Saudade e Ausência

Poemas neste tema

Maria Aparecida Reis Araújo

Maria Aparecida Reis Araújo

Domínios da Casa

É esta nitidez abrindo
lentamente as portas
ao encontro das horas.

Cheiro de sol em pomares e vinhos.
Acordes nas bordas de um cálice
desfiando memória no tempo.

Território de vidas a casa
é um canto explícito de ausências.

Reacendendo chamas aquecendo o coração.

831
Marta Gonçalves

Marta Gonçalves

Sutilezas

Brinco com seus lábios
já ausentes de meus olhos.
Imagino o relógio de sol
marcando peles brancas.
Lembranças envolvem sutilezas
que suas mãos ofereciam.
Doçuras carregam água de geleiras
e em cada verso que te oferto vejo
minha morte.

953
Maria Aparecida Reis Araújo

Maria Aparecida Reis Araújo

Distância

Sol de memória
na incógnita das horas.

Ruídos na pele expectante
e olhos transidos de espera.

No ouro das molduras
fios de ausência perdidos
no mosaico de lembranças.

Buscam o rosto distante.

836
Marta Gonçalves

Marta Gonçalves

Noite

Tenho nos olhos suas mãos

olhando açucenas na jarra.

O tempo vai multiplicar a noite.

967
Marcelo Almeida de Oliveira

Marcelo Almeida de Oliveira

Viagem

Enxuga o choro, amor
conserva a chama
enxerga a chance
enxagua o olho
no meu retorno
pro seu chamego.

842
Mário Hélio

Mário Hélio

6 - VI (Clariluz)

ontem à noite
eu vi teu espírito sobrevoar a cidade
e apagar silenciosamente
todas as luzes.

955
Lúcio José Gusman

Lúcio José Gusman

Sabor

E depois do amor,
muito tempo depois do amor,
não sinto apenas a saudade,
nem lembro apenas o teu perfume,
nem sigo ouvindo apenas a tua voz,
e os teus ais, e os meus te-amo.
Continuo sentindo o teu sabor,
depois do amor,
muito tempo depois do amor...

816
Luciano Matheus Tamiozzo

Luciano Matheus Tamiozzo

Fim

É o fim...
Eu vim de um sonho
E para este sonho
Eu voltarei.

Não me procures
Pois contigo estarei
Povoando tua mente,
Teus sonhos de rei.

Estou desaparecendo,
Entre brumas e névoas
Eu vou sumir...

Me procure nos sonhos,
Lá sempre estarei,
Lá sempre ficarei.

960
Thereza Magalhães Pinto

Thereza Magalhães Pinto

Intransferível

Deixo exiladas
na distância do tempo
efêmero e rude
as lembranças do amor
que vive em mim e
exaltei mais do que pude.

Queixo-me calada
um saldar de profundo
escuro olhar de sensações
e luzes enfim
inexistentes.

Concentro-me
impiedosa, veemente
nos meus
séculos incríveis
de solidão total.

942
Lígia Andrade

Lígia Andrade

Silêncio

O silêncio brota
Flui
escorre em cada canto
Da casa
Exala um perfume triste
De abandono
De algo que passou
Não volta mais
O irremediável
Silêncio
Faca de dois gumes
Cicatriza e ao mesmo tempo fere
E nós
Aproximados na mesma freqüência morna
Mais nos afastamos
Por falta de palavras...

918
Luís António Cajazeira Ramos

Luís António Cajazeira Ramos

Ai, Cais!

Ah, todo o cais é uma saudade de pedra!
Fernando Pessoa, in Ode Marítima
... o tempo (...) essa angústia máxima...
Soares Feitosa, dOs Poemas da Besta,
in Psi, a Penúltima.

Cais, saudade em pedra.
Zarpam lábios na memória.
Tempo: angústia máxima.

Para Soares Feitosa, zarpando do Salvador
ao Siarah, de volta-volta...

1 018
Valéry Larbaud

Valéry Larbaud

Mise au Point

Deixou teu gesto ali
nenhuma rosa,
delicadeza e não ser,
nenhum suspiro,
silêncio e resposta.

E a lua nenhuma
grita a lembrança esquecida
de teu nenhum sorriso.

Frios cristais, no entanto,
que guardam vinhos de sangue,
não são teus olhos, ainda.

932
José Eustáquio da Silva

José Eustáquio da Silva

Tive

vou assim sem rumo

chutando pedras pelo caminho

tenho lenço e documento

só não tenho pra onde ir

já tive ao menos um amor

que chutava pedras comigo

hoje me restam apenas as pedras

apenas as pedras...

frias pedras...

981
José Eustáquio da Silva

José Eustáquio da Silva

Confidente

dedos à deriva
navegando entre cordas
nau sem direção
neste mar meu violão

toada dissonante
mar revolto intrigante
maremoto de saudade
avesso de realidade
desafino de coração

geme violão
confidente dos meus ais
não quero mais
navegar assim

geme violão
confidente dos meus ais
não quero mais
me afogar assim

1 014
José Eustáquio da Silva

José Eustáquio da Silva

Inexato

odeio números

bastam-me as palavras

os números são inexatos

imprecisos

jamais conseguirão

medir o tamanho

da dor de uma saudade

ou ainda

o quanto de emoção

existe numa lágrima

odeio números

bastam-me as palavras...

1 462
Iracema de Camargo Aranha

Iracema de Camargo Aranha

Primavera

Menino chora
Pipa sumiu no espaço
Linha partida.

Galhos curvados
como a pedir perdão
Nobre chorão.

Finados... Mortos
Presença dos ausentes
Quanta saudade...

923
Helena Ortiz

Helena Ortiz

Os Que Não

como é que eu ia saber
que era teu último abraço
e que a tranquilidade
com que te foste
era apenas a de quem
afinal
desvenda o mistério?

Aqui ficaram os que não vêem
não percebem
não ouvem
não respondam

823
Helena Ortiz

Helena Ortiz

Esperando a Hora

não ouço mais teus gritos
não corro mais atrás de ti
não te abraço
não gozo teu riso
não me espanto

trago em mim esse grito
que não rompe
esse tédio de sala de espera
quieta
onde minha ficha é a última
e talvez não haja tempo para hoje

1 028
Helena Ortiz

Helena Ortiz

Arrumando o Quarto

hoje mexi em tuas coisas
em tuas mínimas coisas
em teus pequenos vestidos
tuas sandalinhas
em pedaços de coisas
que ganhavam vida em tuas mãos
ouvi teus passos curtos
te reencontrei em gavetas fechadas
armários intocados
brinquedos mudos
chorei entre tuas roupas
e precisei me dizer
para não naufragar
não mexe aí, mamãe

985
Fernanda dos Santos

Fernanda dos Santos

Vai

Vai-me o pensamento
voa longe
vive a flutuar

Navega
carrega
sossega
essa minha saudade de amar !

857
Francisco Carvalho

Francisco Carvalho

Lavoura

As minhas mãos

já foram robustas

já plantaram

sementes de milho

nas terras dos filisteus

hoje só semeiam

as lavouras do adeus.

2 195
Fernando Cereja

Fernando Cereja

Qdo a cabeça

qdo a cabeça
papel
q se escreve
a saudade
borracha pincel
q se esquece.

761
Elisa Lucinda

Elisa Lucinda

Incompreensão dos Mistérios

Saudades de minha mãe.
Sua morte faz um ano e um fato
Essa coisa fez
eu brigar pela primeira vez
com a natureza das coisas:
que desperdício, que descuido
que burrice de Deus!
Não de ela perder a vida
mas a vida de perdê-la.
Olho pra ela e seu retrato.
Nesse dia, Deus deu uma saidinha
e o vice era fraco.

1 896
Emílio Moura

Emílio Moura

Exílio

Já nada vejo nessa bruma
que ora te esconde.
Quero encontrar-te, mas à noite
não me traz nenhuma
esperança de onde nem quando.

Amor, ah, quanto me deves!
Que é dos pés que, leves, leves,
roçaram por este chão?

Alma, és só tempo e solidão.

1 153