Aniversário
Poemas neste tema
Manoel de Barros
Cabeludinho
1.
Sob o canto do bate-num-quara nasceu Cabeludinho
bem diferente de Iracema
desandando pouquíssima poesia
o que desculpa a insuficiência do canto
mas explica a sua vida
que juro ser o essencial
— Vai desremelar esse olho, menino!
— Vai cortar esse cabelão, menino!
Eram os gritos de Nhanhá.
(...)
5.
No recreio havia um menino que não brincava
com outros meninos
O padre teve um brilho de descobrimento nos olhos
— Poeta!
O padre foi até ele:
— Pequeno, por que não brinca com os seus colegas?
— É que estou com uma baita dor de barriga
desse feijão bichado.
6.
Carta acróstica:
"Vovó aqui é tristão
Ou fujo do colégio
Viro poeta
Ou mando os padres..."
Nota: Se resolver pela segunda, mande dinheiro
para comprar um dicionário de rimas e um tratado
de versificação de Olavo Bilac e Guima, o do lenço.
7.
Êta mundão
moça bonita
cavalo bão
este quarto de pensão
a dona da pensão
e a filha da dona da pensão
sem contar a paisagem da janela que é de se entrar de soneto
e o problema sexual que, me disseram, sem roupa
alinhada não se resolve.
(...)
10.
Pela rua deserta atravessa um bêbado comprido
e oscilante
como bambu
assobiando...
Ao longo das calçadas algumas famílias
ainda conversam
velhas passam fumo nos dentes mexericando...
Nhanhá está aborrecida com o neto que foi estudar
no Rio
e voltou de ateu
— Se é pra disaprender, não precisa mais estudar
Pasta um cavalo solto no fim escuro da rua
O rio calmo lá embaixo pisca luzes de lanchas
acordadas
Nhanhá choraminga:
— Tá perdido, diz que negro é igual com branco!
(...)
Imagem - 00780001
Publicado no livro Poemas Concebidos sem Pecado (1937).
In: BARROS, Manoel de. Gramática expositiva do chão: poesia quase toda. Introd. Berta Waldman. Il. Poty. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 199
Sob o canto do bate-num-quara nasceu Cabeludinho
bem diferente de Iracema
desandando pouquíssima poesia
o que desculpa a insuficiência do canto
mas explica a sua vida
que juro ser o essencial
— Vai desremelar esse olho, menino!
— Vai cortar esse cabelão, menino!
Eram os gritos de Nhanhá.
(...)
5.
No recreio havia um menino que não brincava
com outros meninos
O padre teve um brilho de descobrimento nos olhos
— Poeta!
O padre foi até ele:
— Pequeno, por que não brinca com os seus colegas?
— É que estou com uma baita dor de barriga
desse feijão bichado.
6.
Carta acróstica:
"Vovó aqui é tristão
Ou fujo do colégio
Viro poeta
Ou mando os padres..."
Nota: Se resolver pela segunda, mande dinheiro
para comprar um dicionário de rimas e um tratado
de versificação de Olavo Bilac e Guima, o do lenço.
7.
Êta mundão
moça bonita
cavalo bão
este quarto de pensão
a dona da pensão
e a filha da dona da pensão
sem contar a paisagem da janela que é de se entrar de soneto
e o problema sexual que, me disseram, sem roupa
alinhada não se resolve.
(...)
10.
Pela rua deserta atravessa um bêbado comprido
e oscilante
como bambu
assobiando...
Ao longo das calçadas algumas famílias
ainda conversam
velhas passam fumo nos dentes mexericando...
Nhanhá está aborrecida com o neto que foi estudar
no Rio
e voltou de ateu
— Se é pra disaprender, não precisa mais estudar
Pasta um cavalo solto no fim escuro da rua
O rio calmo lá embaixo pisca luzes de lanchas
acordadas
Nhanhá choraminga:
— Tá perdido, diz que negro é igual com branco!
(...)
Imagem - 00780001
Publicado no livro Poemas Concebidos sem Pecado (1937).
In: BARROS, Manoel de. Gramática expositiva do chão: poesia quase toda. Introd. Berta Waldman. Il. Poty. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 199
7 355
Sosigenes Costa
I [E Romãozinho foi subindo, foi subindo
(...)
E Romãozinho foi subindo, foi subindo
e chegou na Meroaba de cima.
— Você viu a caipora?
— Não vi não.
E Romãozinho passou pela Bolandeira, cantando:
— Dom Pedro disse a Totonha
sentado naquele beco
que este rio Jequitinhonha
é o rio do estrume seco.
Dom Pedro não era peco.
Dom Pedro disse a Totonha,
Totonha disse a Pacheco.
Pacheco disse a Badico,
o burro contou à vaca,
a besta disse à perua
e a coisa saiu do beco
e se espalhou pela rua.
Este rio Jequitinhonha
é o rio do estrume seco.
Quem me disse foi Joana
que mora com seu Pacheco.
Você viu a caipora?
— Não vi não.
Nisto apareceu o amarelo empapuçado.
— Você viu Zeca?
— Que Zeca?
— Zeca Fedeca sem pé nem munheca.
— Valha-me, Nossa Senhora
que este homem é Romãozinho!
Conheci pelo pé.
E Romãozinho foi cantando:
— Botei um circo no inferno
pra as almas que estão penando
se divertirem um pouquinho e se esquecerem do fogo.
Me visto então de João Bobo
arremedo miriqui,
dou pontapés nos defuntos
e o inferno faz: quá-quá-quá
e só se vê qui-qui-qui.
Quá-quá-quá. Qui-qui-qui.
As almas que estão sofrendo
precisam se divertir.
Dou pontapé no esqueleto
me viro em menino-cobra
faço careta pra a morte
passo a raspa no capeta
e o diabo faz: quá-quá-quá
e a morte faz: qui-qui-qui.
Quá-quá-quá, qui-qui-qui.
— Você viu a caipora?
— Não vi não.
(...)
In: COSTA, Sosígenes. Iararana. Introd. apuração do texto e glossário José Paulo Paes. Apres. Jorge Amado. Il. Aldemir Martins. São Paulo: Cultrix, 1979
E Romãozinho foi subindo, foi subindo
e chegou na Meroaba de cima.
— Você viu a caipora?
— Não vi não.
E Romãozinho passou pela Bolandeira, cantando:
— Dom Pedro disse a Totonha
sentado naquele beco
que este rio Jequitinhonha
é o rio do estrume seco.
Dom Pedro não era peco.
Dom Pedro disse a Totonha,
Totonha disse a Pacheco.
Pacheco disse a Badico,
o burro contou à vaca,
a besta disse à perua
e a coisa saiu do beco
e se espalhou pela rua.
Este rio Jequitinhonha
é o rio do estrume seco.
Quem me disse foi Joana
que mora com seu Pacheco.
Você viu a caipora?
— Não vi não.
Nisto apareceu o amarelo empapuçado.
— Você viu Zeca?
— Que Zeca?
— Zeca Fedeca sem pé nem munheca.
— Valha-me, Nossa Senhora
que este homem é Romãozinho!
Conheci pelo pé.
E Romãozinho foi cantando:
— Botei um circo no inferno
pra as almas que estão penando
se divertirem um pouquinho e se esquecerem do fogo.
Me visto então de João Bobo
arremedo miriqui,
dou pontapés nos defuntos
e o inferno faz: quá-quá-quá
e só se vê qui-qui-qui.
Quá-quá-quá. Qui-qui-qui.
As almas que estão sofrendo
precisam se divertir.
Dou pontapé no esqueleto
me viro em menino-cobra
faço careta pra a morte
passo a raspa no capeta
e o diabo faz: quá-quá-quá
e a morte faz: qui-qui-qui.
Quá-quá-quá, qui-qui-qui.
— Você viu a caipora?
— Não vi não.
(...)
In: COSTA, Sosígenes. Iararana. Introd. apuração do texto e glossário José Paulo Paes. Apres. Jorge Amado. Il. Aldemir Martins. São Paulo: Cultrix, 1979
1 168
Eduardo Alves da Costa
Poema do Amor Impossível a Candice Bergen
Candice candy
lovely sweet
sexy vamp
Candice Bergen!
Ergo-te um brinde
de erva-doce
como se fosse fino frapê
de LSD.
Musa diva mito
misto de absinto
e creme de hortelã:
sou teu fã.
Faça-se um pôster do teu rosto
para delírio da massa ocidental
de causar inveja ao próprio Mao.
Quem se negaria a trabalhar em dobro
alimentado pelo teu quase-sorriso,
tão monaliso?
Serias meta, recompensa, prêmio-produção
cravado com fitinha multicor
no coração do vencedor.
A indústria nacional ia à falência
de tanta saliência.
Atingiríamos o mais alto índice
de masturbação per capita,
exportaríamos Candices mulatas, olhos azuis.
Quem sabe o exemplo de tua rebeldia
nos libertasse da tirania
do preço, do plano, do lucro?
Serias acessível pelo crediário,
subversiva à ordem dos fatores,
alteração do produto.
Para os mais pudicos,
faríamos santinho com a tua imagem;
te chamariam Maria
— não digo virgem, sei lá...
Ah, não haveria padre que chegasse
ao fim da missa!
(...)
In: COSTA, Eduardo Alves da. No caminho, com Maiakóvski. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1985. (Poesia brasileira). Poema integrante da série O Tocador de Atabaqu
lovely sweet
sexy vamp
Candice Bergen!
Ergo-te um brinde
de erva-doce
como se fosse fino frapê
de LSD.
Musa diva mito
misto de absinto
e creme de hortelã:
sou teu fã.
Faça-se um pôster do teu rosto
para delírio da massa ocidental
de causar inveja ao próprio Mao.
Quem se negaria a trabalhar em dobro
alimentado pelo teu quase-sorriso,
tão monaliso?
Serias meta, recompensa, prêmio-produção
cravado com fitinha multicor
no coração do vencedor.
A indústria nacional ia à falência
de tanta saliência.
Atingiríamos o mais alto índice
de masturbação per capita,
exportaríamos Candices mulatas, olhos azuis.
Quem sabe o exemplo de tua rebeldia
nos libertasse da tirania
do preço, do plano, do lucro?
Serias acessível pelo crediário,
subversiva à ordem dos fatores,
alteração do produto.
Para os mais pudicos,
faríamos santinho com a tua imagem;
te chamariam Maria
— não digo virgem, sei lá...
Ah, não haveria padre que chegasse
ao fim da missa!
(...)
In: COSTA, Eduardo Alves da. No caminho, com Maiakóvski. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1985. (Poesia brasileira). Poema integrante da série O Tocador de Atabaqu
1 469
Armando Freitas Filho
Fazer carreira
Fazer carreira
é sair correndo por fora
— como um ladrão —
de dentro de si mesmo
virando-se pelo avesso
ao encalço do futuro
engolindo sapos
poemas e sopapos
comendo de tudo
e cometendo sem parar
paráfrases, pastiches, mélanges
marmeladas
competindo
não apenas
por um lugar ao sol
mas pelo lugar do sol
na vanguarda
ou entre os marginais
descendo-subindo ou o contrário
a escada rolante
a escalada, o escândalo
do sucesso
até conseguir
o crime perfeito
a obra-prima underground
que é o primeiro
ou o último degrau?
In: FREITAS FILHO, Armando. Longa vida, 1979/1981. Pref. Ana Cristina Cesar. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1982. (Poiesis)
é sair correndo por fora
— como um ladrão —
de dentro de si mesmo
virando-se pelo avesso
ao encalço do futuro
engolindo sapos
poemas e sopapos
comendo de tudo
e cometendo sem parar
paráfrases, pastiches, mélanges
marmeladas
competindo
não apenas
por um lugar ao sol
mas pelo lugar do sol
na vanguarda
ou entre os marginais
descendo-subindo ou o contrário
a escada rolante
a escalada, o escândalo
do sucesso
até conseguir
o crime perfeito
a obra-prima underground
que é o primeiro
ou o último degrau?
In: FREITAS FILHO, Armando. Longa vida, 1979/1981. Pref. Ana Cristina Cesar. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1982. (Poiesis)
1 105
Alcides Villaça
Viagem Antiga
Havia vezes eu me via
como um menino não se vê.
A água na nuvem se adivinha,
a sede vem antes de sua vez.
Havia vezes eu me renascia
sem nunca ter saído além de mim:
emprestava-me espelhos e outras vias
de ver tocar sentir o fundo o si.
Era um segundo inteiro ou todo um dia
quando lançava o olhar além de mim
e me via em tudo o que não via?
Que trem cortava o tempo desse abril?
Em que viagem eu era o meu caminho?
Às vezes os meninos pousam olhos
no fim das paralelas, e descansam
o corpo de seus pesos e medidas.
Se nesta noite fixo a luz da esquina
e torno lento o sangue em seu caminho,
nem sombra apanho da viagem antiga
que, quando eu não queria, me fazia.
In VILLAÇA, Alcides. Viagem de Trem. Il. Alberto A. Martins. São Paulo: Duas Cidades, 1988. (Claro enigma). Poema integrante da série Estação Anterior
como um menino não se vê.
A água na nuvem se adivinha,
a sede vem antes de sua vez.
Havia vezes eu me renascia
sem nunca ter saído além de mim:
emprestava-me espelhos e outras vias
de ver tocar sentir o fundo o si.
Era um segundo inteiro ou todo um dia
quando lançava o olhar além de mim
e me via em tudo o que não via?
Que trem cortava o tempo desse abril?
Em que viagem eu era o meu caminho?
Às vezes os meninos pousam olhos
no fim das paralelas, e descansam
o corpo de seus pesos e medidas.
Se nesta noite fixo a luz da esquina
e torno lento o sangue em seu caminho,
nem sombra apanho da viagem antiga
que, quando eu não queria, me fazia.
In VILLAÇA, Alcides. Viagem de Trem. Il. Alberto A. Martins. São Paulo: Duas Cidades, 1988. (Claro enigma). Poema integrante da série Estação Anterior
1 477
Antonio Fernando De Franceschi
Capitão Blood
no assalto
em que me lanço
temeroso
ancas acima
desato ao vento
dorso e cabelos
mas teus velames
travo firme
sustenidos
em meu medo:
a que porto
afinal
me destina
esta viagem?
em que ilha
me socorro
se o mar
me der vertigem?
In: DE FRANCESCHI, Antonio Fernando. Caminho das águas: poemas. São Paulo: Brasiliense, 1987. Poema integrante da série Em Campo Aberto
em que me lanço
temeroso
ancas acima
desato ao vento
dorso e cabelos
mas teus velames
travo firme
sustenidos
em meu medo:
a que porto
afinal
me destina
esta viagem?
em que ilha
me socorro
se o mar
me der vertigem?
In: DE FRANCESCHI, Antonio Fernando. Caminho das águas: poemas. São Paulo: Brasiliense, 1987. Poema integrante da série Em Campo Aberto
1 046
Menotti del Picchia
Germinal - 1
Nuvens voam pelo ar como bandos de garças.
Artista boêmio, o sol, mescla na cordilheira pinceladas esparsas
de ouro fosco. Num mastro apruma-se a bandeira
de S. João desfraldando o seu alvo losango.
Juca Mulato cisma. A sonolência vence-o.
Vem na tarde que expira e na voz de um curiango
o narcótico do ar parado, esse veneno
que há no ventre da treva e na alma do silêncio.
Um sorriso ilumina o seu rosto moreno.
No piquete relincha um poldro; um galo álacre
tatala a asa triunfal, ergue a crista de lacre,
clarina a recolher entre varas de cerdos
mexem-se ruivos bois processionais e lerdos
e num magote escuro a manada se abisma
na treva.
Anoiteceu.
Juca Mulato cisma.
Publicado no livro Juca Mulato (1917).
In: DEL PICCHIA, Menotti. Juca Mulato. Introd. Osmar Barbosa. Il. Tarsila do Amaral, Mozinha e Autor. Rio de Janeiro: Ediouro, s.d. p.17. (Prestígio
Artista boêmio, o sol, mescla na cordilheira pinceladas esparsas
de ouro fosco. Num mastro apruma-se a bandeira
de S. João desfraldando o seu alvo losango.
Juca Mulato cisma. A sonolência vence-o.
Vem na tarde que expira e na voz de um curiango
o narcótico do ar parado, esse veneno
que há no ventre da treva e na alma do silêncio.
Um sorriso ilumina o seu rosto moreno.
No piquete relincha um poldro; um galo álacre
tatala a asa triunfal, ergue a crista de lacre,
clarina a recolher entre varas de cerdos
mexem-se ruivos bois processionais e lerdos
e num magote escuro a manada se abisma
na treva.
Anoiteceu.
Juca Mulato cisma.
Publicado no livro Juca Mulato (1917).
In: DEL PICCHIA, Menotti. Juca Mulato. Introd. Osmar Barbosa. Il. Tarsila do Amaral, Mozinha e Autor. Rio de Janeiro: Ediouro, s.d. p.17. (Prestígio
1 580
Carlos Felipe Moisés
Pergunta
para Jerusa
O que mais vale:
a poesia ou a vida?
cidade iluminada ou
beleza dividida?
Na Paulicéia des-
vairada, sem razão,
cantar o pôr-do-sol
já é consolação.
Antes, ensolação:
o sol do teu canto
que vermelho se põe
não é canto mas pranto.
E o sol perguntará
(rubro, medonho,
um dia): o que mais vale,
a poesia ou o sonho?
E o teu canto
com sol(ação) dirá:
tendo poesia e vida
nada me faltará.
Sol do sul, céu aberto,
se eu merecesse pedia:
planta em meu peito deserto
sonho vida poesia.
(João Pessoa 1977)
Poema integrante da série III. Pessoal.
In: MOISÉS, Carlos Felipe. Círculo imperfeito: poemas. Salvador: Fundação Cultural do Estado da Bahia, 1978. (Coleção Ilha de Maré, 2)
O que mais vale:
a poesia ou a vida?
cidade iluminada ou
beleza dividida?
Na Paulicéia des-
vairada, sem razão,
cantar o pôr-do-sol
já é consolação.
Antes, ensolação:
o sol do teu canto
que vermelho se põe
não é canto mas pranto.
E o sol perguntará
(rubro, medonho,
um dia): o que mais vale,
a poesia ou o sonho?
E o teu canto
com sol(ação) dirá:
tendo poesia e vida
nada me faltará.
Sol do sul, céu aberto,
se eu merecesse pedia:
planta em meu peito deserto
sonho vida poesia.
(João Pessoa 1977)
Poema integrante da série III. Pessoal.
In: MOISÉS, Carlos Felipe. Círculo imperfeito: poemas. Salvador: Fundação Cultural do Estado da Bahia, 1978. (Coleção Ilha de Maré, 2)
894
Antonio Fernando De Franceschi
Esteio
te palmilho
perfiladas coxas
contra vento e marés
te percorro
mediterrâneo
promontórios
te amparo a fronte
e o espasmo
— ato final
In: DE FRANCESCHI, Antonio Fernando. Caminho das águas: poemas. São Paulo: Brasiliense, 1987. Poema integrante da série Em Campo Aberto
perfiladas coxas
contra vento e marés
te percorro
mediterrâneo
promontórios
te amparo a fronte
e o espasmo
— ato final
In: DE FRANCESCHI, Antonio Fernando. Caminho das águas: poemas. São Paulo: Brasiliense, 1987. Poema integrante da série Em Campo Aberto
1 338
Alcides Villaça
Aprendendo a Ler
para Mariana e André
As coisas voam menos,
surpresas no papel:
"— Mar é tão pequeno,
andorinha tão grande...
Sol prendo na noite,
lua na manhã...
Essa bola não rola,
este azul não ficou..."
Por cima do ombro,
na idade das cores,
o irmão pequeno estranha
mentiras tamanhas.
In VILLAÇA, Alcides. Viagem de Trem. Il. Alberto A. Martins. São Paulo: Duas Cidades, 1988 (Claro enigma). Poema integrante da série Acenos
As coisas voam menos,
surpresas no papel:
"— Mar é tão pequeno,
andorinha tão grande...
Sol prendo na noite,
lua na manhã...
Essa bola não rola,
este azul não ficou..."
Por cima do ombro,
na idade das cores,
o irmão pequeno estranha
mentiras tamanhas.
In VILLAÇA, Alcides. Viagem de Trem. Il. Alberto A. Martins. São Paulo: Duas Cidades, 1988 (Claro enigma). Poema integrante da série Acenos
1 200
Alcides Villaça
Rumo Oeste
O rádio no carro canta pelas cidades.
Já sei onde está a melhor garapa
de Araras, o melhor algodão em Leme.
Em Pirassununga o hábito do Angelus
ainda veste de santa qualquer tarde.
O locutor e seu melhor emplastro
para curar no peito aquela velha aflição.
Todas as rádios abrem para o mundo
o coração do largo e um recado de Ester:
esta canção vai para W.J.
que ainda não esqueci.
O céu de todas as rádios
se estende para a capital: o que se dança
em New York direto para São Simão.
Para você, Lucinha, mexer o que Deus lhe deu.
A velha teia das cidades
enleia agora as estrelas.
Ao som da sétima badalada
do coração da Matriz
desligue o rádio! e respire
de passagem tudo o que fica:
são ondas soltas no ar.
In VILLAÇA, Alcides. Viagem de Trem. Il. Alberto A. Martins. São Paulo: Duas Cidades, 1988 (Claro enigma). Poema integrante da série No Desvio
Já sei onde está a melhor garapa
de Araras, o melhor algodão em Leme.
Em Pirassununga o hábito do Angelus
ainda veste de santa qualquer tarde.
O locutor e seu melhor emplastro
para curar no peito aquela velha aflição.
Todas as rádios abrem para o mundo
o coração do largo e um recado de Ester:
esta canção vai para W.J.
que ainda não esqueci.
O céu de todas as rádios
se estende para a capital: o que se dança
em New York direto para São Simão.
Para você, Lucinha, mexer o que Deus lhe deu.
A velha teia das cidades
enleia agora as estrelas.
Ao som da sétima badalada
do coração da Matriz
desligue o rádio! e respire
de passagem tudo o que fica:
são ondas soltas no ar.
In VILLAÇA, Alcides. Viagem de Trem. Il. Alberto A. Martins. São Paulo: Duas Cidades, 1988 (Claro enigma). Poema integrante da série No Desvio
1 328
Lila Ripoll
Neve
A neve desce
fria e fina.
A neve cresce
e há neblina.
Neva na rua,
neva em meu peito.
Cai neve da lua
no mar,
e em meu leito.
A neve gela
meu pensamento.
Cai neve, neve
nos fios do vento.
A neve desce
pelo meu leito.
A neve cresce
sobre meu peito.
Cai neve, neve
cai e se adensa.
Cai neve, leve,
sobre quem pensa.
Publicado no livro Poemas e Canções (1957)
In: RIPOLL, Lila. Ilha difícil: antologia poética. Sel. e apres. Maria da Glória Bordini. Porto Alegre: Ed. da Universidade/UFRGS, 1987. p.5
fria e fina.
A neve cresce
e há neblina.
Neva na rua,
neva em meu peito.
Cai neve da lua
no mar,
e em meu leito.
A neve gela
meu pensamento.
Cai neve, neve
nos fios do vento.
A neve desce
pelo meu leito.
A neve cresce
sobre meu peito.
Cai neve, neve
cai e se adensa.
Cai neve, leve,
sobre quem pensa.
Publicado no livro Poemas e Canções (1957)
In: RIPOLL, Lila. Ilha difícil: antologia poética. Sel. e apres. Maria da Glória Bordini. Porto Alegre: Ed. da Universidade/UFRGS, 1987. p.5
1 559
Lila Ripoll
Festejo
Foi num primeiro de maio,
na cidade de Rio Grande.
(...)
O povo reuniu-se em festa,
pois a festa era do povo.
(...)
"Uni-vos, ó proletários,
ó povos de todo o mundo."
Unido estava em Rio Grande,
o povo simples cantando.
No peito de cada homem
uma esperança se abria.
Em qualquer parte do mundo
uma estrela respondia.
(...)
Foi quando a voz calma e séria,
no velho parque vibrou,
e um convite alviçareiro
o povo unido escutou:
"Amigos, a rua é larga.
Unidos, vamos partir.
A nossa 'União Operária'
nós hoje vamos abrir."
(...)
"A casa de nossa classe,
fechada, por que razão?
Amigos, vamos à rua,
e as portas se abrirão."
A onda humana agitou-se,
cresceu em intensidade.
Em coro as vozes subiram
clamando por liberdade.
"À rua, à rua, sem medo,
unidos, vamos marchar."
Foi como se uma rajada
de vento encrespasse o mar.
Publicado no livro Primeiro de Maio (1954).
In: RIPOLL, Lila. Ilha difícil: antologia poética. Sel. e apres. Maria da Glória Bordini. Porto Alegre: Ed. Universidade/UFRGS, 1987. p.113-11
na cidade de Rio Grande.
(...)
O povo reuniu-se em festa,
pois a festa era do povo.
(...)
"Uni-vos, ó proletários,
ó povos de todo o mundo."
Unido estava em Rio Grande,
o povo simples cantando.
No peito de cada homem
uma esperança se abria.
Em qualquer parte do mundo
uma estrela respondia.
(...)
Foi quando a voz calma e séria,
no velho parque vibrou,
e um convite alviçareiro
o povo unido escutou:
"Amigos, a rua é larga.
Unidos, vamos partir.
A nossa 'União Operária'
nós hoje vamos abrir."
(...)
"A casa de nossa classe,
fechada, por que razão?
Amigos, vamos à rua,
e as portas se abrirão."
A onda humana agitou-se,
cresceu em intensidade.
Em coro as vozes subiram
clamando por liberdade.
"À rua, à rua, sem medo,
unidos, vamos marchar."
Foi como se uma rajada
de vento encrespasse o mar.
Publicado no livro Primeiro de Maio (1954).
In: RIPOLL, Lila. Ilha difícil: antologia poética. Sel. e apres. Maria da Glória Bordini. Porto Alegre: Ed. Universidade/UFRGS, 1987. p.113-11
1 912
Carlos Vogt
Contrato Social
Nessa terra em que se plantando tudo dá
nasce uma fruta árida e harmônica
misto de bom crioulo e palha de pamonha
organização de homens só de bem
com os que estão de mal entre si com os outros.
In: VOGT, Carlos. Metalurgia: poemas. São Paulo: Companhia das Letras, 1991
nasce uma fruta árida e harmônica
misto de bom crioulo e palha de pamonha
organização de homens só de bem
com os que estão de mal entre si com os outros.
In: VOGT, Carlos. Metalurgia: poemas. São Paulo: Companhia das Letras, 1991
1 200
Carlos Felipe Moisés
Capibaribe
Capibaribe não é um rio,
Capibaribe: enredo musical
Melodia, Manuel Bandeira.
Texto e coreografia, João Cabral.
(Recife 1977)
Poema integrante da série I. Natural.
In: MOISÉS, Carlos Felipe. Círculo imperfeito: poemas. Salvador: Fundação Cultural do Estado da Bahia, 1978. (Coleção Ilha de Maré, 2)
Capibaribe: enredo musical
Melodia, Manuel Bandeira.
Texto e coreografia, João Cabral.
(Recife 1977)
Poema integrante da série I. Natural.
In: MOISÉS, Carlos Felipe. Círculo imperfeito: poemas. Salvador: Fundação Cultural do Estado da Bahia, 1978. (Coleção Ilha de Maré, 2)
920
Carlos Felipe Moisés
Mário de Andrade em San Francisco
para Roberto Piva & Cláudio Willer
Dez horas da noite.
Percorro os meandros do Chinatown em San Francisco
e entre becos de névoa e olhares aflitos
é a ti que procuro,
São Paulo, comoção da minha vida,
na voz de Mário,
teu poeta
subindo e descendo as ladeiras da angústia
de uma cidade que anseia pelo mar.
Dez horas da noite.
Meu pés,
que já pisaram as ruínas de Yucatán
e a Medina de Marraquech
o cais de Amsterdã
e o deserto de Alcácer-Quebir,
chegam cansados à Union Square no coração de San Francisco
e este chão morno coberto de pombos me acolhe
como se eu pisasse a Rua Lopes Chaves em noite de crimes.
Dez horas da noite.
A culpa do insofrido
onde está?
Ali, Mário, põe a máscara!
O Rei de Tule jogou a taça ao mar,
vendaval a levou — e hoje,
troféu cravado na torre mais alta da Golden Gate
banhada em luar
ela anseia pelo Oriente onde, dizem, o sol reside.
Dez horas da noite.
Vem, Mário, vou mostrar-te San Francisco,
cidade esculpida em bruma a oriente do Oriente onde a
Primavera existe e se ergue do mar todo ano ofertando
presságios e desassossego,
ladeira abaixo
ladeira acima.
Aqui os corações são arrastados pelos bondes sapateando nos
trilhos como o nosso dlem-dlem Santana! ei-ô! rumo à
Voluntários da Pátria ou às madrugadas arrepiadas de
frio do Largo de São Bento.
(...)
In: MOISÉS, Carlos Felipe. Subsolo. São Paulo: Massao Ohno, 1989
Dez horas da noite.
Percorro os meandros do Chinatown em San Francisco
e entre becos de névoa e olhares aflitos
é a ti que procuro,
São Paulo, comoção da minha vida,
na voz de Mário,
teu poeta
subindo e descendo as ladeiras da angústia
de uma cidade que anseia pelo mar.
Dez horas da noite.
Meu pés,
que já pisaram as ruínas de Yucatán
e a Medina de Marraquech
o cais de Amsterdã
e o deserto de Alcácer-Quebir,
chegam cansados à Union Square no coração de San Francisco
e este chão morno coberto de pombos me acolhe
como se eu pisasse a Rua Lopes Chaves em noite de crimes.
Dez horas da noite.
A culpa do insofrido
onde está?
Ali, Mário, põe a máscara!
O Rei de Tule jogou a taça ao mar,
vendaval a levou — e hoje,
troféu cravado na torre mais alta da Golden Gate
banhada em luar
ela anseia pelo Oriente onde, dizem, o sol reside.
Dez horas da noite.
Vem, Mário, vou mostrar-te San Francisco,
cidade esculpida em bruma a oriente do Oriente onde a
Primavera existe e se ergue do mar todo ano ofertando
presságios e desassossego,
ladeira abaixo
ladeira acima.
Aqui os corações são arrastados pelos bondes sapateando nos
trilhos como o nosso dlem-dlem Santana! ei-ô! rumo à
Voluntários da Pátria ou às madrugadas arrepiadas de
frio do Largo de São Bento.
(...)
In: MOISÉS, Carlos Felipe. Subsolo. São Paulo: Massao Ohno, 1989
887
Lila Ripoll
Primavera
Setembro entrou pela janela adentro,
com um puro frescor de primavera.
Inunda-se de luz toda a paisagem
e o meu canto transborda à tua espera.
A doçura da tarde é uma carícia.
Entreabrem-se flores docemente.
As nuvens estão nítidas e imóveis
no céu azul aberto à minha frente.
Há murmúrios e vozes pela rua.
Frescos risos distraem meus ouvidos
e ficam borbulhando como fonte
ou como choque de cristais partidos.
A ternura contida de meu peito
ameaça transbordar dentro da tarde.
como um rio fugindo de seu leito.
Minha pobre ternura ignorada,
minha heróica ternura impressentida,
teima em mostrar-se como a primavera,
pensa em tocar de leve a tua vida.
É difícil ser poeta e ser mulher.
É difícil cantar sem revelar.
Pode o poeta contar o seu segredo,
mas a mulher o seu deve guardar.
A ternura contida de meu peito
ameaça transbordar dentro da tarde,
como um rio fugindo de seu leito.
Fecharei a janela à primavera
e calarei o poeta nesta tarde,
para que o sonho em nada me perturbe,
nem meu canto transborde à tua espera.
In: RIPOLL, Lila. Poemas e Canções. Porto Alegre: Horizonte, 1957. (Cadernos da Horizonte)
com um puro frescor de primavera.
Inunda-se de luz toda a paisagem
e o meu canto transborda à tua espera.
A doçura da tarde é uma carícia.
Entreabrem-se flores docemente.
As nuvens estão nítidas e imóveis
no céu azul aberto à minha frente.
Há murmúrios e vozes pela rua.
Frescos risos distraem meus ouvidos
e ficam borbulhando como fonte
ou como choque de cristais partidos.
A ternura contida de meu peito
ameaça transbordar dentro da tarde.
como um rio fugindo de seu leito.
Minha pobre ternura ignorada,
minha heróica ternura impressentida,
teima em mostrar-se como a primavera,
pensa em tocar de leve a tua vida.
É difícil ser poeta e ser mulher.
É difícil cantar sem revelar.
Pode o poeta contar o seu segredo,
mas a mulher o seu deve guardar.
A ternura contida de meu peito
ameaça transbordar dentro da tarde,
como um rio fugindo de seu leito.
Fecharei a janela à primavera
e calarei o poeta nesta tarde,
para que o sonho em nada me perturbe,
nem meu canto transborde à tua espera.
In: RIPOLL, Lila. Poemas e Canções. Porto Alegre: Horizonte, 1957. (Cadernos da Horizonte)
1 855
Carlos Felipe Moisés
O Sol Quando
O sol quando amanhece
lembra o dia quando esquece
a noite dentro do dia
quando anoitece
brilho errante quando a noite
dentro da noite adormece
o sol quando escurece
a noite devora o dia que
devora a noite que
um dia tudo será repouso
no horizonte guardado
pelo sol que não aquece.
(São Paulo 1976)
Poema integrante da série I. Natural.
In: MOISÉS, Carlos Felipe. Círculo imperfeito: poemas. Salvador: Fundação Cultural do Estado da Bahia, 1978. (Coleção Ilha de Maré, 2)
lembra o dia quando esquece
a noite dentro do dia
quando anoitece
brilho errante quando a noite
dentro da noite adormece
o sol quando escurece
a noite devora o dia que
devora a noite que
um dia tudo será repouso
no horizonte guardado
pelo sol que não aquece.
(São Paulo 1976)
Poema integrante da série I. Natural.
In: MOISÉS, Carlos Felipe. Círculo imperfeito: poemas. Salvador: Fundação Cultural do Estado da Bahia, 1978. (Coleção Ilha de Maré, 2)
1 036
Alcides Villaça
Cromo
na seda sob spot de lençol
a sereia denise pisca um seio e cobre o outro com mãos de virgem
[maria
no choque da pele rosa
o bom diabo e a boa burguesia brincam de enformar
a deusa atávica das barbearias
In VILLAÇA, Alcides. Viagem de Trem. Il. Alberto A. Martins. São Paulo: Duas Cidades, 1988 (Claro enigma). Poema integrante da série O Jogo das Ondas
a sereia denise pisca um seio e cobre o outro com mãos de virgem
[maria
no choque da pele rosa
o bom diabo e a boa burguesia brincam de enformar
a deusa atávica das barbearias
In VILLAÇA, Alcides. Viagem de Trem. Il. Alberto A. Martins. São Paulo: Duas Cidades, 1988 (Claro enigma). Poema integrante da série O Jogo das Ondas
1 093
Carlos Vogt
Ponto de Vista
Visto da ilha
o continente no container dos olhos
represa mágoas e metáforas de alegria.
Na distância de água e argila,
visto da ilha,
o continente é outra ilha.
In: VOGT, Carlos. Metalurgia: poemas. São Paulo: Companhia das Letras, 1991
o continente no container dos olhos
represa mágoas e metáforas de alegria.
Na distância de água e argila,
visto da ilha,
o continente é outra ilha.
In: VOGT, Carlos. Metalurgia: poemas. São Paulo: Companhia das Letras, 1991
1 140
Alcides Villaça
Horizontal
A Margot
I Tua falta é toda
horizontal. Como teus braços
que não cabiam entre estátuas
requisitando espaços
desconhecidos.
Teus amigos nunca marcaram
teu limite ilimitável. Eras de todos
e de ninguém, como também sabias
te ausentar, presente,
e longe, nos saudar.
Não perdestes a mania.
Ficou nuns versos que leste
para mim, sem exclusividade,
a marca de uns lábios eternamente fantasmas
que reclamarão eternamente por vida.
Querias vida, ela te queria,
como irmãos que se entendem.
II Tua falta é toda
horizontal. Teu corpo se ressentia
de ar em pleno campo, e o suprias
no leque dos gestos largos
empinadores de nuvens,
Tudo em volta contaminação.
Gostaste das palavras. Pegaste
em minha mão para a cartilha imensa
de ti mesma, e enfileiraste amigos entre
dedos e anéis mágicos, dentes
dolorosos, marcas.
Prevenias, vingativamente, uma ausência
súbita: vivas pelo tempo que sempre
te faltaria, fosse em ti incontável,
em ti se reduzindo.
III Tua falta é toda
horizontal. Não atinge de vez,
de sempre fantasma que reclama a colheita.
Por isso te censuras, sorrindo,
o que de teu sorriso não frutificou.
Não frutificou o grito agudo de morte.
Não frutificou um abandono a todos os desesperos.
Não frutificou a inocência entre as relatividades.
Teu fruto único é o horizonte, a suavidade
de tua falta, o conforto de tua falta.
Pois já existiu quem faltava
e, sem dor, nos faz companhia.
In: VILLAÇA, Alcides. O tempo e outros remorsos. Pref. Alfredo Bosi. Il. Edgard Rodrigues de Souza. São Paulo: Ática, 1975. Poema integrante da série Os Amigos
I Tua falta é toda
horizontal. Como teus braços
que não cabiam entre estátuas
requisitando espaços
desconhecidos.
Teus amigos nunca marcaram
teu limite ilimitável. Eras de todos
e de ninguém, como também sabias
te ausentar, presente,
e longe, nos saudar.
Não perdestes a mania.
Ficou nuns versos que leste
para mim, sem exclusividade,
a marca de uns lábios eternamente fantasmas
que reclamarão eternamente por vida.
Querias vida, ela te queria,
como irmãos que se entendem.
II Tua falta é toda
horizontal. Teu corpo se ressentia
de ar em pleno campo, e o suprias
no leque dos gestos largos
empinadores de nuvens,
Tudo em volta contaminação.
Gostaste das palavras. Pegaste
em minha mão para a cartilha imensa
de ti mesma, e enfileiraste amigos entre
dedos e anéis mágicos, dentes
dolorosos, marcas.
Prevenias, vingativamente, uma ausência
súbita: vivas pelo tempo que sempre
te faltaria, fosse em ti incontável,
em ti se reduzindo.
III Tua falta é toda
horizontal. Não atinge de vez,
de sempre fantasma que reclama a colheita.
Por isso te censuras, sorrindo,
o que de teu sorriso não frutificou.
Não frutificou o grito agudo de morte.
Não frutificou um abandono a todos os desesperos.
Não frutificou a inocência entre as relatividades.
Teu fruto único é o horizonte, a suavidade
de tua falta, o conforto de tua falta.
Pois já existiu quem faltava
e, sem dor, nos faz companhia.
In: VILLAÇA, Alcides. O tempo e outros remorsos. Pref. Alfredo Bosi. Il. Edgard Rodrigues de Souza. São Paulo: Ática, 1975. Poema integrante da série Os Amigos
1 123
Lila Ripoll
Canção de Agora
Ontem meu peito chorava.
Hoje, não.
Também cansa a desventura.
Também o sol gasta o chão.
Estava ontem sozinha,
tendo a meu lado, sombria,
minha própria companhia.
Hoje, não.
Morreu de tanto morrer
a pena que em mim vivia.
Morreu de tanto esperar.
Eu não.
Relógios do tempo andaram
marcando o tempo em meu rosto.
A vida perdeu seu tempo.
Eu não.
Também cansa a desventura.
Também o sol gasta o chão.
Publicado no livro O Coração Descoberto (1961).
In: RIPOLL, Lila. Antologia poética. Rio de Janeiro: Leitura; Brasília: INL, 1968. p.91-9
Hoje, não.
Também cansa a desventura.
Também o sol gasta o chão.
Estava ontem sozinha,
tendo a meu lado, sombria,
minha própria companhia.
Hoje, não.
Morreu de tanto morrer
a pena que em mim vivia.
Morreu de tanto esperar.
Eu não.
Relógios do tempo andaram
marcando o tempo em meu rosto.
A vida perdeu seu tempo.
Eu não.
Também cansa a desventura.
Também o sol gasta o chão.
Publicado no livro O Coração Descoberto (1961).
In: RIPOLL, Lila. Antologia poética. Rio de Janeiro: Leitura; Brasília: INL, 1968. p.91-9
2 273
Sérgio Milliet
Saudade
Quero cantar a saudade da pátria apesar do
tema ser romântico
Mas faz tanto frio hoje em Paris
tanto vento
faz tanta solidão nas ruas mascaradas!
Tenho a alma pesada
a bronquite cantando no peito como uma gaita de carnaval
e faz tanta tristeza no ambiente lamentável
do meu quarto de hotel
Cantar
O pássaro que se pousa num galho
todo molhado coitado
constata que a chuva cai
sacode-se e canta
Mas eu tenho medo dos ironistas
não ouso fazer como o pássaro
não creio em Deus como ele ingenuamente
e em vez de cantar ou de chorar
eu me rio
e para que me acreditem poeta modernista
falo de trilhos
de automóveis
e de estradas de rodagem
Mas como me pesa esse exotismo do aço
e que vontade invencível de rimar versinhos de amor
de me deixar embalar pela música pobre dos alexandrinos
Necessidade de simplificação
de reintegração como diria o Graça
A tristeza passou
e a saudade também
Foi um acesso de febre
ameaça de gripe
lembrança do restaurante onde comi esta noite
um bife nervoso
no meio do vozerio ê ê ê ê on on ê a ê on ê
e dentro de mim um ão invomitável...
Publicado no livro Poemas Análogos (1927). Poema integrante da série Poemas Brasileiros.
In: MILLIET, Sérgio. Poesias. Porto Alegre: Livr. do Globo, 1946. p.72-73. (Autores brasileiros, 19
tema ser romântico
Mas faz tanto frio hoje em Paris
tanto vento
faz tanta solidão nas ruas mascaradas!
Tenho a alma pesada
a bronquite cantando no peito como uma gaita de carnaval
e faz tanta tristeza no ambiente lamentável
do meu quarto de hotel
Cantar
O pássaro que se pousa num galho
todo molhado coitado
constata que a chuva cai
sacode-se e canta
Mas eu tenho medo dos ironistas
não ouso fazer como o pássaro
não creio em Deus como ele ingenuamente
e em vez de cantar ou de chorar
eu me rio
e para que me acreditem poeta modernista
falo de trilhos
de automóveis
e de estradas de rodagem
Mas como me pesa esse exotismo do aço
e que vontade invencível de rimar versinhos de amor
de me deixar embalar pela música pobre dos alexandrinos
Necessidade de simplificação
de reintegração como diria o Graça
A tristeza passou
e a saudade também
Foi um acesso de febre
ameaça de gripe
lembrança do restaurante onde comi esta noite
um bife nervoso
no meio do vozerio ê ê ê ê on on ê a ê on ê
e dentro de mim um ão invomitável...
Publicado no livro Poemas Análogos (1927). Poema integrante da série Poemas Brasileiros.
In: MILLIET, Sérgio. Poesias. Porto Alegre: Livr. do Globo, 1946. p.72-73. (Autores brasileiros, 19
1 786
Joaquim Cardozo
Aves de Rapina
Há muitos anos que os caminhos se arrastavam
Subindo para as montanhas.
Percorriam as florestas perseguindo a distância,
Lentos e longos deslizavam nas planícies.
Passaram chuvas, passaram ventos,
Passaram sombras aladas...
Um dia os aviões surgiram e libertaram a distância,
Os aviões desceram e levaram os caminhos.
Publicado no livro Poemas (1947).
In: CARDOZO, Joaquim. Poesias completas. 2.ed. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 1979. p.1
Subindo para as montanhas.
Percorriam as florestas perseguindo a distância,
Lentos e longos deslizavam nas planícies.
Passaram chuvas, passaram ventos,
Passaram sombras aladas...
Um dia os aviões surgiram e libertaram a distância,
Os aviões desceram e levaram os caminhos.
Publicado no livro Poemas (1947).
In: CARDOZO, Joaquim. Poesias completas. 2.ed. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 1979. p.1
2 881
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