Tristeza e Melancolia

Poemas neste tema

Maria de Lourdes Hortas

Maria de Lourdes Hortas

Estações

Poderia afogar-me
na silente cisterna de lágrimas
léguas de um longo tempo extraviado
quando o mar recua
para ermo horizonte
de incompletude e inesperança.
Todavia há marés que me resgatam
réstia de luz por instantes ferindo
a silente espessura da lembrança.

969
Mário Donizete Massari

Mário Donizete Massari

Canto à poesia

Se isto que eu canto agora
fosse alegria,
eu não cantaria.

Pois esta minha canção
é minha tristeza
em forma de poesia.

Pungiu-me a solidão
na minha vida vazia.
Encheu-se o campo de flores,
orquídeas
e braços que já não abrem
para colhê-las.

Triste vida vazia . . .

870
Mário Dionísio

Mário Dionísio

As Solicitações e Emboscadas

Pode-se pintar com óleo
com petróleo
ou aguarrás

Mas pode-se também pintar com lágrimas
silenciosas

No desprezo das horas odiosas
tanto faz

1 815
Maria da Costa Lage

Maria da Costa Lage

Haicai

A chuva a descer,
como tristeza fininha,
vai filtrando o ser.

A bola batida
no pingue-pongue estonteia,
assim como a vida.

850
Mário Donizete Massari

Mário Donizete Massari

Fragmento

de estrelas
e o silêncio da noite
há de espargir lágrimas
de meus olhos

Poderei eu ver as estrelas?

Triste será a noite com certeza
pois feriu-me a poesia do amor

Quão belo seria a noite
e as estrelas
se não me faltasse
esse fragmento de vida

900
Masako Akeho

Masako Akeho

Haicai

Casa de vespas
zunindo em círculos
palavras picantes

O morro iluminado
do barracão sem luz
choro de criança

885
Marta Gonçalves

Marta Gonçalves

Retrato do Poeta

Companheiro do vento, rosto de sal.
Ontem existia energia nos olhos.
O pórtico do tempo aberto ao silêncio
da alma.
Nossos fracassos nossos fracassos
desenhados na imaginação.

994
Marcelo Almeida de Oliveira

Marcelo Almeida de Oliveira

Shopping center

Olhos de desejo barato.
Vitrines de beleza barata.
sozinhos todos
homens,
desejando,
sozinhos.
Alheios à música ambiente.
- Meu Deus! Quanta falta de amor!
Lágrima solitária
molhou despercebida.

924
Marcos A. P. Ribeiro

Marcos A. P. Ribeiro

12 SETEMBRO 1977

Robert Lowell morto num táxi em Manhattan.

O sol parece infantil.

929
Marcelo Almeida de Oliveira

Marcelo Almeida de Oliveira

Adormecendo

O cansaço é tanto
que as lágrimas saem da pena
em camera lenta.
.
.
.
Tudo é turvo
até o estorvo.
.
.
.
Não tenho mais forças
para fingir.

860
Marco Antônio de Souza

Marco Antônio de Souza

Radiografia

Em mim a alegria é fugaz
e no limiar dos bons momentos
eu já prevejo o fantasma de seu fim;
em mim o riso franco é fraco,
o peito aberto é incerto,
a angústia e o medo dão-se as mãos;
a esperança tem medo de entrar
pois chega, bate à porta
e eu a mando embora...

993
Mário Hélio

Mário Hélio

46-III-(Feitura)

criança magra e feia
homem brabo e feio
mulher velha e feia
criança inesperança
homem sem ânsia
mulher sem crença
e tudo horrendo e feio
alma feia deus feio

1 007
Machado de Assis

Machado de Assis

A uma Senhora que me Pediu Versos

Pensa em ti mesma, acharás
Melhor poesia,
Viveza, graça, alegria,
Doçura e paz.

Se já dei flores um dia,
Quando rapaz,
As que ora dou têm assaz
Melancolia.

Uma só das horas tuas
Valem um mês
Das almas já ressequidas.

Os sóis e as luas
Creio bem que Deus os fez
Para outras vidas.

2 242
Mário Hélio

Mário Hélio

6 - VI (Clariluz)

ontem à noite
eu vi teu espírito sobrevoar a cidade
e apagar silenciosamente
todas as luzes.

955
Mário Hélio

Mário Hélio

21-I-(As fezes da festa)

hoje derramamos
o líquido e a lágrima,
amanhã beberemos
o sangue e o suor de sempre.

939
João Linneu

João Linneu

Biruta

Por vezes, dentro é tormento;
e fora,- ao relento de mim -,
por mais que tento, nada encanta.
Dentro, - na insônia -,
sem nenhum alento,
louca biruta ao sabor do vento.

982
Jorge Lescano

Jorge Lescano

Inverno

Ao amanhecer
grita o quero-quero
sobre a geada.

A mulher abraça
a garrafa de cachaça.
Miserável casaco.

968
Tomoko Narita Sabiá

Tomoko Narita Sabiá

Inverno

Chuva fina e fria.
No caminho da pedreira
chora o bambual.

799
Valéry Larbaud

Valéry Larbaud

Descuido

Mergulhei por descuido teus olhos
Em outros mares, em outros vinhos:
Perigosas paisagens, proibidas,
Que desfazem seus próprios caminhos.
Hoje, mais nada sabemos, loucos
E bêbados náufragos de um sonho.
Os nossos silêncios estão roucos
De tanto nos ferirmos. Choramos.
Que outros céus acolham nossos corpos.

752
Valéry Larbaud

Valéry Larbaud

Formalismo

Já cansada de elipses e parábolas,
ela traçou um silêncio retilíneo
onde as nuvens se foram perfilar.

Suspensos às arestas dessa fórmula,
choramos o rigor do formalismo,
felizes, delirantes, ensopados.

887
José Eustáquio da Silva

José Eustáquio da Silva

Psicograma

já estou morto de viver
basta-me ver a lua
não tem rua onde moro
nem motivo porque choro

existem espinhos demais
não quero mais
chega de poesia
bastam-me as estrelas

quando eu puder sorrir
a lua será cheia
a rua será alegre
motivo não terá motivo
e as estrelas
sorriram também

822
José Eustáquio da Silva

José Eustáquio da Silva

Confidente

dedos à deriva
navegando entre cordas
nau sem direção
neste mar meu violão

toada dissonante
mar revolto intrigante
maremoto de saudade
avesso de realidade
desafino de coração

geme violão
confidente dos meus ais
não quero mais
navegar assim

geme violão
confidente dos meus ais
não quero mais
me afogar assim

1 014
Iacyr Anderson Freitas

Iacyr Anderson Freitas

XXII

sempre a noite na escada
sempre o quarto a
luminária
o disco de sempre
essa toada sem graça
esse asco profundo
esse medo de sacrificar-se

esse sempre

XXII

Sempre la notte nella scala
sempre la stanza la
lucerna
il disco di sempre
quella canzone senza grazia
quella nausea profonda
quella paura di sacrificarsi

quel sempre

866
Iracema de Camargo Aranha

Iracema de Camargo Aranha

Primavera

Menino chora
Pipa sumiu no espaço
Linha partida.

Galhos curvados
como a pedir perdão
Nobre chorão.

Finados... Mortos
Presença dos ausentes
Quanta saudade...

923