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Natureza

Poemas neste tema

Ted Berrigan

Ted Berrigan

Soneto 2

Querida Margie, alô. São 5:15 da manhã.
querido Berrigan. Ele morreu
De volta aos livros. Leio
São 8:30 da noite em Nova Iorque e estive numa correria o dia todo
velhos vinde-ver-quens vadiam pelas ruas. Sim, é agora
Quanto Mais Tempo Serei Capaz de Habitar o Divino
e o dia é cinza claro ficando verde
feminino esplendoroso e durão
vendo o sol se levantar sobre o Pátio da Marinha
para escrever corpo de durex no caderno
tomei 17 miligramas e meio
Querida Margie, alô. São 5:15 da manhã
fodi até às 7 agora ela está atrasada para o trabalho e eu tenho
18 anos então por que minhas mãos estão tremendo eu devia ser mais esperto
863
Henriqueta Lisboa

Henriqueta Lisboa

Frutescência

Em solidão amadurece
a fruta arrebatada ao galho
antes que o sol amanhecesse.
Antes que os ventos a embalassem
ao murmurinho do arvoredo.
Antes que a lua a visitasse
de seus mundos altos e quedos.
Antes que as chuvas lhe tocassem
a tênue cútis a desejo.
Antes que o pássaro libasse
do palpitar de sua seiva
o sumo, no primeiro enlace.
Na solidão se experimenta
a fruta de ácido premida.
Mas ao longo de sua essência
já sem raiz e cerne e caule
perdura, por milagre, a senha.
Então na sombra ela adivinha
o sol que a transfigura em sol
a suaves pinceladas lentas.
E ouve o segredo desses bosques
em que se calaram os ventos.
E sonha invisíveis orvalhos
junto à epiderme calcinada.
E concebe a imagem da lua
dentro de sua própria alvura.
E aceita o pássaro sem pouso
que a ensina, doce, a ser mais doce.
de Além da imagem (1963)
1 083
Jack Spicer

Jack Spicer

Pedaços do passado ascendem dos escombros

Pedaços do passado ascendem dos escombros. O que evoca Eliot
e então evoca Desconfiança. Fantasmas todos eles. Fazendo nada
que preste.
Nosso passado em redor é mais profundo que.
Fatos presentes desafiam-nos, o passado
sem tais escrúpulos. Nenhuma pompa fúnebre para ele. Ele morreu
agonizando. A rola sob o dedo.
Acomoda-nos como cadáveres
Nós poetas
Verbo vazio.
Por um enterro (enquanto falo e vivo e respiro)
Em dimensões
Justas
E impossíveis.

(tradução de Ricardo Domeneck)

:

[Pieces of the past arising out of the rubble]

Pieces of the past arising out of the rubble. Which evokes Eliot
and then evokes Suspicion. Ghosts all of them. Doers of no
good.
The past around us is deeper than.
Present events defy us, the past
Has no such scruples. No funeral processions for him. He died
in agony. The cock under the thumb.
Rest us as corpses
We poets
Vain words.
For a funeral (as I live and breathe and speak)
Of good
And impossible
Dimensions.

759
Sebastião Alba

Sebastião Alba

As mãos

Componho com as linhas dos meus dedos outros puros
cujas pontas façam girar nenhum raio sucessivo
de sol Dedos sem o cadastro de enlaces doendo
e se declamo ficções que eles escorem
Sem par noutras mãos Nem fundos na algibeira
mexidamente obscenos e a salvo da garra dos gatilhos
Dedos com um horizonte de pálpebra baixando
que assim não acordem as formas tacteadas
donde um sono mane estrie os espaços vedados
Dedos de que mesmo a chuva escorra sem uma lágrima
Ou os que já compus e assinam adiam o poema.


1 085
Jack Spicer

Jack Spicer

Uma Carriola Vermelha

Relaxe e olhe esta maldita carriola. O que quer
Que seja. Cães e crocodilos, refletores. Não
Por seu significado.
Por seu significante. Por ser humano
Os signos elidem você. Você, nada brilhante,
É um sinal para eles. Não,
Eu assino, os cães e crocodilos, refletores. Não
Seu significado.
(tradução de Ricardo Domeneck)
:
A Red Wheelbarrow
Rest and look at this goddamned wheelbarrow. Whatever
It is. Dogs and crocodiles, sunlamps. Not
For their significance.
For their significant. For being human
The signs escape you. You, who aren’t very bright
Are a signal for them. Not,
I mean, the dogs and crocodiles, sunlamps. Not
Their significance.
563
Giuseppe Ungaretti

Giuseppe Ungaretti

Hino à morte

Amor, meu emblema de jovem,
Que volta a dourar a terra,
Difuso no dia rupestre,
É a última vez que contemplo
(Ao pé deste barranco, de impetuosas
águas, suntuoso, funesto
De antros) o rastro de luz
Que, como a lastimosa rolinha
Inquieta, meandra no gramado.
Amor, salvação fulgurosa,
Pesam-me os anos do porvir.
Largado o bastão fiel,
Resvalarei para a água sombria
Sem um queixume.
Morte, árido rio ...
Imêmore irmã, morte,
Igual ao sonho me farás
Beijando-me.
Terei teu mesmo passo,
Irei sem deixar traço.
Tu me darás o coração indiferente
De um deus, serei inocente,
Sem pensamentos, nem cuidados.
Com a mente murada,
Com os olhos caídos em esquecimento,
Far-me-ei guia da felicidade.
(tradução de Geraldo Holanda Cavalcanti)
:
Inno alla morte
Giuseppe Ungaretti
Amore, mio giovine emblema,
Tornato a dorare la terra,
Diffuso entro il giorno rupestre,
É l'ultima volta che miro
(Appiè del botro, d'irruenti
Acque sontuoso, d'antri
Funesto) la scia di luce
Che pari alla tortora lamentosa
Sull'erba svagata si turba.
Amore, salute lucente,
Mi pesano gli anni venturi.
Abbandonata la mazza fedele,
Scivolerò nell'acqua buia
Senza rimpianto.
Morte, arido fiume...
Immemore sorella, morte,
L'uguale mi farai del sogno
Baciandomi.
Avrò il tuo passo,
Andrò senza lasciare impronta.
Mi darai il cuore immobile
D'un iddio, sarò innocente,
Non avrò più pensieri nè bontà.
Colla mente murata,
Cogli occhi caduti in oblio,
Farò da guida alla felicità.
(1925)
1 420
Sebastião Alba

Sebastião Alba

No meu país

No meu país
dardejado do sol e da caca dos gaios
só há estâncias
(de veraneio) na poesia.
Nossos lábios
a um metro e sessenta e tal
do chão amarelecido
dos símbolos
abrem para fora
por dois gomos de frio.
Nossos lábios outonais, digo,
outonais doze meses.
No entanto
o equilíbrio jacente
faz florir as acácias;
a terra incha;
na derme da possível
geografia,
um frémito cinde
as estações do ano.


1 196
Henriqueta Lisboa

Henriqueta Lisboa

Não a face dos mortos

Não a face dos mortos.
Nem a face
dos que não coram
aos açoites
da vida.
Porém a face
lívida
dos que resistem
pelo espanto.

Não a face da madrugada
na exaustão
dos soluços.
Mas a face do lago
sem reflexos
quando as águas
entranha.

Não a face da estátua
fria de lua e zéfiro.
Mas a face do círio
que se consome
lívida
no ardor.

de A face lívida (1945)

974
Henriqueta Lisboa

Henriqueta Lisboa

Calendário

Calada floração
fictícia
caindo da árvore
dos dias

de Reverberações (1976)

1 257
Tchicaya U Tam'si

Tchicaya U Tam'si

O sangue ruim (andante)

I
Brota tua canção – Sangue ruim – como viver
o lixo à flor da alma, ser de carne lamento
a atrocidade do sangue flor de estrela, encarniçado
Serpentes na noite silvavam como cobres
Anágua mil sóis ressaca para um canto de órgãos
meu sangue se dispersou pois um solerte amanhã
falará de minha terra tudo como um belo destino
não iremos mais chorar sob o céu gris dos necrotérios
Eu serei a gaivota a morte por falta de sorte
Uma grande forca erguida reposta para as penas
ergue-me alto e confiante com roupas de festa
Chora o infortúnio virá enternecer os diamantes
Teu sangue te espanca, ó meus corações esbaforidos
Eu sou negro filho solar à mão com cantar demente.
(tradução de Leo Gonçalves)
:
Le mauvais sang (andante)
Tchicaya U Tam´si
I
Pousse ta chanson – Mauvais sang – comment vivre
l’ordure à fleur de l’âme, être a chair regret
l’atrocité du sang fleur d’étoile, nargué
Des serpentes dans la nuit sifflaient comme des cuivres
Cotillon mille soleils ressac pour un chant d’orgues
mon sang s’est disperse car un preux demain
dira sur ma ville tout comme un beau destin
nous n’irons plus pleurer sous le ciel gris des morgues
Je serai la mouette la morte par déveine
Un grand gibet levé remise pour les peines
m’emporte haut et fier en habits festonnés
Pleure le malheur viendra ternir les diamants
Ton sang te matraque, ô mes coeurs époumonés
Je suis noir fils solaire à main le chant demente.
(1955)
828
John Berryman

John Berryman

55

Peter não é amigável. Dá-me olhares de soslaio.
A arquitetura está longe de reconfortar.
Sinto-me inquieto.
É pena,-- a entrevista começou tão bem:
mencionei coisas vilanescas, ele mandou-as embora
e malpreparou um martini

estranhamente precisado. Tratamos de assuntos indiferentes --
a saúde de Deus, o vago inferno do Congo,
a energia de John,
questões de anti-matéria. Senti-me bem.
Mas veio uma mudança trás para frente. Caiu um frio.
A conversa ralentou,

morreu, e ele começou com os olhares de soslaio.
'Cristo', pensei, 'e agora?' e bem teria pedido mais um
mas não ousei.
Senti que minha petição fracassava. Está escurecendo,
um outro som se sobrepondo. Suas últimas palavras foram:
'Nós traímos a mim'.

(tradução de Ismar Tirelli Neto)



Dream Song 55
John Berryman

Peter's not friendly. He gives me sideways looks.
The architecture is far from reassuring.
I feel uneasy.
A pity, -- the interview began so well:
I mentioned fiendish things, he waved them away
and sloshed out a martini

strangely needed. We spoke of indifferent matters --
God's health, the vague hell of the Congo,
John's energy,
anti-matter matter. I felt fine.
Then a change came backward. A chill fell.
Talk slackened,

died, and he began giving me sideways looks.
'Christ', I thought, 'what now?” and would have askt for another
but didn't dare.
I feel my application failing. It's growing dark,
some other sound is overcoming. His last words are:
'We betrayed me'.



679
Christopher Okigbo

Christopher Okigbo

A árvore

A raiz atingiu
Um veio de pedra.

A seiva seca no caule
Em ascensão:
O sangue seca na veia
Como seiva.

(tradução de Ricardo Domeneck)


The Tree
Christopher Okigbo

THE ROOT has struck
A layer of rock;

The sap dries out in the stem
Upwards:
The blood dries out in the vein
Like sap.



.
.
.
879
Sebastião Alba

Sebastião Alba

Ninguém meu amor

Ninguém meu amor
ninguém como nós conhece o sol
Podem utilizá-lo nos espelhos
apagar com ele
os barcos de papel dos nossos lagos
podem obrigá-lo a parar
à entrada das casas mais baixas
podem ainda fazer
com que a noite gravite
hoje do mesmo lado
Mas ninguém meu amor
ninguém como nós conhece o sol
Até que o sol degole
o horizonte em que um a um
nos deitam
vendando-nos os olhos.


1 363
John Berryman

John Berryman

14

A vida, amigos, é um tédio. Não devemos dizê-lo.
Afinal, o céu se acende, o verde mar anseia,
nós mesmos acendemos e ansiamos,
e ademais disse-me a mãe em pequeno
(repetidamente) 'Confessar-se entendiado
significa que não tens
Recursos Interiores´. Concluo agora que não tenho
recursos interiores, pois estou entediado às profundas.
As gentes me entediam,
a literatura me entedia, especialmente a grande literatura,
Henry me entendia, com seus apertos& apuros
tão graves quanto os de Aquiles,
que ama as gentes e a arte valorosa, que me entendiam.
E as plácidas colinas,& o gim, parecem uma chatice
e de algum modo um cachorro
levou-se a si próprio& ao rabo consideravelmente embora
para as montanhas ou o mar ou o céu, deixando
para trás: a mim, balanço.
(tradução de Ismar Tirelli Neto)
Dream Song 14
John Berryman
Life, friends, is boring. We must not say so.
After all, the sky flashes, the green sea yearns,
we ourselves flash and yearn,
and moreover my mother told me as a boy
(repeatingly) 'Ever to confess you're bored
means you have no
Inner Resources.' I conclude now I have no
inner resources, because I am heavy bored.
Peoples bore me,
literature bores me, especially great literature,
Henry bores me, with his plights& gripes
as bad as achilles,
who loves people and valiant art, which bores me.
And the tranquil hills,& gin, look like a drag
and somehow a dog
has taken itself& his tail considerably away
into mountains or sea or sky, leaving
behind: me, wag.
647
Tchicaya U Tam'si

Tchicaya U Tam'si

Através de tempo e rio

Um dia será preciso se pôr
a andar alto os ventos
como as folhas das árvores
para o estrume para o fogo

que importa
outras eras farão de nossas almas
silícios
porto para os pés desnudos
estaremos em todos os caminhos

porto para a sede
porto para o amor
porto para o tempo

nós vimos a areia
nós vimos a espuma
que a ignora
vimos os rios e as árvores
quem dirá

nós acreditamos
nós acreditamos
quem negará
pegamos carpas enchemos as redes
bastava um gesto com o polegar
o mundo estava salvo pelo silêncio

mas então
o mar salta a espuma
mas então
a espuma derruba o mar
ao longe se vão os sete rios
para saber a quem cantam as folhas

resta ainda um rio
e a chave dos sonhos nos seus flancos
mas quanto a saber por que
cantam as folhas
ah mágoa mágoa
hurra as trovoadas

caminhar com punhos fechados
caminhar
contar as estrelas
e saltar acima das jângals
para tanto não ser hiena nem jiboia

depois aplaudir um rio
e as corças e as zebras e as gazelas
depois saltar com ele alto a lâmina
a formiga diz
vou esfolar o búfalo
ah deixe o rio
venha cá mulher-rã

as libélulas dançavam
veladas de azul e de pólen

resta o rio
e o arco-íris
à beira um ancião

ancião lava tua chaga
mas diz a minha mãe diz a meu pai
eis-me mulher-jacaré
ó mãe amante-crocodilo
ó pai mulher-jacaré
ancião lava tua chaga

os peixes das águas avistaram essas lágrimas
cuspiram para salvar aquelas lágrimas
mas as gaivotas fecharam a cara
pobre afogada guarda teu leito de rio

resta-nos esse rio
e o arco-íris
em relevo
dos papagaios portadores de totens

a savana entre seus troncos
faz dançar fulvos viscosos

e eu gritei
por sobre as jângal
fica a direitura do caminho esquecido

mas eis a areia
ao longe é o mar

mas eis o ovo
uma crista ao redor
de sua vida
se calar ou simplesmente chorar
a criança dorme
a mãe se esquece
a coruja ulula
a lua está tranquila

o tempo passa
a lua desaparece
a flor d’água se quebra
a criança dorme

morre sua mãe

os jacarés partiam a água
com a cauda

a coruja ressona não espere a noite
pois não basta gritar estupro
assim saltou o astro inicial
pois o escorpião nunca foi um vicioso

mil formigas vão esfolar o búfalo
que degolou o cordeiro diante dos homens

café bananas algodão tapioca
morre morre quem quiser

não basta recriar o estupro

uma manhã
uma clara manhã
não mais totens e seus papagaios
uma manhã
uma clara manhã
não mais folhas em parte alguma

ao longe se foram
sete rios de ondas perdidas
a criança dorme
o atabaque sua
a lua está tranquila
o tempo passa
sobre suas montarias de silêncios

(tradução de Leo Gonçalves)

:

À travers temps et fleuve
Tchicaya U Tam´si

Un jour il faudra se prendre
marcher haut les vents
comme les feuilles des arbres
pour un fumier pour un feu

qu’importe
d’autres âges feront de nos âmes
des silex
gare aux pieds nus
nous serons sur tous les chemins

gare à la soif
gare à l’amour
gare au temps

nous avons vu le sable
nous avons vu l’écueil
qui l’ignore
nous avons les fleuves et les arbres
qui le dira

nous avons cru
nous avons cru
qui le niera
nous avons pris des carpes plein nos filets
il suffisait d’un coup de pouce
le monde était sauvé par le silence

mais voici
la mer saute l’écueil
mais voici
l’écueil culbute la mer
au loin s’en vont les sept fleuves
à savoir pour qui chantent les feuilles

il reste un fleuve
et la clé des songes dans ses flancs
mais quant à savoir pourquoi
chantent les feuilles
ah chagrin chagrin
hourra les tonneres

marcher les poings fermés
marcher d’abord
compter les étoiles
et sauter par-dessus les jungles
pour cela n’être ni hyène ni python

puis applaudir un fleuve
et les biches et les zèbres et les gazelles
puis bondir avec lui haut la lame
la fourmi dit
je vais dépecer le buffle
hé quitte le fleuve
viens-t’en femme grenouille

les libellules dansaient
voilées d’azur et de pollent

il reste le fleuve
et l’arc-en-ciel
en bordure un vieil homme

vieil homme lave ta plaie
mais dis à ma mère dis à mon père
me voici femme caïman
me voici amante-crocodile
ô mère amante-crocodile
ô père femme-caïman
vieil homme lave ta plaie

les poissons de l’eau ont vu ces larmes
ils ont craché pour sauver ces larmes-là
mais les mouettes ont fait la moue
pauvre noyée garde ton lit de fleuve

il nous reste ce fleuve
et l’arc-en-ciel
en saillie
des perroquets porteurs de totems

la brousse entre ses troncs
fait danser des fleuves visqueux

et j’ai crié
par-dessus les jungles
est la droiture du chemin oublié

mais voici le sable
au loin est la mer

mais voici l’œuf
une coquille entoure
sa vie
se taire ou simplement pleurer
l’enfant dort
la mère s’oublie
la chouette ulule
la lune est tranquille

le temps passe
la lune disparaît
la fleur d’eau se brise
l’enfant dort

se meurt sa mère

les caïmans cassaient l’eau
avec leur queues

le hibou somnole n’attendez la nuit
car il ne suffit pas de crier au viol
ainsi a sauté l’astre initial
car le scorpion ne fut jamais vicieux

un mille de fourmis va dépecer le buffle
qui a égorgé l’agneau devant les hommes

café bananes coton tapioca
meure meure qui voudra

il ne suffit pas de recréer le viol

un matin
un clair matin
plus de totems et leurs perroquets
un matin
un clair matin
plus de feuilles nulle parte

au loin s’en sont allés
sept fleuves à flots perdus
l’enfant dort
le tam-tam s’ébruite
la lune est tranquille
le temps passe
sur ses montures de silences


(1957)

851
Giuseppe Ungaretti

Giuseppe Ungaretti

Campo

Villa di Garda, abril de 1918


A terra
se cobriu
de tenra
leveza

Como uma esposa
nova
oferece
atônita
ao filho
o pudor
sorridente
de mãe

(tradução de Geraldo Holanda Cavalcanti)


:


Prato
Villa di Garda aprile 1918

La terra
s'è velata
di tenera
leggerezza

Come una sposa
novella
offre
allibita
alla sua creatura
il pudore
sorridente
di madre



1 070
Daniel Faria

Daniel Faria

Há muitos metros

Há muitos metros entre um animal que voa
E a escada que desço para me sentar no chão
Mas basta-me um quadrado de sossego
Para a distância absoluta

Está para além do que se vê a janela onde me debruço definitivo
Não é uma aparição
Nem se pode alcançar sem se ir em frente caindo

Só no fim da paisagem estou de pé como um para-quedista que desce
Suspenso como os santos num arroubo místico
Erguido como um anjo em suas asas
E sinto-me ser alto como um astro. Nuvem
Como se fosse um homem
Que levita


1 503
Aglaja Veteranyi

Aglaja Veteranyi

A Fuga

A criança põe a boneca na mala.
A mãe põe a criança na mala.
O pai põe a mãe e a casa na mala.

O exterior põe o pai com a mala na mala.
E envia tudo de volta.

Escondem-se na floresta:

1 boneca
1 criança
1 mãe
1 pai
1 casa
2 malas
1 fuga.

(tradução de Fabiana Macchi)

:

Die Flucht
Aglaja Veteranyi

Das Kind packt die Puppe in den Koffer.
Die Mutter packt das Kind in den Koffer.
Der Vater packt Mutter und Haus in den Koffer.

Das Ausland packt Vater mit Koffer in den Koffer.
Schickt alles zurueck.

Es verstecken sich im Wald:

1 Puppe
1 Kind
1 Mutter
1 Vater
1 Haus
2 Koffer
1 Flucht


.
.
.


1 169
Akiko Yosano

Akiko Yosano

Tanka III

“Kyoto é um lugar
de dolorosas recordações...”
escrevi até aí
quando olhei para baixo
e notei a brancura do rio Kamo
774
Aglaja Veteranyi

Aglaja Veteranyi

A casa

Um estrangeiro de nascimento havia perdido seus sapatos. Ele os havia deixado em sua casa e jogado a casa fora, em um rio. Ou havia a casa se jogado a si mesma fora?
O estrangeiro de nascimento foi de rio em rio.
Certa vez ele encontrou um velho debaixo d´água com uma placa ao redor do pescoço: CÉU AQUI.
O estrangeiro perguntou: Como, céu?
O velho coçou as axilas e apontou para a placa.
A casa então apareceu de novo, mas num local completamente diferente. E talvez fosse uma outra, pois ela não conseguia lembrar-se dos sapatos do estrangeiro.
Mais tarde perdeu a casa sua porta.
(tradução de Ricardo Domeneck)
:
Das Haus
Aglaja Veteranyi
Ein gebürtiger Ausländer hatte seine Schuhe verloren. Er hatte sie in seinem Haus liegengelassen und das Haus in einen Fluss weggeworfen. Oder hatte sich das Haus selbst hineingeworfen?
Der gebürtige Ausländer ging von Fluss zu Fluss.
Einmal fand er einen alten Mann unter Wasser mit einem Schild um den Hals: HIER HIMMEL.
Der Ausländer fragte: Wie, Himmel?
Der Alte zuckte die Achseln und zeigte auf das Schild.
Das Haus tauchte dann wieder auf, aber an einem ganz anderen Ort. Und wahrscheinlich war es ein anderes, denn es konnte sich an die Schuhe des Ausländers nicht erinnern.
Später verlor das Haus seine Tür.
889
Akiko Yosano

Akiko Yosano

Tanka VI

Quando um rapaz entra
pelo portão da perfumaria
numa noite de luar na primavera
na Kyoto de baixo
penso: que meigo!

807
Pentti Saarikoski

Pentti Saarikoski

XXXV

eu nunca estarei à altura dos meus poemas
eu tusso eu ofego
enquanto eles respiram livremente
eu caminho por aí de olhar fixo
eles conhecem seu próprio valor
me ridicularizam
à noite eles saem aos berros às ruas
mas de dia sentam-se comportados no escritório
batendo à mesa com um lápis dizendo
qual o seu número?
eu me decepcionei com todos eles
eu não os criei à minha imagem e semelhança?
eles deviam fazer propaganda de mim mesmo
e o que eles estão fazendo?
sorrindo com desdém
enquanto uma delegação de poetas europeus os aplaude
eu desmaio num banco de parque a cagar nas calças
quando estou doente eles vêm me ver? não
quando estiver morto
trarão flores ao meu túmulo? oh não
eles não têm órgãos internos
eles não envelhecem
eu encolho enquanto crescem
eu morro
e eles vivem com a bunda virada pra lua
570
Maria Ângela Alvim

Maria Ângela Alvim

Inteira me deixo aqui

Inteira me deixo aqui,
inteira, posto que ausente,
- neste corpo que nasci
fez-me a vida ou minha mente?

De ninguém sobrevivi.
Ah! vida, me fiz consciente,
mestiça de mim, de ti ,
em morte - quase semente.

E em terra desejo estar
e sempre, enquanto me alerto
nas vozes de vento e mar.

Sem jamais me resolver
a conter-me num deserto
ou saciar-me de morrer.

822
Erich Fried

Erich Fried

Conflitos entre únicos herdeiros

Meu Marx arrancará as barbas
do teu Marx

Meu Engels quebrará os dentes
do teu Engels

Meu Lênin partirá os ossos
do teu Lênin

Nosso Stálin fuzilará a nuca
do vosso Stálin

Nosso Trótski rachará o crânio
do vosso Trótski

Nosso Mao afogará no Iansequião
vosso Mao

para que ele saia do caminho
da vitória

:

Konflikte zwischen Alleinerben

Mein Marx wird deinem Marx
den Bart ausreißen

Mein Engels wird deinem Engels
die Zähne einschlagen

Mein Lenin wird deinem Lenin
alle Knochen zerbrechen

Unser Stalin wird eurem Stalin
den Genickschuss geben

Unser Trotzki wird eurem Trotzki
den Schädel spalten

Unser Mao wird euren Mao
im Jangtse ertränken

damit er dem Sieg
nicht mehr im Wege steht


784