Desilusão e Desamor
Poemas neste tema
Mário Donizete Massari
Fragmento
de estrelas
e o silêncio da noite
há de espargir lágrimas
de meus olhos
Poderei eu ver as estrelas?
Triste será a noite com certeza
pois feriu-me a poesia do amor
Quão belo seria a noite
e as estrelas
se não me faltasse
esse fragmento de vida
e o silêncio da noite
há de espargir lágrimas
de meus olhos
Poderei eu ver as estrelas?
Triste será a noite com certeza
pois feriu-me a poesia do amor
Quão belo seria a noite
e as estrelas
se não me faltasse
esse fragmento de vida
900
Manuel Botelho de Oliveira
Comparações no Rigor de Anarda
Quando Anarda me desdenha
afetos de um coração,
é diamante Anarda? não,
não diamante, porque é penha:
penha não, porque se empenha,
qual áspid seu rigor forte;
áspid não, que tem por sorte
ser qual tigre na crueza:
tigre não, que na fereza
tem todo o império da Morte.
afetos de um coração,
é diamante Anarda? não,
não diamante, porque é penha:
penha não, porque se empenha,
qual áspid seu rigor forte;
áspid não, que tem por sorte
ser qual tigre na crueza:
tigre não, que na fereza
tem todo o império da Morte.
1 842
Marco Antônio Rosa
Pobre Aristóteles
Nunca conheci,
por mais que
me esforçasse,
quem tivesse
alma tão bela
quanto a própria face.
por mais que
me esforçasse,
quem tivesse
alma tão bela
quanto a própria face.
887
Lucília Cândida Sobrinho
Tempo de Ilusões
As nuvens passam
Como passam as desilusões.
Na vida há marcas do tempo
E o tempo acelera seu passo,
Levando consigo as doces ilusões —
Quimeras navegam
No mar revolto
Do meu ardente desejo.
Vejo quimeras e nuvens
Envolvendo a lembrança
Da volúpia do teu beijo.
Como passam as desilusões.
Na vida há marcas do tempo
E o tempo acelera seu passo,
Levando consigo as doces ilusões —
Quimeras navegam
No mar revolto
Do meu ardente desejo.
Vejo quimeras e nuvens
Envolvendo a lembrança
Da volúpia do teu beijo.
838
Valéry Larbaud
Descuido
Mergulhei por descuido teus olhos
Em outros mares, em outros vinhos:
Perigosas paisagens, proibidas,
Que desfazem seus próprios caminhos.
Hoje, mais nada sabemos, loucos
E bêbados náufragos de um sonho.
Os nossos silêncios estão roucos
De tanto nos ferirmos. Choramos.
Que outros céus acolham nossos corpos.
Em outros mares, em outros vinhos:
Perigosas paisagens, proibidas,
Que desfazem seus próprios caminhos.
Hoje, mais nada sabemos, loucos
E bêbados náufragos de um sonho.
Os nossos silêncios estão roucos
De tanto nos ferirmos. Choramos.
Que outros céus acolham nossos corpos.
752
Valéry Larbaud
Mise au Point
Deixou teu gesto ali
nenhuma rosa,
delicadeza e não ser,
nenhum suspiro,
silêncio e resposta.
E a lua nenhuma
grita a lembrança esquecida
de teu nenhum sorriso.
Frios cristais, no entanto,
que guardam vinhos de sangue,
não são teus olhos, ainda.
nenhuma rosa,
delicadeza e não ser,
nenhum suspiro,
silêncio e resposta.
E a lua nenhuma
grita a lembrança esquecida
de teu nenhum sorriso.
Frios cristais, no entanto,
que guardam vinhos de sangue,
não são teus olhos, ainda.
931
José Eustáquio da Silva
Tive
vou assim sem rumo
chutando pedras pelo caminho
tenho lenço e documento
só não tenho pra onde ir
já tive ao menos um amor
que chutava pedras comigo
hoje me restam apenas as pedras
apenas as pedras...
frias pedras...
chutando pedras pelo caminho
tenho lenço e documento
só não tenho pra onde ir
já tive ao menos um amor
que chutava pedras comigo
hoje me restam apenas as pedras
apenas as pedras...
frias pedras...
980
Hidemasa Mekaru
Haicai
recaída punk
o ácido do cotidiano
corrói o meu sonho
feito sal na lesma
hoje
estou feito
gato escaldado
na cumeeira do tédio
o ácido do cotidiano
corrói o meu sonho
feito sal na lesma
hoje
estou feito
gato escaldado
na cumeeira do tédio
876
Horácio Dídimo
As Casas
após longa espera
nada aconteceu
as casas continuaram baixas
tão baixas
que muitos de seus habitantes rastejavam
enquanto outros desistiam de antigas reivindicações
nada aconteceu
as casas continuaram baixas
tão baixas
que muitos de seus habitantes rastejavam
enquanto outros desistiam de antigas reivindicações
1 276
Gabriel Archanjo de Mendonça
Desencanto
O sonho realizado
acomodou-se preguiçosamente
na lua da rede
e foi cuidar
por tempo de sesta
na digestão burguesa.
Que o sonho futuro
por mais que sonhado
não passe de sonho.
acomodou-se preguiçosamente
na lua da rede
e foi cuidar
por tempo de sesta
na digestão burguesa.
Que o sonho futuro
por mais que sonhado
não passe de sonho.
811
Gabriel Archanjo de Mendonça
Segredo
Eu quis depositar o meu segredo
nas tuas mãos de brasa
e desnudar minha alma ressequida
ante a crepitação de teus olhos.
Mas o vento
que me embalava o sonho
e que me trouxe a teus pés
soprou o sol
que forrava a tua imagem
e a noite se fez.
Que o vento
vomite as cinzas de meu sonho
por sobre a realidade
do meu leito.
nas tuas mãos de brasa
e desnudar minha alma ressequida
ante a crepitação de teus olhos.
Mas o vento
que me embalava o sonho
e que me trouxe a teus pés
soprou o sol
que forrava a tua imagem
e a noite se fez.
Que o vento
vomite as cinzas de meu sonho
por sobre a realidade
do meu leito.
851
Flávio Villa-Lobos
Desencontro
Tantas mentiras dissemos um
ao outro
querendo esconder a verdade
que nos atinge.
Pertencemos a mesma sina
cantamos a mesma música
somos o vértice
da mesma esquina.
Paira no ar um certo
desvario
(depois de tua enésima partida)
e me faz pensar
como a vida
é cheia de lugares vazios,
de tolos pensamentos,
de horas mal vividas.
ao outro
querendo esconder a verdade
que nos atinge.
Pertencemos a mesma sina
cantamos a mesma música
somos o vértice
da mesma esquina.
Paira no ar um certo
desvario
(depois de tua enésima partida)
e me faz pensar
como a vida
é cheia de lugares vazios,
de tolos pensamentos,
de horas mal vividas.
810
Elisa Sayeg
De Nicole Sangue de Nuvem
A Porta do Amor gira sobre os gonzos
Pesadamente
Deixando-nos o Lado de Fora
Ao passante solitário
nenhum revide o espera
no cemitério.
Nenhum violento se erga
da campa dourada
Onde a lápide é folheada
com o sol morto.
Não o enjoe uma névoa incensada
Nenhum violento
sono se erga.
Pesadamente
Deixando-nos o Lado de Fora
Ao passante solitário
nenhum revide o espera
no cemitério.
Nenhum violento se erga
da campa dourada
Onde a lápide é folheada
com o sol morto.
Não o enjoe uma névoa incensada
Nenhum violento
sono se erga.
731
Emílio Moura
Exílio
Já nada vejo nessa bruma
que ora te esconde.
Quero encontrar-te, mas à noite
não me traz nenhuma
esperança de onde nem quando.
Amor, ah, quanto me deves!
Que é dos pés que, leves, leves,
roçaram por este chão?
Alma, és só tempo e solidão.
que ora te esconde.
Quero encontrar-te, mas à noite
não me traz nenhuma
esperança de onde nem quando.
Amor, ah, quanto me deves!
Que é dos pés que, leves, leves,
roçaram por este chão?
Alma, és só tempo e solidão.
1 153
Emílio Moura
Despedida
Ventura que nunca tive,
paz irreal que nunca veio.
A vida fecha o horizonte,
chega a noite sem rumor.
Cala-se a voz. (já era tímida).
Meu eco morre aqui mesmo.
Que importa à sombra que desce
o grito que não se ouviu?
paz irreal que nunca veio.
A vida fecha o horizonte,
chega a noite sem rumor.
Cala-se a voz. (já era tímida).
Meu eco morre aqui mesmo.
Que importa à sombra que desce
o grito que não se ouviu?
1 012
Dieter Roos
Talvez
talvez
não exista o amor
talvez
exista somente
o ódio
e aquilo
que chamamos de amor
é somente odiar
não exista o amor
talvez
exista somente
o ódio
e aquilo
que chamamos de amor
é somente odiar
822
Claudia Moraes Rego
Viu só, meu anjo?
Viu só, meu anjo.
Eu não disse
que não ia doer?
Eu disse
que ia doer.
Eu: dói
Eu não disse
que não ia doer?
Eu disse
que ia doer.
Eu: dói
810
Geraldo Carneiro
romântica
o poeta se enfastia da lua
e a compara à amada
depois se enfastia da amada
e vice-versa
e a compara à amada
depois se enfastia da amada
e vice-versa
1 222
Carlos Nóbrega
Os Olhos Idos
oh por que
o olho morre antes da vida
como se o pássaro
antes do vôo
e o homem antes do sonho
como se tudo fosse apenas
uma grande lua
sem haver noite
o olho morre antes da vida
como se o pássaro
antes do vôo
e o homem antes do sonho
como se tudo fosse apenas
uma grande lua
sem haver noite
553
Bernadete Soares
Haicai
O beija-flor leva
o beijo da primavera
ao pousar na flor.
Silêncio na noite,
cobre-se a árvore de neve:
amor invernou.
o beijo da primavera
ao pousar na flor.
Silêncio na noite,
cobre-se a árvore de neve:
amor invernou.
1 059
Alfredo José Assunção
Lembranças
Um violino, uma mulher.Um trago, uma dose.Um alguém que não quis.
Este alguém que me falta.esta luz que perdi,é o violino sozinho.Sou uma orquestra sem solo.
O beijo que bebiaé a dose que não tenho.O trago, transe maior,é o gozo que me foste.
Sem ti sou tão só!...Masturbo lembrançasde um violino, uma mulher,um trago, uma dose...
Este alguém que me falta.esta luz que perdi,é o violino sozinho.Sou uma orquestra sem solo.
O beijo que bebiaé a dose que não tenho.O trago, transe maior,é o gozo que me foste.
Sem ti sou tão só!...Masturbo lembrançasde um violino, uma mulher,um trago, uma dose...
1 000
Amadeu Fontana
Haicai
Despetala a rosa
o vento... Que desalento
na tarde chuvosa
Rosa, a rosa flor,
caída ao chão, esquecida,
lembra um pobre amor
o vento... Que desalento
na tarde chuvosa
Rosa, a rosa flor,
caída ao chão, esquecida,
lembra um pobre amor
903
Antero Coelho Neto
Agora Tenho que Partir
Agora tenho de partir
para longe e sempre
sem nunca mais voltar.
Eu devo novamente fugir
como tantas vezes durante a vida
indo embora sem chorar
depois de outra luta perdida.
Parto mas hoje eu sei
que jamais voltarei
aqui ou a qualquer lugar.
para longe e sempre
sem nunca mais voltar.
Eu devo novamente fugir
como tantas vezes durante a vida
indo embora sem chorar
depois de outra luta perdida.
Parto mas hoje eu sei
que jamais voltarei
aqui ou a qualquer lugar.
1 206
Marcial
IV, 7 - A HILO
Porque ontem que tu davas, hoje, ó Hilo, negas,
Duro tão súbito, quando eras só ternura?
É que tens barba e pelos, mais idade, dizes.
Ó noite, como és longa, que assim envelheces!
Porque troças de mim? Ontem criança ainda eras.
Diz-me: qual a razão de que hoje um homem és?
Duro tão súbito, quando eras só ternura?
É que tens barba e pelos, mais idade, dizes.
Ó noite, como és longa, que assim envelheces!
Porque troças de mim? Ontem criança ainda eras.
Diz-me: qual a razão de que hoje um homem és?
1 062
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