Aniversário
Poemas neste tema
Glauco Mattoso
Haicais Paulistanos, 1983-1991 [2
Domingão no estádio.
A torcida invade o campo.
E o cego sem rádio.
Casa com mansarda
não tarda a ser demolida.
Obra de vanguarda.
Liberdade é pão,
mas Consolação é prêmio.
Paraíso é Adão.
Se vê da Paulista.
Se avista do Martinelli.
É um balão bairrista.
Vila Ida a pé
é fora de mão. Melhor
ir pra Vila Ré.
Cena original:
Vaginal como um paquete,
flui a Marginal.
Farol na Paulista
mancha a pista de vermelho.
Quadro modernista.
In: MATTOSO, Glauco. Poemas de Glauco Mattoso: amostra quase grátis. São Paulo: U. Tavares, 1993 (Poesia já, 2)
A torcida invade o campo.
E o cego sem rádio.
Casa com mansarda
não tarda a ser demolida.
Obra de vanguarda.
Liberdade é pão,
mas Consolação é prêmio.
Paraíso é Adão.
Se vê da Paulista.
Se avista do Martinelli.
É um balão bairrista.
Vila Ida a pé
é fora de mão. Melhor
ir pra Vila Ré.
Cena original:
Vaginal como um paquete,
flui a Marginal.
Farol na Paulista
mancha a pista de vermelho.
Quadro modernista.
In: MATTOSO, Glauco. Poemas de Glauco Mattoso: amostra quase grátis. São Paulo: U. Tavares, 1993 (Poesia já, 2)
1 500
João Cabral de Melo Neto
Encontro com um Poeta
Em certo lugar da Mancha,
onde mais dura é Castela,
sob as espécies de um vento
soprando armado de areia,
vim surpreender a presença,
mais do que pensei, severa,
de certo Miguel Hernández,
hortelão de Orihuela.
A voz desse tal Miguel,
entre palavras e terra
indecisa, como em Fraga
as casas o estão da terra,
foi um dia arquitetura,
foi voz métrica de pedra,
tal como, cristalizada,
surge Madrid a quem chega.
Mas a voz que percebi
no vento da parameira
era de terra sofrida
e batida, terra de eira.
Não era a voz expurgada
de suas obras seletas:
era uma edição do vento,
que não vai às bibliotecas,
era uma edição incômoda,
a que se fecha a janela,
incômoda porque o vento
não censura mas libera.
A voz que então percebi
no vento da parameira
era aquela voz final
de Miguel, rouca de guerra
(talvez ainda mais aguda
no sotaque da poeira;
talvez mais dilacerada
quando o vento a interpreta).
Vi então que a terra batida
do fim da vida do poeta,
terra que de tão sofrida
acabou virando pedra,
se havia multiplicado
naquelas facas de areia
e que, se multiplicando,
multiplicara as arestas.
Naquela edição do vento
senti a voz mais direta:
igual que árvore amputada,
ganhara gumes de pedra.
Publicado no livro Duas águas: poemas reunidos (1956). Poema integrante da série Paisagens com Figuras.
In: MELO NETO, João Cabral de. Obra completa: volume único. Org. Marly de Oliveira. Rio de Janeiro: Nova Aguilar, 1994. p.155-156. (Biblioteca luso-brasileira. Série brasileira
onde mais dura é Castela,
sob as espécies de um vento
soprando armado de areia,
vim surpreender a presença,
mais do que pensei, severa,
de certo Miguel Hernández,
hortelão de Orihuela.
A voz desse tal Miguel,
entre palavras e terra
indecisa, como em Fraga
as casas o estão da terra,
foi um dia arquitetura,
foi voz métrica de pedra,
tal como, cristalizada,
surge Madrid a quem chega.
Mas a voz que percebi
no vento da parameira
era de terra sofrida
e batida, terra de eira.
Não era a voz expurgada
de suas obras seletas:
era uma edição do vento,
que não vai às bibliotecas,
era uma edição incômoda,
a que se fecha a janela,
incômoda porque o vento
não censura mas libera.
A voz que então percebi
no vento da parameira
era aquela voz final
de Miguel, rouca de guerra
(talvez ainda mais aguda
no sotaque da poeira;
talvez mais dilacerada
quando o vento a interpreta).
Vi então que a terra batida
do fim da vida do poeta,
terra que de tão sofrida
acabou virando pedra,
se havia multiplicado
naquelas facas de areia
e que, se multiplicando,
multiplicara as arestas.
Naquela edição do vento
senti a voz mais direta:
igual que árvore amputada,
ganhara gumes de pedra.
Publicado no livro Duas águas: poemas reunidos (1956). Poema integrante da série Paisagens com Figuras.
In: MELO NETO, João Cabral de. Obra completa: volume único. Org. Marly de Oliveira. Rio de Janeiro: Nova Aguilar, 1994. p.155-156. (Biblioteca luso-brasileira. Série brasileira
2 262
Carlos Frydman
Cascata
O chiado das águas
compõe cantigas
ancestralmente perenes.
Parece um segredar sem mágoas
num renascer insistente.
A correnteza reabilita-se
brincando em cada queda
e um frescor salpica,
inebria e recompõe,
o que perdemos
nas encruzilhadas.
Murmúrios espontâneos,
cantam alegrias em cada pedra
e despontamos em sonhos perdidos.
O tempo é retomado
num frescor,
inebriando securas.
Todo passado é presente,
no gorjeio das águas inspiradas,
reabilitando nossas vidas jogadas...
In: FRYDMAN, Carlos. Sintonia: poesia. Pref. Fábio Lucas. Apres. Henrique L. Alves. Campinas: Pontes, 1990
compõe cantigas
ancestralmente perenes.
Parece um segredar sem mágoas
num renascer insistente.
A correnteza reabilita-se
brincando em cada queda
e um frescor salpica,
inebria e recompõe,
o que perdemos
nas encruzilhadas.
Murmúrios espontâneos,
cantam alegrias em cada pedra
e despontamos em sonhos perdidos.
O tempo é retomado
num frescor,
inebriando securas.
Todo passado é presente,
no gorjeio das águas inspiradas,
reabilitando nossas vidas jogadas...
In: FRYDMAN, Carlos. Sintonia: poesia. Pref. Fábio Lucas. Apres. Henrique L. Alves. Campinas: Pontes, 1990
1 540
Domingos Carvalho da Silva
Soneto Ocasional
Nas fronteiras do sonho eu te esperava,
aurora de olhos rubros e mãos frias.
Para o meu canto volatilizado,
eras um tema azul de águas marítimas.
Tinha estrela nas mãos. E surpreendia
pelo ruivo cabelo algas de encanto.
Em viagens sempre breves percorria
o cais das nuvens junto a um mar de palmas.
E quando aos poucos se despetalou
no ocaso o sonho, e a noite se tornou
realidade solitária e nua.
surgiu sobre as estrelas hesitantes,
como um lírio ofuscando diamantes,
a rosa do teu sexo em meia lua.
Publicado no livro Praia oculta: poemas (1949).
In: SILVA, Domingos Carvalho da. Poemas escolhidos. Introd. Adolfo Casais Monteiro. São Paulo: Clube de Poesia, 195
aurora de olhos rubros e mãos frias.
Para o meu canto volatilizado,
eras um tema azul de águas marítimas.
Tinha estrela nas mãos. E surpreendia
pelo ruivo cabelo algas de encanto.
Em viagens sempre breves percorria
o cais das nuvens junto a um mar de palmas.
E quando aos poucos se despetalou
no ocaso o sonho, e a noite se tornou
realidade solitária e nua.
surgiu sobre as estrelas hesitantes,
como um lírio ofuscando diamantes,
a rosa do teu sexo em meia lua.
Publicado no livro Praia oculta: poemas (1949).
In: SILVA, Domingos Carvalho da. Poemas escolhidos. Introd. Adolfo Casais Monteiro. São Paulo: Clube de Poesia, 195
1 550
Sosigenes Costa
Uma Jóia da Renascença
João Toco, venha cá.
Venha cá, toco de pau.
João Toco, negro!
Faça favor, cavalheiro, venha cá.
Tenho uma coisa para você Toquinho.
Para você levar à sua senhora.
Olhe, eu estava aqui mesmo,
nesta casa dos marimbondos
esperando que você passasse com essa Fon-Fon na mão,
para você me levar um recado para a tua patroa,
para a tua senhora, para a tua iaiá,
para a feroz inimiga dos marimbondos,
para aquela morcega,
para aquela morde e assopra
que subiu na política
e está naquele assanhamento,
tocando foguete de assovio,
porque vai mamar na vaca leiteira
e se esquece que amanhã pode voltar a ficar de baixo
e com rabo entre as pernas.
Olhe, você diga à grande dama
que quando mandar você, toco de pau,
fazer o facho bem grande, bem grande, bem grande,
para queimar a casa dos marimbondos,
para queimar os marimbondos,
todos os marimbondos, todos os marimbondos,
os marimbondos que perderam e estão debaixo,
mas que conservam o brio e a vergonha,
mande queimar somente as fêmeas dos marimbondos
e fique com os machos para ela.
Vá, toco de pau, e me leve o recado
desta guelfa àquela gibelina.
Me leve este recado florentino.
Me leve este recado da Toscana.
Me leve esta jóia de Celini.
Porque de fato quem está aqui na grade
do portão desta casa de Belmonte,
em plena Renascença italiana,
mandando este recado à adversária,
já não é a mulher do ex-intendente,
mas a Incomparável de Veneza e de Verona,
a Magnífica de Ravena e da Toscana.
(1940)
Publicado no livro Obra Poética (1958).
In: COSTA, Sosígenes. Obra poética. 2.ed. rev. e aum. por José Paulo Paes. São Paulo: Cultrix; Brasília: INL, 197
Venha cá, toco de pau.
João Toco, negro!
Faça favor, cavalheiro, venha cá.
Tenho uma coisa para você Toquinho.
Para você levar à sua senhora.
Olhe, eu estava aqui mesmo,
nesta casa dos marimbondos
esperando que você passasse com essa Fon-Fon na mão,
para você me levar um recado para a tua patroa,
para a tua senhora, para a tua iaiá,
para a feroz inimiga dos marimbondos,
para aquela morcega,
para aquela morde e assopra
que subiu na política
e está naquele assanhamento,
tocando foguete de assovio,
porque vai mamar na vaca leiteira
e se esquece que amanhã pode voltar a ficar de baixo
e com rabo entre as pernas.
Olhe, você diga à grande dama
que quando mandar você, toco de pau,
fazer o facho bem grande, bem grande, bem grande,
para queimar a casa dos marimbondos,
para queimar os marimbondos,
todos os marimbondos, todos os marimbondos,
os marimbondos que perderam e estão debaixo,
mas que conservam o brio e a vergonha,
mande queimar somente as fêmeas dos marimbondos
e fique com os machos para ela.
Vá, toco de pau, e me leve o recado
desta guelfa àquela gibelina.
Me leve este recado florentino.
Me leve este recado da Toscana.
Me leve esta jóia de Celini.
Porque de fato quem está aqui na grade
do portão desta casa de Belmonte,
em plena Renascença italiana,
mandando este recado à adversária,
já não é a mulher do ex-intendente,
mas a Incomparável de Veneza e de Verona,
a Magnífica de Ravena e da Toscana.
(1940)
Publicado no livro Obra Poética (1958).
In: COSTA, Sosígenes. Obra poética. 2.ed. rev. e aum. por José Paulo Paes. São Paulo: Cultrix; Brasília: INL, 197
1 126
Marcus Accioly
Predamar
Na véspera do sol
Ou antevéspera,
Deslogo quando os ventos
Soltos despertam,
O canto, céu de nuvens,
Bando de araras,
Entreabre as suas plumas
E acende as barras.
Quando a luz de verão
Do solão rubro
Na árvore do mar
Abre o seu fruto,
O canto, vela aberta
No mar de fora,
Inventa outra manhã
Dentro da aurora.
Quando o ouriço do sol
Rosa-dos-ventos
Remoinha no mar
Seus cataventos,
O canto, asa de garça,
Espuma branca,
Debruça sobre a praia
Sua varanda.
Aprendido-aprendiz
O canto escuta
A máquina do mar
Formando as lutas
As sirenes dos búzios
Os altos ventos
A voz-sempre do mar
E outros silêncios.
O canto, agulha e linha
Tecendo a rede
Com seu fio mais lógico,
Malha de peixe,
Calculando os espaços
No metro igual
Preciso e matemático
De João Cabral.
O canto, lente aquática
Que sabe as cores
Do arco-íris do sol,
Das antiflores,
Do oceano da América
E outras lembranças
Que debruçam Drummond
No mar da infância.
O canto, anzol de pesca,
Manuel Bandeira,
Arpão-fisga-espinhel,
Fruta praieira,
Flor-de-coral, cal-virgem,
Peixes marinhos,
Covos do mar, gaiolas
Sem passarinhos.
O canto, ondas diversas,
Jorge de Lima,
Piso do céu, maralto
Chovido em cima,
Vento, boca-de-barra
Que chama os rios,
Mar que devora os portos
E os seus navios
(...)
Poema integrante da série Feira de Pássaros - Canto III.
In: ACCIOLY, Marcus. Nordestinados. 2.ed. Rio de Janeiro: Tempo Brasileiro; Brasília: INL, 1978. p.140-142. (Tempoesia, 18)
NOTA: Poema composto de 3 partes, indicadas pelo sinal de parágrafo (§), todas compostas de 4 oitavas. Referência ao poema "América", do livro A ROSA DO POVO (1945), de Carlos Drummond de Andrad
Ou antevéspera,
Deslogo quando os ventos
Soltos despertam,
O canto, céu de nuvens,
Bando de araras,
Entreabre as suas plumas
E acende as barras.
Quando a luz de verão
Do solão rubro
Na árvore do mar
Abre o seu fruto,
O canto, vela aberta
No mar de fora,
Inventa outra manhã
Dentro da aurora.
Quando o ouriço do sol
Rosa-dos-ventos
Remoinha no mar
Seus cataventos,
O canto, asa de garça,
Espuma branca,
Debruça sobre a praia
Sua varanda.
Aprendido-aprendiz
O canto escuta
A máquina do mar
Formando as lutas
As sirenes dos búzios
Os altos ventos
A voz-sempre do mar
E outros silêncios.
O canto, agulha e linha
Tecendo a rede
Com seu fio mais lógico,
Malha de peixe,
Calculando os espaços
No metro igual
Preciso e matemático
De João Cabral.
O canto, lente aquática
Que sabe as cores
Do arco-íris do sol,
Das antiflores,
Do oceano da América
E outras lembranças
Que debruçam Drummond
No mar da infância.
O canto, anzol de pesca,
Manuel Bandeira,
Arpão-fisga-espinhel,
Fruta praieira,
Flor-de-coral, cal-virgem,
Peixes marinhos,
Covos do mar, gaiolas
Sem passarinhos.
O canto, ondas diversas,
Jorge de Lima,
Piso do céu, maralto
Chovido em cima,
Vento, boca-de-barra
Que chama os rios,
Mar que devora os portos
E os seus navios
(...)
Poema integrante da série Feira de Pássaros - Canto III.
In: ACCIOLY, Marcus. Nordestinados. 2.ed. Rio de Janeiro: Tempo Brasileiro; Brasília: INL, 1978. p.140-142. (Tempoesia, 18)
NOTA: Poema composto de 3 partes, indicadas pelo sinal de parágrafo (§), todas compostas de 4 oitavas. Referência ao poema "América", do livro A ROSA DO POVO (1945), de Carlos Drummond de Andrad
1 544
Sosigenes Costa
Chuva de Ouro
As begônias estão chovendo ouro,
suspendidas dos galhos da oiticica.
O chão, de pólen, vai fincando louro
e o bosque inteiro redourado fica.
Dir-se-á que se dilui todo um tesouro.
Nunca a floresta amanheceu tão rica.
As begônias estão chovendo ouro,
penduradas dos galhos da oiticica.
Bando de abelhas através do pólen
zinindo num brilhante fervedouro,
as curvas asas transparentes bolem.
E, enquanto giram num bailado belo,
as begônias estão chovendo ouro.
Formosa apoteose do amarelo!
(1928)
Publicado no livro Obra Poética (1958).
In: COSTA, Sosígenes. Obra poética. 2.ed. rev. e aum. por José Paulo Paes. São Paulo: Cultrix; Brasília: INL, 197
suspendidas dos galhos da oiticica.
O chão, de pólen, vai fincando louro
e o bosque inteiro redourado fica.
Dir-se-á que se dilui todo um tesouro.
Nunca a floresta amanheceu tão rica.
As begônias estão chovendo ouro,
penduradas dos galhos da oiticica.
Bando de abelhas através do pólen
zinindo num brilhante fervedouro,
as curvas asas transparentes bolem.
E, enquanto giram num bailado belo,
as begônias estão chovendo ouro.
Formosa apoteose do amarelo!
(1928)
Publicado no livro Obra Poética (1958).
In: COSTA, Sosígenes. Obra poética. 2.ed. rev. e aum. por José Paulo Paes. São Paulo: Cultrix; Brasília: INL, 197
1 663
Carlos Frydman
Chuvisco Espanhol
Para Priscila Marie Netto Soares
Há chuviscos
em obliquidade precisa,
brincando, variando
na gravidade das tardes.
Há chuviscos
sem pressa,
indiferentes ao tempo
que nos levam
sem percebermos.
Sendo véus diáfanos, os chuviscos
clareiam anseios abandonados.
Sendo lantejoulas cristalinas,
projetam recordações nubladas.
Sendo tules de odaliscas
de natureza amainada,
casam com meu amor circunspecto
em meus ímpetos serenados.
Tomado pelo chuvisco
penso numa tarde flamenca
e vislumbro uma triste espanhola.
Seu olhar é envolvente e aguçado
e seu corpo esguio é enlaçado
num atávico chale rendado.
Ela ignora meu amor silente
mas me envolve num sonho realista
porque me conformo em sonhá-la
perdido num chuvisco,
afogado
em meus desejos contidos.
In: FRYDMAN, Carlos. Sintonia: poesia. Pref. Fábio Lucas. Apres. Henrique L. Alves. Campinas: Pontes, 1990
Há chuviscos
em obliquidade precisa,
brincando, variando
na gravidade das tardes.
Há chuviscos
sem pressa,
indiferentes ao tempo
que nos levam
sem percebermos.
Sendo véus diáfanos, os chuviscos
clareiam anseios abandonados.
Sendo lantejoulas cristalinas,
projetam recordações nubladas.
Sendo tules de odaliscas
de natureza amainada,
casam com meu amor circunspecto
em meus ímpetos serenados.
Tomado pelo chuvisco
penso numa tarde flamenca
e vislumbro uma triste espanhola.
Seu olhar é envolvente e aguçado
e seu corpo esguio é enlaçado
num atávico chale rendado.
Ela ignora meu amor silente
mas me envolve num sonho realista
porque me conformo em sonhá-la
perdido num chuvisco,
afogado
em meus desejos contidos.
In: FRYDMAN, Carlos. Sintonia: poesia. Pref. Fábio Lucas. Apres. Henrique L. Alves. Campinas: Pontes, 1990
924
Marcus Accioly
A Terra
O Sertão
A — O Sertão principia
Depois que acaba a terra,
Ou, sendo mais exato,
Onde começa a pedra.
E segue o Sertão-Alto:
Pejeú, Moxotó,
Onde termina o mundo
E então começa o sol.
Ou desce o Sertão-Baixo
Do rio São Francisco,
Que ostenta uma paisagem
De pássaros e bichos.
Embora o tempo durma
Os sonos da estiagem,
Nas curtas invernadas
O verde abre a folhagem.
E quando as águas descem
Das cabeceiras curvas,
A pedra ressuscita
Lavrada pelas chuvas.
Poema integrante da série A Pedra Lavrada - Canto I.
In: ACCIOLY, Marcus. Nordestinados. 2.ed. Rio de Janeiro: Tempo Brasileiro; Brasília: INL, 1978. p.23. (Tempoesia, 18)
NOTA: Poema composto de 6 partes: O Sertão, A Caatinga, O Agreste, A Mata-Seca, A Mata-Úmida e O Litoral, todas elas compostas de 5 quadra
A — O Sertão principia
Depois que acaba a terra,
Ou, sendo mais exato,
Onde começa a pedra.
E segue o Sertão-Alto:
Pejeú, Moxotó,
Onde termina o mundo
E então começa o sol.
Ou desce o Sertão-Baixo
Do rio São Francisco,
Que ostenta uma paisagem
De pássaros e bichos.
Embora o tempo durma
Os sonos da estiagem,
Nas curtas invernadas
O verde abre a folhagem.
E quando as águas descem
Das cabeceiras curvas,
A pedra ressuscita
Lavrada pelas chuvas.
Poema integrante da série A Pedra Lavrada - Canto I.
In: ACCIOLY, Marcus. Nordestinados. 2.ed. Rio de Janeiro: Tempo Brasileiro; Brasília: INL, 1978. p.23. (Tempoesia, 18)
NOTA: Poema composto de 6 partes: O Sertão, A Caatinga, O Agreste, A Mata-Seca, A Mata-Úmida e O Litoral, todas elas compostas de 5 quadra
3 058
Domingos Carvalho da Silva
Com a Poesia no Cais
De macacão operário
e chave inglesa na mão,
convocarei a poesia
para um passeio ao crepúsculo
A Esfinge me escutará
no seu palácio de nuvens.
E sentirá a minha voz
acelerar o compasso
do seu coração de sol.
E descerá pela escada
dos raios rubros do poente.
E o seu hálito, como a brisa,
agitará meus cabelos.
Eu a olharei face a face
em sua alvura de morte.
E beijarei, como um tísico,
sua boca de esperança.
Depois tomarei seu braço
e a levarei — fria sombra! —
ver as pupilas sem luz
dos que naufragam na dor.
De macacão operário
trespassarei os portais
de velhos bairros obscuros.
E mostrarei à poesia
cortiços e lupanares.
Eu quero ver a Arte-Pura
estender sua mão à fome!
Que chegue às suas narinas
o aroma das privações!
Que sinta e aspire o hálito
da negra boca da noite,
dormindo nas casas tristes
onde a miséria desmaia.
Ó! a suprema poesia
que mora na flor de lótus!
A ninfa geraldiana,
a pura, a perfumadíssima!
Deixai-a ver esses negros
que puxam café no cais!
Deixai-a ver os tropeiros,
aradores e ferroviários!
Deixai-a entrar numa usina,
andar num trem de subúrbio
e ver saltar do andaime
para a morte, um operário!
Então a poesia pura,
de pés banhados em sangue,
sentirá que a luz da aurora
lhe circunda a fronte loura.
A brisa lhe afaga os seios
num sopro de humanidade.
E ela abrirá seus braços
de olhos fixos em Gomorra,
com o seu corpo de sal
suspenso acima da terra
e esta parindo à distância
o dia novo que nasce.
Publicado no livro Rosa extinta: poemas (1945).
In: SILVA, Domingos Carvalho da. Múltipla escolha. Introd. Diana Bernardes. Rio de Janeiro: J. Olympio; Brasília: INL, 1980
e chave inglesa na mão,
convocarei a poesia
para um passeio ao crepúsculo
A Esfinge me escutará
no seu palácio de nuvens.
E sentirá a minha voz
acelerar o compasso
do seu coração de sol.
E descerá pela escada
dos raios rubros do poente.
E o seu hálito, como a brisa,
agitará meus cabelos.
Eu a olharei face a face
em sua alvura de morte.
E beijarei, como um tísico,
sua boca de esperança.
Depois tomarei seu braço
e a levarei — fria sombra! —
ver as pupilas sem luz
dos que naufragam na dor.
De macacão operário
trespassarei os portais
de velhos bairros obscuros.
E mostrarei à poesia
cortiços e lupanares.
Eu quero ver a Arte-Pura
estender sua mão à fome!
Que chegue às suas narinas
o aroma das privações!
Que sinta e aspire o hálito
da negra boca da noite,
dormindo nas casas tristes
onde a miséria desmaia.
Ó! a suprema poesia
que mora na flor de lótus!
A ninfa geraldiana,
a pura, a perfumadíssima!
Deixai-a ver esses negros
que puxam café no cais!
Deixai-a ver os tropeiros,
aradores e ferroviários!
Deixai-a entrar numa usina,
andar num trem de subúrbio
e ver saltar do andaime
para a morte, um operário!
Então a poesia pura,
de pés banhados em sangue,
sentirá que a luz da aurora
lhe circunda a fronte loura.
A brisa lhe afaga os seios
num sopro de humanidade.
E ela abrirá seus braços
de olhos fixos em Gomorra,
com o seu corpo de sal
suspenso acima da terra
e esta parindo à distância
o dia novo que nasce.
Publicado no livro Rosa extinta: poemas (1945).
In: SILVA, Domingos Carvalho da. Múltipla escolha. Introd. Diana Bernardes. Rio de Janeiro: J. Olympio; Brasília: INL, 1980
2 078
Fernando Paixão
84-a [Descobri a morte aos poucos
Descobri a morte aos poucos
imagens que ceifam como foices.
Repentinos amanheceres
torcidas árvores
e frutas podres.
Fui provando
seus sabores.
In: PAIXÃO, Fernando. Fogo dos rios. 2.ed. São Paulo: Brasiliense, 1991. p.5
imagens que ceifam como foices.
Repentinos amanheceres
torcidas árvores
e frutas podres.
Fui provando
seus sabores.
In: PAIXÃO, Fernando. Fogo dos rios. 2.ed. São Paulo: Brasiliense, 1991. p.5
1 388
Armando Freitas Filho
Calder
para Mário Pedrosa
Linha leve ao léu
se lança: dinâmica
aranha de arame
tátil na teia
desenvolve móbile
tateia mecânico
mobilento serial
irradia seu raio
medular, corre
a cor — reticente
filamento, infinito
filiforme pensamento
oscila, delineia
desenrola um perfil
na orla do ar
sublinha assobio, silvo
célere labirinto
falha, o filme
de sua febre frágil:
fio fino fim.
Publicado no livro Dual, 1963/1966 (1966).
In: CHAMIE, Mário. Instauração práxis I: manifestos, plataformas, textos e documentos críticos, 1959 a 1972. São Paulo: Quíron, 1974. v.1, p.188. (Logos. Série crítica e história literária, 3
Linha leve ao léu
se lança: dinâmica
aranha de arame
tátil na teia
desenvolve móbile
tateia mecânico
mobilento serial
irradia seu raio
medular, corre
a cor — reticente
filamento, infinito
filiforme pensamento
oscila, delineia
desenrola um perfil
na orla do ar
sublinha assobio, silvo
célere labirinto
falha, o filme
de sua febre frágil:
fio fino fim.
Publicado no livro Dual, 1963/1966 (1966).
In: CHAMIE, Mário. Instauração práxis I: manifestos, plataformas, textos e documentos críticos, 1959 a 1972. São Paulo: Quíron, 1974. v.1, p.188. (Logos. Série crítica e história literária, 3
1 170
Olga Savary
Hai-Kai
Se fosses um buda
eu seria a pedra
de tua fronte.
Belém, 12 de julho de 1953
In: SAVARY, Olga. Espelho provisório. Pref. Ferreira Gullar. Rio de Janeiro: J. Olympio, 1970
eu seria a pedra
de tua fronte.
Belém, 12 de julho de 1953
In: SAVARY, Olga. Espelho provisório. Pref. Ferreira Gullar. Rio de Janeiro: J. Olympio, 1970
1 836
Sosigenes Costa
V [Lagartixa taruíra
(...)
Lagartixa taruíra
caquende papai-vovô.
A mãe dágua da Ingauíra
lá na beira do barranco
pariu hoje uma menina
com cabelinho de branco
e zoinho de xexéu
Lete late lete lixe
encontrei com a lagartixa
onde tem a flor do céu.
A filhinha da mãe-dágua
vai ficar araçuaba.
É tão branca que parece
lagartixa descascada.
Lagartixa taruíra
caquende papai-vovô.
A filhinha da mãe-dágua
assim que nasceu no toco,
no toco do pau sentou.
A menina da mãe-dágua
come papa de banana
e também de fruta-pão
que sequei no tabuleiro
que ralei naquele ralo
que pisei no meu pilão.
(...)
A mãe-dágua da Ingauíra
fez sapato e babadô.
E a mãe-dágua lá do Pardo
que é princesa do Patipe
veio pelo Poaçu
partejar aquela flor
e aparou Iararana
cortou o imbigo, deu banho
e deu maná à menina
e enterrou ali na areia
os panos sujos de sangue
de sua prima sereia.
Lete late lete lixe
encontrei com a lagartixa
assentada na cadeira
com o rabo dependurado.
A filhinha da mãe-dágua
tem berloque na cintura
e se senta no barranco
com o rabo dependurado.
Ela é filha de uma iara
e se chama Iararana
pois não puxou à sereia
puxou todinha o pai
aquele cavalo branco.
Lete late lete lixe
encontrei com a lagartixa
assentada na cadeira
com o rabo dependurado.
Isto não é lagartixa
isto é arte do diabo.
Taruíra venha ver
sua irmã lá no barranco.
(...)
In: COSTA, Sosígenes. Iararana. Introd. apuração do texto e glossário José Paulo Paes. Apres. Jorge Amado. Il. Aldemir Martins. São Paulo: Cultrix, 1979
Lagartixa taruíra
caquende papai-vovô.
A mãe dágua da Ingauíra
lá na beira do barranco
pariu hoje uma menina
com cabelinho de branco
e zoinho de xexéu
Lete late lete lixe
encontrei com a lagartixa
onde tem a flor do céu.
A filhinha da mãe-dágua
vai ficar araçuaba.
É tão branca que parece
lagartixa descascada.
Lagartixa taruíra
caquende papai-vovô.
A filhinha da mãe-dágua
assim que nasceu no toco,
no toco do pau sentou.
A menina da mãe-dágua
come papa de banana
e também de fruta-pão
que sequei no tabuleiro
que ralei naquele ralo
que pisei no meu pilão.
(...)
A mãe-dágua da Ingauíra
fez sapato e babadô.
E a mãe-dágua lá do Pardo
que é princesa do Patipe
veio pelo Poaçu
partejar aquela flor
e aparou Iararana
cortou o imbigo, deu banho
e deu maná à menina
e enterrou ali na areia
os panos sujos de sangue
de sua prima sereia.
Lete late lete lixe
encontrei com a lagartixa
assentada na cadeira
com o rabo dependurado.
A filhinha da mãe-dágua
tem berloque na cintura
e se senta no barranco
com o rabo dependurado.
Ela é filha de uma iara
e se chama Iararana
pois não puxou à sereia
puxou todinha o pai
aquele cavalo branco.
Lete late lete lixe
encontrei com a lagartixa
assentada na cadeira
com o rabo dependurado.
Isto não é lagartixa
isto é arte do diabo.
Taruíra venha ver
sua irmã lá no barranco.
(...)
In: COSTA, Sosígenes. Iararana. Introd. apuração do texto e glossário José Paulo Paes. Apres. Jorge Amado. Il. Aldemir Martins. São Paulo: Cultrix, 1979
1 420
Sosigenes Costa
Brasília
A mãe do mato
é a mãe das flores
é a mãe das frutas do mato.
A mãe do mato
é a mãe do peixe especial e gostoso
feito em leite de coco.
Só o peixe do mar de Santa Cruz
é bom.
Ela é a mãe da farinha
que vem da roça na muqueca.
Ela é a mãe da farinha puba
da farinha tinga
e da farinha tapioca.
A mãe do mato
é a mãe dos passeios ao campo
da mangaba, da gramixama
e da mixacurumba.
Só mesmo o cágado da história
pode esquecer
esta delícia dos galhos do mato:
a onomatopéia da mixacurumba.
Mãe do mato
só toma banho nesta cuia do mato
cheia de água de um braço quente
e de um braço frio,
água quente que vem da praia
e a água fria
que vem por debaixo do mato.
A mãe da poesia da terra,
mãe das coisas puras
e naturais da vida,
essa mãe do mato
é a minha mãe.
(1957)
Publicado no livro Obra Poética (1958).
In: COSTA, Sosígenes. Obra poética. 2.ed. rev. e aum. por José Paulo Paes. São Paulo: Cultrix; Brasília: INL, 197
é a mãe das flores
é a mãe das frutas do mato.
A mãe do mato
é a mãe do peixe especial e gostoso
feito em leite de coco.
Só o peixe do mar de Santa Cruz
é bom.
Ela é a mãe da farinha
que vem da roça na muqueca.
Ela é a mãe da farinha puba
da farinha tinga
e da farinha tapioca.
A mãe do mato
é a mãe dos passeios ao campo
da mangaba, da gramixama
e da mixacurumba.
Só mesmo o cágado da história
pode esquecer
esta delícia dos galhos do mato:
a onomatopéia da mixacurumba.
Mãe do mato
só toma banho nesta cuia do mato
cheia de água de um braço quente
e de um braço frio,
água quente que vem da praia
e a água fria
que vem por debaixo do mato.
A mãe da poesia da terra,
mãe das coisas puras
e naturais da vida,
essa mãe do mato
é a minha mãe.
(1957)
Publicado no livro Obra Poética (1958).
In: COSTA, Sosígenes. Obra poética. 2.ed. rev. e aum. por José Paulo Paes. São Paulo: Cultrix; Brasília: INL, 197
1 225
Marcus Accioly
21 [Quase uma cobra com pés
Quase uma cobra com pés
ao lixar-se a lagartixa
largando o rabo do corpo
se tornava a Larga-Lixa.
In: ACCIOLY, Marcus. O jogo dos bichos. Il. Libório. São Paulo: Melhoramentos, 1990. p.15. (Série trava língua
ao lixar-se a lagartixa
largando o rabo do corpo
se tornava a Larga-Lixa.
In: ACCIOLY, Marcus. O jogo dos bichos. Il. Libório. São Paulo: Melhoramentos, 1990. p.15. (Série trava língua
1 210
Manoel de Barros
Exercícios Adjetivos
(...)
Rolinhas-casimiras
Rolas
pisam
a manhã
Lagartixas pastam
o sobrado
Um leque de peixe abana o rio
Meninos atrás de gralhas contraem piolhos de
cerrados
Um lagarto de pernas areientas
medra na beira de um livro
Adeus rolinhas-casimiras.
O poeta descerra um cardume de nuvens
A estrada se abre como um pertence
Vermelhas trevas
O veneno ingerido pela mosca deixa
a curta raiz de sua existência
exposta às vermelhas trevas
Silêncio rubro
Crista de silêncio rubro, o galo
com frisos gelados de adaga no bico
madruga a veredas batidas
Modos ávidos
Os modos ávidos de um caracol subir
a uma parede com nódoas de idade e chuvas:
é como viajar à nascente dos insetos
Visgo tátil
O visgo tátil do canto é como
a aranha que urde sua doce alfombra
nas orvalhadas vaginas das violetas
Os caramujos-flores
Os caramujos-flores são um ramo de caramujos
que só saem de noite para passear
De preferência procuram paredes sujas, onde se
pregam e se pastam
Não sabemos ao certo, aliás, se pastam eles
essas paredes
Ou se são por elas pastados
Provavelmente se compensem
Paredes e caramujos se entendem por devaneios
Difícil imaginar uma devoração mútua
Antes diria que usam de uma transubstanciação:
paredes emprestam seus musgos aos caramujos-flores
E os caramujos-flores às paredes sua gosma
Assim desabrocham como os bestegos
(...)
Publicado no livro Arranjos para Assobio (1982).
In: BARROS, Manoel de. Gramática expositiva do chão: poesia quase toda. Introd. Berta Waldman. Il. Poty. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 199
Rolinhas-casimiras
Rolas
pisam
a manhã
Lagartixas pastam
o sobrado
Um leque de peixe abana o rio
Meninos atrás de gralhas contraem piolhos de
cerrados
Um lagarto de pernas areientas
medra na beira de um livro
Adeus rolinhas-casimiras.
O poeta descerra um cardume de nuvens
A estrada se abre como um pertence
Vermelhas trevas
O veneno ingerido pela mosca deixa
a curta raiz de sua existência
exposta às vermelhas trevas
Silêncio rubro
Crista de silêncio rubro, o galo
com frisos gelados de adaga no bico
madruga a veredas batidas
Modos ávidos
Os modos ávidos de um caracol subir
a uma parede com nódoas de idade e chuvas:
é como viajar à nascente dos insetos
Visgo tátil
O visgo tátil do canto é como
a aranha que urde sua doce alfombra
nas orvalhadas vaginas das violetas
Os caramujos-flores
Os caramujos-flores são um ramo de caramujos
que só saem de noite para passear
De preferência procuram paredes sujas, onde se
pregam e se pastam
Não sabemos ao certo, aliás, se pastam eles
essas paredes
Ou se são por elas pastados
Provavelmente se compensem
Paredes e caramujos se entendem por devaneios
Difícil imaginar uma devoração mútua
Antes diria que usam de uma transubstanciação:
paredes emprestam seus musgos aos caramujos-flores
E os caramujos-flores às paredes sua gosma
Assim desabrocham como os bestegos
(...)
Publicado no livro Arranjos para Assobio (1982).
In: BARROS, Manoel de. Gramática expositiva do chão: poesia quase toda. Introd. Berta Waldman. Il. Poty. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 199
3 538
Eduardo Alves da Costa
Mais Forte que James Bond
Mais forte que James Bond
é o meu vizinho:
um cansaço, um fracasso
"que se lhe vê na cara",
nos óculos engordurados,
presos com esparadrapo.
E nas calças.
Ah, os fundilhos do meu vizinho,
que desastre! Que abundância de panos!
Um sino de brim
badalado por um rabo mirrado,
milhões de pancadas
para matar a meia-fome da família.
(...)
pelo olhar abatido,
as torturas que terá sofrido.
Pobre, pobre James!
De que lhe vale o caratê diário
de bancário?
E a maletinha-camuflagem
para sanduíches
com escaninho
e cápsulas de café mortífero?
Pra que discutir no serviço
a melhor maneira de dar sumiço
no coreano-lança-cartolas-corta-bolas,
se tem a própria vida metida na cartola?
Afinal, o que sente o meu vizinho
diante de tanta beleza e abundância?
Minha esperança é que um dia este meu James
comece a espionar em causa própria;
pois nem sempre se vive duas vezes
para encontrar o sentido da mensagem:
ser espião sem saber o que se espia
é trabalhar para a contra-espionagem.
In: COSTA, Eduardo Alves da. No caminho, com Maiakóvski. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1985. (Poesia brasileira). Poema integrante da série O Tocador de Atabaqu
é o meu vizinho:
um cansaço, um fracasso
"que se lhe vê na cara",
nos óculos engordurados,
presos com esparadrapo.
E nas calças.
Ah, os fundilhos do meu vizinho,
que desastre! Que abundância de panos!
Um sino de brim
badalado por um rabo mirrado,
milhões de pancadas
para matar a meia-fome da família.
(...)
pelo olhar abatido,
as torturas que terá sofrido.
Pobre, pobre James!
De que lhe vale o caratê diário
de bancário?
E a maletinha-camuflagem
para sanduíches
com escaninho
e cápsulas de café mortífero?
Pra que discutir no serviço
a melhor maneira de dar sumiço
no coreano-lança-cartolas-corta-bolas,
se tem a própria vida metida na cartola?
Afinal, o que sente o meu vizinho
diante de tanta beleza e abundância?
Minha esperança é que um dia este meu James
comece a espionar em causa própria;
pois nem sempre se vive duas vezes
para encontrar o sentido da mensagem:
ser espião sem saber o que se espia
é trabalhar para a contra-espionagem.
In: COSTA, Eduardo Alves da. No caminho, com Maiakóvski. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1985. (Poesia brasileira). Poema integrante da série O Tocador de Atabaqu
1 149
Marcus Accioly
Os Bichos
O Jumento
I — Pestanas de nuvens no olhão do sol vivo
Um céu de dragões entre espadas vermelhas
As folhas de abano das grandes orelhas
Os cascos rachados no solo exaustivo
A seca o nordeste o oceano arbustivo
O poço das águas que a sede descobre
Os ossos debaixo dos pêlos de cobre
A sempre-odisséia do audaz-andarilho
O pasto de areia e sabugo de milho
E o zurro-relógio do horário de pobre.
Poema integrante da série A Pedra Lavrada - Canto I.
In: ACCIOLY, Marcus. Nordestinados. 2.ed. Rio de Janeiro: Tempo Brasileiro; Brasília: INL, 1978. p.65. (Tempoesia, 18)
NOTA: Poema composto de 8 décimas, cada uma dedicada a um animal: A Onça, O Boi, O Cavalo, O Jumento, O Carneiro, A Cabra, A Cobra e O Cachorr
I — Pestanas de nuvens no olhão do sol vivo
Um céu de dragões entre espadas vermelhas
As folhas de abano das grandes orelhas
Os cascos rachados no solo exaustivo
A seca o nordeste o oceano arbustivo
O poço das águas que a sede descobre
Os ossos debaixo dos pêlos de cobre
A sempre-odisséia do audaz-andarilho
O pasto de areia e sabugo de milho
E o zurro-relógio do horário de pobre.
Poema integrante da série A Pedra Lavrada - Canto I.
In: ACCIOLY, Marcus. Nordestinados. 2.ed. Rio de Janeiro: Tempo Brasileiro; Brasília: INL, 1978. p.65. (Tempoesia, 18)
NOTA: Poema composto de 8 décimas, cada uma dedicada a um animal: A Onça, O Boi, O Cavalo, O Jumento, O Carneiro, A Cabra, A Cobra e O Cachorr
1 759
Sosigenes Costa
Iemanjá
(...)
— Ê vai ê vai
a rainha do mar
rompendo mar e vento.
Orungã, não faça isto
que o mundo vai se acabar.
Não te dói a consciência?
Não desonre esta sereia,
não manche a estrela do mar.
Ê vai ê vai
rompendo mar e vento
rainha da Guiné.
Onde mora Santa Barb'a
que quero me esconder.
Vai haver um castigo,
o mundo vai se arrasar.
Já estive numa casa
e era a casa de Bará.
Onde mora Santa Barb'a?
Minha gente, me responda:
Onde mora Santa Barb'a?
— Mora den'da lua
mora den'dum rochedo.
— Ai quem me dera que eu pudesse
me esconder dentro da lua.
E Iemanjá de tão cansada
já não podia correr mais.
Ia cai não cai caindo.
— Ô Iná marabô,
faça surgir um mar de Espanha,
Inaê ou Inaô,
um espinheiro e uma neblina,
ô Iná arauê
uma chuva de navalha
pra Orungã não te pear.
E Iemanjá já não podia
correr mais e desmaiou.
E caiu no chão de costas.
Porém antes que Orungã
alcançasse Iemanjá
e tocasse nos seu seios,
o seu corpo foi crescendo,
foi crescendo e agigantou-se
e os dois seios de Inaê
se tornaram do tamanho
de dois montes sem igual
e o céu estremeceu
e a terra se abalou
e o ceú veio arriando
e queria desabar.
Quando os bicos dos seus peitos
se afundaram pelas nuvens,
sustentando o firmamento
que queria desabar,
o anjo tocou a trombeta
e os dois seios da sereia
começaram a jorrar água
com estrondo e num dilúvio
e dois rios se formaram
da água de cada um,
e a água lavou o mundo.
E o espírito de Deus vagou naquelas águas
e foi então o princípio
e a pomba do Divino bebeu das águas bentas.
E eu botei o joelho em terra
para pedir pelos filhos de Deus.
Ai a água lava tudo,
lava o que nos mancha as almas,
lava o que nos envergonha.
Quem apaga o fogo?
É a água.
Dos teus seios, Janaína
se formaram estes dois rios
que a Bahia estão lavando
para tirar o que nos mancha
e também nos envergonha.
Ora, um é o S. Francisco
e o outro é o Jequitinhonha.
Quem apaga o fogo?
É a água.
(...)
Imagem - 00830001
Poema integrante da série Obra Poética II.
In: COSTA, Sosígenes. Obra poética. 2.ed. rev. e aum. por José Paulo Paes. São Paulo: Cultrix; Brasília: INL, 197
— Ê vai ê vai
a rainha do mar
rompendo mar e vento.
Orungã, não faça isto
que o mundo vai se acabar.
Não te dói a consciência?
Não desonre esta sereia,
não manche a estrela do mar.
Ê vai ê vai
rompendo mar e vento
rainha da Guiné.
Onde mora Santa Barb'a
que quero me esconder.
Vai haver um castigo,
o mundo vai se arrasar.
Já estive numa casa
e era a casa de Bará.
Onde mora Santa Barb'a?
Minha gente, me responda:
Onde mora Santa Barb'a?
— Mora den'da lua
mora den'dum rochedo.
— Ai quem me dera que eu pudesse
me esconder dentro da lua.
E Iemanjá de tão cansada
já não podia correr mais.
Ia cai não cai caindo.
— Ô Iná marabô,
faça surgir um mar de Espanha,
Inaê ou Inaô,
um espinheiro e uma neblina,
ô Iná arauê
uma chuva de navalha
pra Orungã não te pear.
E Iemanjá já não podia
correr mais e desmaiou.
E caiu no chão de costas.
Porém antes que Orungã
alcançasse Iemanjá
e tocasse nos seu seios,
o seu corpo foi crescendo,
foi crescendo e agigantou-se
e os dois seios de Inaê
se tornaram do tamanho
de dois montes sem igual
e o céu estremeceu
e a terra se abalou
e o ceú veio arriando
e queria desabar.
Quando os bicos dos seus peitos
se afundaram pelas nuvens,
sustentando o firmamento
que queria desabar,
o anjo tocou a trombeta
e os dois seios da sereia
começaram a jorrar água
com estrondo e num dilúvio
e dois rios se formaram
da água de cada um,
e a água lavou o mundo.
E o espírito de Deus vagou naquelas águas
e foi então o princípio
e a pomba do Divino bebeu das águas bentas.
E eu botei o joelho em terra
para pedir pelos filhos de Deus.
Ai a água lava tudo,
lava o que nos mancha as almas,
lava o que nos envergonha.
Quem apaga o fogo?
É a água.
Dos teus seios, Janaína
se formaram estes dois rios
que a Bahia estão lavando
para tirar o que nos mancha
e também nos envergonha.
Ora, um é o S. Francisco
e o outro é o Jequitinhonha.
Quem apaga o fogo?
É a água.
(...)
Imagem - 00830001
Poema integrante da série Obra Poética II.
In: COSTA, Sosígenes. Obra poética. 2.ed. rev. e aum. por José Paulo Paes. São Paulo: Cultrix; Brasília: INL, 197
2 227
Carlos Frydman
Primeiro Canto ao Mar
Mar,
exortação serena,
corpo sensual, dadivoso,
ondulando desejos
em busca dos segredos.
Na carícia sedutora e amena,
no arfar incontido que aconchega,
seio de mulher inebriante,
ninando vidas extasiadas;
presença etérea, uterina,
benevolente ventre que recria.
Tristes saudosos das águas,
atracados em nossas securas intermitentes,
somos navegadores estranhos, distanciados,
em nossos portos desolados.
Fugitivos da existência inexistente,
introjetamo-nos no regresso desaprendido,
em busca das brisas em nós esvaída,
nas águas que secamos.
E, ante o mar amado,
somos amantes esmaecidos,
no amor que não alimentamos.
Agora,
buscamos a amada
que na lembrança ainda se banha,
de nossos desejos afastada,
o mar benevolente
faz carícias vagas
de amor tênue
onde vagamos.
In: FRYDMAN, Carlos. Sintonia: poesia. Pref. Fábio Lucas. Apres. Henrique L. Alves. Campinas: Pontes, 1990
exortação serena,
corpo sensual, dadivoso,
ondulando desejos
em busca dos segredos.
Na carícia sedutora e amena,
no arfar incontido que aconchega,
seio de mulher inebriante,
ninando vidas extasiadas;
presença etérea, uterina,
benevolente ventre que recria.
Tristes saudosos das águas,
atracados em nossas securas intermitentes,
somos navegadores estranhos, distanciados,
em nossos portos desolados.
Fugitivos da existência inexistente,
introjetamo-nos no regresso desaprendido,
em busca das brisas em nós esvaída,
nas águas que secamos.
E, ante o mar amado,
somos amantes esmaecidos,
no amor que não alimentamos.
Agora,
buscamos a amada
que na lembrança ainda se banha,
de nossos desejos afastada,
o mar benevolente
faz carícias vagas
de amor tênue
onde vagamos.
In: FRYDMAN, Carlos. Sintonia: poesia. Pref. Fábio Lucas. Apres. Henrique L. Alves. Campinas: Pontes, 1990
709
Sosigenes Costa
A Chuva Vem Cair na Ingauíra
Cada pingo d'água
é um cabelo da chuva.
Cada gole de água do arco-íris
é um aguaceiro.
Essa lagoa é o copo
por onde bebe um gigante.
Para a boca do arco-íris
só uma taça redonda.
Para a sede de um gigante
só a água de um pote rodeado de flores.
É na Lagoa dos Cocos
que o arco-íris bebe água.
Fui ver um dia
esse copo de flores.
Estômagos cheios
da água de um coco,
as nuvens vêm vindo.
Barriga pesada
com a água de um coco,
as nuvens vêm vindo.
Lagoa dos cocos,
Bandeja redonda cheia de copos de água.
Hi! vem chuva como cabelo de sapo.
Cada pingo d'água
é um cabelo da chuva.
Cada gole de água do arco-íris
é um aguaceiro.
E cada gota de orvalho
é um diamante pingo d'água.
Hi! vem chuva como cabelo de sapo.
Aqueles pássaros enormes,
que não podem voar direito,
de tanta água na barriga,
vão cair nesta volta do rio.
Adília, minha irmã, prepare-se:
Sobre a nossa casa vão cair do céu
sete copos de água.
Teu banho de hoje, Sinhá,
será dentro de um copo d'água.
(1940)
Publicado no livro Obra Poética (1958).
In: COSTA, Sosígenes. Obra poética. 2.ed. rev. e aum. por José Paulo Paes. São Paulo: Cultrix; Brasília: INL, 197
é um cabelo da chuva.
Cada gole de água do arco-íris
é um aguaceiro.
Essa lagoa é o copo
por onde bebe um gigante.
Para a boca do arco-íris
só uma taça redonda.
Para a sede de um gigante
só a água de um pote rodeado de flores.
É na Lagoa dos Cocos
que o arco-íris bebe água.
Fui ver um dia
esse copo de flores.
Estômagos cheios
da água de um coco,
as nuvens vêm vindo.
Barriga pesada
com a água de um coco,
as nuvens vêm vindo.
Lagoa dos cocos,
Bandeja redonda cheia de copos de água.
Hi! vem chuva como cabelo de sapo.
Cada pingo d'água
é um cabelo da chuva.
Cada gole de água do arco-íris
é um aguaceiro.
E cada gota de orvalho
é um diamante pingo d'água.
Hi! vem chuva como cabelo de sapo.
Aqueles pássaros enormes,
que não podem voar direito,
de tanta água na barriga,
vão cair nesta volta do rio.
Adília, minha irmã, prepare-se:
Sobre a nossa casa vão cair do céu
sete copos de água.
Teu banho de hoje, Sinhá,
será dentro de um copo d'água.
(1940)
Publicado no livro Obra Poética (1958).
In: COSTA, Sosígenes. Obra poética. 2.ed. rev. e aum. por José Paulo Paes. São Paulo: Cultrix; Brasília: INL, 197
1 198
João Cabral de Melo Neto
Cemitério Pernambucano (Nossa Senhora da Luz)
Nesta terra ninguém jaz,
pois também não jaz um rio
noutro rio, nem o mar
é cemitério de rios.
Nenhum dos mortos daqui
vem vestido de caixão.
Portanto, eles não se enterram,
são derramados no chão.
Vêm em redes de varandas
abertas ao sol e à chuva.
Trazem suas próprias moscas.
O chão lhes vai como luva.
Mortos ao ar-livre, que eram,
hoje à terra-livre estão.
São tão da terra que a terra
nem sente sua intrusão.
Publicado no livro Duas águas: poemas reunidos (1956). Poema integrante da série Paisagens com Figuras.
In: MELO NETO, João Cabral de. Obra completa: volume único. Org. Marly de Oliveira. Rio de Janeiro: Nova Aguilar, 1994. p.159. (Biblioteca luso-brasileira. Série brasileira
pois também não jaz um rio
noutro rio, nem o mar
é cemitério de rios.
Nenhum dos mortos daqui
vem vestido de caixão.
Portanto, eles não se enterram,
são derramados no chão.
Vêm em redes de varandas
abertas ao sol e à chuva.
Trazem suas próprias moscas.
O chão lhes vai como luva.
Mortos ao ar-livre, que eram,
hoje à terra-livre estão.
São tão da terra que a terra
nem sente sua intrusão.
Publicado no livro Duas águas: poemas reunidos (1956). Poema integrante da série Paisagens com Figuras.
In: MELO NETO, João Cabral de. Obra completa: volume único. Org. Marly de Oliveira. Rio de Janeiro: Nova Aguilar, 1994. p.159. (Biblioteca luso-brasileira. Série brasileira
8 837
João Cabral de Melo Neto
O Sim Contra o Sim (Serial)
(...)
Miró sentia a mão direita
demasiado sábia
e que de saber tanto
já não podia inventar nada.
Quis então que desaprendesse
o muito que aprendera,
a fim de reencontrar
a linha ainda fresca da esquerda.
Pois que ela não pôde, ele pôs-se
a desenhar com esta
até que, se operando,
no braço direito ele a enxerta.
A esquerda (se não se é canhoto)
é mão sem habilidade:
reaprende a cada linha,
cada instante, a recomeçar-se.
(...)
A Felix de Athayde
Cesário Verde usava a tinta
de forma singular:
não para colorir,
apesar da cor que nele há.
Talvez que nem usasse tinta,
somente água clara,
aquela água de vidro
que se vê percorrer a Arcádia.
Certo, não escrevia com ela,
ou escrevia lavando:
relavava, enxaguava
seu mundo em sábado de banho.
Assim chegou aos tons opostos
das maçãs que contou:
rubras dentro da cesta
de quem no rosto as tem sem cor.
Augusto dos Anjos não tinha
dessa tinta água clara.
Se água, do Paraíba
nordestino, que ignora a Fábula.
Tais águas não são lavadeiras,
deixam tudo encardido:
o vermelho das chitas
ou o reluzente dos estilos.
E quando usadas como tinta
escrevem negro tudo:
dão um mundo velado
por véus de lama, véus de luto.
Donde decerto o timbre fúnebre,
dureza da pisada,
geometria de enterro
de sua poesia enfileirada.
(...)
In: Obra completa: volume único. Org. Marly de Oliveira. Rio de Janeiro: Nova Aguilar, 1994. p.297-300. (Biblioteca luso-brasileira. Série brasileira)
MOVIMENTOS LITERÁRIOS
1945/1962 - Modernismo (Terceira Geração)
TRAÇOS FORMAIS:
Quadra
Verso Branc
Miró sentia a mão direita
demasiado sábia
e que de saber tanto
já não podia inventar nada.
Quis então que desaprendesse
o muito que aprendera,
a fim de reencontrar
a linha ainda fresca da esquerda.
Pois que ela não pôde, ele pôs-se
a desenhar com esta
até que, se operando,
no braço direito ele a enxerta.
A esquerda (se não se é canhoto)
é mão sem habilidade:
reaprende a cada linha,
cada instante, a recomeçar-se.
(...)
A Felix de Athayde
Cesário Verde usava a tinta
de forma singular:
não para colorir,
apesar da cor que nele há.
Talvez que nem usasse tinta,
somente água clara,
aquela água de vidro
que se vê percorrer a Arcádia.
Certo, não escrevia com ela,
ou escrevia lavando:
relavava, enxaguava
seu mundo em sábado de banho.
Assim chegou aos tons opostos
das maçãs que contou:
rubras dentro da cesta
de quem no rosto as tem sem cor.
Augusto dos Anjos não tinha
dessa tinta água clara.
Se água, do Paraíba
nordestino, que ignora a Fábula.
Tais águas não são lavadeiras,
deixam tudo encardido:
o vermelho das chitas
ou o reluzente dos estilos.
E quando usadas como tinta
escrevem negro tudo:
dão um mundo velado
por véus de lama, véus de luto.
Donde decerto o timbre fúnebre,
dureza da pisada,
geometria de enterro
de sua poesia enfileirada.
(...)
In: Obra completa: volume único. Org. Marly de Oliveira. Rio de Janeiro: Nova Aguilar, 1994. p.297-300. (Biblioteca luso-brasileira. Série brasileira)
MOVIMENTOS LITERÁRIOS
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TRAÇOS FORMAIS:
Quadra
Verso Branc
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