Arte

Poemas neste tema

Rogério Bessa

Rogério Bessa

Do Canto IX:

O Mundo Encontrado:
Inércia Calada e Mudez Falante do Sol

no impacto do cacto intacto,
o olho de intáctil tacto,
viaduto da em sol ação;

no pacto do cacto intacto,
o sol de olho por olho
no tacto incacto da mão.

no pacto, o cacto e o tacto
contrátil do contratante,
chão por chantão malsão.

898
Rogério Bessa

Rogério Bessa

Redescoberta de Orfeu ou O Mundo Nunca Encontrado

Do Canto I:
Prólogo Menos

lhe envio meu canto órfico
com o encanto de meu povo,
fala a lira em lira mor,
diz de orfeu o seu encanto.

sede e fome fomentaram
sua música, seu ritmo,
a queimar-lhe o sol a pele,
nasceu-lhe a redescoberta.

grande estalo resultou
num mundo nunca encontrado
e embora o canto doesse,
entremente não choveu.

793
Moranno Portela

Moranno Portela

Poethomem

É pouco o peito do homem
para o poeta guardar:
ele está como represa
Quando vai arrebentar.

É pouco o peito do homem
para o rio que dentro dele
quer, sôfrego, navegar.

Mas o homem é necessário,
dele o poeta precisa:
um é uno — o outro vário,
um voa — o outro pisa.

895
Ieda Estergilda

Ieda Estergilda

Anúncio Urgente

Procura-se um poeta
com estrela na testa
e voz de profeta.

Apareça, poeta
enxergarei a estrela
entenderei a parábola.

Precisa-se de um poeta
do tamanho do seu tempo
pode vir de marte, do mato
ou no vento.

Precisa-se de um poeta
dispensa-se currículo
o nome do barco é poesia.

800
Francisco Tribuzi

Francisco Tribuzi

Poetando

Eu faço versos como quem
conserta sapatos
não como quem comanda uma empresa.
São tão simples os meus atos
como simples é a natureza.

Eu faço versos com pureza
não vou além da surpresa
que me inspiram os relatos
mas vou além do que sinto
eu faço versos não minto
e fazer versos é amar.

904
Francisco Tribuzi

Francisco Tribuzi

O Museu e a Ponte

Lá dentro guardam-se histórias...
Aqui fora a ponte guarda em segredo
os vultos que adentraram as glórias
e as memórias dos gestos sem medo.

De cada ângulo vista
como que a jorrar passado
a ponte em si despista
o conteúdo sonhado.

E o que ela inspira:
estética e formusura
traduz o belo que delira
em gesto e arquitetura.

798
Batista de Lima

Batista de Lima

O Doce de Vitalina

Vitalina faz cocada
com mais alma do que coco

Uma semana de criação
onde leite açúcar e coco
não têm importância
como não têm importância
tição fogo e brasa

O mais importante
é que Vitalina
se ponha no caco
e vá na cocada
e que o sétimo dia
seja para descanso
como fez Deus na criação

967
Yolandino Maia

Yolandino Maia

Haicai

Simplicidade

Sim... fechei o livro
e li durante a viagem
anúncios no bonde.

No teatro

Na platéia escura
nossa vida adormeceu.
No palco, ela sonha

765
Carlos Vogt

Carlos Vogt

Obsesssäo

Outra vez o poema sonâmbulo
o sonho do poeta outra vez
agora perto
os pés
näo a forma
a mesma
ardente lisa fugidia pronta:
um ângulo reto
uma estrela de sombras
um poema ao revés.

(1991)

1 098
Vitor Casimiro

Vitor Casimiro

Quem Mais Poderia Ser?

Lembro-me bem
Das primeiras palavras
Que sussurraste junto a mim:
"Acorda, abre bem os olhos,
E grita, o mais alto...
Não resta dúvidas: É você!"
Lembro-me, foste tu,
Poesia.

961
Carlos Vogt

Carlos Vogt

Pragmatismo Estético

A disciplina é quase tudo
menos o dia-a-dia

o poema é quase nada
mais a inspiraçäo

na falta solidária do mesmo quase
faz-se o poema
vive a poesia

(1991)

914
Sérgio Milliet

Sérgio Milliet

Paris

Crepúsculos longos impressionistas
A luz não cai
escorrega
sobre os patins das nuvens

O Sena foge
levando o gosto da posse.

1 473
Rodrigo Carvalho

Rodrigo Carvalho

Livro

à Soares Feitosa,
sobre o seu espantoso
"Requiem em Sol da Tarde"

Quem ao ler um livro,
chora,
como à morte de um querido ente,
sente,
o peso e a dor das palavras,
e cada gota de sangue e lágrimas,
como manchas,
em cada página.
E tem a alma leve, pura,
voando livremente...

Salvador, 12 de novembro de 1996

871
Roberto Pontes

Roberto Pontes

Quântica 5

a nebulosa no olho
arroio de prata e leite
fusão amarelo ocre
na tocha fosforejante

zeus no carrossel coral

a nebulosa no olho
esverdosilosidades
vermelhofuscolizantes
lantejoulinhas no ar

(De Lições de Espaço: teletipos, módulos e quânticas.
Fortaleza: Imprensa Universitária, 1971)

901
Roberto Pontes

Roberto Pontes

Contracanto

Estou em meu poema
como os amantes se estão.
Moro nas vogais e consoantes
circunflexos
ós e xizes cantantes.

Estou nos casebres tristes
da imaginação.
Sou nas quase
vírgulas de ouro
que faço sem porquês.

O alfabeto habito
como me moram
muitas vezes muitas
meu coração.

1 175
Raniere Rodrigues dos Santos

Raniere Rodrigues dos Santos

Sou Poeta

Para provar que sou poeta
Tenho que poetizar.
Para poetizar,
Tenho que inspirar-me.
Para inspirar-me,
Tenho que amar,
Para amar,
Tenho que sentir.
Para sentir,
Tenho que ver.
Para ver,
Tenho que crer.
Para crer,
Tenho que viver
Para viver,
Tenho que ser.
Ser Poeta.

795
Pedro Paulo de Sena Madureira

Pedro Paulo de Sena Madureira

Affonso Romano de Sant’ana

Entre escolhos e rombos
sem temer os tombos
narras a exata fúria de teus versos.
Professas um carvão implacável
que me queima e não hesita, aceso,
ante a cinza provável
que o anula.

No fundo e fim de teus poemas
devassas o tempo, seus casulos e traves.
Rezas, e não sabes.

730
Olga Savary

Olga Savary

David

Não sendo bicho nem deus
nem da raiz tendo a força
ou a eternidade da pedra,
o poeta nas palavras
põe essa força de nada:
sua funda é o poema.

1 264
Myriam Fraga

Myriam Fraga

Barragem

Estrutura de cal
Subitamente o rio
(argila e metal)
Se recompõe
E pára.

Somente a fúria
Calma do gesto
Que se disfarça.

Barragem ou poço
(argamassa)

Simetria de iludidos
Nas linhas duras
Do cais.

Talvez a sombra
íris-pupila
Que se adelgaça.

Recua e passa.

1 013
Neide Archanjo

Neide Archanjo

Da Poesia

Esculpo a página a lápis
e um cheiro de bosque
então me aparece.
Que a poesia é feita de romãs
daquilo que é eterno
e de tudo que apodrece.

1 246
Marcelo Penido Silva

Marcelo Penido Silva

O que é a Poesia?

Poesia é como pó
que num sôpro é
o que não sopro
e que jamais seria.
Poesia é
sem ser
meu querer, meu dis ser
e cobre
de prata e ouro
a mais preciosa linha.
Meu veio de Vida
nas mãos de outro.

930
Marly de Oliveira

Marly de Oliveira

Minha felicidade vem de quando estou só

Minha felicidade vem de quando estou só
e ninguém me interrompe no poema,
essa espécie de transfusão
do sangue para a palavra,
sem qualquer estratagema.
A palavra é meu rito, minha forma
de celebrar, investir, reivindicar:
a palavra é a minha verdade,
minha pena exposta sem humilhação
à leitura do outro,
hypocrite lecteur, mon semblable.

1 198
Mário Donizete Massari

Mário Donizete Massari

Moeda

A moeda
rola no ar
vil metal a delinear
destinos.

A fome no olhar
sentimento vendido
a moeda seduz
e oprime.

Que importa a
poesia,
se a fome ronda a
esquina?

O que importa
a poesia,
se a moeda é pobre
sendo rica?

Na cara a coroa
de ouro
duas faces
moeda e poesia

Pobre moeda
Rica poesia

1 011
Mário Donizete Massari

Mário Donizete Massari

O sonho do poeta

Sonhou o poeta
ser uma estrela
e brilhou em seus versos

Sonhou o poeta
ser o dono do mundo
e este era tão pequeno
que coube em suas mãos
e ele o tornou lindo

És poeta a estrela do mundo

875