Angústia
Poemas neste tema
José Saramago
No Coração, Talvez
No coração, talvez, ou diga antes:
Uma ferida rasgada de navalha,
Por onde vai a vida, tão mal gasta,
Na total consciência nos retalha.
O desejar, o querer, o não bastar,
Enganada procura da razão
Que o acaso de sermos justifique,
Eis o que dói, talvez no coração.
Uma ferida rasgada de navalha,
Por onde vai a vida, tão mal gasta,
Na total consciência nos retalha.
O desejar, o querer, o não bastar,
Enganada procura da razão
Que o acaso de sermos justifique,
Eis o que dói, talvez no coração.
943
José Saramago
Oceanografia
Volto as costas ao mar que já entendo,
À minha humanidade me regresso,
E quanto há no mar eu surpreendo
Na pequenez que sou e reconheço.
De naufrágios sei mais que sabe o mar,
Dos abismos que sondo, volto exangue,
E para que de mim nada o separe,
Anda um corpo afogado no meu sangue.
À minha humanidade me regresso,
E quanto há no mar eu surpreendo
Na pequenez que sou e reconheço.
De naufrágios sei mais que sabe o mar,
Dos abismos que sondo, volto exangue,
E para que de mim nada o separe,
Anda um corpo afogado no meu sangue.
1 370
José Saramago
Venham Enfim
Venham enfim as altas alegrias,
As ardentes auroras, as noites calmas,
Venha a paz desejada, as harmonias,
E o resgate do fruto, e a flor das almas.
Que venham, meu amor, porque estes dias
São de morte cansada,
De raiva e agonias
E nada.
As ardentes auroras, as noites calmas,
Venha a paz desejada, as harmonias,
E o resgate do fruto, e a flor das almas.
Que venham, meu amor, porque estes dias
São de morte cansada,
De raiva e agonias
E nada.
1 103
José Saramago
Amanhecer
Navego no cristal da madrugada,
Na dureza do frio reflectido,
Onde a voz ensurdece, laminada,
Sob o peso da noite e do gemido.
Abre o cristal em nuvem desmaiada,
Foge a sombra, o silêncio e o sentido
Da nocturna memória sufocada
Pelo murmúrio do dia amanhecido.
Na dureza do frio reflectido,
Onde a voz ensurdece, laminada,
Sob o peso da noite e do gemido.
Abre o cristal em nuvem desmaiada,
Foge a sombra, o silêncio e o sentido
Da nocturna memória sufocada
Pelo murmúrio do dia amanhecido.
1 068
José Saramago
Provavelmente
Provavelmente, o campo demarcado
Não basta ao coração nem o exalta;
Provavelmente, o traço da fronteira
Contra nós, amputados, o riscámos.
Que rosto se promete e se desenha?
Que viagem prometida nos espera?
São asas (que só duas fazem voo),
Ou solitário arder de labareda?
Não basta ao coração nem o exalta;
Provavelmente, o traço da fronteira
Contra nós, amputados, o riscámos.
Que rosto se promete e se desenha?
Que viagem prometida nos espera?
São asas (que só duas fazem voo),
Ou solitário arder de labareda?
1 011
José Saramago
Duas Pedras de Sal
Duas pedras de sal sobre a pupila;
Os punhos bem cerrados, apertando
As agudas arestas do cristal;
Vem-me sangue na água, laivo brando,
Navegando nos olhos, enquanto o grito
Bate forte nos dentes que o degolam:
Ao tempo que o sorriso me disfarça
O rosnar, a ameaça, o cão de fila.
Os punhos bem cerrados, apertando
As agudas arestas do cristal;
Vem-me sangue na água, laivo brando,
Navegando nos olhos, enquanto o grito
Bate forte nos dentes que o degolam:
Ao tempo que o sorriso me disfarça
O rosnar, a ameaça, o cão de fila.
936
José Saramago
Como Um Vidro Estalado
Como um vidro estalado. A quem me ler
Não direi, já agora, se esta imagem
Vem serena dos ramos que perderam
As folhas contra o céu, ou se mastigo
Qualquer raiva escondida.
Como doendo, ou sendo, ou mastigando,
Sejam rendas aéreas, alma ferida,
Fecho, brusco, o poema onde não digo.
Não direi, já agora, se esta imagem
Vem serena dos ramos que perderam
As folhas contra o céu, ou se mastigo
Qualquer raiva escondida.
Como doendo, ou sendo, ou mastigando,
Sejam rendas aéreas, alma ferida,
Fecho, brusco, o poema onde não digo.
525
Vinicius de Moraes
Pôr-Do-Sol Em Itatiaia
Nascentes efêmeras
Em clareiras súbitas
Entre as luzes tardas
Do imenso crepúsculo.
Negros megalitos
Em doce decúbito
Sob o peso frágil
Da pálida abóbada
Calmo subjacente
O vale infinito
A estender-se múltiplo
Inventando espaços
Dilatando a angústia
Criando o silêncio....
Em clareiras súbitas
Entre as luzes tardas
Do imenso crepúsculo.
Negros megalitos
Em doce decúbito
Sob o peso frágil
Da pálida abóbada
Calmo subjacente
O vale infinito
A estender-se múltiplo
Inventando espaços
Dilatando a angústia
Criando o silêncio....
1 033
Vinicius de Moraes
Allegro
Sente como vibra
Doidamente em nós
Um vento feroz
Estorcendo a fibra
Dos caules informes
E as plantas carnívoras
De bocas enormes
Lutam contra as víboras
E os rios soturnos
Ouve como vazam
A água corrompida
E as sombras se casam
Nos raios noturnos
Da lua perdida.
Oxford, 1939
Doidamente em nós
Um vento feroz
Estorcendo a fibra
Dos caules informes
E as plantas carnívoras
De bocas enormes
Lutam contra as víboras
E os rios soturnos
Ouve como vazam
A água corrompida
E as sombras se casam
Nos raios noturnos
Da lua perdida.
Oxford, 1939
1 107
Martha Medeiros
abro a lata, como
abro a lata, como
como um doce, engordo
engordo a conta, gasto
gasto o tempo, sobra
sobra o rango, guardo
guardo a chave, perco
perco o sono, saio
saio à noite, chove
chove à beça, encolhe
encolhe a grana, peço
peço o nome, anoto
anoto a placa, esqueço
esqueço a fome, fumo
fumo o troço, apanho
apanho a gata, sumo
como um doce, engordo
engordo a conta, gasto
gasto o tempo, sobra
sobra o rango, guardo
guardo a chave, perco
perco o sono, saio
saio à noite, chove
chove à beça, encolhe
encolhe a grana, peço
peço o nome, anoto
anoto a placa, esqueço
esqueço a fome, fumo
fumo o troço, apanho
apanho a gata, sumo
1 072
Martha Medeiros
o que era uma folha caindo
o que era uma folha caindo
parece uma porta batendo
e só o elevador subindo
e ainda assim me surpreendo
os estalos da madeira
viram tiros no escuro
são só os pingos da torneira
e ainda assim me torturo
gritos, sirenes, gemidos
dão à noite outro rumo
são só os barulhos da insônia
e ainda assim não acostumo
parece uma porta batendo
e só o elevador subindo
e ainda assim me surpreendo
os estalos da madeira
viram tiros no escuro
são só os pingos da torneira
e ainda assim me torturo
gritos, sirenes, gemidos
dão à noite outro rumo
são só os barulhos da insônia
e ainda assim não acostumo
1 096
Martha Medeiros
se eu pudesse te amar de dia
se eu pudesse te amar de dia
diria que você é meu sol
mas te amo tarde da noite
e não como eu queria
você é meu farol
e já não sei quem me guia
diria que você é meu sol
mas te amo tarde da noite
e não como eu queria
você é meu farol
e já não sei quem me guia
959
Martha Medeiros
ainda que eu não tenha idade
ainda que eu não tenha idade
para sofrer por filhos que se foram
por doenças que vieram
por perdas e danos que sofremos
ainda que eu não precise
temer a morte que me espreita
os amigos que ficaram para trás
os desejos reprimidos para sempre
ainda que eu tenha tempo de sobra
não me resta mais sombra de dúvida
para sofrer por filhos que se foram
por doenças que vieram
por perdas e danos que sofremos
ainda que eu não precise
temer a morte que me espreita
os amigos que ficaram para trás
os desejos reprimidos para sempre
ainda que eu tenha tempo de sobra
não me resta mais sombra de dúvida
1 116
Martha Medeiros
tenho urgência de tudo
tenho urgência de tudo
que deixei pra amanhã
que deixei pra amanhã
1 104
Martha Medeiros
você faz tudo para que os outros percebam
você faz tudo para que os outros percebam
que você gosta de mim
e agora que estamos sós
você não tem dó e me deixa assim
por que você não me agarra
e dá um fim no que me atormenta
por que você não se senta
e me explica o que é isso enfim?
que você gosta de mim
e agora que estamos sós
você não tem dó e me deixa assim
por que você não me agarra
e dá um fim no que me atormenta
por que você não se senta
e me explica o que é isso enfim?
942
Martha Medeiros
foram tantas noites de insônia
foram tantas noites de insônia
roubando os poucos anos que tinha
perdi a conta dos prantos
contei carneiros e os dias
e os dias nunca passavam
ou passavam e eu não via
ficava um aperto no peito
nem tudo entendia como era
mas que era bonito eu sabia
roubando os poucos anos que tinha
perdi a conta dos prantos
contei carneiros e os dias
e os dias nunca passavam
ou passavam e eu não via
ficava um aperto no peito
nem tudo entendia como era
mas que era bonito eu sabia
977
Martha Medeiros
taça de champanhe
taça de champanhe
um disco rodando sempre o mesmo lado
crise
um telefone ao alcance da mão
um número decorado na cabeça
e uma aflição no coração
é aí que mora o perigo
um disco rodando sempre o mesmo lado
crise
um telefone ao alcance da mão
um número decorado na cabeça
e uma aflição no coração
é aí que mora o perigo
1 012
Martha Medeiros
para encontrar as origens do meu rosto
para encontrar as origens do meu rosto
muçulmano
revistei-me em aeroportos nebulosos
rasguei o véu que me encobria
descobri bombas e granadas no meu peito
tentei lentes azuis e corante no cabelo
nada feito explodi no bar da esquina
muçulmano
revistei-me em aeroportos nebulosos
rasguei o véu que me encobria
descobri bombas e granadas no meu peito
tentei lentes azuis e corante no cabelo
nada feito explodi no bar da esquina
1 081
Martha Medeiros
na vertical
na vertical
sou uma mulher de classe
na horizontal
a mulher de alguém
palavra cruzada
sem resposta na última página
sou uma mulher de classe
na horizontal
a mulher de alguém
palavra cruzada
sem resposta na última página
896
Martha Medeiros
feroz
feroz
minha voz te perturbou
dentro de ti ecoou
um aninal acuado
a angústia de um longo
ramal ocupado
minha voz te perturbou
dentro de ti ecoou
um aninal acuado
a angústia de um longo
ramal ocupado
1 039
Martha Medeiros
sou uma mulher esguia
sou uma mulher esguia
pareço chinesa dobrando as esquinas
quando seguida
sumo na multidão
às vezes um pouco nervosa
não sei o que fazer com as mãos
levanto suspeitas no ar
carrego um revólver na bolsa
e um disparo no coração
pareço chinesa dobrando as esquinas
quando seguida
sumo na multidão
às vezes um pouco nervosa
não sei o que fazer com as mãos
levanto suspeitas no ar
carrego um revólver na bolsa
e um disparo no coração
1 120
Martha Medeiros
o que faço de bom faço malfeito
o que faço de bom faço malfeito
pareço artificial quando sincera
mera falta de jeito pra viver
sou a filha predileta do defeito
pareço artificial quando sincera
mera falta de jeito pra viver
sou a filha predileta do defeito
1 064
Martha Medeiros
estou assim tão melada de coisas
estou assim tão melada de coisas
prontas
tudo começou a pouco
e já estou tão tonta.
.
.
prontas
tudo começou a pouco
e já estou tão tonta.
.
.
1 171
Sophia de Mello Breyner Andresen
A Cidade Dos Outros
Túnica de tortura era a cidade
Que tecida pelos outros nos vestia
Nem uma folha de tília ou de palmeira
Nos escondia
Caminhamos no chão azul das noites
E nas arenas brancas do meio dia
E a cidade como cães nos perseguia
Que tecida pelos outros nos vestia
Nem uma folha de tília ou de palmeira
Nos escondia
Caminhamos no chão azul das noites
E nas arenas brancas do meio dia
E a cidade como cães nos perseguia
1 180
Português
English
Español