Solidão
Poemas neste tema
Fernando Pessoa
Já sei: alguém disse a verdade.
Já sei: alguém disse a verdade.
Até os cordéis parecem aflitos,
Entra neste lar o objectivo.
E cada um ficou de fora, como um pano na corda
Que a chuva apanha esquecido na noite de janelas fechadas.
Até os cordéis parecem aflitos,
Entra neste lar o objectivo.
E cada um ficou de fora, como um pano na corda
Que a chuva apanha esquecido na noite de janelas fechadas.
1 123
Fernando Pessoa
A estrada inteiramente insubjectiva
A estrada inteiramente insubjectiva
Branca, branca, sem pensamento algum
Branca, branca, sem pensamento algum
1 416
Fernando Pessoa
Que somos nós? Navios que passam um pelo outro na noite,
Que somos nós? Navios que passam um pelo outro na noite,
Cada um a vida das linhas das vigias iluminadas
E cada um sabendo do outro só que há vida lá dentro e mais nada.
Navios que se afastam ponteados de luz na treva,
Cada um indeciso diminuindo para cada lado do negro
Tudo mais é a noite calada e o frio que sobe do mar.
Cada um a vida das linhas das vigias iluminadas
E cada um sabendo do outro só que há vida lá dentro e mais nada.
Navios que se afastam ponteados de luz na treva,
Cada um indeciso diminuindo para cada lado do negro
Tudo mais é a noite calada e o frio que sobe do mar.
1 385
Fernando Pessoa
Entre o sossego e o arvoredo,
Entre o sossego e o arvoredo,
Entre a clareira e a solidão,
Meu devaneio passa a medo
Levando-me a alma pela mão.
É tarde já, e ainda é cedo.
[...]
Entre a clareira e a solidão,
Meu devaneio passa a medo
Levando-me a alma pela mão.
É tarde já, e ainda é cedo.
[...]
2 080
Fernando Pessoa
DOBRE
Peguei no meu coração
E pu‑lo na minha mão,
Olhei‑o como quem olha
Grãos de areia ou uma folha.
Olhei‑o pávido e absorto
Como quem sabe estar morto;
Com a alma só comovida
Do sonho e pouco da vida.
E pu‑lo na minha mão,
Olhei‑o como quem olha
Grãos de areia ou uma folha.
Olhei‑o pávido e absorto
Como quem sabe estar morto;
Com a alma só comovida
Do sonho e pouco da vida.
2 087
Fernando Pessoa
Para quê te falar? Ninguém me irmana
Para quê te falar? Ninguém me irmana
Os pensamentos na compreensão.
Sou só por ser supremo, e tudo em mim
É maior.
Os pensamentos na compreensão.
Sou só por ser supremo, e tudo em mim
É maior.
1 218
Fernando Pessoa
Ah as horas indecisas
Ah as horas indecisas em que a minha vida parece de um outro...
As horas do crepúsculo no terraço dos cafés cosmopolitas!
Na hora de olhos húmidos em que se acendem as luzes
E o cansaço sabe vagamente a uma febre passada.
As horas do crepúsculo no terraço dos cafés cosmopolitas!
Na hora de olhos húmidos em que se acendem as luzes
E o cansaço sabe vagamente a uma febre passada.
1 307
Fernando Pessoa
EXISTÊNCIA: Vaga noção abstracta,
Vaga noção abstracta,
Inda sou mais que tu!
Em mim é visto nu
(E compreende-o ninguém)
O Mistério (...) cru
Que mundo e vida têm.
Sou nome vago e simples
Mas menor verdade sou
Ninguém já me abraçou
(Compreendeu-me ninguém)
Meu nome quem achou
Não pôde ir mais além.
Inda sou mais que tu!
Em mim é visto nu
(E compreende-o ninguém)
O Mistério (...) cru
Que mundo e vida têm.
Sou nome vago e simples
Mas menor verdade sou
Ninguém já me abraçou
(Compreendeu-me ninguém)
Meu nome quem achou
Não pôde ir mais além.
1 250
Fernando Pessoa
Pouco a pouco o campo se alarga e se doura.
Pouco a pouco o campo se alarga e se doura.
A manhã extravia-se pelos irregulares da planície.
Sou alheio ao espectáculo que vejo: vejo-o.
E exterior a mim. Nenhum sentimento me liga a ele,
E é esse o sentimento que me liga à manhã que aparece.
A manhã extravia-se pelos irregulares da planície.
Sou alheio ao espectáculo que vejo: vejo-o.
E exterior a mim. Nenhum sentimento me liga a ele,
E é esse o sentimento que me liga à manhã que aparece.
1 368
Fernando Pessoa
Quem me dera, quando fores
Quem me dera, quando fores
Pela rua sem me ver,
Supor que há coisas melhores
E que eu as pudera ter.
Pela rua sem me ver,
Supor que há coisas melhores
E que eu as pudera ter.
1 504
Fernando Pessoa
Quantas vezes a memória
Quantas vezes a memória
Para fingir que inda é gente,
Nos conta uma grande história
Em que ninguém está presente.
Para fingir que inda é gente,
Nos conta uma grande história
Em que ninguém está presente.
1 218
Fernando Pessoa
Eu vi ao longe um navio
Eu vi ao longe um navio
Que tinha uma vela só,
Ia sozinho no mar...
Mas não me fazia dó.
Que tinha uma vela só,
Ia sozinho no mar...
Mas não me fazia dó.
1 186
Fernando Pessoa
Baila em teu pulso delgado
Baila em teu pulso delgado
Uma pulseira que herdaste...
Se amar alguém é pecado,
És santa, nunca pecaste.
Uma pulseira que herdaste...
Se amar alguém é pecado,
És santa, nunca pecaste.
1 289
Fernando Pessoa
«Ribeirinho, ribeirinho,/Que vais a correr ao léu
«Ribeirinho, ribeirinho,
Que vais a correr ao léu
Tu vais a correr sozinho,
Ribeirinho, como eu.»
Que vais a correr ao léu
Tu vais a correr sozinho,
Ribeirinho, como eu.»
1 590
Fernando Pessoa
«Vesti-me toda de novo
«Vesti-me toda de novo
E calcei sapato baixo
Para passar entre o povo
E procurar quem não acho.»
E calcei sapato baixo
Para passar entre o povo
E procurar quem não acho.»
1 290
Fernando Pessoa
Deram-me, para se rirem,
Deram-me, para se rirem,
Uma corneta de barro,
Para eu tocar à entrada
Do Castelo do Diabo.
Uma corneta de barro,
Para eu tocar à entrada
Do Castelo do Diabo.
1 227
Fernando Pessoa
Todos lá vão para a festa
Todos lá vão para a festa
Com um grande azul de céu.
Nada resta, nada resta...
Resta sim, que resta eu.
Com um grande azul de céu.
Nada resta, nada resta...
Resta sim, que resta eu.
1 545
Fernando Pessoa
O abismo é o muro que tenho
O abismo é o muro que tenho
Ser eu não tem um tamanho.
Ser eu não tem um tamanho.
1 751
Fernando Pessoa
A quem a Natureza não fez belo
A quem a Natureza não fez belo
Com seu corpo lhe disse: Tu não ames!
A fealdade é o destinado selo
Com que uma alma é votada à solidão.
Com seu corpo lhe disse: Tu não ames!
A fealdade é o destinado selo
Com que uma alma é votada à solidão.
1 360
Fernando Pessoa
Tivesse eu mil parentes ou cercado
Tivesse eu mil parentes ou cercado
Fosse de amigos, camaradas mil,
Eu estaria tão só como hoje estou.
Fosse de amigos, camaradas mil,
Eu estaria tão só como hoje estou.
1 394
Fernando Pessoa
Eu tenho ideias e razões,
Eu tenho ideias e razões,
Conheço a cor dos argumentos
E nunca chego aos corações.
Conheço a cor dos argumentos
E nunca chego aos corações.
1 721
Fernando Pessoa
Há entre mim e o real um véu
Há entre mim e o real um véu
À própria concepção impenetrável.
Não me concebo amando, combatendo,
Vivendo como os outros. Há em mim,
Uma impossibilidade de existir
De que [abdiquei], vivendo.
À própria concepção impenetrável.
Não me concebo amando, combatendo,
Vivendo como os outros. Há em mim,
Uma impossibilidade de existir
De que [abdiquei], vivendo.
2 265
Fernando Pessoa
Sinto esse frio coração eu mesmo
Sinto esse frio coração eu mesmo
Admirado de ser um coração,
Tão frio está! Já o sonho
Porque quis fingir para mim mesmo
Esquecê-lo
Admirado de ser um coração,
Tão frio está! Já o sonho
Porque quis fingir para mim mesmo
Esquecê-lo
1 538
Fernando Pessoa
Fantasma sem lugar, que a minha mente
Fantasmas sem lugar, que a minha mente
Figura no visível, sombras minhas
Do diálogo comigo.
Figura no visível, sombras minhas
Do diálogo comigo.
1 550
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