, prezado Amigo, principia
Esta triste tragédia; sim prepara,
Prepara o branco lenço, pois não podes
Ouvir o resto, sem banhar o rosto
Com grossos rios de salgado pranto.
Nas levas, Doroteu, não vêm somente
Os culpados vadios; vem aquele,
Que a dívida pediu ao Comandante;
Vem aquele, que pôs impuros olhos
Na sua mocetona: e vem o pobre,
Que não quis emprestar-lhe algum negrinho,
Para lhe ir trabalhar na roça, ou lavra.

Estes tristes, mal chegam, são julgados
Pelo benigno Chefe a cem açoites.
Tu sabes, Doroteu, que as Leis do Reino
Só mandam, que se açoitem com a sola,
Aqueles agressores, que estiverem
Nos crimes quase iguais aos réus de morte:
Tu também não ignoras, que os açoites
Só se dão por desprezo nas espáduas;
Que açoitar, Doroteu, em outra parte,
Só pertence aos Senhores, quando punem
Os caseiros delitos dos escravos.
Pois todo este Direito se pretere:
No pelourinho a escada já se assenta,
Já se ligam dos Réus os pés, e os braços;
Já se descem calções, e se levantam
Das imundas camisas rotas fraldas;
Já pegam dous verdutos nos zorragues;
Já descarregam golpes desumanos;
Já soam os gemidos e respingam
Miúdas gotas de pisado sangue.
Uns gritam que são livres: outros clamam
Que as sábias Leis do Rei os julgam brancos:
Este diz, que não tem algum delito,
Que tal vigor mereça; aquele pede
Do injusto acusador ao Céu vingança.
Não afroxam os braços dos verdugos:
Mas antes com tais queixas se duplica
A raiva dos tiranos; qual o fogo,
Que aos assopros dos ventos ergue a chama.
Às vezes, Doroteu, se perde a conta
Dos cem açoites, que no meio estava:
Mas outra nova conta se começa.
Os pobres miseráveis já nem gritam.
Cansados de gritar, apenas soltam
Alguns fracos suspiros, que enternecem.
Que é isso, Doroteu? Tu já retiras
Os olhos do papel? Tu já desmaias?
Já sentes as moções, que alheios males
Costumam infundir nas almas ternas?
Pois és, prezado Amigo, muito fraco;
Aprende a ter o valor do nosso Chefe,
Que à janela se pôs, e a tudo assiste,
Sem voltar o semblante para a ilharga;
E pode ser, Amigo, que não tenha
Esforço para ver correr o sangue,
Que em defesa do Trono se derrama.
(...)

Imagem - 00170005


Publicado no livro Cartas Chilenas (1845).

In: GONZAGA, Tomás Antônio. Cartas chilenas. Introd. cronol. notas e estabelecimento de texto Joaci Pereira Furtado. São Paulo: Companhia das Letras, 1995. p.92-95. (Retratos do Brasil, 1
3 216
Cora Coralina

Cora Coralina

O Longínquo Cantar do Carro

(...)

Carregar o carro, jungir os bois,
pegar na dispensa da casa grande mantimento para a viagem,
— quatro dias ida e volta, receber a lista das encomendas,
levar bruacas de couro por cima do taboado com os presentes
que a fazenda oferecia a parentes,
era a rotina da vida no Paraíso e nós, jovens, ansiando já pela volta
[do carro,
cartas e jornais do Rio de Janeiro.
Minha mãe era assinante do "Paiz" e para nós vinham os romances
do Gabinete Literário Goiano.
Esperar a volta do carro, imaginar as coisas que viriam da cidade,
tomavam a imaginação desocupada das meninas moças.
Acostumei a ler jornais com a leitura do "Paiz".
Colaboravam Carlos de Laet, Arthur Azevedo, Júlia Lopes de Almeida,
Carmem Dolores.
Meus primeiros escritinhos foram publicados no suplemento desse
[jornal.
Acompanhei, na sua leitura, fatos e acontecimentos universais.
O casamento de Afonso XIII com a princesa de Betenberg,
neta da rainha Vitória, um atentado anarquista,
uma bomba atirada no cortejo nupcial.
E mais todo o desenrolar da guerra russo-japonesa no começo deste
[século,
onde o Japão se revelou potência bélica, vencendo a Rússia.
Muitos meninos nascidos naquele tempo
tiveram o nome de Togo, o grande general japonês
A casa esperava o café. Regrava-se o sal na cozinha.
As mulheres dos moradores também esperavam suas encomendas.
Chita vistosa para vestidos, chinelos para dia santo e domingo.
Pente. Carrinho de linha, agulheiro, peça de algodão Americano.
Salamargo, riscado para camisa de homem. Metros de mescla barata
para o nu dos meninos, lenço ramado pra cabeça.
Alguma ferramenta para o serviço.
A "carrada" tinha que pagar toda esta bagaceira,
às vezes um saldo, mais vezes um "deve" no comércio
para acertar "da outra vez".

Uma festa, apurar o ouvido ao longínquo cantar do carro,
avistado na distância, esperar as novidades que vinham:
cartas, livros e jornais.
Era uma vida para aquela mocidade despreocupada,
pobre e feita de sonhos.

Imagem - 00580006


In: CORALINA, Cora. Vintém de cobre: meias confissões de Aninha. 4. ed. Goiânia: Ed. da Universidade Federal de Goiás, 198
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Sebastião Uchoa Leite

Sebastião Uchoa Leite

Cortes-Toques

Van Gogh cortou a orelha
O Pequeno Hans tinha pânico de cavalos
Landru queimava mulheres
Manson & Família
Riscaram Pig com o sangue das vítimas
No subúrbio do Rio acharam
Mulher tapada numa cisterna
Papéis jornais recortes
Grandes entulhos e um canal
É difícil entender a desordem
Há um ano ela olhava o mar desta janela
Nefesh Nafs Atman
Que quer dizer alma?
Bombons envenenados no Japão
Parece a corcunda de Kierkegaard
Um toque de dedos rápido
O prazer de alfinetes
Aqui é o limite: atenção
Como o punctum de uma foto
A orelha cortada é uma sinédoque.

1984


Poema integrante da série Cortes/Toques, 1983-1988.

In: LEITE, Sebastião Uchoa. Obra em dobras, 1960/1988. São Paulo: Duas Cidades, 1988. (Claro enigma)
1 337
Henriqueta Lisboa

Henriqueta Lisboa

A Face Lívida [De súbito cessou a vida

.De súbito cessou a vida.
Foram simples palavras breves.
Tudo continuou como estava.

O mesmo teto, o mesmo vento,
o mesmo espaço, os mesmos gestos,
Porém como que eternizados.

Unção, calor, surpresa, risos
tudo eram chapas fotográficas
há muito tempo reveladas.

Todas as cousas tinham sido
e se mantinham sem reserva
numa sucessão automática.

Passos caminhavam no assoalho,
talheres batiam nos dentes,
janelas se abriam, fechavam.

Vinham noites e vinham luas,
madrugadas com sino e chuva.
Sapatos iam na enxurrada.

Meninas chegavam gritando.
Nasciam flores de esmeralda
no asfalto! mas sem esperança.

Jornais prometiam com zelo
em grandes tópicos vermelhos
o fim de uma guerra. Guerra?...

Os que não sabiam falavam.
Quem não sentia tinha o pranto.
(O pranto era ainda o recurso
de velhas cousas coniventes.)

Nem o menor sinal de vida.
Tão-só no fundo espelho a face
lívida, a face lívida.


Publicado no livro A Face Lívida: poesia, 1941/1945 (1945).

In: LISBOA, Henriqueta. Obras completas I: poesia geral, 1929/1983. Pref. Fábio Lucas. São Paulo: Duas Cidades, 198
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Mário Faustino

Mário Faustino

Sextina: Altaforte

Loquitur: En Bertrans de Born
Dante Alighieri pôs este homem no inferno por
tratar-se de um provocador de desordens.

Eccovi!
Julgai-o vós!
Será que o desenterrei de novo?

A cena é em seu castelo, Altaforte. "Papiols" é seu jongleur.
"O Leopardo", a device de Ricardo Coeur de Lion.


I

Tudo prós diabos! Todo este Sul já fede a paz.
Anda cachorro bastardo, Papiols! À música!
Só sei que vivo se ouço espadas que ressoam.
Mas ah! Com os estandartes ouro e roxo e vair se opondo
Por cima de amplos campos encharcados de carmim
— Uiva meu peito então doido de júbilo.

II

Se é verão quente, encho-me então de júbilo
Quando a tormenta mata a horrenda paz,
E do negro os relâmpagos reboam seu carmim,
E os tremendos trovões rugindo-me, que música!
Doidos ventos e nuvens ululando e se opondo
Céu rachando e teus gládios, Deus, ressoam.

III

Praza aos diabos de novo que ressoem!
E os corcéis na batalha relinchando de júbilo,
De espigão na peitarra às peitarras se opondo:
Melhor o tremor de uma hora do que meses de paz
Mesa gorda, fêmeas, vinho, débil música!
Não há vinho como o sangue e seu carmim!

IV

E adoro ver o sol subir sangue-e-carmim.
E contemplo-lhe as lanças que no escuro ressoam
E transborda meu peito, dilatado de júbilo,
E rasgo minha boca de ágil música
Quando o vejo zombar, desafiando a paz,
Seu poder solitário contra o escuro se opondo.

V

Esse que teme a guerra e se acocora opondo-
Se ao que digo, não tem sangue carmim,
Só serve pra feder em feminina paz
Longe donde as aspadas trazem glória e ressoam
— Vossa morte, cadelas, recrudesce-me o júbilo
E por isso encho o ar com minha música.

VI

Papiols! papiols! Música, música!
Não há som como espadas às espadas se opondo,
Não há grito como na batalha o júbilo,
Cotovelos e espadas gotejando carmim,
Quando contra "O Leopardo" nossas cargas ressoam.
Deus maldiga quem quer que grite "Paz!"

VII

Que a música da espada os cubra de carmim!
Praza ao diabo, de novo, espadas que ressoam!
Praza ao diabo apagar o pensamento "Paz!"

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Poema integrante da série Fontes e Correntes da Poesia Contemporânea: 13. Ezra Pound.

In: FAUSTINO, Mário. Poesia-experiência. Introd. Benedito Nunes. São Paulo: Perspectiva, 1977. (Debates, 136).

NOTA: Tradução de poema de Ezra Poun
1 856
Paulo Setúbal

Paulo Setúbal

Volta ao Arraial

Pascoal Moreira torna ao arraial onde deixara a bagagem. Vinha amuado; vinha sucumbido. "Com este infeliz successo se encheu de grande dissabor o cabo da tropa Paschoal Moreira". A derrota lancetara fundo a vaidade do sertanista. Que fazer agora? Voltar? E voltar sem índios? Não! O orgulho caboclo de Pascoal Moreira não sofrerá jamais que ele volte a São Paulo de mãos vazias. E não voltará de fato. Os deuses fadaram o paulista para destinos magníficos. Que sina curiosa a do desbravador! Vêde:

Os bandeirantes, derrotados e murchos, têm, ao penetrarem no arraial, esta inesperada e vivíssima surpresa: são festivamente recebidos com gritos, estrondos de mosquete, ronqueiras, grossa barulhada! Que é aquilo? Que significam tão quentes júbilos? A boa-nova espalha-se instantaneamente:

— Ouro!

A peonada grita, e arremessa os chapéus, e baila, e está toda num ébrio fanfarreio de alegria.

— Ouro! Ouro!

Mas como? Onde? Pascoal Moreira, desta vez, quer saber os detalhes do acontecido. Manda buscar os peões para inteirar-se do que houve. Sabe então que os peões — "os que haviam ficado na bagage" — haviam resolvido, para matar o tempo, explorar as barrancas do Coxipó.

Eram as mesmas barrancas onde os dois moleques haviam dado com as primeiras oitavas. Principiaram eles o trabalho de manhãzinha. Mas não trabalharam muito tempo: duas horas após, com gritos de júbilo, toparam aqueles homens com riquíssima pinta de ouro. Que pinta soberba! Foi uma das maiores que já se achou no Brasil. Do chão bruto, como por milagre, jorrou logo, às mãos dos caboclos, larga manancial de ouro. Os bagageiros, por entre alegrias infrenes, atiraram-se então a um cavocar furioso: "huns achavam cem oitavas, outros meia libra, outros cincoenta oitavas, conforme o que cada um fez em cavar com as maons, que outros instrumentos de minerar não havia. . ."

Pascoal Moreira ouve e vê. O ouro — aquele ouro real, tangível, que ali reluz às mãos da peonada — esbraseia, afinal, o ânimo frio do povoador. Pascoal, tocado de súbito entusiasmo, sai também a mineirar. E logo, ao esbrugar os primeiros torrões, irrompe entre os bandeirantes o mesmo grito mágico:

— Ouro!

Que surpreendente colheita! Grãos e folhetas faíscam a rodo no cascalho. Basta dizer que "os que haviam acompanhado o Capitão Paschoal Moreira, mais aproveitados, assim como o mesmo Capitão, acharam cada um libra e meia de ouro..." Não podia haver, para a derrota sofrida com os Coxiponés, epílogo mais fascinante. O retorno ao arraial das bagagens, aquele doloroso retorno de vencidos, foi o lustre e a glória da bandeira.

Por isso, no sertão bravo do Coxipó, nessa noite, lá naquele humilde arraial improvisado, tão longe dos homens e do mundo, viveram aqueles toscos sertanejos a sua grande noite de sonho e febre. Não podiam dormir. E com razão! Todos eles, tontos de gozo, "cantavam victoria contra as fadigas da pobreza, davam-se huns aos outros parabens de suas fortunas, e, reciprocamente, offereciam-se laudencias de alegria".

Pascoal Moreira, no seu mísero rancho de sapé, podia enfim, bem merecidamente, descansar das suas longas e rudes fadigas de bandeirante. O paulista, é verdade, não conquistara o ambicionado Coxiponé: conquistara, o que é bem mais, as ruidosas minas do sertão.

Estava descoberto o ouro de Cuiabá.


Publicada no livro O Ouro de Cuiabá (1933).

SETÚBAL, Paulo. O ouro de Cuiabá: crônicas. 5. ed. São Paulo: Saraiva, 1956. p. 38-40. (Obras de Paulo Setúbal, 8)
1 183
Pedro Nava

Pedro Nava

Educação Sentimental

P/Alberto Deodato


Mariquita fechou o Escrich
e teve vontade dum espanhol
com seu punhal
para matá-la...


In: REVISTA DE ANTROPOFAGIA, São Paulo, ano 1, n.9, p.2, jan. 192
1 575
Glauco Mattoso

Glauco Mattoso

Tropicalista, 1999

Uma antropofagia, até tardia,
tornou a nossa música salada
de fruta, nacional ou importada,
naquela tropicália de alegria.

Sessenta foi a década do dia:
solar, viva na cor, iluminada.
Criou-se como não se cria nada.
Valia tudo e tudo, então, valia.

Caetano, Gil, Mutantes, circo e pão.
Modernantiga guarda, esquerdireita.
Barroco'n'roll. Mambossa. Rumbaião.

Eu era adolescente, e, certa feita,
senti num festival que uma canção
é letra, e tudo nela se aproveita.


In: MATTOSO, Glauco. Paulisseia ilhada: sonetos tópicos. São Paulo: Ciência do Acidente, 1999.
1 569
Joaquim Manuel de Macedo

Joaquim Manuel de Macedo

Canto V - A Mãe

Mas é noite; em seu manto de papoulas
As donzelas acolhe um brando sono.
Em vasta sala que as janelas abre
Para ver o remanso de escolhidas flores,
Descansa a Peregrina; em doces ondas
De perfumes fagueiras vêm as auras
Brincar com as telas de virgíneo leito;
Da mãe de Deus a imagem sacrossanta
Em áureo quadro à cabeceira pende;
Dorme feliz a cândida donzela,
E das roupas finíssimas e brancas
Sob as quais lindas formas se desenham,
Um colo, que no alvor supera a neve,
E um rosto divinal surgem formosos,
Onde estão os encantos pululando
Através das madeixas atrevidas,
Que soltas vão pousar no seio e face,
Nublando graças que paixões acendem.
Um braço nu, que das cobertas foge,
Tipo de perfeição meigo de dobra,
As telas conchegando ao níveo seio,
Instinto de pudor, inda no sono.
D´uma janela aos zéfiros aberta
Vê-se no Céu a lua, e a lua afável
De luz derrama enchentes sobre o leito,
Contemplando, qual anjo adormecido,
Imersa a Peregrina em seus fulgores.


In: MACEDO, Joaquim Manuel de. A Nebulosa: poema. Rio de Janeiro: Garnier, s. d. p. 195-19
2 045
Eudoro Augusto

Eudoro Augusto

Final de Século

A coisa anda meio difícil
pra quem não dispensa uma alegria.
Até uma boa e sincera tristeza
anda cada vez mais rara
com essa moda de alto astral a qualquer preço.
Se alguém acha que este mundo
anda meio cafajeste, ou ainda mais,
não sou eu que vou contradizer.
Mas na verdade, tudo mudou
muito pouco.
Um ou outro mito,
aqui e ali um grito,
mais ou menos aflito.
O que varia mesmo é o som do apito
de acordo com o bairro, conforme o gueto.
Em alguns a polícia acode e sacode;
em outros se salva quem pode.
A carne continua fraca.
Mormente a da mucosa,
mais frágil, mais perigosa.
A lua tem seus caprichos.
Os poderosos mentem,
as filas aumentam,
a cerveja anda nojenta
e o rapaz da TV diz que vai ser mais eficaz
o combate ao tráfico de drogas.
Por mim, espero apenas
a passagem vertiginosa dos riscos voadores.


In: AUGUSTO, Eudoro. O desejo e o deserto. São Paulo: Massao Ohno, 1989. Poema integrante da série Uma Noite na Ópera
1 010
Armindo Trevisan

Armindo Trevisan

Funilaria no Ar X

Vamos, irmão, de mãos dadas,
trazer o que no sótão amadureceu
para este momento de palavra e gume,
de melancolia enfiada no sangue.

Vamos, sem tardança, adoecer de instinto,
para que o comprido de nossa exigência
abarque a brevidade de quinhentos anos.
Estou contigo, dá-me a tua mão, sempre.

Vamos até à certeza de que o tremor
da terra que sacudiu a primeira manhã,
e a perdemos por ser infantes,
ressuscite em nós, seja um longo compromisso.

Vamos regredir, se preciso for, somos jovens,
o negro não nos doeu demais na carne,
nem o canibal arreganhou nossa ciência.
Ali estão, neles, os desmandos apetecidos.

Poderemos, por instante, escrever nossos nomes,
as mãos dadas são dadas também quando se separam;
mas as mãos caminham pelos pés, se a estes
incumbe o apoio sem o qual só pensamos.

Demo-nos as palavras, uns aos outros, irmão,
as palavras farejam o álcool da guerra,
cada guerra que se cogita traz dentro do peito
outra guerra maior, a guerra consigo mesmo.

Vamos, irmão! A funilaria está marcada
pela lata que se torce, enferruja, mas corta.
De poesia também se amassa o pão que empurra
o caminho preparado no silêncio do dia.


In: TREVISAN, Armindo. Funilaria no ar. Porto Alegre: Movimento; Brasília: INL, 1973. (Poesia Sul, 7)
1 137
Alice Ruiz

Alice Ruiz

Projesombras (Nós)

por causa de
Regina Silveira

no mundo das sombras
os objetos incham
grávidos de outras formas

silhuetas dissimulando similaridades
paródias e paradoxos
linearidades em desalinho

aqui
armas são a alma das louças
ali
projesombras milimetricamente
calculadas

inauguram com humor
o outro lado do rigor

o primeiro plano
passa a pano de fundo
o que é o fundo?
o que é a figura?
o que é a coisa?
o que é a sombra?

em toda arte
as coisas sonham sombras


In: RUIZ, Alice. Vice-versos. São Paulo: Brasiliense, 1988. (Cantadas literárias
1 429
Mafalda Veiga

Mafalda Veiga

Tatuagens

em cada gesto perdido
tu és igual a mim
em cada ferida que sara
escondida do mundo
eu sou igual a ti

fazes pintura de guerra
que eu não sei apagar
pintas o sol da cor da terra
e a lua da cor do mar

em cada grito da alma
eu sou igual a ti
de cada vez que um olhar
te alucina e te prende
tu és igual a mim

fazes pinturas de sonhos
pintas o sol na minha mão
e és mistura de vento e lama
entre os luares perdidos no chão

em cada noite sem rumo
tu és igual a mim
de cada vez que procuro
preciso um abrigo
eu sou igual a ti

faço pinturas de guerra
que eu não sei apagar
e pinto a lua da cor da terra
e o sol da cor do mar

em cada grito afundado
eu sou igual a ti
de cada vez que a tremura
desata o desejo
tu és igual a mim

faço pinturas de sonhos
e pinto a lua na tua mão
misturo o vento e a lama
piso os luares perdidos no chão
1 110
Mafalda Veiga

Mafalda Veiga

Prisão

Eles sentaram-me à mesa do medo
no banco mesmo a seu lado
sentia-lhe o corpo hirto
e gelado de tão perto

Sentia-lhe o cheiro podre
de tão velho
que o medo perdeu a idade
no labirinto dos homens
e escorre pela sombra
dos corredores

Eles sentaram-me à mesa do medo
no banco mesmo a seu lado
ouvia-lhe a boca negra dizer-me:
“não penses, assim não sofres”

Virei a mesa do medo
e pensei
que há mais para virar
virei-me por dentro
até despertar
Eles sentaram-me à mesa do medo
no banco mesmo a seu lado
ouvia-lhe a boca negra dizer-me:
“não penses, assim não sofres”

Virei a mesa do medo
e pensei
que há mais para virar
virei-me por dentro
até despertar
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Mafalda Veiga

Mafalda Veiga

Restolho

geme o restolho triste e solitário
a embalar a noite escura e fria
e a perder-se no olhar da ventania
que canta ao tom do velho campanário

geme o restolho preso de saudade
esquecido, enlouquecido, dominado
escondido entre as sombras do montado
sem forças e sem côr e sem vontade

geme o restolho a transpirar de chuva
nos campos que a ceifeira mutilou
dormindo em velhos sonhos que sonhou
na alma a mágoa enorme, intensa, aguda

mas é preciso morrer e nascer de novo
semear no pó e voltar a colher
há que ser trigo, depois ser restolho
há que penar pra aprender a viver

e a vida não é existir sem mais nada
a vida não é dia sim dia não
é feita em cada entrega alucinada
pra receber daquilo que aumenta o coração

geme o restolho a transpirar de chuva
nos campos que a ceifeira mutilou
dormindo em velhos sonhos que sonhou
na alma a mágoa é enorme, intensa, aguda

mas é preciso morrer e nascer de novo
semear no pó e voltar a colher
há que ser trigo, depois ser restolho
há que penar pra aprender a viver

e a vida não é existir sem mais nada
a vida não é dia sim dia não
é feita em cada entrega alucinada
pra receber daquilo que aumenta o coração
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Mafalda Veiga

Mafalda Veiga

Cidade

À noite
No silêncio da rua
Passavam ciganos cantando
E a cidade chamava
Nas luzes perdidas do rio
No teu carro
Andámos por aí
Bebemos cerveja e falámos
Entre sombras de prédios calados
E sonhos de homens cansados
E algo em mim sobrevive
Desesperadamente
Há escuro
Na inquietação do vento
Nas luzes esquecidas do rio
E tentam roubar-nos os dias
Tentam calar-nos as forças
Mas algo em mim sobrevive
Desesperadamente
Quero que por fim nos traga o sol
Andando pelo rio, perdidos na claridade
Hoje só quero deixar viver este momento
Hoje só quero caminhar pela cidade
No teu carro
Cruzámos as fronteiras
Bebemos cervejas e sonhámos
De tudo o que há sem regresso
Quem guardará o passado?
Entrego-me
Em passos sem destino
Até onde a fúria se acalma
vou procurando a gente
Que à noite na rua cantava
E algo em mim sobrevive
Desesperadamente
Quero que por fim nos traga o sol
Andando pelo rio perdidos na claridade
Hoje só quero deixar viver este momento
Hoje só quero caminhar pela cidade
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Paulo Leminski

Paulo Leminski

DONNA MI PRIEGA 88

se amor é troca
ou entrega louca
discutem os sábios
entre os pequenos
e os grandes lábios

no primeiro caso
onde começa o acaso
e onde acaba o propósito
se tudo o que fazemos
é menos que amor
mas ainda não é ódio?

a tese segunda
evapora em pergunta
que entrega é tão louca
que toda espera é pouca?
qual dos cindo mil sentidos
está livre de mal-entendidos?

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Edgar Allan Poe

Edgar Allan Poe

A Campaign Song

See the White Eagle soaring aloft to the sky,
Wakening the broad welkin with his loud battle cry;
Then here's the White Eagle, full daring is he,
As he sails on his pinions o'er valley and sea.


(probably written early in 1844)

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Cruz e Sousa

Cruz e Sousa

PRESA DO ÓDIO

Últimos Sonetos

Da tu'alma a funda galeria
descendo às vezes, eu às vezes sinto
que como o mais feroz lobo faminto
teu ódio baixo de alcatéia espia.

Do desespero a noite cava e fria,
de boêmias vis o pérfido absinto
pôs no teu ser um negro labirinto,
desencadeou sinistra ventania.

Desencadeou a ventania rouca,
surda, tremenda, desvairada, louca,
que a tu'alma abalou de lado a lado.

Que te inflamou de cóleras supremas
e deixou-te nas trágicas algemas
do teu ódio sangrento acorrentado!

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Luís Vianna

Luís Vianna

VOLTA AO LAR

Aos 18 anos,
Numa briga com o pai,
Este jovem
Se vai.

Vai, vai,
Vai sofrer a vida
Pois a vida é sofrida
Aos que não têm p´ra amar
Nem mesmo
Um simples lar.

Viveu na calçada
À beira da estrada
Sem um amigo,
Sem uma namorada.

Sem amor só resta dor,
E a dor,
É ardor.

Passaram-se os dias,
E por entre as feridas,
Um homem
Põe-se a chorar.
Quer voltar
Ao seu lar.

Liga para casa
Com medo do pai,
E com a mão, põe-se a falar,
Para ver,
Se pode
Voltar.

Se eu puder voltar
Deixem-me um recado;
Em uma árvore
Um pano
Amarado.

E assim se fez.
Na data marcada,
Volta, quem sabe?
P´ra sempre e de vez.

Em frente à casa
Falta-lhe a coragem
Para ver se a branca bandagem
Ali vai encontrar,
Em frente
Ao seu
Lar.

Os olhos cerrados,
Abre-os, calado,
Para um pouco espiar.

E não vê um lenço,
Nem uma tarja,
Nem uma banda;
Vê, sim, um alvo lençol
Em toda varanda.

27/01/2001

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