Desejo

Poemas neste tema

Adélia Prado

Adélia Prado

O Sempre Amor

Amor é a coisa mais alegre
amor é a coisa mais triste
amor é coisa que mais quero.
Por causa dele falo palavras como lanças.
Amor é a coisa mais alegre
amor é a coisa mais triste
amor é coisa que mais quero.
Por causa dele podem entalhar-me,
sou de pedra-sabão.
Alegre ou triste,
amor é coisa que mais quero.
2 343
Adélia Prado

Adélia Prado

Uma Vez Visto

Para o homem com a flauta,
sua boca e mãos,
eu fico calada.
Me viro em dócil,
sábia de fazer com veludos
uma caixa.
O homem com a flauta
é meu susto pênsil
que nunca vou explicar,
porque flauta é flauta,
boca é boca,
mão é mão.
Como os ratos da fábula eu o sigo
roendo inroível amor.
O homem com a flauta existe?
1 359
Adélia Prado

Adélia Prado

Confeito

Quero comer bolo de noiva,
puro açúcar, puro amor carnal
disfarçado de coração e sininhos:
um branco, outro cor-de-rosa,
um branco, outro cor-de-rosa.
1 463
Carlos Drummond de Andrade

Carlos Drummond de Andrade

Era Bom Alisar Seu Traseiro Marmóreo

Era bom alisar seu traseiro marmóreo
e nele soletrar meu destino completo:
paixão, volúpia, dor, vida e morte beijando-se
em alvos esponsais numa curva infinita.

Era amargo sentir em seu frio traseiro
a cor de outro final, a esférica renúncia
a toda aspiração de amá-la de outra forma.
Só a bunda existia, o resto era miragem.
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Carlos Drummond de Andrade

Carlos Drummond de Andrade

De Arredio Motel Em Colcha de Damasco

De arredio motel em colcha de damasco
viste em mim teu pai morto, e brincamos de incesto.
A morte, entre nós dois, tinha parte no coito.
O brinco era violento, misto de gozo e asco,
e nunca mais, depois, nos fitamos no rosto.
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Carlos Drummond de Andrade

Carlos Drummond de Andrade

Quando Desejos Outros É Que Falam

Quando desejos outros é que falam
e o rigor do apetite mais se aguça,
despetalam-se as pétalas do ânus
à lenta introdução do membro longo.
Ele avança, recua, e a via estreita
vai transformando em dúlcida paragem.

Mulher, dupla mulher, há no teu âmago
ocultas melodias ovidianas.
1 445
Carlos Drummond de Andrade

Carlos Drummond de Andrade

À Meia-Noite, Pelo Telefone

À meia-noite, pelo telefone,
conta-me que é fulva a mata do seu púbis.
Outras notícias
do corpo não quer dar, nem de seus gostos.
Fecha-se em copas:
“Se você não vem depressa até aqui,
nem eu posso correr à sua casa,
que seria de mim até o amanhecer?”

Concordo, calo-me.
1 370
Carlos Drummond de Andrade

Carlos Drummond de Andrade

Tenho Saudades de Uma Dama

Tenho saudades de uma dama
como jamais houve na cama
outra igual, e mais terna amante.

Não era sequer provocante.
Provocada, como reagia!
São palavras só: quente, fria.

No banheiro nos enroscávamos.
Eram flamas no preto favo,
um guaiar, um matar-morrer.

Tenho saudades de uma dama
que me passeava na medula
e atomizava os pés da cama.
1 195
Carlos Drummond de Andrade

Carlos Drummond de Andrade

A Outra Porta do Prazer

A outra porta do prazer,
porta a que se bate suavemente,
seu convite é um prazer ferido a fogo
e, com isso, muito mais prazer.

Amor não é completo se não sabe
coisas que só amor pode inventar.
Procura o estreito átrio do cubículo
aonde não chega a luz, e chega o ardor
de insofrida, mordente
fome de conhecimento pelo gozo.
1 447
Carlos Drummond de Andrade

Carlos Drummond de Andrade

As Mulheres Gulosas

As mulheres gulosas
que chupam picolé
— diz um sábio que sabe —
são mulheres carentes
e o chupam lentamente
qual se vara chupassem,
e ao chupá-lo já sabem
que presto se desfaz
na falácia do gozo
o picolé fuginte
como se esfaz na mente
o imaginário pênis.
2 261
Carlos Drummond de Andrade

Carlos Drummond de Andrade

No Exemplar de Um Velho Livro

Neste brejo das almas
o que havia de inquieto
por sob as águas calmas!

Era um susto secreto,
eram furtivas palmas
batendo, louco inseto,

era um desejo obscuro
de modelar o vento,
eram setas no muro

e um grave sentimento
que hoje, varão maduro,
não punge, e me atormento.
1 952
Carlos Drummond de Andrade

Carlos Drummond de Andrade

Coxas Bundas Coxas

Coxas    bundas   coxas
bundas  coxas     bundas
lábios    línguas   unhas
cheiros  vulvas     céus
terrestresinfernaisno espaço ardente de uma hora
intervalada em muitos meses
de abstinência e depressão.
1 414
Carlos Drummond de Andrade

Carlos Drummond de Andrade

A Língua Lambe

A língua lambe as pétalas vermelhas
da rosa pluriaberta; a língua lavra
certo oculto botão, e vai tecendo
lépidas variações de leves ritmos.

E lambe, lambilonga, lambilenta,
a licorina gruta cabeluda,
e, quanto mais lambente, mais ativa,
atinge o céu do céu, entre gemidos,

entre gritos, balidos e rugidos
de leões na floresta, enfurecidos.
2 281
Carlos Drummond de Andrade

Carlos Drummond de Andrade

Esperteza

Tenho vontade de
— ponhamos amar
por esporte uma loura
o espaço de um dia.

Certo me tornaria
brinquedo nas suas mãos.
Apanharia, sorriria
mas acabado o jogo
não seria mais joguete,
seria eu mesmo.

E ela ficaria espantada
de ver um homem esperto.
1 609
Carlos Drummond de Andrade

Carlos Drummond de Andrade

O Passarinho Dela

O passarinho dela
é azul e encarnado.
Encarnado e azul são
as cores do meu desejo.

O passarinho dela
bica meu coração.
Ai ingrato, deixa estar
que o bicho te pega.

O passarinho dela
está batendo asas, seu Carlos!
Êle diz que vai-se embora
sem você pegar.
1 941
Carlos Drummond de Andrade

Carlos Drummond de Andrade

Pintor de Mulher

A Augusto Rodrigues

Este pintor
sabe o corpo feminino e seus possíveis
de linha e de volume reinventados.
Sabe a melodia do corpo em variações entrecruzadas.
Lê o código do corpo, de A ao infinito
dos signos e das curvas que dão vontade de morrer
de santo orgasmo e de beleza.
1 253
Carlos Drummond de Andrade

Carlos Drummond de Andrade

Engate

O morto no sobrado
no porão a mulata
a pausa no velório
o beijo no escurinho
a pressa de engatar
o sentido da morte
na cor de teu desejo
que clareia o porão.

O morto nem ligando.
1 177
Carlos Drummond de Andrade

Carlos Drummond de Andrade

Primeiro Dia

Resumo do Brasil no pátio de areia fina.
Sotaques e risos estranhos.
Continente de almas a descobrir
palmo a palmo, rosto a rosto,
número a número,
ferida a ferida.
Mal nos conhecemos, a palavra-mistério
na pergunta-sussurro
é pedrada na testa:
— Você gosta de foder?
1 108
Carlos Drummond de Andrade

Carlos Drummond de Andrade

Conclusão

Que cerros mais altos,
vista mais calmante,
sítios mais benignos,
nuvens mais de sonho,
fontes mais pacíficas,
gente mais cordata,
bichos mais tranquilos,
noites mais sossego,
sempiternamente
vida mais redonda…
vida mais difícil.
1 060
António Ramos Rosa

António Ramos Rosa

Plenitude

Ainda era quente e volante e luminosa
e o seu fulgor vibrava em orifícios verdes.
O seu pudor era feliz como um músculo no mar.
Tocava o cimo do mundo, as árvores mais claras.
O seu segredo era a frescura imensa do seu sexo.
O seu furor era o reconhecimento da experiência.
1 062
António Ramos Rosa

António Ramos Rosa

Uma Voz

Quero pertencer à abóbada escura como um amante inerme
e ser o alento do silêncio sobre os ombros das nuvens.
Quero aderir à sombra das palavras da folhagem
e compreender a terra na selvagem seda do desejo.
1 070
António Ramos Rosa

António Ramos Rosa

Folha Após Folha

Folha após folha
no fulgor do vento
sigo o trânsito da luz
através das sombras
do teu corpo.
1 100
António Ramos Rosa

António Ramos Rosa

Agora o Fulgor Reúne o Movimento Dos Lábios

Agora o fulgor reúne o movimento dos lábios
e os flancos fortes e os ombros sem vestígios.
As portas estão abertas sobre as veias do solo.
Pronuncia-se o sal sobre as arestas da terra.
Os joelhos atravessam as sombras e as corolas.
A espuma inunda os frutos e a ferida dos sentidos.
840
António Ramos Rosa

António Ramos Rosa

Nunca Será Música, Nunca Será Bosque

Nunca será música, nunca será bosque
nem o torso de uma pomba
nem a pedra rutilante
nem uma garganta do mar.
Não, não quero mais do que a saliva do vento
e o rumor dos abismos.
Nenhuma mensagem, nenhum voo.
Apenas os inviolados signos de um fundo mágico.
1 121