Condição Humana
Poemas neste tema
Ronaldo Cunha Lima
Não maldigo os versos que lhe fiz
Não maldigo os versos que lhe fiz,
embora não devesse tê-los feito.
São versos que nasceram do meu peito,
mas frutos de um amor muito infeliz.
São versos que guardam o que não quis
guardar daquele nosso amor desfeito.
Relendo-os sofro, e sofrendo aceito
o que o destino quis como juiz.
Não os maldigo, não. Não os maldigo.
Vou guardá-los em mim como castigo,
para no amor eu escolher direito.
Só porque nesse amor não fui feliz,
não maldigo os versos que lhe fiz,
embora não devesse tê-los feito.
embora não devesse tê-los feito.
São versos que nasceram do meu peito,
mas frutos de um amor muito infeliz.
São versos que guardam o que não quis
guardar daquele nosso amor desfeito.
Relendo-os sofro, e sofrendo aceito
o que o destino quis como juiz.
Não os maldigo, não. Não os maldigo.
Vou guardá-los em mim como castigo,
para no amor eu escolher direito.
Só porque nesse amor não fui feliz,
não maldigo os versos que lhe fiz,
embora não devesse tê-los feito.
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2
Glória de Sant'Anna
O Pescador Velho
Pescador vindo do largo
com o teu calçado de algas
diz-me o que trazes no barco
donde levantas a face
a tua face marcada
pelo sal de horas choradas
dá-me o teu peixe pescado
bem lá no fundo do mar
- nesta água não tem peixe -
pescador dá-me um só peixe
nem garoupa nem xaréu
só um peixinho de prata
- nesta água não tem peixe
foi tudo procurar deus
pró lado do Zanzibar.
com o teu calçado de algas
diz-me o que trazes no barco
donde levantas a face
a tua face marcada
pelo sal de horas choradas
dá-me o teu peixe pescado
bem lá no fundo do mar
- nesta água não tem peixe -
pescador dá-me um só peixe
nem garoupa nem xaréu
só um peixinho de prata
- nesta água não tem peixe
foi tudo procurar deus
pró lado do Zanzibar.
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2
Jorge de Sena
La dame à la licorne
Dona Semifofa erguendo o dedo
mindinho arqueado em asa sobre a asa da
chávena (ou xícara) disse: -
- Eu sempre soube que poetas não
são gente em quem confie uma senhora -
e num sorvinho delicado rematou
a mágoa de cinquenta primaveras.
O licorne, num doce balançar do chifre esguio,
gravemente assentiu,
um pouco perturbado
pela insistência obnóxia e recatada
com que a discreta dama confundia,
ou mais que a dama os olhos vagos dela,
o chifre legendário e o metafórico
que de entre as pernas longo lhe descia
ou já de perturbado não pendia.
Torcendo as ancas disfarçadamente
para encobrir das vistas semifofas
essa homenagem à inocência delas
(como o cavalheiro que pousando a mão
assim se esconde em pudicícia o quanto
não esconda muito mais que a discrição obriga),
D. Gil cofiou a capriforme pêra
e de soslaio viu que Dona Semifofa
do branco em ferro assento resvalava
para a verdura em que as florinhas eram
de cores variegadas, salpicantes.
D. Gil era o licorne, e disse com voz cava:
- Mas eu também, minha senhora, nunca
acreditei que de confiança eles fossem.
Se acreditasse, como não teria
a mágoa imensa de não ser centauro? -
No chão, erguendo as pernas, Semifofa uivou:
- Centauro, para quê? Não há centauros.
Licornes, sim, D. Gil, vinde a meus braços.
mindinho arqueado em asa sobre a asa da
chávena (ou xícara) disse: -
- Eu sempre soube que poetas não
são gente em quem confie uma senhora -
e num sorvinho delicado rematou
a mágoa de cinquenta primaveras.
O licorne, num doce balançar do chifre esguio,
gravemente assentiu,
um pouco perturbado
pela insistência obnóxia e recatada
com que a discreta dama confundia,
ou mais que a dama os olhos vagos dela,
o chifre legendário e o metafórico
que de entre as pernas longo lhe descia
ou já de perturbado não pendia.
Torcendo as ancas disfarçadamente
para encobrir das vistas semifofas
essa homenagem à inocência delas
(como o cavalheiro que pousando a mão
assim se esconde em pudicícia o quanto
não esconda muito mais que a discrição obriga),
D. Gil cofiou a capriforme pêra
e de soslaio viu que Dona Semifofa
do branco em ferro assento resvalava
para a verdura em que as florinhas eram
de cores variegadas, salpicantes.
D. Gil era o licorne, e disse com voz cava:
- Mas eu também, minha senhora, nunca
acreditei que de confiança eles fossem.
Se acreditasse, como não teria
a mágoa imensa de não ser centauro? -
No chão, erguendo as pernas, Semifofa uivou:
- Centauro, para quê? Não há centauros.
Licornes, sim, D. Gil, vinde a meus braços.
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2
William Wordsworth
O CARVALHO DE GUERNICA
O antigo
carvalho de Guernica, conta Laborde na sua descrição da Biscaia, é o monumento natural
mais venerável. Fernando e Isabel, em 1476, depois de ouvirem missa na Igreja de Santa
Maria la Antígua, dirigiram-se para essa árvore, sob a qual juraram aos biscaínos
respeitar os seus fueros. Que outro interesse esteja ligado a ele no espírito desse povo
é o que se verá do seguinte (soneto) supostamente falando ao mesmo. 1810.
Carvalho de Guernica! Árvore mais
Sagrada que em Dodona a que escondia
Uma divina voz (a fé o cria)
Dando da aérea fronde altos sinais!
Como podes florir em tempos tais?
Que esprança o Sol te traz, ou que alegria?
São-te trazidas pela maresia,
Ou por leves orvalhos matinais?
Benvindo seja o golpe que em ti caia,
E em terra alongue a tua fronde imensa,
Se nunca mais, à sua sombra densa,
Venham legisladors sentar-se ovantes,
Senhors e camponeses, como dantes,
Guardiães das liberdades da Biscaia.
carvalho de Guernica, conta Laborde na sua descrição da Biscaia, é o monumento natural
mais venerável. Fernando e Isabel, em 1476, depois de ouvirem missa na Igreja de Santa
Maria la Antígua, dirigiram-se para essa árvore, sob a qual juraram aos biscaínos
respeitar os seus fueros. Que outro interesse esteja ligado a ele no espírito desse povo
é o que se verá do seguinte (soneto) supostamente falando ao mesmo. 1810.
Carvalho de Guernica! Árvore mais
Sagrada que em Dodona a que escondia
Uma divina voz (a fé o cria)
Dando da aérea fronde altos sinais!
Como podes florir em tempos tais?
Que esprança o Sol te traz, ou que alegria?
São-te trazidas pela maresia,
Ou por leves orvalhos matinais?
Benvindo seja o golpe que em ti caia,
E em terra alongue a tua fronde imensa,
Se nunca mais, à sua sombra densa,
Venham legisladors sentar-se ovantes,
Senhors e camponeses, como dantes,
Guardiães das liberdades da Biscaia.
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2
Luís Amaro
Retrato
Um silêncio, um olhar, uma palavra:
Nasceste assim na minha vida,
Inesperada flor de aroma denso,
Tão casual e breve...
Já te visionara no meu sonho,
Imagem de segredo, esparsa ao vento
Da noite rubra, delicada, intacta.
E pressentira teu hálito na sombra
Que minhas mãos desenham, inquietas.
Existias em mim. O teu olhar
Onde cintila, pura, a madrugada,
Guardara-o no meu peito, ó invisível,
Flutuante apelo das raízes
Que teimam em prender-te, minha vida!
Nasceste assim na minha vida,
Inesperada flor de aroma denso,
Tão casual e breve...
Já te visionara no meu sonho,
Imagem de segredo, esparsa ao vento
Da noite rubra, delicada, intacta.
E pressentira teu hálito na sombra
Que minhas mãos desenham, inquietas.
Existias em mim. O teu olhar
Onde cintila, pura, a madrugada,
Guardara-o no meu peito, ó invisível,
Flutuante apelo das raízes
Que teimam em prender-te, minha vida!
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2
António de Navarro
Charleston
O jazz
zurze, risca losangos, gumes,
planos, ângulos, sonoros motes
arrancados de dentro da pandeiretas, cornetas, timballs,serrotes
tocados por Hotentotes saltitantes
que rasgam o espaço côncavo
com os fortes botes
dos sonoros motes volantes
do jazz-band dHo-ten-to-tes...
Andam no ar jogos malabares de fogos de Bengala
num batuque dHotentotes... dHo-ten-to-tes
sal-ti-tan-tes no redondel duma senzala.
E ela surge, toda nua,
sob a poalha luminosa e crua
dum foco darco voltaico,
que, incendiando o mosaico
de sua pele tatuada a cores,
lhe dá o aspecto bizarro
dum bronze colorido,
dum manipanso Hotentote.
O seu corpo, asa que desgarra,
esmurra, esbarra,
em movimentos ágeis,
elétricos,
com os sons do jazz
pensamentos alados de Ferrabraz
que esvoaçam, velozes, velozes no espaço.
As pernas são apenas
dois movimentos instáveis,
trêmulos, nos espaços,
em malabárico jogo.
E os braços,
duas antenas
vibráteis, duas
asas de fogo
e cor
numa pluma de labareda.
Os olhos são duas puas,
acerados gumes,
agudos ângulos,
orgias de fogos e lumes,
facas de prestigitador
sonâmbulo.
Seu corpo, cansado e bambo
— tomba
sobre almofadas de Damasco, Raz,
e penas de Trebisonda.
E o jazz
continua, já lassa a pele dos bombos,
bambas as cordas dos banjos.
Entretanto o jazz zurze, risca
o espaço também já lasso e bambo.
zurze, risca losangos, gumes,
planos, ângulos, sonoros motes
arrancados de dentro da pandeiretas, cornetas, timballs,serrotes
tocados por Hotentotes saltitantes
que rasgam o espaço côncavo
com os fortes botes
dos sonoros motes volantes
do jazz-band dHo-ten-to-tes...
Andam no ar jogos malabares de fogos de Bengala
num batuque dHotentotes... dHo-ten-to-tes
sal-ti-tan-tes no redondel duma senzala.
E ela surge, toda nua,
sob a poalha luminosa e crua
dum foco darco voltaico,
que, incendiando o mosaico
de sua pele tatuada a cores,
lhe dá o aspecto bizarro
dum bronze colorido,
dum manipanso Hotentote.
O seu corpo, asa que desgarra,
esmurra, esbarra,
em movimentos ágeis,
elétricos,
com os sons do jazz
pensamentos alados de Ferrabraz
que esvoaçam, velozes, velozes no espaço.
As pernas são apenas
dois movimentos instáveis,
trêmulos, nos espaços,
em malabárico jogo.
E os braços,
duas antenas
vibráteis, duas
asas de fogo
e cor
numa pluma de labareda.
Os olhos são duas puas,
acerados gumes,
agudos ângulos,
orgias de fogos e lumes,
facas de prestigitador
sonâmbulo.
Seu corpo, cansado e bambo
— tomba
sobre almofadas de Damasco, Raz,
e penas de Trebisonda.
E o jazz
continua, já lassa a pele dos bombos,
bambas as cordas dos banjos.
Entretanto o jazz zurze, risca
o espaço também já lasso e bambo.
980
2
António Ramos Rosa
Semelhante à imóvel
Semelhante à imóvel
transparência
à inesgotável face
à pedra larga onde o olhar repousa
Água sombra e a figura
azul quase um jardim por sob a sombra
a iminência viva aérea
de uma palavra suspensa
na folhagem
Semelhante ao disperso ao ínfimo
chama-se agora aqui o sono da erva
a ligeireza livre
a nuvem sobre a página
transparência
à inesgotável face
à pedra larga onde o olhar repousa
Água sombra e a figura
azul quase um jardim por sob a sombra
a iminência viva aérea
de uma palavra suspensa
na folhagem
Semelhante ao disperso ao ínfimo
chama-se agora aqui o sono da erva
a ligeireza livre
a nuvem sobre a página
4 014
2
Raimundo Bento Sotero
Os Bastardos
Alta noite e eu andava descontente
Pela cidade horrivelmente feia;
Meia noite ou meia noite e meia
Um relógio bateu sinistramente.
Os meus passos rebeldes pela rua,
Assim como se fosse de animal,
Reboavam num silêncio sepulcral,
Enquanto lá no céu surgia a lua,
Que mais se parecia uma caveira
Amortalhando com a luz mortiça
Em cada escura esquina uma carniça
Que apodrecia até virar poeira.
Exalava na podre madrugada
Um bafio a cortar o meu pulmão
Do lixo revirado por um cão,
Que farejava à beira da calçada.
A cidade dormia convulsiva,
E só eu, como um verme solitário,
Ia seguindo meu itinerário
Com uma ansiedade compulsiva.
A rua parecia um cemitério,
E toda casa era uma sepultura
Onde jazia cada criatura
Amortalhada num mortal mistério;
Mas eu seguia pela rua torta,
Escutando as pancadas do meu peito
Que de tudo pulsava insatisfeito
Por entre as casas da cidade morta.
De repente, porém, um burburinho:
Era uma casa de carnal comércio,
Que me deixou mais triste que Propércio,
E eu não pude seguir o meu caminho.
Era de ser o foco, com certeza,
De toda podridão da vil cidade
Onde os homens em animalidade,
No cio, como um bicho atrás da presa,
Vinham à tentação de tais pecados
E assim como um bando de possessos,
Na fúria mais lasciva dos excessos,
Contorciam-se como invertebrados.
E cada um era um pai irresponsável
Que outro filho gerava ao desconforto,
E eu que observava tudo aquilo torto,
Achava aquilo tudo abominável.
Uma calça esquecida pelo dono
Sobre a saia da moça quase virgem
Provava todo mal que dava origem
À criança que vive no abandono.
E na fornicação de tal orgia,
Quem sabe um deles cometesse incesto
E fosse ao leito, sem nenhum protesto,
Da própria filha que desconhecia.
Cantava o galo pela noite afora;
Mas na luxúria de Sardanapalo
Não respeitavam o cantar do galo,
Nem davam conta do romper da Aurora.
E às pancadas do sino da matriz,
Lembraram-se de ir a santa missa,
E cada qual com a consciência omissa
De ter gerado mais um infeliz.
Era quase manhã e a contragosto
Um tardio que vinha à socapa,
Tentava se esconder atrás da capa;
Mas era tarde pra cobrir o rosto.
Pela cidade horrivelmente feia;
Meia noite ou meia noite e meia
Um relógio bateu sinistramente.
Os meus passos rebeldes pela rua,
Assim como se fosse de animal,
Reboavam num silêncio sepulcral,
Enquanto lá no céu surgia a lua,
Que mais se parecia uma caveira
Amortalhando com a luz mortiça
Em cada escura esquina uma carniça
Que apodrecia até virar poeira.
Exalava na podre madrugada
Um bafio a cortar o meu pulmão
Do lixo revirado por um cão,
Que farejava à beira da calçada.
A cidade dormia convulsiva,
E só eu, como um verme solitário,
Ia seguindo meu itinerário
Com uma ansiedade compulsiva.
A rua parecia um cemitério,
E toda casa era uma sepultura
Onde jazia cada criatura
Amortalhada num mortal mistério;
Mas eu seguia pela rua torta,
Escutando as pancadas do meu peito
Que de tudo pulsava insatisfeito
Por entre as casas da cidade morta.
De repente, porém, um burburinho:
Era uma casa de carnal comércio,
Que me deixou mais triste que Propércio,
E eu não pude seguir o meu caminho.
Era de ser o foco, com certeza,
De toda podridão da vil cidade
Onde os homens em animalidade,
No cio, como um bicho atrás da presa,
Vinham à tentação de tais pecados
E assim como um bando de possessos,
Na fúria mais lasciva dos excessos,
Contorciam-se como invertebrados.
E cada um era um pai irresponsável
Que outro filho gerava ao desconforto,
E eu que observava tudo aquilo torto,
Achava aquilo tudo abominável.
Uma calça esquecida pelo dono
Sobre a saia da moça quase virgem
Provava todo mal que dava origem
À criança que vive no abandono.
E na fornicação de tal orgia,
Quem sabe um deles cometesse incesto
E fosse ao leito, sem nenhum protesto,
Da própria filha que desconhecia.
Cantava o galo pela noite afora;
Mas na luxúria de Sardanapalo
Não respeitavam o cantar do galo,
Nem davam conta do romper da Aurora.
E às pancadas do sino da matriz,
Lembraram-se de ir a santa missa,
E cada qual com a consciência omissa
De ter gerado mais um infeliz.
Era quase manhã e a contragosto
Um tardio que vinha à socapa,
Tentava se esconder atrás da capa;
Mas era tarde pra cobrir o rosto.
1 153
2
Arménio Vieira
Quiproquó
Há uma torneira sempre a dar horas
há um relógio a pingar no lavabos
há um candelabro que morde na isca
há um descalabro de peixe no tecto
Há um boticário pronto para a guerra
há um soldado vendendo remédios
há um veneno (tão mau) que não mata
há um antídoto para o suicído de um poeta
Senhor, Senhor, que digo eu (?)
que ando vestido pelo avesso
e furto chapéu e roubo sapatos
e sigo descalço e vou descoberto.
há um relógio a pingar no lavabos
há um candelabro que morde na isca
há um descalabro de peixe no tecto
Há um boticário pronto para a guerra
há um soldado vendendo remédios
há um veneno (tão mau) que não mata
há um antídoto para o suicído de um poeta
Senhor, Senhor, que digo eu (?)
que ando vestido pelo avesso
e furto chapéu e roubo sapatos
e sigo descalço e vou descoberto.
6 499
2
William Carlos Williams
ALFARROBEIRA EM FLOR
Entre
de
verde
teso
velho
claro
quebrado
ramo
vem
branco
doce
Maio
outra vez.
de
verde
teso
velho
claro
quebrado
ramo
vem
branco
doce
Maio
outra vez.
1 240
2
Judas Isgorogota
Recebi
Recebi do Dr. Fernandes Lima,
Governador perpétuo de Alagoas,
Pela graça de Deus, das almas boas
Que seguem a rota dos que estão de cima,
A importância mencionada acima
De Rs. 20$000, por que as pessoas
Das urbs, dos sertões e das lagoas
Vendem seu voto de entranhada estima;
E por cuja quantia me sujeito
A votar no Doutor; e, em testemunho,
Passo o presente, por José do Coito,
Em duplicata para um só efeito.
Maceió, Jaraguá, 12 de junho
De 1918.
Governador perpétuo de Alagoas,
Pela graça de Deus, das almas boas
Que seguem a rota dos que estão de cima,
A importância mencionada acima
De Rs. 20$000, por que as pessoas
Das urbs, dos sertões e das lagoas
Vendem seu voto de entranhada estima;
E por cuja quantia me sujeito
A votar no Doutor; e, em testemunho,
Passo o presente, por José do Coito,
Em duplicata para um só efeito.
Maceió, Jaraguá, 12 de junho
De 1918.
1 212
2
Florbela Espanca
Crucificada
Amiga... noiva... irmã... o que quiseres!
Por ti, todos os céus terão estrelas,
Por teu amor, mendiga, hei de merecê-las,
Ao beijar a esmola que me deres.
Podes amar até outras mulheres!
– Hei de compor, sonhar palavras belas,
Lindos versos de dor só para elas,
Para em lânguidas noites lhes dizeres!
Crucificada em mim, sobre os meus braços,
Hei de poisar a boca nos teus passos
Pra não serem pisados por ninguém.
E depois... Ah! depois de dores tamanhas,
Nascerás outra vez de outras entranhas,
Nascerás outra vez de uma outra Mãe!
Por ti, todos os céus terão estrelas,
Por teu amor, mendiga, hei de merecê-las,
Ao beijar a esmola que me deres.
Podes amar até outras mulheres!
– Hei de compor, sonhar palavras belas,
Lindos versos de dor só para elas,
Para em lânguidas noites lhes dizeres!
Crucificada em mim, sobre os meus braços,
Hei de poisar a boca nos teus passos
Pra não serem pisados por ninguém.
E depois... Ah! depois de dores tamanhas,
Nascerás outra vez de outras entranhas,
Nascerás outra vez de uma outra Mãe!
5 419
2
Manuel Alegre
Retrato do herói
Herói é quem no muro branco inscreve
O fogo da palavra que o liberta:
Sangue do homem novo que diz povo
E morre devagar de morte certa.
Homem é quem anónimo por leve
lhe ser o nome próprio traz aberta
a alma à fome fechado o corpo ao breve
instante em que a denúncia fica alerta.
Herói é quem morrendo perfilado
Não é santo nem mártir nem soldado
Mas apenas por último indefeso.
Homem é quem tombando apavorado
dá o sangue ao futuro e fica ileso
pois lutando apagado morre aceso.
O fogo da palavra que o liberta:
Sangue do homem novo que diz povo
E morre devagar de morte certa.
Homem é quem anónimo por leve
lhe ser o nome próprio traz aberta
a alma à fome fechado o corpo ao breve
instante em que a denúncia fica alerta.
Herói é quem morrendo perfilado
Não é santo nem mártir nem soldado
Mas apenas por último indefeso.
Homem é quem tombando apavorado
dá o sangue ao futuro e fica ileso
pois lutando apagado morre aceso.
3 130
2
Janice Japiassu
O Discurso e o Deserto
Com o acre mel do deserto
De ouro veste-se o nome
Pronunciado na guerra.
O sol fecunda as espadas
Retesa o arco certeiro
E o sete nasce da pedra
No silêncio alumioso
Da noite mal-assombrada
Mistura o grito viçoso
Eis a palavra afiada
Nos pastos da solidão
Dentro do silêncio limpo
Voz de toda precisão
De ouro veste-se o nome
Pronunciado na guerra.
O sol fecunda as espadas
Retesa o arco certeiro
E o sete nasce da pedra
No silêncio alumioso
Da noite mal-assombrada
Mistura o grito viçoso
Eis a palavra afiada
Nos pastos da solidão
Dentro do silêncio limpo
Voz de toda precisão
675
2
Carvalho Júnior
Antropofagia
Mulher! ao ver-te nua, as formas opulentas
Indecisas luzindo à noite, sobre o leito,
Como um bando voraz de lúbricas jumentas,
Instintos canibais refervem-me no peito.
Como a besta feroz a dilatar as ventas
Mede por dar-lhe o bote ajeito,
Do meu fúlgido olhar às chispas odientas
Envolvo-te, e, convulso, ao seio meu testreito:
E ao longo de teu corpo elástico, onduloso,
Corpo de cascavel, elétrico, escamoso,
Em toda essa extensão pululam meus desejos,
– Os átomos sutis, – os vermes sensuais,
Cevando a seu talante as fomes bestiais
Nessas carnes febris, – esplêndidos sobejos!
Indecisas luzindo à noite, sobre o leito,
Como um bando voraz de lúbricas jumentas,
Instintos canibais refervem-me no peito.
Como a besta feroz a dilatar as ventas
Mede por dar-lhe o bote ajeito,
Do meu fúlgido olhar às chispas odientas
Envolvo-te, e, convulso, ao seio meu testreito:
E ao longo de teu corpo elástico, onduloso,
Corpo de cascavel, elétrico, escamoso,
Em toda essa extensão pululam meus desejos,
– Os átomos sutis, – os vermes sensuais,
Cevando a seu talante as fomes bestiais
Nessas carnes febris, – esplêndidos sobejos!
3 024
2
Sylvia Plath
Ariel
Êxtase no escuro,
E um fluir azul sem substância
De penhasco e distâncias.
Leoa de Deus,
Nos tornamos uma,
Eixo de calcanhares e joelhos! – O sulco
Fende e passa, irmã do
Arco castanho
Do pescoço que não posso abraçar,
Olhinegra
Bagas cospem escuras
Iscas –
Goles de sangue negro e doce,
Sombras.
Algo mais
Me arrasta pelos ares –
Coxas, pêlos;
Escamas de meus calcanhares.
Godiva
Branca, me descasco –
Mãos secas, secas asperezas.
E agora
Espumo com o trigo, reflexo de mares.
O grito da criança
Escorre pelo muro
E eu
Sou flecha,
Orvalho que avança,
Suicida, e de uma vez se lança
Contra o olho
Vermelho, fornalha da manhã.
E um fluir azul sem substância
De penhasco e distâncias.
Leoa de Deus,
Nos tornamos uma,
Eixo de calcanhares e joelhos! – O sulco
Fende e passa, irmã do
Arco castanho
Do pescoço que não posso abraçar,
Olhinegra
Bagas cospem escuras
Iscas –
Goles de sangue negro e doce,
Sombras.
Algo mais
Me arrasta pelos ares –
Coxas, pêlos;
Escamas de meus calcanhares.
Godiva
Branca, me descasco –
Mãos secas, secas asperezas.
E agora
Espumo com o trigo, reflexo de mares.
O grito da criança
Escorre pelo muro
E eu
Sou flecha,
Orvalho que avança,
Suicida, e de uma vez se lança
Contra o olho
Vermelho, fornalha da manhã.
5 222
2
François Villon
BALADA DOS ENFORCADOS
Homens irmãos, que a nós sobreviveis,
Não tenhais vosso peito calejado,
Porque, se algum pesar por nós haveis,
Cedo, o perdão de Deus tereis ganhado.
Mais de um vedes, na corda, pendurado:
A carne que gozou, em demasia,
Foi devorada, podre, dia a dia,
E as ossadas em pó se mudarão.
De nosso padecer ninguém se ria.
E a Deus rogai nos dê o seu perdão!
Se de irmãos vos chamamos, não deveis
Mostrar desdém, embora justiçados
Com razão. E, no entanto, vós sabeis
Que nem todos são muito ajuizados;
Pedi por nós, agora, trespassados,
A Jesus Cristo, filho de Maria,
De sua graça venha a nós valia
Que nos livre da eterna perdição.
A nós, mortos, poupai outra agonia.
E a Deus rogai nos dê o seu perdão!
Secos, negros, enfim, o sol nos fez,
A chuva nos gastou. Foram cavados
Os olhos pelos corvos, com avidez,
Sendo a barba e os sobrolhos arrancados.
Não podemos jamais ficar parados;
De cá pra lá, ao léu da ventania,
Pelas aves bicados, à porfia,
Como um dedal os corpos ficarão.
Não sejais, pois, de nossa confraria;
E a Deus rogai nos dê o seu perdão!
Senhor Jesus, que sois o nosso guia,
Não permitais do inferno a senhoria,
Nem lhe devamos soldo, sujeição.
Homens, aqui não calha zombaria;
E a Deus rogai nos dê o seu perdão!
Não tenhais vosso peito calejado,
Porque, se algum pesar por nós haveis,
Cedo, o perdão de Deus tereis ganhado.
Mais de um vedes, na corda, pendurado:
A carne que gozou, em demasia,
Foi devorada, podre, dia a dia,
E as ossadas em pó se mudarão.
De nosso padecer ninguém se ria.
E a Deus rogai nos dê o seu perdão!
Se de irmãos vos chamamos, não deveis
Mostrar desdém, embora justiçados
Com razão. E, no entanto, vós sabeis
Que nem todos são muito ajuizados;
Pedi por nós, agora, trespassados,
A Jesus Cristo, filho de Maria,
De sua graça venha a nós valia
Que nos livre da eterna perdição.
A nós, mortos, poupai outra agonia.
E a Deus rogai nos dê o seu perdão!
Secos, negros, enfim, o sol nos fez,
A chuva nos gastou. Foram cavados
Os olhos pelos corvos, com avidez,
Sendo a barba e os sobrolhos arrancados.
Não podemos jamais ficar parados;
De cá pra lá, ao léu da ventania,
Pelas aves bicados, à porfia,
Como um dedal os corpos ficarão.
Não sejais, pois, de nossa confraria;
E a Deus rogai nos dê o seu perdão!
Senhor Jesus, que sois o nosso guia,
Não permitais do inferno a senhoria,
Nem lhe devamos soldo, sujeição.
Homens, aqui não calha zombaria;
E a Deus rogai nos dê o seu perdão!
4 218
2
Bocage
Apenas vi do dia a luz brilhante
Apenas vi do dia a luz brilhante
Lá em Túbal no empório celebrado,
Em sanguíneo carácter foi marcado
Pelos Destinos meu primeiro instante.
Aos dois lustros a morte doravante
Me roubou, terna mãe, teu doce agrado;
Segui Marte depois, e em fim meu fado
Dos irmãos e do pai me pôs distante.
Vagando a curva terra, o mar profundo,
Longe da pátria, longe da ventura,
Minhas faces com lágrimas inundo.
E enquanto insana multidão procura
Essas quimeras, esses bens do mundo,
Suspiro pela paz da sepultura.
Lá em Túbal no empório celebrado,
Em sanguíneo carácter foi marcado
Pelos Destinos meu primeiro instante.
Aos dois lustros a morte doravante
Me roubou, terna mãe, teu doce agrado;
Segui Marte depois, e em fim meu fado
Dos irmãos e do pai me pôs distante.
Vagando a curva terra, o mar profundo,
Longe da pátria, longe da ventura,
Minhas faces com lágrimas inundo.
E enquanto insana multidão procura
Essas quimeras, esses bens do mundo,
Suspiro pela paz da sepultura.
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2
Ronaldo Cunha Lima
Conversando com meu pai
Na quietude daquela noite densa,
reclamei numa saudade a presença
do meu Pai, que há muito já morreu!...
Sorumbático e só, fiquei na sala,
sem ouvir de ninguém uma só fala:
todos dormiam entregues a Morfeu.
Continuei sozinho da vigília,
contemplando a placidez da mobília,
num silêncio quase que perfeito;
quebrando apenas com o gemer da rede,
as pancadas do relógio na parede
e o pulsar do coração dentro do peito.
De repente, coberta com um véu,
uma nuvem nascia lá do céu,
na sala onde eu estava, caí...
era algo de espanto realmente
dissipa-se a nuvem lentamente
e vai surgindo a imagem do meu pai.
Boa noite, meu filho! E se assusta?
Tenha mais um pouco de calma, porque custa
novamente voltar por este trilho:
Eu rompi os umbrais da eternidade
para, em braços de amor e de saudade,
conversar com você, filho querido!...
Tenho assistido todos os seus passos,
suas lutas, vitórias e fracassos,
em ânsias que não posso mais contê-las:
eu lhe assisto, meu filho, todo dia,
em suas vitórias choro de alegria
e as lágrimas transformam-se em estrelas.
Tenho visto também seus sofrimentos
suas angústias, dores e tormentos
e esperanças que foram já frustradas;
tenho visto, meu filho, da eternidade,
o desencanto de sua mocidade
e o pranto de suas madrugadas.
Compreendo, também, sua tristeza
ante a ânsia que traz na alma presa
de adejar cortando monte e serra;
sua ânsia de voar, cantando notas,
misturar seu vôo ao das gaivotas,
que beijam os céus sem deixar a terra.
Mas, ao lado dos atos de grandeza,
você me causa, filho, também tristeza,
em desgosto minhalma já flutua:
Ontem, porque não estava pronta a ceia,
prá sua mãe você fez cara feia,
bateu a porta e foi jantar na rua.
Você não soube, meu filho, e no entanto,
ela caiu prostrada em um pranto
soluçando seu íntimo desgosto.
Nunca mais, meu filho, isto faça,
pois para o filho não há maior desgraça
que em sua mãe deixar rugas no rosto.
Nunca mais a ofenda, nem de leve!...
O seu amor a ele aos céus eleve
e escute sempre, sempre o que ela diz.
Peça a Deus para durar sua existência
e, se assim fizer de consciência,
você, na vida, tem que ser feliz.
Conduza-se na vida com altivez,
fazendo da probidade, da honradez,
para você o seu forte brasão;
aprofunde-se, meu filho, no estudo,
fazendo da justiça o seu escudo,
amando o povo como ao seu irmão.
Continue no trabalho a que se entrega
sem temer obstáculo nem refrega,
pois com a vitória sempre você vai,
e se assim fizer, querido filho,
sua vida há de ser toda de brilho,
e honrará o nome de seu pai.
E nisso a nuvem comoventemente,
aos poucos se junta novamente,
envolvendo meu pai num denso véu;
e num olhar meigo e bem sereno,
dirige para mim um triste aceno
e vai de novo subindo para o céu!
E eu fiquei chorando de saudade,
alimentando aquela ansiedade,
sem poder abrandá-la. Que castigo!
Por isso nunca mais dormi. Vivo na ânsia,
esperando que meu Pai rompa a distância,
prá vir de novo conversar comigo.
reclamei numa saudade a presença
do meu Pai, que há muito já morreu!...
Sorumbático e só, fiquei na sala,
sem ouvir de ninguém uma só fala:
todos dormiam entregues a Morfeu.
Continuei sozinho da vigília,
contemplando a placidez da mobília,
num silêncio quase que perfeito;
quebrando apenas com o gemer da rede,
as pancadas do relógio na parede
e o pulsar do coração dentro do peito.
De repente, coberta com um véu,
uma nuvem nascia lá do céu,
na sala onde eu estava, caí...
era algo de espanto realmente
dissipa-se a nuvem lentamente
e vai surgindo a imagem do meu pai.
Boa noite, meu filho! E se assusta?
Tenha mais um pouco de calma, porque custa
novamente voltar por este trilho:
Eu rompi os umbrais da eternidade
para, em braços de amor e de saudade,
conversar com você, filho querido!...
Tenho assistido todos os seus passos,
suas lutas, vitórias e fracassos,
em ânsias que não posso mais contê-las:
eu lhe assisto, meu filho, todo dia,
em suas vitórias choro de alegria
e as lágrimas transformam-se em estrelas.
Tenho visto também seus sofrimentos
suas angústias, dores e tormentos
e esperanças que foram já frustradas;
tenho visto, meu filho, da eternidade,
o desencanto de sua mocidade
e o pranto de suas madrugadas.
Compreendo, também, sua tristeza
ante a ânsia que traz na alma presa
de adejar cortando monte e serra;
sua ânsia de voar, cantando notas,
misturar seu vôo ao das gaivotas,
que beijam os céus sem deixar a terra.
Mas, ao lado dos atos de grandeza,
você me causa, filho, também tristeza,
em desgosto minhalma já flutua:
Ontem, porque não estava pronta a ceia,
prá sua mãe você fez cara feia,
bateu a porta e foi jantar na rua.
Você não soube, meu filho, e no entanto,
ela caiu prostrada em um pranto
soluçando seu íntimo desgosto.
Nunca mais, meu filho, isto faça,
pois para o filho não há maior desgraça
que em sua mãe deixar rugas no rosto.
Nunca mais a ofenda, nem de leve!...
O seu amor a ele aos céus eleve
e escute sempre, sempre o que ela diz.
Peça a Deus para durar sua existência
e, se assim fizer de consciência,
você, na vida, tem que ser feliz.
Conduza-se na vida com altivez,
fazendo da probidade, da honradez,
para você o seu forte brasão;
aprofunde-se, meu filho, no estudo,
fazendo da justiça o seu escudo,
amando o povo como ao seu irmão.
Continue no trabalho a que se entrega
sem temer obstáculo nem refrega,
pois com a vitória sempre você vai,
e se assim fizer, querido filho,
sua vida há de ser toda de brilho,
e honrará o nome de seu pai.
E nisso a nuvem comoventemente,
aos poucos se junta novamente,
envolvendo meu pai num denso véu;
e num olhar meigo e bem sereno,
dirige para mim um triste aceno
e vai de novo subindo para o céu!
E eu fiquei chorando de saudade,
alimentando aquela ansiedade,
sem poder abrandá-la. Que castigo!
Por isso nunca mais dormi. Vivo na ânsia,
esperando que meu Pai rompa a distância,
prá vir de novo conversar comigo.
2 514
2
Assis Garrido
Vênus
Deusa, a teus pés a flor das minhas crenças, ponho!
Mulher, eu te procuro, eu te amo, eu te desejo!
Para a tua nudez, — a gaze do meu Sonho,
Para a tua volúpia, o fogo do meu beijo.
Divina e humana, impura e casta, o olhar tristonho,
Cabelos soltos, corpo nu, como eu te vejo,
Dás-me todo o calor dos versos que componho
E enches-me de alegria a vida que pelejo.
Glória a ti, que, do Amor, cantaste, aos evos, o hino,
Que surgiste do mar, branca, leve, radiante,
Para a herança pagã do meu sangue latino!
Glória a ti, que ficaste, à alma dos homens, presa,
Para a celebração rubra da carne estuante
E a régia orquestração da Forma e da Beleza!
Mulher, eu te procuro, eu te amo, eu te desejo!
Para a tua nudez, — a gaze do meu Sonho,
Para a tua volúpia, o fogo do meu beijo.
Divina e humana, impura e casta, o olhar tristonho,
Cabelos soltos, corpo nu, como eu te vejo,
Dás-me todo o calor dos versos que componho
E enches-me de alegria a vida que pelejo.
Glória a ti, que, do Amor, cantaste, aos evos, o hino,
Que surgiste do mar, branca, leve, radiante,
Para a herança pagã do meu sangue latino!
Glória a ti, que ficaste, à alma dos homens, presa,
Para a celebração rubra da carne estuante
E a régia orquestração da Forma e da Beleza!
4 357
2
Amélia Rodrigues
Desejo
Quando a luz do teu olhar
Perpassa sobre o meu corpo
Nu...
Quando os teus dedos longos
Acariciam a minha pele
Envolvendo-me
Num sentimento rico,
Infinito...
Quando os teus músculos
Contraem-se sob mim,
Elevando-me às estrelas,
À lua, ao prazer...
Quando sorvo o teu sêmen
Doce
Entre carícias e afagos...
Sinto que te amo!
Enlouqueço ao pensar
Que vais partir
Levando contigo
Toda a beleza do teu corpo,
Da tua alma.
Sinto que te amo
E tenho ganas de gritar,
Ao mundo,
Todo o meu amor,
Entregando-te a minha vida
Para suprir a tua
Nas carências do teu coração.
Desejo o teu calor
Abrasante,
Queimando as minhas mucosas
E ardendo-me de prazer ...
Desejo a tua voz,
O teu sorriso,
O teu amor...
Desejo você,
TODO,
Sem mistérios, sem afrontas,
Simplesmente...
Quero envolver-te em meus braços
Fazer-te líquido
Na solidez dos meus carinhos,
Sorver-te por inteiro
E saborear o teu gozo
Sedenta de amor.
Perpassa sobre o meu corpo
Nu...
Quando os teus dedos longos
Acariciam a minha pele
Envolvendo-me
Num sentimento rico,
Infinito...
Quando os teus músculos
Contraem-se sob mim,
Elevando-me às estrelas,
À lua, ao prazer...
Quando sorvo o teu sêmen
Doce
Entre carícias e afagos...
Sinto que te amo!
Enlouqueço ao pensar
Que vais partir
Levando contigo
Toda a beleza do teu corpo,
Da tua alma.
Sinto que te amo
E tenho ganas de gritar,
Ao mundo,
Todo o meu amor,
Entregando-te a minha vida
Para suprir a tua
Nas carências do teu coração.
Desejo o teu calor
Abrasante,
Queimando as minhas mucosas
E ardendo-me de prazer ...
Desejo a tua voz,
O teu sorriso,
O teu amor...
Desejo você,
TODO,
Sem mistérios, sem afrontas,
Simplesmente...
Quero envolver-te em meus braços
Fazer-te líquido
Na solidez dos meus carinhos,
Sorver-te por inteiro
E saborear o teu gozo
Sedenta de amor.
2 004
2
Aracy de Monte Alverne
Duas Esposas
Ele constituiu, na vida, duas esposas.
Uma legal que a sociedade aplaude,
que tem direitos onde a lei repousa,
que passa sem ninguém fazer alarde!
A outra vive às ocultas... Foi roubada...
Não tem direitos, tudo lhe condena,
quando passa é por todos apontada
como quem faz um crime e foge à pena!
A primeira, teve um altar cheio de rosas,
um branco véu, grinalda , finas rendas
e recebeu, de todos, majestosa,
cumprimentos, abraços, oferendas.
O altar da segunda, foi a Natureza!
O vento, o sol, a lua, o céu azul e o mar
testemunhas de sublime beleza,
a grinalda de estrelas e o véu de luar!...
Uma legal que a sociedade aplaude,
que tem direitos onde a lei repousa,
que passa sem ninguém fazer alarde!
A outra vive às ocultas... Foi roubada...
Não tem direitos, tudo lhe condena,
quando passa é por todos apontada
como quem faz um crime e foge à pena!
A primeira, teve um altar cheio de rosas,
um branco véu, grinalda , finas rendas
e recebeu, de todos, majestosa,
cumprimentos, abraços, oferendas.
O altar da segunda, foi a Natureza!
O vento, o sol, a lua, o céu azul e o mar
testemunhas de sublime beleza,
a grinalda de estrelas e o véu de luar!...
1 008
2
Ana Cristina Cesar
Anônimo
Sou linda; quando no cinema você roça
o ombro em mim aquece, escorre, já não sei mais
quem desejo, que me assa viva, comendo
coalhada ou atenta ao buço deles, que ternura
inspira aquele gordo aqui, aquele outro ali, no
cinema é escuro e a tela não importa, só o lado,
o quente lateral, o mínimo pavio. A portadora
deste sabe onde me encontro até de olhos
fechados; falo pouco; encontre; esquina de
Concentração com Difusão, lado esquerdo de
quem vem, jornal na mão, discreta.
o ombro em mim aquece, escorre, já não sei mais
quem desejo, que me assa viva, comendo
coalhada ou atenta ao buço deles, que ternura
inspira aquele gordo aqui, aquele outro ali, no
cinema é escuro e a tela não importa, só o lado,
o quente lateral, o mínimo pavio. A portadora
deste sabe onde me encontro até de olhos
fechados; falo pouco; encontre; esquina de
Concentração com Difusão, lado esquerdo de
quem vem, jornal na mão, discreta.
1 828
2
Fernando Pessoa
18 - Quem me dera que eu fosse o pó da estrada
Quem me dera que eu fosse o pó da estrada
E que os pés dos pobres me estivessem pisando...
Quem me dera que eu fosse os rios que correm
E que as lavadeiras estivessem à minha beira...
Quem me dera que eu fosse os choupos à margem do rio
E tivesse só o céu por cima e a água por baixo...
Quem me dera que eu fosse o burro do moleiro
E que ele me batesse e me estimasse...
Antes isso que ser o que atravessa a vida
Olhando para trás de si e tendo pena...
E que os pés dos pobres me estivessem pisando...
Quem me dera que eu fosse os rios que correm
E que as lavadeiras estivessem à minha beira...
Quem me dera que eu fosse os choupos à margem do rio
E tivesse só o céu por cima e a água por baixo...
Quem me dera que eu fosse o burro do moleiro
E que ele me batesse e me estimasse...
Antes isso que ser o que atravessa a vida
Olhando para trás de si e tendo pena...
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