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Poemas neste tema

Sérgio Milliet

Sérgio Milliet

São Paulo

Canto a cidade das neblinas
e dos viadutos
minha cidade
amante de futebol e vendedora de café
Os aventureiros bigodudos
como nas fitas da Paramount
o Friedenreich pé de anjo
e a bolsa de mercadorias
as chaminés parturientes do Brás
os quinze mil automóveis orgulhosos
no barulho ensurdecedor dos klaxons
e a cultura envernizada dos burgueses
os engraxates da Praça Antônio Prado
e o serviço telegráfico do "Estado"
a febre do dinheiro
as falências sírio-nacionais
a especulação sobre os terrenos
a politicagem e os politiqueiros
e a negra de pó de arroz
e até os bondes da Light
para o Tietê das regatas e dos bandeirantes
os homens dizem que tu és ingrata
e que devoras os teus próprios filhos...
Mas que linda madrasta tu és
toda vestida de jardins!
Minha cidade
Amo também teus plátanos nostálgicos
imigrantes infelizes
teus crepúsculos de seda japonesa
tuas ruas longas de casas baixas
e teu triângulo provinciano...


Publicado no livro Poemas Análogos (1927). Poema integrante da série Poemas Brasileiros.

In: MILLIET, Sérgio. Poesias. Porto Alegre: Livr. do Globo, 1946. p.70-71. (Autores brasileiros, 19
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Paulo Eiró

Paulo Eiró

Barra de Santos

(Carolina)

Praia, que o mar brandamente
Repele ou acaricia,
Em que as auras vêm carpir-se
A volta do meio-dia,
E a tarde espalhar frescura,
Sombras e melancolia;

Linda praia, debruada
De alvejante, fina areia,
Porque só tua lembrança
O espírito me encadeia?
Quem te deu tamanho encanto?
Onde está tua sereia?

À solidão de minha alma
Chega teu som lastimoso,
Eco prolongado e triste
De cavo búzio lustroso;
Meu coração todo abala,
Qual voz de amigo extremoso.

Vejo a ti, pego infinito,
Como a um cativo sultão,
Que ora, com pátrios cantares,
Suaviza a escravidão
Ora, espumando, se atira
Contra as grades da prisão.

Vejo-te a face que o posto
Sol doura, avermelha, inflama,
E o horizonte que se ignora
Onde repousa, onde clama,
Como um segundo oceano
Que sobre ti se derrama.

Vejo, surgindo das águas,
A solitária "Moela";
O cabo que se adianta
E, ao longe, perdida vela...
Vejo a "terra da saudade"!
Das praias vejo a mais bela!

Santos, 1855


Poema integrante da série Boninas, 1855.

In: SCHMIDT, Affonso. A vida de Paulo Eiró: seguida de uma coletânea inédita de suas poesias. Org. pref. e anotada José A. Gonsalves. Il. Wasth Rodrigues. São Paulo: Ed. Nacional, 1940. p.151-270. (Biblioteca pedagógica brasileira. Série 5. Brasiliana, 182
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Joaquim Cardozo

Joaquim Cardozo

Tarde no Recife

Tarde no Recife.
Da ponte Maurício o céu e a cidade.
Fachada verde do Café Maxime,
Cais do Abacaxi. Gameleiras.

Da torre do Telégrafo Ótico
A voz colorida das bandeiras anuncia
Que vapores entraram no horizonte.

Tanta gente apressada, tanta mulher bonita;
A tagarelice dos bondes e dos automóveis.
Um camelô gritando: — alerta!
Algazarra. Seis horas. Os sinos.

Recife romântico dos crepúsculos das pontes,
Dos longos crepúsculos que assistiram à passagem dos fidalgos
[holandeses,
Que assistem agora ao movimento das ruas tumultuosas,
Que assistirão mais tarde à passagem dos aviões para as costas
[do Pacífico;
Recife romântico dos crepúsculos das pontes
E da beleza católica do rio.

1925


In: CARDOZO, Joaquim. Poesias completas. 2.ed. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 1979. p.6-7
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Gregório de Matos

Gregório de Matos

Lisonjeia Outra Vez Impaciente

Discreta, e formosíssima Maria,
Enquanto estamos vendo a qualquer hora
Em tuas faces a rosada Aurora,
Em teus olhos, e boca o Sol, e o dia:

Enquanto com gentil descortesia
O ar, que fresco Adônis te namora,
Te espalha a rica trança voadora,
Quando vem passear-te pela fria:

Goza, goza da flor da mocidade,
Que o tempo trota a toda ligeireza,
E imprime em toda a flor sua pisada.

Oh não aguardes, que a madura idade
Te converta em flor, essa beleza
Em terra, em cinza, em pó, em sombra, em nada.


In: MATOS, Gregório de. Obra poética. Org. James Amado. Prep. e notas Emanuel Araújo. Apres. Jorge Amado. 3.ed. Rio de Janeiro: Record, 1992.

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Rubens Rodrigues Torres Filho

Rubens Rodrigues Torres Filho

Trovas Populares

I

Botei lenha no borralho
comprei ovos no mercado
mexi tudo na panela
preparei uma omelete

II

Havia flores na estrada
havia tédio no pátio
Dêem-me quatro desenhos
de mulheres e de sóis

III

Onde foi visto (aqui mesmo)
o cosmo através das lentes
porém crianças latentes
e os poetas minerais

IV

Vou-me embora p'ra Brasília
estou cansado de estar
Me mudo para uma ilha
Tem alguma p'ra alugar?

V

Foi em vão que João fugiu
todo-o-mundo abriu a boca
Jogou seu corpo no rio
Dona Xica ficou louca

VI

Resta ainda nesta terra
um pouco de quase-amor
um resto de primavera
que ninguém sabe onde pôr

VII

Coloque o vaso num canto
Logo as flores vão murchar
Vou aprender esperanto
p'ra nunca mais conversar

(...)


In: TORRES FILHO, Rubens Rodrigues. Retrovar: poemas. São Paulo: Iluminuras, 1993.

NOTA: Poema composto de 11 trovas (quadras
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Alberto da Costa e Silva

Alberto da Costa e Silva

As Linhas da Mão

1

Deste canto de treva, esperas, surdo,
enquanto o céu corrói teu corpo escasso.
E sentes de ti mesmo o ofego gasto
pelo escoar do dia, o jogo amargo
de voltar das manhãs cheio de escuro.

Deste lado solar, desprezas, mudo,
o que sabes virá porque marcado
na morte que vais sendo, o sonho alçado
ao espaço que passa, este amor breve,
pois é feito de tempo e o tempo cede.

Eis tuas mãos. As suas linhas, cego,
o solitário sol, o rio vazio,
o saibro sob os pés, o choro inútil
e tudo o que feriste nos descrevem,
num rogo de beleza, sujo e puro.

Do centro crepuscular, dali tens tudo.

(...)


In: SILVA, Alberto da Costa e. As linhas da mão. Pref. Antônio Carlos Villaça. Rio de Janeiro: Difel; Brasília: INL, 1978. Poema integrante da série As Linhas da Mão.

NOTA: Poema composto de 2 parte
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Vicente de Carvalho

Vicente de Carvalho

Desiludida

Sou como a corça ferida
Que vai, sedenta e arquejante,
Gastando uns restos de vida
Em busca de água distante.

Bem sei que já me não ama,
E sigo, amorosa e aflita,
Essa voz que não me chama,
Esse olhar que não me fita.

E reconheço a loucura
Deste amor abandonado
Que se abre em flor, e procura
Viver de um sonho acabado;

E é como a corça ferida
Que vai, sedenta e arquejante,
Gastando uns restos de vida
Em busca da água distante.

Só, perdido no deserto,
Segue empós do seu carinho:
Vai se arrastando... e vai certo
Que morre pelo caminho.


Publicado no livro Rosa, Rosa de Amor: poema (1902).

In: CARVALHO, Vicente de. Poemas e canções. 17.ed. São Paulo: Saraiva, 196
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Moacyr Felix

Moacyr Felix

O Poema

Ou se vive por inteiro
ou pela metade a gente
escreve a vida
que não viveu.

E o papel em branco então serve
como serve ao prisioneiro
a parede branca do cárcere.

O que não foi é o ser que é
no poema, esse ato mágico
de uma chama que não se vê
tanto mais quanto ela queima
no ar de uma cela vazia
o homem que é posto em pé
sobre os mortos do seu dia.


Publicado no livro Em Nome da Vida (1981).

In: FÉLIX, Moacyr. Antologia poética. Rio de Janeiro: J. Olympio, 1993. p.2
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Sousândrade

Sousândrade

Canto Décimo [I

(O GUESA, tendo atravessado as ANTILHAS, crê-se livre dos
XEQUES e penetra em NEW-YORK-STOCK-EXCHANGE; a Voz dos
desertos:)



— Orfeu, Dante, Enéias, ao inferno
Desceram, o Inca há de subir...
— Ogni sp'ranza lasciate,
Che entrate...
— Swedenborg, há mundo porvir?

(Xeques surgindo risonhos e disfarçados em Railroad-
managers, Stockjobbers, Pimpbrokers, etc., etc.,
apregoando:)

— Harlem! Erie! Central! Pennsylvania!
— Milhão! cem milhões!! mil milhões!!!
— Young é Grant! Jackson.
Atkinson!
Vanderbilts, Jay Goulds, anões!

(A Voz mal ouvida dentre a trovoada:)

— Fulton's Folly, Codezo's Forgery...
Fraude é o clamor da nação!
Não entendem odes
Railroads;
Paralela Wall-Street à Chattám...

(Corretores continuando:)

— Pigmeus, Brown Brothers! Bennett! Stewart!
Rotschild e o ruivalho d'Astor!!
— Gigantes, escravos
Se os cravos
Jorram luz, se finda-se a dor!...

(Norris, Attorney; Codezo, inventor; Young; Esq.,
manager; Atkinson, agent; Armstrong, agent; Rodhes,
agent; P. Offman & Voldo, agents; algazarra, miragem; ao
meio, o GUESA:)

— Dois! três! cinco mil! se jogardes,
Senhor, tereis cinco milhões!
— Ganhou! ha! haa! haaa!
— Hurrah! ah!...
— Sumiram... seriam ladrões?...

(...)


In: SOUSÂNDRADE. O Guesa. Londres: Cooke e Halsted, The Moorfields Press, 1888

NOTA: Poema inacabado, composto de 13 canto
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Renata Pallottini

Renata Pallottini

O Carro

O carro corre ao longe numa boa
feito a nuvem que passa,
feito o vento que voa.

A máquina do carro é o fino;
o ruído ardido
é o defeito que tem tudo que é feito.
Senão, tudo era chato
e perfeito.


In: PALLOTTINI, Renata. Café com leite. São Paulo: Quinteto, 1988. p.1
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Ulisses Tavares

Ulisses Tavares

Maravilhas da Flora

Pinheiros natalinos sintéticos,
flores cor-de-fuligem,
arbustos esqueléticos,
florestas de antenas de TV,
alfaces com DDD.


In: TAVARES, Ulisses. Caindo na real. Il. Angeli. 2.ed. São Paulo: Brasiliense, 1987. p.59. (Jovens do mundo todo
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Cassiano Ricardo

Cassiano Ricardo

João, o Telegrafista

I

João telegrafista.
Nunca mais que isso,
estaçãozinha pobre
havia mais árvores pássaros
que pessoas.
Só tinha coração urgente.
Embora sem nenhuma
promoção.
A bater a bater sua única
tecla.

Elíptico, como todo
telegrafista.
Cortando flores preposições
para encurtar palavras,
para ser breve na necessidade.
Conheceu Dalva uma Dalva
não alva sequer matutina
mas jambo, morena.
Que um dia fugiu — único
dia em que foi matutina —
para ir morar cidade grande
cheia luzes jóias.
História viva, urgente.

Ah, inutilidade alfabeto Morse
nas mãos João telegrafista
procurar procurar Dalva
todo mundo servido telégrafo.
Ah, quando envelhece,
como é dolorosa urgência!
João telegrafista
nunca mais que isso, urgente.

II

Por suas mãos passou mundo,
mundo que o fez urgente,
elíptico, apressado, cifrado.
Passou preço do café.
Passou amor Eduardo
VIII, hoje duque Windsor.
Passou calma ingleses sob
chuva de fogo. Passou
sensação primeira bomba
voadora.
Passaram gafanhotos chineses,
flores catástrofes.
Mas, entre todas as coisas,
passou notícia casamento Dalva
com outro.

João telegrafista
o de coração urgente
não disse palavra, apenas
três andorinhas pretas
(sem a mais mínima intenção simbólica)
pousaram sobre
seu soluço telegráfico.

Um soluço sem endereço — Dalva —
e urgente.


Publicado no livro Poemas murais, 1947/1948 (1950).

In: RICARDO, Cassiano. Poesias completas. Pref. Tristão de Athayde. Rio de Janeiro: J. Olympio, 1957. p.517-51
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Pedro Kilkerry

Pedro Kilkerry

Sob os Ramos, 1907

É no Estio. A alma, aqui, vai-me sonora,
No meu cavalo — sob a loira poeira
Que chove o sol — e vai-me a vida inteira
No meu cavalo, pela estrada afora.

Ai! desta em que te escrevo alta mangueira
Sob a copada verde a gente mora.
E em vindo a noite, acende-se a fogueira
Que se fez cinza de fogueira agora.

Passa-me a vida pelo campo... E a vida
Levo-a cantando, pássaros no seio,
Qual se os levasse a minha mocidade...

Cada ilusão floresce renascida;
Flora, renasces ao primeiro anseio
Do teu amor... nas asas da Saudade!


In: CAMPOS, Augusto de. ReVisâo de Kilkerry. São Paulo: Fundação Estadual de Cultura, 1970
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Murilo Mendes

Murilo Mendes

Noite Carioca

Noite da cidade de São Sebastião do Rio de Janeiro
tão gostosa.
que os estadistas europeus lamentam ter conhecido
[tão tarde.
Casais grudados nos portões de jasmineiros...
A baía de Guanabara, diferente das outras baías, é
[camarada,
recebe na sala de visita todos os navios do mundo
e não fecha a cara.
Tudo perde o equilíbrio nesta noite,
as estrelas não são mais constelações célebres,
são lamparinas com ares domingueiros,
as sonatas de Beethoven realejadas nos pianos dos
[bairros distintos
não são mais obras importantes do gênio imortal,
são valsas arrebentadas...
Perfume vira cheiro,
as mulatas de brutas ancas dançam o maxixe nos
[criouléus suarentos

O Pão de Açúcar é um cão de fila todo especial
que nunca se lembra de latir pros inimigos que
[transpõem a barra
e às 10 horas apaga os olhos pra dormir.


Publicado no livro Poemas (1930). Poema integrante da série Ângulos.

In: MENDES, Murilo. Poesias, 1925/1955. Rio de Janeiro: J. Olympio, 195
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Sousa Caldas

Sousa Caldas

Carta Dirigida a Meu Amigo João de Deus Pires Ferreira [1

Em que lhe descrevo a minha Viagem por mar até Gênova

Meu Pires,

Despontava o dia em que a meus olhos, não
sem saudade, havia por alguns meses desaparecer
Lisboa,

Que merece bem o nome
De Bisâncio ocidental;
Onde o saber pouco val,
Têm valor só prata e ouro,
Branco açúcar, rijo couro;
É melhor ter, que virtude:
Pelo menos assim pensa
Gente douta, e povo rude.

Dir-me-á que de Londres, Amsterdã, Berlim,
Viena, se pode dizer que sicut et nos manquejam
de um olho; não duvido: de Paris por ora nada
digo; espero as leis civis para ajuizar se fizeram
nelas o que devem.

É então que a minha Musa,
De cantar mais ansiosa,
Ferirá de novo as cordas
De sua lira saudosa.

Entretanto vamos ao ponto, que é a descrição
da minha viagem até Gênova. Por onde começarei?

Cansada a mimosa Aurora,
Para o leito se acolhia,
Enquanto Apolo açoitava
Os messageiros do dia.

Em vão Pirois retorcia
As orelhas fumegantes,
E com rinchos dissonantes
Etonte o ar aturdia;

Porque Apolo enfurecido
Mais e mais os fustigava,
Vibrando a torta manopla
Com horroroso estampido:

Vinte vezes foi ouvida,
Qual o vento, sibilar,
E nas ancas revoltosas
Dos ginetes estalar,
Por tal modo

que amanheceu enfim de todo. Confesse que é
uma das manhãs longas que se tem visto raiar
sobre o Horizonte: mas enfim amanheceu. Era de
esperar que, depois de tanto trabalho de Apolo,
a manhã fosse clara e brilhante: não sucedeu
assim;

Porque densa escura névoa,
Por entre o freio, escumavam
Os cavalos furiosos,
Dos açoites que aturavam.

Se lhe não agrada esta teoria, para explicar a
origem das névoas; saiba que em Poesia ainda se
não deu melhor; e se não é certa, ao menos é as-
sim inteligível para mostrar que a manhã foi ne-
bulosa. Irra! que manhã! eu mesmo já não sei
como hei de chegar ao meio-dia, a não ser de pulo.
Saltemos pois:

(...)


In: CALDAS, Sousa. Obras poéticas: poesias sacras e profanas. Org. e notas Francisco de Borja Garção-Stockler. Paris: Of. de P.N. Rougeron, 1821. v.
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Arnaldo Antunes

Arnaldo Antunes

Dorme

PÁRA-RAIO, DORME
TEMPORAL, DORME

VAGA-LUME, DORME
ABAJUR, DORME

AMBULÂNCIA, DORME
CAMBURÃO, DORME

TRAVESSEIRO, DORME
MEU AMOR, DORME

LUIZ GONZAGA, DORME
LUZ DO SOL, DORME

SENTINELA, DORME
GENERAL, DORME

CARAVELA, DORME
CARNAVAL, DORME

CANDELÁRIA, DORME
CANDOMBLÉ, DORME

CAMBALHOTA, DORME
BAMBOLÊ, DORME

PENSAMENTO, DORME
SENSAÇÃO, DORME

AMANHÃ, DORME


In: Canções de ninar. Santo André: Cameratti, 1994

NOTA: Letra tirada do encarte que acompanha o C
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Laís Corrêa de Araújo

Laís Corrêa de Araújo

Adeus

É assim que eu te digo adeus:
como uma menina que mora na beira
da estrada e abana a mão para o trem.

Apenas te vi.
E te digo adeus porque não
apanho rosas.


In: ARAÚJO, Laís Corrêa de. Caderno de poesia. Sel. e org. Affonso Ávila e Wilson de Figueiredo. Il. Washington Junior. Belo Horizonte: Santelmo Poesia, 1951
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Manoel de Barros

Manoel de Barros

Na Rua Mário de Andrade

Na Rua Mário de Andrade
vou andar —
por ter sido Tarumã
e hoje ser Mário de Andrade

Ainda não sei onde é
mas vou procurar —
na rua Mário de Andrade
vou andar...

Vou ir com Macunaíma
rente às paredes
vou ir com Mário de Andrade

Ele, Mário, me diz: é preciso
flanar...
Eu digo a ele — ó Mário,
era o que eu ia te falar

É preciso flanar em ruas
— os passos levando sempre
para nenhum lugar

E Mário me diz: — Poeta,
nenhum-lugar é o melhor
lugar de um poeta chegar

Não há que ter nem começo
nem fim
essa antiga rua Tarumã

Como serão seus moradores?
Vou até lá
Saberão quem foi esse homem
bom — o da rua Lopes Chaves? Bem —
mas também ele não sabia
quem fora Lopes Chaves

Não há como não saber
quem foi o nome da rua
em que se morou ou vai morar

Se nome de gente, é bom
que ele desapareça
completamente

Não seja mais nem lembrança
nem a sombra de um homem
— como queria o poeta Bandeira

Talvez melhor conservar
rua Tarumã
mas vai ver que lá não existe
um pé de tarumã!
sequer uma criança
que conheça tarumã

(...)

Se houver flores nessa rua
Mário de Andrade — a todos nós
ela agradará

Se houver sobrados líricos
com janelas azuis ou verdes — pronto!
nada mais necessário será
para nutrir uns sonhos brancos...

(...)

Mas,
há de ser como ele foi
essa rua Mário de Andrade: simples
amiga — uma rua companheira —
uma grande alma de rua —

uma rua de óculos, de cara enorme
e de uma enorme ternura debaixo dos óculos...

Rua Mário de Andrade...


Publicado no livro Poesias (1956).

In: BARROS, Manoel de. Gramática expositiva do chão: poesia quase toda. Introd. Berta Waldman. Il. Poty. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 199
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Afonso Schmidt

Afonso Schmidt

Os Pequenos Varredores

Pela escura avenida arborizada,
ninguém. Lá para cima,
escuta-se um rumor que se aproxima,
nuvens rolando pelo chão, mais nada...

Depois, enche-se a noite de pavores,
há risos, pragas, uivos;
dançam, ao longe, contra o vento, ruivos
de poeira, pequeninos varredores.

De ombros estreitos e de faces cavas,
lutam com seus destinos,
nas horas em que todos os meninos
dormem e sonham com princesas flavas.

Há, entre eles, alguns que são precoces,
fumam e bebem. Vários,
transitam para a noite dos ossários,
têm o pulmão comido pelas tosses.

Arrastando o esqualor destas sarjetas,
dirão, olhos em brasa,
que é melhor acabar na Santa Casa
do que viver assim, como grilhetas.

E lá se vão. A nuvem se adelgaça;
um senhor, na alameda
sem luz, toma do lenço, que é de seda,
tapa o nariz, inclina a fronte, e passa...


Publicado no livro Janelas abertas (1911).

In: SCHMIDT, Afonso. Poesia. Ed. definitiva. São Paulo: Ed. Nacional, 194
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B. Lopes

B. Lopes

Mameluca

A que aí anda, esguia mameluca,
De olhos de amêndoa e tranças azeviche,
Tem uns ares fidalgos da Tijuca
E petulantes trajos a Niniche.

É justo, é natural que ela capriche
Em mostrar o cabelo, a espádua, a nuca
E essas pálpebras roxas de derviche,
Como um goivo aromal que se machuca.

Abre às soalheiras, em sanguíneo estofo,
A escandalosa e original papoula
Do pára-sol clownesco, álacre e fofo;

E o lírio do alto, quando espia o glabro
Rosto oval da cabocla, abre a caçoula,
E a via-láctea acende em candelabro!


Publicado no livro Brasões (1895).

In: LOPES, B. Poesias completas. Pref. Andrade Muricy. Rio de Janeiro: Z. Valverde, 1945. v.
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Carlos Frydman

Carlos Frydman

Ansiedade

Tenho sede de palavras quentes
desgarradas dos limites formais.
Tenho fome da pureza
que a "diplomacia" da vida roubou.
Tenho saudade dos luares
que a simetria da cidade retalhou.

Sinto a tristeza e o frio dos cimentos
que fizeram dos homens aves sem vôo;
das crianças, criaturas sem jardins;
dos decênios, estações sem primaveras,
impingindo um formalismo e limitando
os seres em si.

Tenho a premência coletiva
de impor os sonhos à vida;
e, do artifício de viver,
fazer da vida a delícia
que as artes vivas
procuram viver.

Tenho ansiedade
de não ficar ansiando
o que estou buscando,
na busca que busco,
antes que a busca
me possa tragar.


In: FRYDMAN, Carlos. Os caminhos da memória. Apres. Carlos Burlamáqui Kopke. Il. João Suzuki. São Paulo: Fulgor, 1965
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Menotti del Picchia

Menotti del Picchia

I - Praça da República

Os chorões lavaram seus cabelos verdes
nas piscinas de cimento
dentadas de rochedos feitos por marmoristas
e desenhados por Debugras

Há peixes dispépticos que só comem pão-de-ló
servidos pelos dedos lunares das Salomés-normalistas
que sabem de cor as façanhas de Tom-Mix e Tiradentes.

As astúrias cortaram suas tranças "à la garçonne"
e ouvem lições de geometria no espaço
de sábios buxos cubistas...

Praça da República cheia de mulheres públicas
de detritos humanos, como um porto cosmopolita onde os táxis atracam,
velhas catraias urbanas
que vogam nos canais de asfalto das alamedas.

Álvares de Azevedo, o último Romântico,
condenado às galés da imortalidade,
cospe na praça noturna,
do alto de sua herma,
o seu desdém de bronze.


Publicado no livro Chuva de Pedra (1925). Poema integrante da série Impromptus Urbanos.

In: DEL PICCHIA, Menotti. Poesias, 1907/1946. São Paulo: Martins, 1958. p.67. (Obras de Menotti del Picchia
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Joaquim Manuel de Macedo

Joaquim Manuel de Macedo

A Sé do Rio de Janeiro

Positivamente não contáveis com um passeio à Sé do Rio de Janeiro.

Quando nos ocupamos do Palácio Imperial, visitastes e estudastes comigo a igreja do antigo Convento do Carmo, elevada a catedral desta cidade por alvará de 15 de junho de 1808, c, sem dúvida, vos supusestes por isso livres de um novo passeio exclusivamente destinado à Sé.

Acrescentai mais unia suave ilusão ao número das vossas ilusões perdidas. Armai-vos de paciência, porque eu resolvi dar na Sé com todos os meus companheiros de passeio, e temos muito que andar.

Aqui não há apelação nem agravo. Sou senhor absoluto nos meus passeios. Há tantos subdelegados que governam como reizinhos absolutos na sua terra, que não deve admirar que eu me faça ditador na minha obra. Aqueles bichos não são melhores do que eu.

Preparai-vos, já disse. Não julgueis que o passeio à Sé vai ser feito muito cômoda e agradavelmente, seguindo pela Rua do Ouvidor, parando diante da Notre Dame de Paris para admirar as sedas expostas, comprando coronéis no Desmarais, e ao chegar a Rua Direita, descansando um pouco nos banquinhos do boulevard Carceller, e entrando enfim na Capela Imperial para ouvir o cantochão dos cônegos, que realmente desafinam muito, porém, não tão desastradamente para o Tesouro Nacional como as companhias líricas italianas, que têm a sua Sé no Provisório, abismo permanente do dinheiro público.

Desenganem-se e aprontem-se. Temos que acompanhar a Sé e o competente cabido, que fizeram mais mudanças do que os franciscanos e os carmelitas, ou tantas como os inquilinos que deixam de pagar aos proprietários o aluguel das casas em que moram.

Comecemos.

A catedral do Rio de Janeiro e o corpo capitular estabeleceram-se apenas, se realizou a sua instituição na primeira matriz da cidade, tia igreja dedicada ao mártir S. Sebastião.

Mas onde era essa Igreja de S. Sebastião?

É impossível prosseguir no nosso passeio sem deixar esclarecido este ponto.

Cumpre contar em quatro palavras uma longa história.

Os franceses são tidos na conta de homens de tanto espírito como bom gosto, e eu creio que eles merecem, desde o meado do século décimo sexto, esta reputação, porque, enquanto os portugueses, descobridores do Brasil, depois de mais de vinte anos de empenhos de colonização dos seus domínios da América, deixavam deserta e desestimada a magnífica Niterói, namoraram-se da formosa cabocla tão perdidamente os franceses, que um belo dia ousaram com mão armada apoderar-se dela.

Os portugueses trocaram então, a indiferença por amor, e ciumentos daqueles intrusos apaixonados, vieram, no fim de cinco anos, em 1560, atacar o estrangeiro que dominava no Rio de Janeiro. Mem de Sá, o terceiro governador geral do Brasil, foi quem dirigiu a empresa e, ficou vencedor, mas chegou, viu, venceu, e... foi-se, e apenas foi-se, tornaram os franceses vencidos, porém não convencidos, a ocupar as suas posições.

Realmente fora um muito gastar de pólvora sem proveito algum. Mem de Sá regalou-se de dar pancada, e não colheu resultados reais. Deu pancada de cego. Pôs os intrusos fora de casa, mas logo retirou-se, deixando a casa sem moradores e com a porta aberta.

E que porta! – A barra do Rio de Janeiro.

Os franceses tornaram a entrar, e fizeram multo bem.

Portugal devia ter mandado um bom presente ao rei de França, que não soube ou não pôde acudir com reforços poderosos aos poucos vassalos seus que estavam sonhando com a França Antártica no Rio de Janeiro.

Mas, abandonados pelo seu governo, os franceses, no fim de outros cinco anos, viram chegar à formosa baía de Niterói Estácio de Sá, sobrinho do governador geral do Brasil, à frente de uma coluna de portugueses, para lançá-los fora das posições que ocupavam.

Os franceses eram poucos. Tinham, porém, a seu favor o concurso valioso dos tamoios, que os estimavam.

Estácio de Sá reconheceu que a expulsão dos franceses do Rio de Janeiro não era questão de pouco mais ou menos, e como trazia a incumbência gloriosa de fundar uma cidade que dominasse a majestosa baía, desembarcou junto do Pão de Açúcar, e na bela praia, que durante algum tempo se denominou de Martim Afonso e depois ficou sendo chamada Praia Vermelha, lançou, no ano de 1565, os fundamentos de uma cidade a que deu o nome de São Sebastião do Rio de Janeiro.

Convém saber, pelo sim pelo não, que o nome da cidade foi mais aconselhado pela devoção a um grande senhor da terra do que pela que era devida àquele santo mártir do céu. Estácio de Sá, neste caso, fez de S. Sebastião um pau de cabeleira para render seus cultos ao rei de Portugal D. Sebastião. Foi um dom escondido atrás de um santo.

Não me chamem má língua. Brito Freire foi quem me revelou o segredo dessa mistificação de que foi vítima o santo, porque escreveu no livro 1, § 78 da sua Guerra Brasílica, que "chamaram (a cidade) de S. Sebastião, vinculando a lisonja de el-rei, que era do mesmo nome daquele tempo, à devoção do santo".

E o mais é que a lisonja sabe a açúcar mesmo ao paladar dos santos. S. Sebastião tanto gostou da lembrança de Estácio de Sá, que chegou a descer do céu, como em breve terei ocasião de dizer, e pôs em debandada os franceses e tamoios, que teimavam em resistir.

Continuemos, porém, a história. Lançados os fundamentos da cidade, isto é, resolvida a sua fundação na praia de Martim Afonso, levantou-se uma igreja a S. Sebastião. Foi um templo edificado em poucos dias, e não passou de uma casa de pau-a-pique com o seu teto coberto de palha.

Não tenhais pena de S. Sebastião pela rudeza e humildade da sua primeira igreja entre nós. Eu creio que nessa casa de palha ele foi mais sincera e piedosamente adorado do que o são atualmente todos os santos e santas em seus ricos templos e com as suas brilhantíssimas festas, anunciadas pelas gazetas a modo de espetáculos de teatros, com a declaração do mestre que vai reger a música, das moças bonitas que vão cantar os solos, e não sei mesmo se do fogueteiro que fabricou as girândolas.

Quase dois anos correram em que Estácio de Sá, com os portugueses na praia de Martim Afonso, e os franceses nos pontos que ocupavam, levaram a trocar balas e seus índios a trocar flechas com verdadeira inutilidade, até que a 19 de janeiro de 1567, chegou o governador geral Mem, de Sá em socorro do sobrinho, e como o dia seguinte, 20 de janeiro, fosse consagrado a S. Sebastião, aproveitou a coincidência para atacar os franceses, e o fez com tanto ardor, que completamente os derrotou, tomando-lhes todas as suas fortificações e destruindo todas as suas esperanças de França Antártica.

Renhida e terrível foi a peleja. A vitória, porém, não podia deixar de declarar-se pelos portugueses, porque do lado contrário batalhavam os sectários de Calvino e nas colunas de Mem de Sá verdadeiros católicos, entre os quais combatia, segundo a voz da tradição, o próprio santo mártir S. Sebastião.

Declaro que neste ponto não invento um romance de mau gosto, nem repito história que me fosse contada pelo meu amigo o padre velho. Apenas e simplesmente retiro uma tradição conservada por alguns autores.

Brito Freire diz relativamente a S. Sebastião as seguintes palavras: "a quem os portugueses aclamaram padroeiro em esta guerra, porque em algumas ocasiões mais apertadas (referem às relações manuscritas do venerável padre José de Anchieta) que a favor dos nossos se vira pelejar contra os inimigos".

Rocha Pita, ainda mais positivo, tratando da fundação da cidade do Rio de Janeiro, escreve o seguinte: "deu-se-lhe o nome de S. Sebastião, a cujo patrocínio atribuíram todos aquela vitória, em que houve indícios certos (como é tradição constante) que fora nela capitão, sendo por mu
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Moacyr Felix

Moacyr Felix

Dois Poemas do Homem e sua Escolha

Revenir serait une chute écrasante.
Paul Éluard

I

Se em cada porto, longe, o verde alfombra
uma esperança, uma salgada brisa
para os pesados barcos sobre a sombra
toda feita de nadas, imprecisa
(mas devorando o peixe e o ar e o homem),
alastro as rubras aves do incorpóreo
pelo dorso desnudo de uma tarde
(que é esta parte de mim que eu vou queimando)
e insisto em que eles partam, vou deixando-os
acompanhados desta dor acesa
levar o aviso dos meus olhos, mar
e mar afora... Mas eu fico. E finco
na sombra irreversivelmente minha
a permanência — ciclo e madureza
dos troncos regravados pela chuva,
dos troncos que se cumprem sempre os mesmos,
imóveis, simplesmente se cumprindo
sob um pórtico de nuvens giratórias...

II

Destino. Que é o destino? Que fazer
contra estas sombras íntimas, tão minhas
como o tecido esquivo de mim próprio
preso em meus ossos, latejando um ser
de asas de sal mordendo um chão de ópio?
Ah, destino, oxalá não haja enganos
quando chegar nas pontas dessa teia
de gastos gestos lentos costurados
com o arame triste desses muitos anos!
Quando parar, no tempo, esta alma cheia
de escolhas acabadas, rosa quieta
a desmanchar-se em desenhados ventos,
ah, vida, não me vença a noite alerta
atrás do abismo
e que os abismos incendeia:
deixa eu colher no rosto um rosto certo
do tempo irreversível, som de areia
que já foi casa ou ponte, e não deserto...


Publicado no livro O Pão e o Vinho (1959).

In: FÉLIX, Moacyr. Antologia poética. Rio de Janeiro: J. Olympio, 1993. p.17-1
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