Escritas

Identidade

Poemas neste tema

Sebastião Alba

Sebastião Alba

Ícaro

Da Mafalala estorva-nos
a memória dos gregos
É um anjo negro segredado
e assim goza
de asas sussurrantes
Desce por entre
intervalos do vento
e findo o voo refunde
o modelo de cera
Como qualquer pássaro faz ninho
ele no vestido das mulheres
Sem céu fixo
exala a plumagem
da comum nudez interrompida.


1 210 1
Cruz e Sousa

Cruz e Sousa

Litania dos pobres

Os miseráveis, os rotos
São as flores dos esgotos.
São espectros implacáveis
Os rotos, os miseráveis.
São prantos negros de furnas
Caladas, mudas, soturnas.
São os grandes visionários
Dos abismos tumultuários.
As sombras das sombras mortas,
Cegos, a tatear nas portas.
Procurando o céu, aflitos
E varando o céu de gritos.
Faróis à noite apagados
Por ventos desesperados.
Inúteis, cansados braços
Pedindo amor aos Espaços.
Mãos inquietas, estendidas
Ao vão deserto das vidas.
Figuras que o Santo Ofício
Condena a feroz suplício.
Arcas soltas ao nevoento
Dilúvio do Esquecimento.
Perdidas na correnteza
Das culpas da Natureza.
Ó pobres! Soluços feitos
Dos pecados imperfeitos!
Arrancadas amarguras
Do fundo das sepulturas.
Imagens dos deletérios,
Imponderáveis mistérios.
Bandeiras rotas, sem nome,
Das barricadas da fome.
Bandeiras estraçalhadas
Das sangrentas barricadas.
Fantasmas vãos, sibilinos
Da caverna dos Destinos!
Ó pobres! o vosso bando
É tremendo, é formidando!
Ele já marcha crescendo,
O vosso bando tremendo...
Ele marcha por colinas,
Por montes e por campinas.
Nos areiais e nas serras
Em hostes como as de guerras.
Cerradas legiões estranhas
A subir, descer montanhas.
Como avalanches terríveis
Enchendo plagas incríveis.
Atravessa já os mares,
Com aspectos singulares.
Perde-se além nas distâncias
A caravana das ânsias.
Perde-se além na poeira,
Das Esferas na cegueira.
Vai enchendo o estranho mundo
Com o seu soluçar profundo.
Como torres formidandas
De torturas miserandas.
E de tal forma no imenso
Mundo ele se torna denso.
E de tal forma se arrasta
Por toda a região mais vasta.
E de tal forma um encanto
Secreto vos veste tanto.
E de tal forma já cresce
O bando, que em vós parece.
Ó Pobres de ocultas chagas
Lá das mais longínquas plagas!
Parece que em vós há sonho
E o vosso bando é risonho.
Que através das rotas vestes
Trazeis delícias celestes.
Que as vossas bocas, de um vinho
Prelibam todo o carinho...
Que os vossos olhos sombrios
Trazem raros amavios.
Que as vossas almas trevosas
Vêm cheias de odor das rosas.
De torpores, d’indolências
E graças e quint’essências.
Que já livres de martírios
Vêm festonadas de lírios.
Vem nimbadas de magia,
De morna melancolia!
Que essas flageladas almas
Reverdecem como palmas.
Balanceadas no letargo
Dos sopros que vem do largo...
Radiantes d’ilusionismos,
Segredos, orientalismos.
Que como em águas de lagos
Bóiam nelas cisnes vagos...
Que essas cabeças errantes
Trazem louros verdejantes.
E a languidez fugitiva
De alguma esperança viva.
Que trazeis magos aspeitos
E o vosso bando é de eleitos.
Que vestes a pompa ardente
Do velho Sonho dolente.
Que por entre os estertores
Sois uns belos sonhadores.
2 977 1
Daniel Faria

Daniel Faria

Estranho é o sono que não te devolve.

Estranho é o sono que não te devolve.
Como é estrangeiro o sossego
de quem não espera recado.
Essa sombra como é a alma
de quem já só por dentro se ilumina
e surpreende
e por fora é
apenas peso de ser tarde.Como é
amargo não poder guardar-te
em chão mais próximo do coração.

1 372 1
Paulo Colina

Paulo Colina

Corpo a corpo

a vida é uma horda bárbara
de sentimentos

as noites tentam desde o princípio
de tudo
a derrubada de estigmas primários

o cotidiano tem sempre à mão
um repertório de sambas e blues

o papel branco vive me jogando
desafios na cara

ser marginal todavia
só interessa à paixão

bastaria ao poema apenas
a cor da minha pele?

962 1
Lalla Romano

Lalla Romano

Como uma flor o céu

Como uma flor o céu
debruado de vermelho posa
de leve sobre a terra escura

Como a flor caída
lentamente emurchece
e a sua cor serena
pouco a pouco escurece

Pende no céu profundo
estame de ouro, a lua


:


Simile a un fiore il cielo
dagli orli vermigli posa
lieve sulla terra oscura

Come il fiore caduto
lentamente appassisce
il suo sereno colore
a poco a poco imbruna

Pende nel cielo profondo
stame d'oro la luna



818 1
António Pocinho

António Pocinho

portal das selecções

Não sei em que rubrica me incluo: endereço insuficiente, recusado, desconhecido, residente em parte incerta, falecido ou outros.

673 1
Martin Luther King Jr.

Martin Luther King Jr.

A lei do olho por

A lei do olho por olho acaba por deixar todo mundo cego.
3 574 1
Herberto Helder

Herberto Helder

Vem das estampas de ouro, o sono encurva-lhe os cabelos

Vem das estampas de ouro, o sono encurva-lhe os cabelos,
fica branca de andar encostada à noite,
e respira, respira,

sim respira,
como uma colina tão nua
que os pulmões fossem uma renda de prata atormentada,
ou água cruel aberta

por ti,
tubarão crepitando pelo Índico,
entre geladas barragens de sal em rama,
com uma garra no ventre,
uma síncope,
um mergulho como uma flor

que se não chama negra,
nem cujo nome pode ser dito assim:
aquilo é a paixão,

mas que,
tremendo,
se pode pronunciar como beleza este espaço,
crime esta paisagem,
ou então:
a lua dança

como um vestido bêbedo
- ata lenços de um branco que desfaleça nos dedos,
e atira fora esse ramo,
e aí verás como é que eu me movo:

sim,
eu respiro,
estou direita,
deixa-me passar
- aqui vai uma ilha de pés descalços,
aqui é um espelho caminhando como a voz
por onde entram e saem
imagens cambaleantes,

e tu chamas-te então:
como eu vi o tempo,
era uma maneira cega de haver junquilhos
que giravam até se arrancarem dos terrenos nocturnos

e viverem como crianças ondulantes,
esquecidas do seu texto,
num exílio de espanto e beleza brusca,
de fazer pensar,
súbito,
na morte prometida a todas as coisas

que se aproximam demasiado do nosso amor,
e é então que tu dizes:
há casas desabitadas,
eu estou nessas casas

que tremem quando movo as mãos,
a minha cabeleira palpita:
é o sangue que sobe do coração apavorado
e se faz dócil,
quando o pente arrefece um a um os cabelos,

e então o meu nome é:
pimenta,
areia sentada,
abertura da luz para onde saltam laranjas que pulsam,

ah, deixa-me passar,
digo-te baixo como hoje me chamo
e como nunca mais me chamarei:
loucura,

loucura unida à rítmica matéria das coisas,
e se abrires o teu sono,
dessa vez única verás o que sou:
uma figura

impelida pela vertigem,
a inclinação do teu próprio conhecimento
sobre a morte iluminada por todos os
lados,

depois terei um só nome:
revelação,
até que os dias arquejantes me sufoquem e,
no terror que te atravessa como água dolorosa,

eu seja a tua ilha a prumo,
onde habitas,
tu próprio uma ilha desabitada,

entre a lua
como uma rosa infrene e os peixes frios
e selvagens.

4 067 1
Albert Camus

Albert Camus

Mesmo no banco dos réus,

Mesmo no banco dos réus, é sempre interessante ouvir falar de si mesmo.
3 031 1
Francisco José Tenreiro

Francisco José Tenreiro

Canção em África

Caminhos trilhados na Europa
de coração em África
Saudades longas de palmeiras vermelhas verdes amarelas
tons fortes da paleta cubista
que o Sl sensual pintou na paisagem;
saudade sentida de coração em África
ao atravessar estes campos de trigo sem bocas
das ruas sem alegrias com casas cariadas
pela metralha míope da Europa e da América
da Europa trilhada por mim Negro de coração em Á'frica.
De coração em África na simples leitura dominical
dos periódicos cantando na voz ainda escaldante da tinta
e com as dedadas de miséria dos ardinas das cities boulevards e baixas da Europa
trilhada por mim Negro e por ti ardina
cantando dizia eu em sua voz de letras as melancolias do orçamento que não equilibra
do Benfica venceu o Sporting ou não.
Ou antes ou talvez seja que desta vez vai haver guerra
para que nasçam flores roxas de paz
com fitas de veludo e caixões de pinho:
Oh as longas páginas do jornal do mundo
são folhas enegrecidas de macabro blue
com mourarias de facas e guernicas de toureiros.
Em três linhas (sentidas saudades de África) -
Mac Gee cidadão da América e da democracia
Mac Gee cidadão negro e da negritude
Mac Gee cidadão Negro da América e do Mundo Negro
Mac Gee fulminado pelo coração endurecido feito cadeira eléctrica
(do cadáver queimado de Mac Gee do seu coração em África e sempre vivo
floriram flores vermelhas flores vermelhas flores vermelhas
e também azuis e também verdes e também amarelas
na gama policroma da verdade do Negro
da inocência de Mac Gee) -
três linhas no jornal como um falso cartão de pêsames.
Caminhos trilhados na Europa
de coração em África.
De coração em África com o grito seiva bruta dos poemas de Guillen
de coração em África com a impetuosidade viril de I too am America
de coração em África com as árvores renascidas em todas estações nos belos
poemas de Diop
de coração em África nos rios antigos que o Negro conheceu e no mistério do
Chaka-Senghor
de coração em África contigo amigo Joaquim quando em versos incendiários
cantaste a África distante do Congo da minha saudade do Congo de coração em
África,
de coração em África ao meio dia do dia de coração em África
com o Sol sentado nas delicias do zénite
reduzindo a pontos as sombras dos Negros
amodorrando no próprio calor da reverberação os mosquitos da nocturna
picadela.
De coração em África em noites de vigília escutando o olho mágico do rádio
e a rouquidão sentimento das inarmonias de Armstrong.
De coração em África em todas as poesias gregárias ou escolares que zombam
e zumbem sob as folhas de couve da indiferença
mas que tem a beleza das rodas de crianças com papagaios garridos
e jogos de galinha branca vai até França
que cantam as volutas dos seios e das coxas das negras e mulatas
de olhos rubros como carvões verdes acesos.
De coração em África trilho estas ruas nevoentas da cidade
de África no coração e um ritmo de be bop nos lábios
enquanto que à minha volta se sussurra olha o preto (que bom) olha
um negro (óptimo), olha um mulato (tanto faz)
olha um moreno (ridículo)
e procuro no horizonte cerrado da beira-mar
cheiro de maresias distantes e areias distantes
com silhuetas de coqueiros conversando baixinho a brisa da tarde.
De coração em África na mão deste Negro enrodilhado e sujo de beira-cais
vendendo cautelas com a incisão do caminho da cubata perdida na carapinha
alvinitente;
de coração em África com as mãos e os pés trambolhos disformes
e deformados como os quadros de Portinari dos estivadores do mar
e dos meninos ranhosos viciados pelas olheiras fundas das fomes de Pomar
vou cogitando na pretidão do mundo que ultrapassa a própria cor da pele
dos homens brancos amarelos negros ou as riscas
e o coração entristece a beira-mar da Europa
da Europa por mim trilhada de coração em África
e chora fino na arritmia de um relójio cuja corda vai estalar
soluça a indignação que fez os homens escravos dos homens
mulheres escravas de homens crianças escravas de homens negros escravos dos homens
e também aqueles de que ninguém fala e eu Negro não esqueço
como os pueblos e os xavantes os esquimós os ainos eu sei lá
que são tantos e todos escravos entre si.
Chora coração meu estala coração meu enternece-te meu coração
de uma só vez (oh orgão feminino do homem)
de uma só vez para que possa pensar contigo em África
na esperança de que para o ano vem a monção torrencial
que alagará os campos ressequidos pela amargura da metralha
e adubados pela cal dos ossos de Taszlitzki
na esperança de que o Sol há-de prenhar as espigas de trigo para os meninos viciados
e levará milho às cabanas destelhadas do último rincão da Terra
distribuirá o pão o vinho e o azeite pelos aliseos;
na esperança de que as entranhas hiantes de um menino antipoda
haja sempre uma túlipa de leite ou uma vaca de queijo que lhe mitigue a sede da existência.
Deixa-me coração louco
deixa-me acreditar no grito de esperança lançado pela paleta viva de Rivera
e pelos oceanos de ciclones frescos das odes de Neruda;
deixa-me acreditar que do desespero másculo de Picasso sairão pombas
que como nuvens voarão os céus do mundo de coração em África.
3 339 1
Simeão Cachamba

Simeão Cachamba

Xikalamidade

Se um dia me viste a vagar as ruas da cidade
(qual molweni atribulado na sua vagabundagem)
o corpo constelado de remendos, quase seminu
todavia por todos poros respirando dignidade

hás-de me ver hoje envolto em nova embalagem
caso cruze denovamente a mesma esquina com tu
Não me pergunte o raio por que deixava eu esta
indumentária envelhecer lá bem no fundo do baú

Um pouco de bom-senso e apenas dois dedos de testa
e saberás que ninguém grama de andar com o corpo nu
Se antes de minhas foram alguém que eu desconheço
estas < jeans > coçadas que ao meu corpo se ajustam bem
como se feitas por encomenda, com as medidas que eu meço
é porque em estado natural sempre iguais são os homens
489 1
José Luandino Vieira

José Luandino Vieira

Sons

A guitarra
é som antepassado.

Partiram-se as cordas
esticadas pela vida.

Chorei fado.

Que importa hoje
se o recuso:

o ngoma é o som adivinhado!
2 587 1
Tomaz Vieira da Cruz

Tomaz Vieira da Cruz

N'gola - Flor de Bronze

Filha de branco que morreu na guerra
e de uma preta linda do Libolo,
o teu olhar até de noite encerra
todo o luar das lendas do Catolo!

Ó flor estranha! já não tem consolo
a tua magoa, a tua dor na terra!
Ó flor estranha do febril Capolo
neta dum soba que perdeu a guerra!

Estátua ardente em bronzeadas chamas
que tentação e perdição derramas
por sobre a história negra, quase finda!

Neta dum soba que acabou chorando,
filha de branco que morreu lutando
e duma preta tristemente linda!
2 103 1
Francisco José Tenreiro

Francisco José Tenreiro

Romance de Sam Marinha

Sam Marinha
a que menina foi no norte
chegou naquele navio à ilha.

Risadas brancas
e goles de champagne!

Á hora do espalmadoiro
os moços do comércio
passaram de gravatas garridas.
O monhé chegou na porta
e limpou o suor
ao lenço de seda que importou do Japão!

Ai!
Aquela que chegou na ilha
como uma risada branca
está fechando a carinha a terra.

Braços pendentemente tristes
só os olhinhos
estão pulando para lá da fortaleza
querendo ver a Europa!...

Á hora do espalmadoiro
os moços do comércio
passaram de gravatas garridas.
O monhé chegou na porta
e limpou o suor
ao lenço de seda que importou do Japa~o!

Ai!
Aquela que chegou na ilha
como uma risada branca
está fechando a carinha a terra.

Braços pendentemente tristes
st os olhinhos
estão pulando para lá da fortaleza
querendo ver a Europa!...
1 703 1
Diego Pezelho

Diego Pezelho

Meu senhor arcebispo, and’eu escomungado

Meu senhor arcebispo, and’eu escomungado
porque fiz lealdade; enganou-me o pecado!
Soltade-m’, ai, senhor, e jurarei, mandado
que seja traedor.

Se traiçon fezesse, nunca vo-la diria;
mais pois fiz lealdade, vel por Santa Maria,
soltade-m’, ai, senhor, e jurarei, mandado
que seja traedor.

Per mia maleventura tive hun en Sousa
e dei-o a seu don’ e tenho que fiz gran cousa.
Soltade-m’ ai, senhor, e jurarei, mandado
que seja traedor.

Por meus negros pecados tive hun castelo forte
e dei-o a seu don’, e hei medo da morte.
Soltad-m’, ai, senhor, mandado
que seja traedor.
1 804 1
Aníbal Machado

Aníbal Machado

O homem que ri

O homem que ri liberta-se. O que faz rir esconde-se.
Teu inimigo de certo modo te pertence: é um dos teus aspectos.
1 601 1
Arlindo Barbeitos

Arlindo Barbeitos

Em teus dentes

Em teus dentes
o sol
é diamante de fantasia
a lua
caco-de-garrafa
e
a mentira
verdade vagabunda
errando de cágado
em torno da lagoa dos olhos da noite
na treva aveludada
de tua pele
os dedos curiosos
são estrelas de marfim
à busca
de um dia caprichoso
despontando de miragem
por detrás das corcundas de elefantes adormecidos
1 397 1
Costa Andrade

Costa Andrade

Contratados

A hora do sol posto
as rolas traçam
desenhos de feitiços sinuosos

caminhos sob a calma das mulembas

e abraços de segredos e silêncios.

...longe...muito longe
um risco brando
acorda os ecos dos quissanjes
vermelho como o fogo das queimadas
com imagens de mucuisses e luar.

Canções que os velhos cantam
murmurando.

e nos homens cansados de lembrar
a distância vai calando mágoas.

renasce em cada braço
a força de um secreto entendimento.
1 201 1
Gonçalves Crespo

Gonçalves Crespo

A Negra

Teus olhos, ó robusta criatura,
Ó filha tropical!
Relembram os pavores de uma escura
Floresta virginal.

És negra sim, mas que formosos dentes,
Que pérolas sem par
Eu vejo e admiro em rúbidos crescentes
Se te escuto falar!

Teu corpo é forte, elástico, nervoso.
Que doce a ondulação
Do teu andar, que lembra o andar gracioso
Das onças do sertão!

As lânguidas sinhás, gentis, mimosas,
Desprezam tua cor,
Mas invejam-te as formas gloriosas
E o olhar provocador.

Mas andas triste, inquieta e distraída;
Foges dos cafezais,
E no escuro das matas, escondida,
Soltas magoados ais...

Nas esteiras, à noite, o corpo estiras
E com ânsias sem fim,
Levas aos seios nus, beijas e aspiras
Um cândido jasmim...

Amas a lua que embranquece os matos,
Ó negra juriti!
A flor da laranjeira, e os níveos cactos
E tens horror de ti!...

Amas tudo o que lembre o branco, o rosto
Que viste por teu mal,
Um dia que saías, ao sol posto,
De um verde taquaral...


Publicado no livro Noturnos (1882).

In: CRESPO, Gonçalves. Obras completas. Pref. Afrânio Peixoto. Rio de Janeiro: Livros de Portugal, 194
2 459 1
Cláudio Manuel da Costa

Cláudio Manuel da Costa

I (Sonetos) [Para cantar de amor tenros cuidados

Para cantar de amor tenros cuidados,
Tomo entre vós, ó montes, o instrumento;
Ouvi pois o meu fúnebre lamento;
Se é, que de compaixão sois animados:

Já vós vistes, que aos ecos magoados
Do trácio Orfeu parava o mesmo vento;
Da lira de Anfião ao doce acento
Se viram os rochedos abalados.

Bem sei, que de outros gênios o Destino,
Para cingir de Apolo a verde rama,
Lhes influiu na lira estro divino;

O canto, pois, que a minha voz derrama,
Porque ao menos o entoa um peregrino,
Se faz digno entre vós também de fama.


Publicado no livro Obras (1768).

In: COSTA, Cláudio Manuel da. Obras. Introd. cronol. e bibliogr. Antônio Soares Amora. Lisboa: Bertrand, 1959. (Obras primas da língua portuguesa
4 844 1
Olga Savary

Olga Savary

Pedido

A Manuel Bandeira


Quando eu estiver mais triste
mas triste de não ter jeito,
quando atormentados morcegos
— um no cérebro outro no peito —
me apunhalarem de asas
e me cobrirem de cinza,
vem ensaiando de leve
leve linguagem de flores.
Traze-me a cor arroxeada
daquela montanha — lembra?
que cantaste num poema.
Traze-me um pouco de mar
ensaiando-se em acalanto
na líquida ternura
que tanto já me embalou.

Meu velho poeta, canta
um canto que me adormeça
nem que seja de mentira.

Caieiras, 25 de janeiro de 1954


In: SAVARY, Olga. Espelho provisório. Pref. Ferreira Gullar. Rio de Janeiro: J. Olympio, 1970.

NOTA: Referência ao poema "Vou-me Embora Pra Pasárgada", de Manuel Bandeir
2 962 1
Vicente de Carvalho

Vicente de Carvalho

Palavras ao Mar

Mar, belo mar selvagem
Das nossas praias solitárias! Tigre
A que as brisas da terra o sono embalam,
A que o vento do largo erriça o pêlo!
Junto da espuma com que as praias bordas,
Pelo marulho acalentada, à sombra
Das palmeiras que arfando se debruçam
Na beirada das ondas — a minha alma
Abriu-se para a vida como se abre
A flor da murta para o sol do estio.

Quando eu nasci, raiava
O claro mês das garças forasteiras;
Abril, sorrindo em flor pelos outeiros,
Nadando em luz na oscilação das ondas,
Desenrolava a primavera de ouro:
E as leves garças, como folhas soltas
Num leve sopro de aura dispersadas,
Vinham do azul do céu turbilhonando
Pousar o vôo à tona das espumas...

É o tempo em que adormeces
Ao sol que abrasa: a cólera espumante,
Que estoura e brame sacudindo os ares,
Não os sacode mais, nem brame e estoura;
Apenas se ouve, tímido e plangente,
O teu murmúrio; e pelo alvor das praias,
Langue, numa carícia de amoroso,
As largas ondas marulhando estendes...

Ah! vem daí por certo
A voz que escuto em mim, trêmula e triste,
Este marulho que me canta na alma,
E que a alma jorra desmaiado em versos;
De ti, de ti unicamente, aquela
Canção de amor sentida e murmurante
Que eu vim cantando, sem saber se a ouviam,
Pela manhã de sol dos meus vinte anos.

Ó velho condenado
Ao cárcere das rochas que te cingem!
Em vão levantas para o céu distante
Os borrifos das ondas desgrenhadas.
Debalde! O céu, cheio de sol se é dia,
Palpitante de estrelas quando é noute,
Paira, longínquo e indiferente, acima
Da tua solidão, dos teus clamores...

Condenado e insubmisso
Como tu mesmo, eu sou como tu mesmo
Uma alma sobre a qual o céu resplende
— Longínquo céu — de um esplendor distante.
Debalde, ó mar que em ondas te arrepelas,
Meu tumultuoso coração revolto
Levanta para o céu, como borrifos,
Toda a poeira de ouro dos meus sonhos.

(...)

Imagem - 00160009


Publicado no livro Poemas e Canções (1908).

In: CARVALHO, Vicente de. Poemas e canções. 17.ed. São Paulo: Saraiva, 196
11 084 1
Raul de Leoni

Raul de Leoni

Decadência

Afinal, é o costume de viver
Que nos faz ir vivendo para a frente.
Nenhuma outra intenção, mas, simplesmente
O hábito melancólico de ser...

Vai-se vivendo... é o vício de viver...
E se esse vício dá qualquer prazer à gente,
Como todo prazer vicioso é triste e doente,
Porque o Vício é a doença do Prazer...

Vai-se vivendo... vive-se demais,
E um dia chega em que tudo que somos
É apenas a saudade do que fomos...

Vai-se vivendo... e muitas vezes nem sentimos
Que somos sombras, que já não somos mais nada
Do que os sobreviventes de nós mesmos!...


Publicado no livro Luz Mediterrânea (1928). Poema integrante da série Poemas Inacabados.

In: LEONI, Raul de. Luz mediterrânea. Pref. Rodrigo Mello Franco de Andrade. 10.ed. São Paulo: Liv. Martins, 195
3 181 1
João Cabral de Melo Neto

João Cabral de Melo Neto

O Retirante Explica ao Leitor Quem é e a Que Vai

— O meu nome é Severino,
não tenho outro de pia.
Como há muitos Severinos,
que é santo de romaria,
deram então de me chamar
Severino de Maria;
como há muitos Severinos
com mães chamadas Maria,
fiquei sendo o da Maria
do finado Zacarias.
Mas isso ainda diz pouco:
há muitos na freguesia,
por causa de um coronel
que se chamou Zacarias
e que foi o mais antigo
senhor desta sesmaria.
Como então dizer quem fala
ora a Vossas Senhorias?
Vejamos: é o Severino
da Maria do Zacarias,
lá da serra da Costela,
limites da Paraíba.
Mas isso ainda diz pouco:
se ao menos mais cinco havia
com nome de Severino
filhos de tantas Marias
mulheres de outros tantos,
já finados, Zacarias,
vivendo na mesma serra
magra e ossuda em que eu vivia.
Somos muitos Severinos
iguais em tudo na vida:
na mesma cabeça grande
que a custo é que se equilibra,
no mesmo ventre crescido
sobre as mesmas pernas finas,
e iguais também porque o sangue
que usamos tem pouca tinta.
E se somos Severinos
iguais em tudo na vida,
morremos de morte igual,
mesma morte severina:
que é a morte de que se morre
de velhice antes dos trinta,
de emboscada antes dos vinte,
de fome um pouco por dia
(de fraqueza e de doença
é que a morte severina
ataca em qualquer idade,
e até gente não nascida).
Somos muitos Severinos
iguais em tudo e na sina:
a de abrandar estas pedras
suando-se muito em cima,
a de tentar despertar
terra sempre mais extinta,
a de querer arrancar
algum roçado da cinza.
Mas, para que me conheçam
melhor Vossas Senhorias
e melhor possam seguir
a história de minha vida,
passo a ser o Severino
que em vossa presença emigra.

Imagem - 00730001


Publicado no livro Duas águas: poemas reunidos (1956). Poema integrante da série Morte e Vida Severina.

In: MELO NETO, João Cabral de. Obra completa: volume único. Org. Marly de Oliveira. Rio de Janeiro: Nova Aguilar, 1994. p.171-172. (Biblioteca luso-brasileira. Série brasileira
5 670 1