Amor Romântico

Poemas neste tema

Sophia de Mello Breyner Andresen

Sophia de Mello Breyner Andresen

Viii. Não Te Chamo Para Te Conhecer

Não te chamo para te conhecer
Eu quero abrir os braços e sentir-te
Como a vela de um barco sente o vento

Não te chamo para te conhecer
Conheço tudo à força de não ser

Peço-te que venhas e me dês
Um pouco de ti mesmo onde eu habite
1 791
Adélia Prado

Adélia Prado

Argumento

Tenho três namorados.
Um na Europa que é um boneco de gelo,
outro na cidade vendo futebol no rádio
e o terceiro tocando violão na roça.
Todos mamíferos, sangue vermelho e ossos friáveis.
Um deles cuspiu no chão, o que escolhi pra casar.
Mesmo tendo feito o que fez, só ele me perdoará.
1 077
Adélia Prado

Adélia Prado

No Céu

Os militantes
os padecentes
os triunfantes
seremos só amantes.
1 596
Adélia Prado

Adélia Prado

Citação de Isaías

A matéria de Deus é Seu amor.
Sua forma é Jonathan,
o que dói e perece
e me diz, com tremor da criação inteira:
“És preciosa aos meus olhos,
porque eu te aprecio e te amo,
permuto reinos por ti.”
1 137
Adélia Prado

Adélia Prado

O Mais Leve Que o Ar

O que me leva a Jonathan?
A bicicleta do sonho,
mais veloz que avião.
Anda no mar, encantada,
transpõe montanhas,
para no portão florido.
Jonathan está no escritório
com a luz do abajur acesa.
Demoro um pouco a bater,
pro coração sossegar.
Jonathan me pressente
e abre a cortina brusco,
brincando de me assustar.
As bicicletas são duas na planície.
1 126
Adélia Prado

Adélia Prado

Medievo

Senhor meu amo, escutai-me,
a donzela espera por vós, no balcão.
Cuidai que não acorde os fâmulos
a paixão que estremece o vosso peito.
Os galgos estão inquietos, a alimária pateia.
Rogo-vos que vos apresseis.
1 292
Adélia Prado

Adélia Prado

Psicórdica

Vamos dormir juntos, meu bem,
sem sérias patologias.
Meu amor é este ar tristonho
que eu faço pra te afligir,
um par de fronhas antigas
onde eu bordei nossos nomes
com ponto cheio de suspiros.
1 362
Adélia Prado

Adélia Prado

O Sempre Amor

Amor é a coisa mais alegre
amor é a coisa mais triste
amor é coisa que mais quero.
Por causa dele falo palavras como lanças.
Amor é a coisa mais alegre
amor é a coisa mais triste
amor é coisa que mais quero.
Por causa dele podem entalhar-me,
sou de pedra-sabão.
Alegre ou triste,
amor é coisa que mais quero.
2 344
Carlos Drummond de Andrade

Carlos Drummond de Andrade

Tenho Saudades de Uma Dama

Tenho saudades de uma dama
como jamais houve na cama
outra igual, e mais terna amante.

Não era sequer provocante.
Provocada, como reagia!
São palavras só: quente, fria.

No banheiro nos enroscávamos.
Eram flamas no preto favo,
um guaiar, um matar-morrer.

Tenho saudades de uma dama
que me passeava na medula
e atomizava os pés da cama.
1 197
Carlos Drummond de Andrade

Carlos Drummond de Andrade

A Outra Porta do Prazer

A outra porta do prazer,
porta a que se bate suavemente,
seu convite é um prazer ferido a fogo
e, com isso, muito mais prazer.

Amor não é completo se não sabe
coisas que só amor pode inventar.
Procura o estreito átrio do cubículo
aonde não chega a luz, e chega o ardor
de insofrida, mordente
fome de conhecimento pelo gozo.
1 451
Carlos Drummond de Andrade

Carlos Drummond de Andrade

Duração

Fortuna, ó Glória, se evapora,
e a glória se esvanece, Glória.
Não assim o cisco da hora
— nossa —, que desdenhou a História.

Há de restar, Glória — ossatura
desfeita embora em linha espúria —
de modo, Glória, que a criatura,
morta, de amor ostente a fúria.
1 057
Carlos Drummond de Andrade

Carlos Drummond de Andrade

Amor

O ser busca o outro ser, e ao conhecê-lo
acha a razão de ser, já dividido.
São dois em um: amor, sublime selo
que à vida imprime cor, graça e sentido.

*

“Amor” — eu disse — e floriu uma rosa
embalsamando a tarde melodiosa
no canto mais oculto do jardim,
mas seu perfume não chegou a mim.
1 800
Carlos Drummond de Andrade

Carlos Drummond de Andrade

Os Materiais da Vida

Drls? Faço meu amor em vidrotil
nossos coitos são de modernfold
até que a lança de interflex
vipax nos separe
em claviluxcamabel camabel o vale ecoa
sobre o vazio de ondalit
a noite asfáltica
plkx
1 690
António Ramos Rosa

António Ramos Rosa

Sim, Digamos Sim Sem o Dizer

Sim, digamos sim sem o dizer
por todos os poros,
sim, este fulgor, este sopro, este jardim
que é como um barco ou um pássaro silencioso,
sim, esta única carícia sobre um corpo que flui infinitamente.
1 039
António Ramos Rosa

António Ramos Rosa

Folha Após Folha

Folha após folha
no fulgor do vento
sigo o trânsito da luz
através das sombras
do teu corpo.
1 102
António Ramos Rosa

António Ramos Rosa

Dá-Me a Cor do Tempo

Dá-me a cor do tempo
numa lâmpada
formada pela carícia
das tuas mãos sedentas.
891
António Ramos Rosa

António Ramos Rosa

No Extremo da Abolição, a Entrega Toda.

No extremo da abolição, a entrega toda.
O insondável puro é o vazio da água.
A terra inteira entrega-se num corpo.
834
António Ramos Rosa

António Ramos Rosa

Uma Folha de Sombra

Uma folha de sombra

para os teus pés

um muro de água

para os teus lábios
529
António Ramos Rosa

António Ramos Rosa

22. a Pergunta da Mão Aberta

22
A pergunta da mão aberta
na manhã matinal do quarto
aberta ao espírito de suavidade.

Alimentando o fogo o feliz rosto
criando a lâmpada de amorosa noite
mão no puro centro do impuro centro
resumindo a luz em luz da boca.

Resumindo o corpo e o lábio branco
luz que vive a palavra suavidade
que vive o viver do sangue amante.
895
António Ramos Rosa

António Ramos Rosa

Cabelos São Os Teus Cabelos As Tuas Mãos

Cabelos são os teus cabelos as tuas mãos
e que sinais de perfeição tão triste
que doçura do espírito da terra
que suavidade do espírito da água

Ombros seios umbigo velo sexo
tudo velado pelo ouro da sombra
da castidade ardente honra da carne
honra de amor para o que a conhecer
1 011
António Ramos Rosa

António Ramos Rosa

Entre Tarde E Noite

Liguei-te, na minha febre seca, ao dia dos meus passos.
Lâmina justa contra o peito — um dorso obscuro e doce
entre tarde e noite.
Adormecida moita à minha beira,
com olhos de silêncio.
É noite já, entre tarde e noite.
976
António Ramos Rosa

António Ramos Rosa

A Caminho de Ti, Em Ti

Leve mobilização de um maquinismo suave e ardente.

A alta fenda do ar que se me abre.

A torre acessível ao meu abraço, inteira e viva.

Percorro-te, inundo-te: cálido tronco de água.

Energia liberta, seda que vibra.
Minha mulher viva.
1 012
António Ramos Rosa

António Ramos Rosa

No Vagar da Terra

Serão nossos os nomes nesta pausa,
mas ela é a própria luz do campo que persiste
com sua seiva concentrada em nós tranquilos,
a madeira em que silêncio e força se conjugam
para a dicção diurna das fragrâncias visíveis.
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António Ramos Rosa

António Ramos Rosa

Um Riso Canta No Fogo

Um riso canta no fogo
na cumplicidade das mãos
a grande paz dum segredo
Os olhos vêem a neve

Sobre o silêncio do fogo
a palma doce da mão
E contra a noite que avança
todo o fogo do segredo
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