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Poemas neste tema

Luís Filipe Castro Mendes

Luís Filipe Castro Mendes

Os Ghats

Antes da pira
limpam os pés do corpo no rio sagrado,
antes mesmo de chegarem os padres, os familiares, os amigos.
Só vemos aqui o povo e os intocáveis (diz-se dalits, my friend)
encarregados de manejar a morte.
Vi num documentário um desses : «Ninguém mais pode tocar nos mortos»
dizia com orgulho o sem-casta. «Mesmo que seja o Primeiro Ministro.
Só nós podemos preparar os mortos para o seu final.»
Eles não têm medo de olhar os mortos.
Apenas têm quem cuide deles,
quem prepare a lenha, a amontoe,
quem embrulhe o corpo nos panos,
o limpe nas águas sagradas
e ofereça ao filho mais velho a tocha para acender a pira.
1 199
Juan Gelman

Juan Gelman

Mulheres

dizer que essa mulher era duas mulheres é dizer pouquinho
devia haver umas 12397 mulheres em sua mulher
era difícil alguém saber com quem se tratava
nesse povo de mulheres
por exemplo:
estávamos deitados em um leito de amor
ela era uma alvorada de algas fosforescentes
quando a fui abraçar
se converteu em singapura repleta de cães que uivavam
recordo
quando apareceu envolta em rosas de agadir
parecia uma constelação na terra
parecia que o cruzeiro do sul havía baixado à terra
essa mulher brilhava como a lua de sua voz clara
como o sol que se punha em sua voz
nas rosas estavam escritas todos os nomes dessa mulher menos um
e quando se virou
sua nuca era o plano econômico
tinha milhares de cifras e a balança de mortes favoráveis à ditadura militar
ninguém nunca sabia aonde ia parar essa mulher
eu estava ligeiramente desconcertado
uma noite a toquei no ombro para ver quem era
e vi em seus olhos desertos um camelo
às vezes
essa mulher era a banda municipal de meu povo
tocava doces valsas até que o trombone começava a desafinar
e os demais desafinavam com ele
essa mulher tinha a memória desafinada
você podia amá-la até o delírio
fazer crescer dias de sexo trêmulo
fazer voar como passarinho de savana
no dia seguinte se despertava falando de malevich
a memória lhe andava como um relógio com raiva
às três da tarde acordava da carga
que lhe pisoteou a infância numa noite do ser
era muitas coisas essa mulher e
era uma banda municipal
a devoraram todos os fantasmas que pude alimentar
com suas milhares de mulheres
e era uma banda municipal desafinada
indo-se pelas sombras da pracinha de meu povo
eu
companheiros
uma noite como esta
que nos embebem os rostos e em que provavelmente morremos
montei no camelinho que esperava em seus olhos
e me fui das costas tíbias dessa mulher
calado como um menino debaixo dos gordos abutres
que me comem inteiro
menos o pensamento
de quando ela se unia como um ramo
de doçura e o lançava pela tarde
2 113
António Tomé

António Tomé

Nunca é tarde

Quando no cais só fica ancorada
A indiferença e já não resta nada
Senão as ilusões a que te agarras.

Ouve a voz inefável das guitarras
Tingindo de paixão a madrugada
No fim duma viagem povoada
Do canto indecifrável das cigarras.

Saberás então que há sempre um começo
No profano rio em que a vida arde,
E é nessa maré viva que estremeço.

Mas, ainda que saibas que nunca é tarde,
Não tardes, que sem ti eu anoiteço,
E não peças jamais ao rio que aguarde.
1 161
Ruy Belo

Ruy Belo

Espaço para a canção

As noites desmedidas de novembro
abertas sobre a queixa rígida das árvores
inauguram o outono sobre a terra
Adeus ó meu verão impiedoso
ó limpidez da água sobre as pedras
ó inúmeros galos da manhã
ó tempestade agreste de alegria
É o país da música é a fome da noite
impossível estar só razoável rapaz
meu príncipe da própria juventude
Nos cabelos de vento do mar morto do destino
fundo antigo de água conchas e areias
no centro solitário deste solo
ante a solenidade sensual do sono
eu olho os paralelipípedos do nada
não me detenho nos umbrais das trevas
caminho numa mesma direcção
Onde o cheiro da esteva sobre a vila
o trigo para o campo do olhar
as estrelas abertas pelo céu?
Ponho os pés sobre as folhas no asfalto
espero por dezembro mês para morrer
evoco a luz discreta das doenças de outrora
Aqui os cisnes são da cor da cinza
e o vento devasta o país dos pauis
quando perto do chão a última cigarra
anuncia a definitiva solidão
Que é momentos puros de outra vida
da luminosa luz como ferro em fusão
do silêncio como a nossa melhor obra?
Eu te saúdo outono punitivo
sinal desse silêncio que me não permite
desistir de cantar enquanto vivo
Que o vento a névoa a folha e sobretudo o chão
caibam dentro do espaço da minha canção
4 404
António Lobo de Carvalho

António Lobo de Carvalho

Soneto CXXXIX

A um sargento-mor de Alcácer, por nome Pedro de tal,
que mandava o seu retrato à sua noiva

Soneto CXXXIX

Um olho cor de esponja, outro albacento,
cinco dentes fronteiros putrefactos,
casaca, veste, e todos os mais fatos
tudo roupa de preso, assaz nojento:

A peruca, de pêlo de jumento;
a bolsa, ninho de um casal de ratos,
as tombas sempre avulsas nos sapatos,
besuntadas as meias de ungento:

Este o Pedro primeiro galicado,
que tem sido da história para adorno
do exército de putas atacado:

Com que, Filis, falemos sem suborno:
veja você, depois de estar casado,
se um traste destes deixa de ser corno?

(Poesias Joviais e Satíricas)
1 337
Ruy Belo

Ruy Belo

Teoria da Presença de Deus

Somos seres olhados
Quando os nossos braços ensaiarem um gesto
fora do dia-a-dia ou não seguirem
a marca deixada pelas rodas dos carros
ao longo da vereda marginada de choupos
na manhã inocente ou na complexa tarde
repetiremos para nós próprios
que somos seres olhados

E haverá nos gestos que nos representam
a unidade de uma nota de violoncelo
E onde quer que estejamos será sempre um terraço
a meia altura
com os ao longe por muito tempo estudados
perfis do monte mário ou de qualquer outro monte
o melhor sítio para saber qualquer coisa da vida
4 294
Bruna Lombardi

Bruna Lombardi

COR DE MARAVILHA

Confesso que mal o conheço mas meu desejo é igual
cacho amarelo de acácia imperial
tenho braços fortes e pernas grossas
exibo o que posso, o que não dê
demais intimidade
mas às vezes perco a cabeça, faço coisas
de que me espanto mais tarde
- é tão fraca minha força de vontade-
Ontem à noite por causa de umas estrelas
e de umas coisas duvidosas
entrei no quarto dele, tirei o vestido
e me abri como uma rosa
ele olhava maravilhado
essa mulher tão generosa.
2 893
Mário Dionísio

Mário Dionísio

Bom dia marinheiro

Bom dia marinheiro
há milénios sentado
nesse navio pirata

Traço-te o vulto a roxo
um claro azul nos olhos de água
ponho e a toda a volta um frémito vermelho

O teu cachimbo é agora uma sereia de prata
toda roída dum lado
por um cancro de estrelas que é só mágoa
e sobressalto frouxo
de cascos podres balouçando balouçante
ao som da lenda sem sabor dum cavaleiro
andante ridículo e ausente
no céu de chumbo onde passa lentamente um bombardeiro
com a morte no bojo

Águas fundas de amor e desencontro do que tanto se crê que não se crê
nestes fundos de lodo feitos sarça
não ardente mas fria de desespero e nojo
mesquinhamente tudo se disfarça
e desvirtua e se destrói e dói e ameaça

Que horror dizer bom dia ou até já
dizer adeus
ao que mais ninguém vê
1 955
Mário Dionísio

Mário Dionísio

Casa deserta

Ah nada pior que a casa deserta,
sozinha, sozinha.

O fogão apagado e tudo sem interesse.
O mundo lá longe, para lá da floresta.
E o vento soprando
a chuva caindo
a casa deserta...

Ah nada pior que estes dias e dias,
de cachimbo aceso, com as mãos inertes,
com todas as estradas inteiramente barradas,
ouvindo a floresta.
Com tudo lá longe, na casa deserta,
o vento soprando
e a chuva caindo, na noite caindo...

Há uma cancela que range nos gonzos
um velho cão de guarda que ladra sem motivo-
parece que é gente que vem a entrar...

E é só vento soprando, soprando
e a chuva caindo...

Mudaram muita vez as folhas da floresta.
Os olhos do homem são olhos de doido.
Fogão apagado, aceso o cachimbo, o mundo lá longe.

E o vento soprando
a chuva caindo
a casa deserta...
2 153
António José Forte

António José Forte

Dente por Dente

....
Outros antes de nós tentaram o mesmo esforço: dente por dente: não, nunca olhar de soslaio e manter a cabeça escarlate, o vómito nos pulsos por cada noite roubada; nem um minuto para a glória da pele. Despertar de lado: olho por olho: conservar a família em respeito, a esperança à distância de todas as fomes, o corno de cada dia nos intestinos. Aos dezoito anos, aos vinte e oito, a vida posta à prova da raiva e do amor, os olhos postos à prova do nojo. Entrar de costas no festivaI das letras, abrir passagem a golpes de fígado para a
saída do escarro. Se não temos saúde bastante sejamos pelo menos doentes exemplares.
...
Fora do meu reino toda a pobreza, toda a ascese que gane aos artelhos dos que rangem os dentes; no meu reino apenas palavras provisórias, ódio breve e escarlate. Nem um gesto de paciência: o sonho ao nível de todos os perigos. Pelo meu relógio são horas de matar, de chamar o amor para a mesa dos sanguinários.
...
Dente por dente: a boca no coração do sangue: escolher a tempo a nossa morte e amá-la.


António José Forte, Uma Faca nos Dentes
2 370
Ruy Belo

Ruy Belo

Os balcões sucessivos sobre o rio

Os balcões sucessivos sobre o rio
as tesouras de poda nas roseiras
a sonolência lânguida e perversa
esse todo coerente e sobre ele apenas
a abóbada da minha perfeição
é esse o meu convite à desistência
a pena menos pública do mundo nos
lagos das finas flores dos sabugueiros
onde a mulher soltava os cabelos
pra que neles se prendesse o cheiro a erva
Ela tinha um aspecto inesperado
vinha com o vestido cor magenta nos
braços que lhe cresceram sobre a terra
movia-se ao andar como uma barca
Importa-me é o curso do dia e da noite
Vou andar um bocado nos caminhos
é pela hora em que não há ninguém
nudez desprevenida dos meus dias
mas só de noite desço até ao mar após
as sete horas da tarde hora crepuscular
os cheiros confortáveis e antigos
imagens dum lirismo fraudulento
um conforto algum tanto apreensivo
coisas que desde a infância a construíam
Mudo de opinião continuamente
espero o teu regresso pela tarde
e cuidadosamente velo a minha cólera
A vida é para mim pesar de pálpebras
leitura de discursos no outono
na casa abandonada e submetida à chuva
Regresso afinal aos próprios hábitos
sorrisos de mulheres sobre a areia
sou fiel à tristeza e pouco mais
e meto então um lenço num dos bolsos
que cheira ao perfume dos pinheiros
Ave de alarme sou deixem-me só
sou um contemporâneo assisto a tudo
os sinos vesperais nos dias de verão
o cão que passa numa encruzilhada
um cântaro que racha inexplicavelmente
confundido no hálito do mar
a minha saudação aos infantes do medo
crianças que iniciam o andar
Espero por alguém espero pelo sol
pla doçura estival da laranjeira
ando pelos caminhos muito tempo
e passo pelas portas devassadas pelos ventos
em cujos gonzos sopram agonias
E espero de novo a floração da primavera
Não quero nada quero estar presente sobre
as dunas do começo dos pinhais
nesse mundo de medos e animais
onde abri os meus olhos para a luz de agora
E perco todo eu em contriçães
ó terra branca e carnal e triste
as minhas madrugadas do sargaço
abertas nos bocejos da neblina
quando o tempo é suave e chega em dunas
à sensibilidade das narinas
nas horas generosas da maré
4 139
Juan Gelman

Juan Gelman

claro que morrerei

claro que morrerei e hão de levar-me
em ossos ou cinzas
e dirão palavras e cinzas
e eu hei de morrer totalmente

claro que isto acabará
minhas mãos pelas tuas alimentadas
hão de pensar-se de novo
na umidade da terra

eu cá não quero caixão
nem roupa

que o barro aceite minha cabeça
e que os bichos me devorem
agora
despido de ti
1 718
Mário Dionísio

Mário Dionísio

No cais

Ó quarteirões de casas escuras
sem cortinados nas janelas
O dia é como a noite a noite é como o dia
e o Tejo aqui ao lado traz nas águas
pedaços de óleo e restos da cidade
Ó quarteirões de casas escuras
por trás de montes de carvão
que sabeis vós das nuvens dos poetas?
As vossas nuvens são de fumo
do fumo negro dos navios de carga
e de outros fumos negros da cidade
Ruas sem nome Iguais iguais
como estas mãos e essas mãos
como estes pés e esses pés
que a vida deformou
Ó quarteirões de casas escuras
o que enche aqui o ar é este grito repetido
dos guindastes no cais
e a matraca repetida dos comboios
de mercadorias
Ó quarteirões de casas escuras
os barracões engolem homens
os barracões vomitam homens
Rio
foste tu que inspiraste as ninfas ao Poeta?
Rio
és tu que inspiras os poetas?
Ó quarteirões de casas escuras
é impossível que não haja
nenhum sonho escondido e adormecido lá no fundo
destas vidraças partidas Que não haja
nenhum riso abafado nos barris de alcatrão
E nenhum canto aqui nestas águas do rio
nestas águas soturnas soturnas tão soturnas do rio
Velho sentado à porta da taberna
há tantos anos sentado com a perna de pau
à porta da taberna
com teu cachimbo e tua voz tão serena contando
histórias antigas e lendárias
à porta da taberna
Dá teu lugar a outro A qualquer outro
que quebre o fado do velho gramofone da taberna
e conte histórias um pouco mais felizes e mais claras
em vez do vinho na taberna
1 574
Ruy Belo

Ruy Belo

Na morte de Marilyn

Morreu a mais bela mulher do mundo
tão bela que não só era assim bela
como mais que chamar-lhe marilyn
devíamos mas era reservar apenas para ela
o seco sóbrio simples nome de mulher
em vez de marilyn dizer mulher
Não havia no fundo em todo o mundo outra mulher
mas ingeriu demasiados barbitúricos
uma noite ao deitar-se quando se sentiu sozinha
ou suspeitou que tinha errado a vida
ela de quem a vida a bem dizer não era digna
e que exibia vida mesmo quando a suprimia
Não havia no mundo uma mulher mais bela mas
essa mulher um dia dispôs do direito
ao uso e ao abuso de ser bela
e decidiu de vez não mais o ser
nem doravante ser sequer mulher
O último dos rostos que mostrou era um rosto de dor
um rosto sem regresso mais que rosto mar
e toda a confusão e convulsão que nele possa caber
e toda a violência e voz que num restrito rosto
possa o máximo mar intensamente condensar
Tomou todos os tubos que tinha e não tinha
e disse à governanta não me acorde amanhã
estou cansada e necessito de dormir
estou cansada e é preciso eu descansar
Nunca ninguém foi tão amado como ela
nunca ninguém se viu envolto em semelhante escuridão
Era mulher era a mulher mais bela
mas não há coisa alguma que fazer se certo dia
a mão da solidão é pedra em nosso peito
Perto de marilyn havia aqueles comprimidos
seriam solução sentiu na mão a mãe
estava tão sozinha que pensou que a não amavam
que todos afinal a utilizavam
que viam por trás dela a mais comum imagem dela
a cara o corpo de mulher que urge adjectivar
mesmo que seja bela o adjectivo a empregar
que em vez de ver um todo se decida dissecar
analisar partir multiplicar em partes
Toda a mulher que era se sentiu toda sozinha
julgou que a não amavam todo o tempo como que parou
quis ser atá ao fim coisa que mexe coisa viva
um segundo bastou foi só estender a mão
e então o tempo sim foi coisa que passou.
5 737
Gustavo Adolfo Bécquer

Gustavo Adolfo Bécquer

Rima X

Os invisíveis átomos do ar
ao redor palpitam e se inflamam,
o céu desfaz-se em raios de ouro,
a terra se estremece alvoroçada,
ouço flutuando em ondas de harmonias
rumor de beijos e bater de asas,
minhas pálpebras se fecham ...
Que sucede?

É o amor que passa!
3 506
Jorge Viegas

Jorge Viegas

Nirvana

Ser como uma árvore na paisagem,
Existir, existir sem sofrimento.
Buscar na placidez o alimento,
Tornar menos pesada a minha imagem.

Estar, mas num estar que é viagem.
Iluminar o sol, esporear o vento,
deixar adormecer o pensamento,
Não haver marcas da minha passagem.

Esboroar-me na terra humilde e fria
Sem o suor negro da melancolia
A orlar-me a testa, a inundar-me os nervos.

Poeta que não sou, vida que não tive
Permiti que o sono que em mim vive
Se torne o mais humilde dos meus servos.
1 260
Ada Ciocci

Ada Ciocci

Consciência

Neste exato momento, porém,
sei e sinto também,
que apesar de ter sido simples criatura,
das que cuidam bem da casa,
dos filhos, das amizades e do marido,
e de contar estórias para outros lerem,
nada fiz de especial,
assim, como, por exemplo,
um feito patriótico.

Isso, porém, no momento,
pouco importa.

O que está mesmo pra valer incomodando
é não saber eu, quando é que nossos políticos,
deputados, senadores e ministros
irão descobrir a maneira certa,
para libertarem a nossa gentil Pátria amada Brasil
do julgo norte-americano
1 043
Luís Filipe Castro Mendes

Luís Filipe Castro Mendes

Os Argonautas

Bichos da terra tão pequenos,
esgravatando à roda do mundo,
atarantados, sem rumo:

só e apenas isso,
agora e em todos os tempos.

1 368
Mário Dionísio

Mário Dionísio

Arte poética

A poesia não está nas olheiras imorais de Ofélia
nem no jardim dos lilases.
A poesia está na vida,
nas artérias imensas cheias de gente em todos os sentidos,
nos ascensores constantes,
na bicha de automóveis rápidos de todos os feitios e de todas as cores,
nas máquinas da fábrica e nos operários da fábrica
e no fumo da fábrica.
A poesia está no grito do rapaz apregoando jornais,
no vaivém de milhões de pessoas conversando ou prague­jando ou rindo.
Está no riso da loira da tabacaria,
vendendo um maço de tabaco e uma caixa de fósforos.
Está nos pulmões de aço cortando o espaço e o mar.
A poesia está na doca,
nos braços negros dos carregadores de carvão,
no beijo que se trocou no minuto entre o trabalho e o jantar
- e só durou esse minuto.
A poesia está em tudo quanto vive, em todo o movimento,
nas rodas do comboio a caminho, a caminho, a caminho
de terras sempre mais longe,
nas mãos sem luvas que se estendem para seios sem véus,
na angústia da vida.

A poesia está na luta dos homens,
está nos olhos abertos para amanhã.
2 690
António José Forte

António José Forte

Um Homem


De repente
como uma flor violenta
um homem com uma bomba à altura do peito
e que chora convulsivamente
um homem belo minúsculo
como uma estrela cadente
e que sangra
como uma estátua jacente
esmagada sob as asas do crepúsculo
um homem com uma bomba
como uma rosa na boca
negra surpreendente
e à espera da festa louca
onde o coração lhe rebente
um homem de face aguda
e uma bomba
cega
surda
muda



António José Forte

Uma Faca nos Dentes
Prefácio de Herberto Helder
Parceria A.M. Pereira
Livraria Editora, Lda.
1 518
Juan Gelman

Juan Gelman

Uma mulher e um homem

Uma mulher e um homem levados pela vida,
uma mulher e um homem cara a cara
moram na noite, transbordam por suas mãos,
se ouvem subir livres na sombra,
suas cabeças descansam numa bela infância
que eles criaram juntos, em pleno dia de sol, de luz,
uma mulher e um homem arados por seus lábios
enchem a noite lenta com toda sua memória,
uma mulher e um homem mais belos no outro
ocupam seu lugar na terra
1 785
Mário Dionísio

Mário Dionísio

Pregão

Dum gesto alcançámos a terra.

Os montes, os mares, as estrelas, as nuvens, as almas, os deuses e as
sombras.
- o cortejo multissecular das sombras.

Antes
os braços eram curtos e terminavam por duas mãos pequenas.
Hoje
não há padrão que os meça,
prolongados nos montes e na viva complicação das máquinas,
nas chaminés voltadas para o céu.
Antes
as bocas eram breves para o beijo da casa.
Hoje
dilataram-se infinitamente no sorriso sublime e sem limites da
universalidade.

Todos os músculos estalaram.
Todos os olhos gritaram.
Todas as bocas gritaram.
Todos os pulmões se abriram ao olfacto sadio da terra húmida.
Terra.
Terra da partida e do regresso.
Terra!

Serão baixos todos os andaimes de biliões de andares,
fracas todas as asas,
para a nossa paixão da estratosfera:
para o caminho da terra que nos fará eternos.
Fraca nomenclatura de todos os tratados
para o nosso mundo de amor.

Os chicotes quebraram-se, vencidos,
vergados sobre a terra como nós até hoje.

Uma vida nova começa neste instante.
E agora, que dum gesto alcançámos a terra, nós seremos enfim o nosso próprio poema.
1 511
Jorge Pedro Barbosa

Jorge Pedro Barbosa

Canção de embalar

"Dorme Maninho
pra não vir Ti Lobo..."

Maninho
volta-se e dorme
no colchão de saco vazio
sobre a terra batida.

Ao lado no chão dormindo também
o naviozinho de lata
que fez com suas mãos...

Apaga-se a luz.
Maninho acorda depois
por causa da voz falando baixinho
segredando
no meio escuro...

Não fala de mamãe...
Ti Lobo talvez...
Mas nhô Chico Polícia há dias contava:
"Ti Lobo não tem..."

Essa voz nocturna segredando...
O homem branco talvez
que lá vai de vez enquando...

"Dorme Maninho
pra não vir Ti Lobo..."

Volta-se e torna a dormir...

Amanhã cedo vai correr o naviozinho de lata
nas poças da Praia Negra...
1 248
Arlindo Barbeitos

Arlindo Barbeitos

Mão Frágil

em mão frágil de amarelo
se quebra o galho de gajajeira
pela tardinha vermelha em flor
sussurrar de vento
não é voz de capim crescendo
é murmúrio impaciente
de gentes
no azul de parte alguma
em mão frágil de amarelo
se quebra o galho da gajajeira
pela tardinha vermelha em flor
1 611