Beleza
Poemas neste tema
Fernando Pessoa
Lá por olhar para ti
Lá por olhar para ti
Não julgues que é por gostar.
Eu gosto muito do sol,
E nem o posso fitar.
Não julgues que é por gostar.
Eu gosto muito do sol,
E nem o posso fitar.
1 279
Fernando Pessoa
Loura dos olhos dormentes,
Loura dos olhos dormentes,
Que são azuis e amarelos,
Se as minhas mãos fossem pentes,
Penteavam-te os cabelos.
Que são azuis e amarelos,
Se as minhas mãos fossem pentes,
Penteavam-te os cabelos.
1 198
Fernando Pessoa
A tua boca de riso
A tua boca de riso
Parece olhar para a gente
Com um olhar que é preciso
Para saber que se sente.
Parece olhar para a gente
Com um olhar que é preciso
Para saber que se sente.
2 039
Fernando Pessoa
Esse xaile que arranjaste,
Esse xaile que arranjaste,
Com que pareces mais alta
Dá ao teu corpo esse brio
Que à minha coragem falta.
Com que pareces mais alta
Dá ao teu corpo esse brio
Que à minha coragem falta.
1 360
Fernando Pessoa
Boca que o riso desata
Boca que o riso desata
Numa alegria engraçada,
És como a prata lavrada
Que é mais o lavor que a prata.
Numa alegria engraçada,
És como a prata lavrada
Que é mais o lavor que a prata.
1 183
Fernando Pessoa
Lenço preto de orla branca —
Lenço preto de orla branca —
Ataste-o mal a valer
À roda desse pescoço
Que tem que se lhe dizer.
Ataste-o mal a valer
À roda desse pescoço
Que tem que se lhe dizer.
992
Fernando Pessoa
Aquela loura de preto
Aquela loura de preto
Com uma flor branca ao peito,
É o retrato completo
De como alguém é perfeito.
Com uma flor branca ao peito,
É o retrato completo
De como alguém é perfeito.
1 247
Fernando Pessoa
Não sei que flores te dar
Não sei que flores te dar
Para os dias da semana.
Tens tanta sombra no olhar
Que o teu olhar sempre engana.
Para os dias da semana.
Tens tanta sombra no olhar
Que o teu olhar sempre engana.
1 409
Fernando Pessoa
Tem a filha da caseira
Tem a filha da caseira
Rosas na caixa que tem.
Toda ela é uma rosa inteira
Mas não a cheira ninguém.
Rosas na caixa que tem.
Toda ela é uma rosa inteira
Mas não a cheira ninguém.
1 537
Fernando Pessoa
É limpo o adro da igreja.
É limpo o adro da igreja.
É grande o largo da praça.
Não há ninguém que te veja
Que te não encontre graça.
É grande o largo da praça.
Não há ninguém que te veja
Que te não encontre graça.
1 178
Fernando Pessoa
Tens uns brincos sem valia
Tens uns brincos sem valia
E um lenço que não é nada,
Mas quem dera ter o dia
De quem és a madrugada.
E um lenço que não é nada,
Mas quem dera ter o dia
De quem és a madrugada.
1 368
Fernando Pessoa
Loura, teus olhos de céu
Loura, teus olhos de céu
Têm um azul que é fatal.
Bem sei: foi Deus que tos deu.
Mas então Deus fez o mal?
Têm um azul que é fatal.
Bem sei: foi Deus que tos deu.
Mas então Deus fez o mal?
1 350
Fernando Pessoa
Se vais de vestido novo
Se vais de vestido novo
O teu próprio andar o diz,
E ao passar por entre o povo
Até teu corpo é feliz.
O teu próprio andar o diz,
E ao passar por entre o povo
Até teu corpo é feliz.
1 127
Fernando Pessoa
Coroai-me de rosas. [2]
Coroai-me de rosas.
Coroai-me em verdade
De rosas.
Quero ter a hora
Nas mãos pagãmente
E leve,
Mal sentir a vida,
Mal sentir o sol
Sob ramos.
Coroai-me de rosas
E de folhas de hera
E basta.
Coroai-me em verdade
De rosas.
Quero ter a hora
Nas mãos pagãmente
E leve,
Mal sentir a vida,
Mal sentir o sol
Sob ramos.
Coroai-me de rosas
E de folhas de hera
E basta.
1 445
Fernando Pessoa
Toda a gente é interessante
Toda a gente é interessante se a gente souber ver toda a gente
Que obra-prima para um pintor possível em cada cara que existe!
Que expressões em todas, em tudo!
Que maravilhosos perfis todos os perfis!
Vista de frente, que cara qualquer cara!
Os gestos humanos de cada qual, que humanos os gestos!
Que obra-prima para um pintor possível em cada cara que existe!
Que expressões em todas, em tudo!
Que maravilhosos perfis todos os perfis!
Vista de frente, que cara qualquer cara!
Os gestos humanos de cada qual, que humanos os gestos!
1 193
Fernando Pessoa
A rosa que se não colhe
A rosa que se não colhe
Nem por isso tem mais vida.
Ninguém há que te não olhe
Que te não queira colhida.
Nem por isso tem mais vida.
Ninguém há que te não olhe
Que te não queira colhida.
2 845
Fernando Pessoa
Pétala dobrada para trás da rosa que outros dizem de veludo.
Pétala dobrada para trás da rosa que outros dizem de veludo.
Apanho-te do chão e, de perto, contemplo-te de longe.
Não há rosas no meu quintal: que vento te trouxe?
Mas chego de longe de repente. Estive doente um momento.
Nenhum vento te trouxe agora.
Agora estás aqui.
O que foste não és tu, se não toda a rosa estava aqui.
Apanho-te do chão e, de perto, contemplo-te de longe.
Não há rosas no meu quintal: que vento te trouxe?
Mas chego de longe de repente. Estive doente um momento.
Nenhum vento te trouxe agora.
Agora estás aqui.
O que foste não és tu, se não toda a rosa estava aqui.
1 237
Fernando Pessoa
Em vez da saia de chita
Em vez da saia de chita
Tens uma saia melhor.
De qualquer modo és bonita,
E o bonita é o pior.
Tens uma saia melhor.
De qualquer modo és bonita,
E o bonita é o pior.
1 464
Fernando Pessoa
Teus brincos dançam se voltas
Teus brincos dançam se voltas
A cabeça a perguntar.
São como andorinhas soltas
Que inda não sabem voar.
A cabeça a perguntar.
São como andorinhas soltas
Que inda não sabem voar.
1 316
Fernando Pessoa
Última estrela a desaparecer antes do dia,
Última estrela a desaparecer antes do dia,
Pouso no teu trémulo azular branco os meus olhos calmos,
E vejo-te independentemente de mim,
Alegre pela vitória que tenho em poder ver-te,
Sem «estado de alma» nenhum, senão ver-te.
A tua beleza para mim está em existires.
A tua grandeza está em existires inteiramente fora de mim.
Pouso no teu trémulo azular branco os meus olhos calmos,
E vejo-te independentemente de mim,
Alegre pela vitória que tenho em poder ver-te,
Sem «estado de alma» nenhum, senão ver-te.
A tua beleza para mim está em existires.
A tua grandeza está em existires inteiramente fora de mim.
1 227
Fernando Pessoa
Rosa verde, rosa verde...
Rosa verde, rosa verde...
Rosa verde é coisa que há?
É uma coisa que se perde
Quando a gente não está lá.
Rosa verde é coisa que há?
É uma coisa que se perde
Quando a gente não está lá.
1 885
Fernando Pessoa
Acendeste uma candeia
Acendeste uma candeia
Com esse ar que Deus te deu.
Já não é noite na aldeia
E, se calhar, nem no céu.
Com esse ar que Deus te deu.
Já não é noite na aldeia
E, se calhar, nem no céu.
1 407
Fernando Pessoa
Dizem que não és aquela
Dizem que não és aquela
Que te julgavam aqui.
Mas se és alguém e és bela
Que mais quererão de ti?
Que te julgavam aqui.
Mas se és alguém e és bela
Que mais quererão de ti?
708
Fernando Pessoa
Roseiral que não dás rosas
Roseiral que não dás rosas
Senão quando as rosas vêm,
Há muitas que são formosas
Sem que o amor lhes vá bem.
Senão quando as rosas vêm,
Há muitas que são formosas
Sem que o amor lhes vá bem.
1 492
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