Amor Romântico

Poemas neste tema

Martha Medeiros

Martha Medeiros

eu tinha por ti amor

eu tinha por ti amor
e ainda não havia lido
nem escrito nem vivido nada igual
eu tinha por ti um sentimento
que não havia sido previsto, intuído
não havia sinal de reconhecimento
por isso ainda deixo a porta aberta
não entra você, entra o vento
todo amor desconhecido
precisa se entender com o tempo
1 096
Martha Medeiros

Martha Medeiros

o sentido da vida

o sentido da vida
é o que a gente sente


por um filho
que é a cara da gente


por um trabalho
que ocupa a mente


por um amor
que nos deixa doente


pena que isso não baste
por mais que se tente
1 284
Martha Medeiros

Martha Medeiros

se eu pudesse te amar de dia

se eu pudesse te amar de dia
diria que você é meu sol
mas te amo tarde da noite
e não como eu queria
você é meu farol
e já não sei quem me guia
959
Martha Medeiros

Martha Medeiros

não tente chegar na hora marcada

não tente chegar na hora marcada
ele pode vir antes, ou chegar depois
o amor deixa sempre esperando
1 123
Martha Medeiros

Martha Medeiros

dois, quatro, seis, oito

dois, quatro, seis, oito
o par é tranquilizante


um, três, cinco, sete
o ímpar é o amante
979
Martha Medeiros

Martha Medeiros

seria ótimo

seria ótimo
se você baixasse o som e desligasse
esse canal
me tocasse como um disco importado
medo de quebrar
serve um pouco mais de vinho e vem deitar
975
Martha Medeiros

Martha Medeiros

ele diz que me ama, deseja

ele diz que me ama, deseja
me quer para sempre, me pede
para ser sua mulher, me corteja
me faz confissões, me venera
me entrega sonetos, me beija
implora meu sim, me calo
depois penso melhor, que seja
998
Martha Medeiros

Martha Medeiros

fica combinado assim

fica combinado assim
você louco por mim
eu louca até o fim
1 155
Martha Medeiros

Martha Medeiros

ele corre

ele corre
e abre a grande angular


eu foco a fantasia
e a gente ri que dói


ele Fórmula 1
eu capa da Playboy
1 082
Martha Medeiros

Martha Medeiros

eu passei por poucas e boas

eu passei por poucas e boas
ele por maus momentos


eu soube de sofrimento
ele quis relaxar e gozar


eu tentei novos caminhos
ele preferiu ficar sozinho


eu quase não via
ele pura alegria e descoberta


eu certa de que tudo daria certo
ele incerto e cuidadoso


até a hora que nos conhecemos
e tentamos uma coisa que só nós dois sabemos
1 010
Martha Medeiros

Martha Medeiros

quero morar

quero morar
no teu lugar comum
fazer previsões
improvisadas
crises pré-datadas
e ser dois em um
bem clichê
batom no copo
lingerie e Sinatra
bem eu e você


kitch por uma noite
adoraria
1 139
Martha Medeiros

Martha Medeiros

pisei no palco

pisei no palco
pela primeira vez


pisquei pra alguém
na primeira fila


interpretei você
na primeira noite
974
Martha Medeiros

Martha Medeiros

eu quero

eu quero
amor piscina
que sobe e desce trampolins
cai e sai nadando
amor em que se afunda e simplesmente
sai se amando
1 051
Martha Medeiros

Martha Medeiros

gravei tua voz no meu tímpano

gravei tua voz no meu tímpano
vez em quando labirinto
faço que sinto, vez em quando minto
vinho tinto, amor rosé
você
vez em quando instinto
999
Martha Medeiros

Martha Medeiros

descubro meus vícios assim

descubro meus vícios assim
cheguei na cabana e pensei
sem tevê eu não fico
sem você eu não vivo
995
Martha Medeiros

Martha Medeiros

quero um homem quente

quero um homem quente
que me queira beijar fundo e único
que me queira cheirar
mundo e tímido
1 008
Martha Medeiros

Martha Medeiros

ele era gago, vesgo e mancava de uma perna

ele era gago, vesgo e mancava de uma perna
e daí? era gostoso, inteligente e tinha uma
boca linda
sabia dizer coisas belas em horas estranhas
e chorava quando se sentia completamente
feliz
1 031
Sophia de Mello Breyner Andresen

Sophia de Mello Breyner Andresen

Eurydice

O teu rosto era mais antigo do que todos os navios
No gesto branco das tuas mãos de pedra
Ondas erguiam seu quebrar de pulso
Em ti eu celebrei minha união com a terra
1 100
Sophia de Mello Breyner Andresen

Sophia de Mello Breyner Andresen

Enquanto Longe Divagas

I
Enquanto longe divagas
E através de um mar desconhecido esqueces a palavra
— Enquanto vais à deriva das correntes
E fugitivo perseguido por inomeadas formas
A ti próprio te buscas devagar
— Enquanto percorres os labirintos da viagem
E no país de treva e gelo interrogas o mudo rosto das sombras
— Enquanto tacteias e duvidas e te espantas
E apenas como um fio te guia a tua saudade da vida
Enquanto navegas em oceanos azuis de rochas negras
E as vozes da casa te invocam e te seguem
Enquanto regressas como a ti mesmo ao mar
E sujo de algas emerges entorpecido e como drogado
— Enquanto naufragas e te afundas e te esvais
E na praia que é teu leito como criança dormes
E devagar devagar a teu corpo regressas
Como jovem toiro espantado de se reconhecer
E como jovem toiro sacodes o teu cabelo sobre os olhos
E devagar recuperas tua mão teu gesto
E teu amor das coisas sílaba por sílaba
II
O meu amor da vida está paralisado pelo teu sono
É como ave no ar veloz detida
Tudo em mim se cala para escutar o chão do teu regresso
III
Pois no ar estremece tua alegria
— Tua jovem rijeza de arbusto —
A luz espera teu perfil teu gesto
Teu ímpeto tua fuga e desafio
Tua inteligência tua argúcia teu riso
Como ondas do mar dançam em mim os pés do teu regresso
Junho de 1974
1 278
Sophia de Mello Breyner Andresen

Sophia de Mello Breyner Andresen

Caxias 68

Luz recortada nesta manhã fria
Muros e portões chave após chave
O meu amor por ti é fundo e grave
Confirmado nas grades deste dia
Fevereiro de 1968
1 161
Sophia de Mello Breyner Andresen

Sophia de Mello Breyner Andresen

Iv. Falamos Junto À Luz. Lá Fora a Noite

Falamos junto à luz. Lá fora a noite
Imóvel brilha sobre o mar parado.
À sombra das palavras o teu rosto
Em mim se inscreve como se durasse.
1 290
Sophia de Mello Breyner Andresen

Sophia de Mello Breyner Andresen

Porque Nos Outros Há Sempre Qualquer Nojo

Porque nos outros há sempre qualquer nojo
Que me gela e me afasta
E em ti há sempre um pouco de mar largo
Que de olhos cegos atrás de ti me arrasta.
1 244
Sophia de Mello Breyner Andresen

Sophia de Mello Breyner Andresen

V. o Amor

Não há para mim outro amor nem tardes limpas
A minha própria vida a desertei
Só existe o teu rosto geometria
Clara que sem descanso esculpirei.

E noite onde sem fim me afundarei.
1 940
Sophia de Mello Breyner Andresen

Sophia de Mello Breyner Andresen

Ii. Eurydice

Este é o traço que traço em redor do teu corpo amado e perdido
Para que cercada sejas minha
Este é o canto do amor em que te falo
Para que escutando sejas minha
Este é o poema — engano do teu rosto
No qual eu busco a abolição da morte
1 235