Corpo

Poemas neste tema

Carlos Drummond de Andrade

Carlos Drummond de Andrade

As Mulheres Gulosas

As mulheres gulosas
que chupam picolé
— diz um sábio que sabe —
são mulheres carentes
e o chupam lentamente
qual se vara chupassem,
e ao chupá-lo já sabem
que presto se desfaz
na falácia do gozo
o picolé fuginte
como se esfaz na mente
o imaginário pênis.
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Carlos Drummond de Andrade

Carlos Drummond de Andrade

No Mármore de Tua Bunda

No mármore de tua bunda gravei o meu epitáfio.
Agora que nos separamos, minha morte já não me pertence.
Tu a levaste contigo.
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Carlos Drummond de Andrade

Carlos Drummond de Andrade

Coxas Bundas Coxas

Coxas    bundas   coxas
bundas  coxas     bundas
lábios    línguas   unhas
cheiros  vulvas     céus
terrestresinfernaisno espaço ardente de uma hora
intervalada em muitos meses
de abstinência e depressão.
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Carlos Drummond de Andrade

Carlos Drummond de Andrade

A Língua Lambe

A língua lambe as pétalas vermelhas
da rosa pluriaberta; a língua lavra
certo oculto botão, e vai tecendo
lépidas variações de leves ritmos.

E lambe, lambilonga, lambilenta,
a licorina gruta cabeluda,
e, quanto mais lambente, mais ativa,
atinge o céu do céu, entre gemidos,

entre gritos, balidos e rugidos
de leões na floresta, enfurecidos.
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Carlos Drummond de Andrade

Carlos Drummond de Andrade

Pintor de Mulher

A Augusto Rodrigues

Este pintor
sabe o corpo feminino e seus possíveis
de linha e de volume reinventados.
Sabe a melodia do corpo em variações entrecruzadas.
Lê o código do corpo, de A ao infinito
dos signos e das curvas que dão vontade de morrer
de santo orgasmo e de beleza.
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Carlos Drummond de Andrade

Carlos Drummond de Andrade

Flor Experiente

Uma flor matizada
entreabre-se em meus dedos.
Já sou terra estrumada
— é um de meus segredos.

Careceu vida lenta
e, mais que lenta, peca,
para a cor que ornamenta
esta epiderme seca.

Assino-me no cálice
de estrias fraternais.
O pensamento cale-se.
É jardim, nada mais.
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Carlos Drummond de Andrade

Carlos Drummond de Andrade

Primeiro Dia

Resumo do Brasil no pátio de areia fina.
Sotaques e risos estranhos.
Continente de almas a descobrir
palmo a palmo, rosto a rosto,
número a número,
ferida a ferida.
Mal nos conhecemos, a palavra-mistério
na pergunta-sussurro
é pedrada na testa:
— Você gosta de foder?
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Carlos Drummond de Andrade

Carlos Drummond de Andrade

Os Materiais da Vida

Drls? Faço meu amor em vidrotil
nossos coitos são de modernfold
até que a lança de interflex
vipax nos separe
em claviluxcamabel camabel o vale ecoa
sobre o vazio de ondalit
a noite asfáltica
plkx
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António Ramos Rosa

António Ramos Rosa

Plenitude

Ainda era quente e volante e luminosa
e o seu fulgor vibrava em orifícios verdes.
O seu pudor era feliz como um músculo no mar.
Tocava o cimo do mundo, as árvores mais claras.
O seu segredo era a frescura imensa do seu sexo.
O seu furor era o reconhecimento da experiência.
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António Ramos Rosa

António Ramos Rosa

Não Fosforesce Essa Mão Que Mal Se Move

Não fosforesce essa mão que mal se move
e quase não palpita sob a escura abóbada.
Estreitam-se os dedos de madeira transparente
e sobre o papel volante ainda acendem uma lua
que ascende vacilante sobre a cabeça trémula.
853
António Ramos Rosa

António Ramos Rosa

Folha Após Folha

Folha após folha
no fulgor do vento
sigo o trânsito da luz
através das sombras
do teu corpo.
1 100
António Ramos Rosa

António Ramos Rosa

Agora o Fulgor Reúne o Movimento Dos Lábios

Agora o fulgor reúne o movimento dos lábios
e os flancos fortes e os ombros sem vestígios.
As portas estão abertas sobre as veias do solo.
Pronuncia-se o sal sobre as arestas da terra.
Os joelhos atravessam as sombras e as corolas.
A espuma inunda os frutos e a ferida dos sentidos.
840
António Ramos Rosa

António Ramos Rosa

Dá-Me a Cor do Tempo

Dá-me a cor do tempo
numa lâmpada
formada pela carícia
das tuas mãos sedentas.
890
António Ramos Rosa

António Ramos Rosa

Em Todo o Corpo Lúcido

Em todo o corpo lúcido
a luz e a música
com o brilho da brisa
e os véus vegetais.
851
António Ramos Rosa

António Ramos Rosa

Tenaz Tambor

Tenaz tambor
através de fibras e veias
como uma fonte absoluta.
1 040
António Ramos Rosa

António Ramos Rosa

Enquanto Estamos Vivos

Enquanto estamos vivos
procuramos saber e, mais do que saber,
o sabor que dilata espesso e fúlgido
e que queima como uma axila ou como um púbis
e é nostalgia, paixão, ignorância,
vazio vibrante
e a delícia sem máscaras em que o ar resplandece.
907
António Ramos Rosa

António Ramos Rosa

Sim, Digamos Sim Sem o Dizer

Sim, digamos sim sem o dizer
por todos os poros,
sim, este fulgor, este sopro, este jardim
que é como um barco ou um pássaro silencioso,
sim, esta única carícia sobre um corpo que flui infinitamente.
1 037
António Ramos Rosa

António Ramos Rosa

Mediadora Árida

Que pedra de música
subsiste
na argila cega?
Que navios no subsolo?

Ouço a sombra árida
do corpo, ouço os animais
sem água
nas caves clandestinas.

Onde as vogais do fogo
no fulgor do vento?
978
António Ramos Rosa

António Ramos Rosa

Mediadora do Acaso

Nua, no acaso,
táctil, leve,
fácil, viva.
Júbilo cristalino,

hipérboles. Dançam
nas veias, diluem-se,
amanhecem.
Nomes do excesso

subtil, conciso.
Pleonasmos
do corpo
impenetrável.
1 002
António Ramos Rosa

António Ramos Rosa

Mediadora Irrevelada

Descalça e fulgurante
passageira das sombras.
Lâmpada sonâmbula
interrompendo as águas.

Não pousam pássaros
nos seus ombros escuros.
Corpo ainda aéreo
opaco e cristalino.

Não música nem pintura.
Eclipse do espelho.
Silenciosa energia
de um voo irrevelado.
1 042
António Ramos Rosa

António Ramos Rosa

Mediadora Sonâmbula

Dançarina do sono,
a que raízes se ligam as pupilas
nocturnas? Obedece
à árvore dos seus passos.

Conduz os animais
minuciosos
do desejo errante.
Sua inocência

tem a forma do silêncio.
O vazio vibra na leveza
do andar.
Desenha o astro em que caminha.
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António Ramos Rosa

António Ramos Rosa

Mediadora do Real

Suavidade e tumulto.
Aroma da nudez.
Luz redonda, luz delícia
de evidência.

Prodígio da terra, grande
enlace
de imediatas moradas
confiantes.

Profusa maravilha, o centro
abriu-se.
Júbilo da nudez. Delírio fulvo.
A alegria lê a fábula real.
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António Ramos Rosa

António Ramos Rosa

Na Lucidez do Corpo

Na lucidez do corpo
num impulso de terra
alcançar sem entraves o domínio mais suave.
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António Ramos Rosa

António Ramos Rosa

Mediadora da Página

Desaparece. Renasce.
É um corpo ou um nome?
Florescência sem raízes. Cada imagem
gera outra imagem. Partículas

intermitentes. Tempestade
silenciosa. Como reencontrar
o negro e as raízes?
Algo tão pobre no silêncio

requer uma linguagem nua.
Surpreendente júbilo quando
na estrita área branca
a nudez profunda repercute.
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