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Natureza

Poemas neste tema

Affonso Ávila

Affonso Ávila

Soneto

Não vos traga tristeza a chuva fria
a se esgueirar nas tardes sem corola.
Sobe o chumbo (o sem cor) das coisas vivas
sufocando o clamor das vossas horas.
Sobre o ontem deitastes. Neve amiga
da pegada os sinais na terra afoga
(vede o exemplo da nuvem que destila
o fel de si na gota que se evola).
Sede o espelho, não mais. O próprio nervo
se desfaça no plano de cristal
onde a imagem enfim se compreende.
Plenitude da origem e do termo
o nimbo vos ensine o largo mar.
Sereis então o grande indiferente.
de O Açude e os Sonetos da Descoberta, 1953
1 031
Affonso Ávila

Affonso Ávila

gaia ciência

sábio círculo em torno do nada
do além do aquém
de que é que de quem é quem
lição de cor do ardor do amor
signo perseguido em guia de dor
manifesta confusa desvairada
desvario ou alegria de trâmite curtido
palavra de real gozo de conceituai
léxico anverso controverso
capturado mel da defensiva abelha em sua colmeia
dispersivo pescar na convulsão da ideia
rio de acima de abaixo confluência de águas
e quem mais o quis menos o teve
breve perene sempiterno
nascente de prazer ou de frágua
o que ficou desse riso siso
retórico ressaibo

982
Abul ʿAla Al-Maʿarri

Abul ʿAla Al-Maʿarri

Erram todos – judeus, cristãos,

Erram todos – judeus, cristãos,
muçulmanos e masdeístas:
A humanidade segue duas seitas:
Uma: pensadores sem religião,
Outra: religiosos sem cabeça.
678
Manuel António Pina

Manuel António Pina

O livro

E quando chegares à dura
pedra de mármore não digas: «Água, água!»,
porque se encontraste o que procuravas
perdeste-o e não começou ainda a tua procura;
e se tiveres sede, insensato, bebe as tuas palavras
pois é tudo o que tens: literatura,
nem sequer mistério, nem sequer sentido,
apenas uma coisa hipócrita e escura, o livro.

Não tenhas contra ele o coração endurecido,
aquilo que podes saber está noutro sítio.
O que o livro diz é não dito,
como uma paisagem entrando pela janela de um quarto vazio.

1 674
Abul ʿAla Al-Maʿarri

Abul ʿAla Al-Maʿarri

Agora imperam esta fé e esta crença

Agora imperam esta fé e esta crença
Até que por outras sejam vencidas.
Homem, temes só com homens vivas,
Dessarte escolhes viver com lendas.
576
En Hedu'anna

En Hedu'anna

Inanna e a Essência Divina

Senhora de toda essência, luz plena,
mulher generosa vestida em radiância,
amada pelo céu e pela terra,
amiga templária de An,
tu vestes grandes ornamentos,
tu desejas a tiara da alta sacerdotisa
cujas mãos tomam as sete essências.
Oh minha Senhora, guardiã de toda essência,
tu as colheste e penduraste
nas mãos.
Tu recolheras as essências sagradas e as vestiste
tesas em teus seios.
1 005
Juan Gelman

Juan Gelman

a mão

não ponha a mão na água
porque se vai como peixe
não ponha a água em sua mão
porque virá o oceano
e a margem depois
 
deixa sua mão assim
em seu ar
nela
sem começo
nem fim.

(tradução de Leo Gonçalves e Andityas Soares de Moura)


la mano

no pongas la mano en el agua
porque se irá de pez/
no pongas agua en tu mano
porque vendrá el océano
y la orilla después/
 
dejá tu mano así/
en su aire
en ella/
sin comienzo/
ni fin
1 208
Bronisława Wajs

Bronisława Wajs

Historinha cigana

Ela molda uma andorinha
sob minha janela o ninho,
andorinha negra
como a Ciganinha.
Ela nos apontou bons caminhos.
Ela viveu em estábulos e casas.
Ela morreu num pântano.
708
Manuel António Pina

Manuel António Pina

A um Homem do Passado

Estes são os tempos futuros que temia
o teu coração que mirrou sob pedras,
que podes recear agora tão fundo,
onde não chegam as aflições nem as palavras duras?
Desceste em andamento; afinal era
tudo tão inevitável como o resto.
Viraste-te para o outro lado e sumiram-se
da tua vista os bons e os maus momentos.
Tu ainda tinhas essa porta à mão.
(Aposto que a passaste com uma vénia desdenhosa.)
Agora já não é possível morrer ou,
pelo menos, já não chega fechar os olhos.
1 308
Affonso Ávila

Affonso Ávila

insólito

contato é impudicícia ou carência de tato
gesto que sai do corpo como um salto de gato
suave rude ardil ou busca de gozo
rei dos sentidos empós do amor ou do afeto
sondagem de quem sonhou e argui de fato
a empáfia escondida entre haustos do só
não temer o impacto da astúcia
colher a rosa no ramo propício enquanto é vermelha
e saborear o odor a cor o íntimo calor
é tarde é breve mas intensa de brilho
signo de infinito clamor
que não calou no estamento do tempo
e rói fundo o apetite que resta
via possível na corrosão do palor
e usá-la a furto oculto
imponderada lapela
fim ou princípio
sorte lançada
defasado cupido


970
Meridel Le Sueur

Meridel Le Sueur

Oferece-me refúgio

Meu povo da campina é meu lar
Pássaro eu volto em voo a seus seios.
Fluindo para fora de todo espaço em exílio
Elas oferecem-me refúgio
Para morrer e ressuscitar em sua
floração sazonal.
Meu alimento seus seios
ordenhados pelo vento
para dentro de minha faminta boca urbana.
(tradução de Ricardo Domeneck)
:
Offer me refuge
My prairie people are my home
Bird I return flying to their breasts.
Waving out of all exiled space
They offer me refuge
To die and be resurrected in their
seasonal flowering.
My food their breasts
milked by wind
Into my starving city mouth.
.
.
.
306
Miklós Radnóti

Miklós Radnóti

Céu espumante

No céu que espuma, a lua oscila.
Estar vivo me causa espécie.
A morte assídua espreita a Idade:
quem ela encontre, empalidece.
O ano grita e depois desmaia.
(Gritara olhando ao seu redor.)
Que outono ronda-me de novo?
Que inverno embotado de dor?
Sangrava o bosque; mesmo as horas
sangravam no vaivém dos dias.
Ventos riscavam, sobre a neve,
cifras enormes e sombrias.
Já vi de tudo; o ar me esmaga
com seu peso; um silêncio cresce
ruidoso, cálido e me abraça
como fez antes que eu nascesse.
Detenho-me junto de um tronco
que agita iroso as frondes plenas
e estende um galho. Há de esganar-me?
Não é fraqueza ou medo – apenas
cansaço. Calo. E o galho apalpa
os meus cabelos, mudo, aflito.
Cabe esquecer – mas não há nada
de que já tenha me esquecido.
Espuma afoga a lua; o miasma
estria os céus, verde e agressivo.
Sem pressa, enrolo com cuidado
o meu cigarro. Eu estou vivo.
(tradução de Nelson Ascher)
:
Tajtékos ég
Miklós Radnóti
Tajtékos égen ring a hold,
csodálkozom, hogy élek.
Szorgos halál kutatja ezt a kort
s akikre rálel, mind olyan fehérek.
Körülnéz néha s felsikolt az év,
körülnéz, aztán elalél.
Micsoda osz lapul mögöttem ujra
s micsoda fájdalomtól tompa tél!
Vérzett az erdo és a forgó
idoben vérzett minden óra.
Nagy és sötétlo számokat
írkált a szél a hóra.
Megértem azt is, ezt is,
súlyosnak érzem a levegot,
neszekkel teljes, langyos csönd ölel,
mint születésem elott.
Megállok itt a fa tövében,
lombját zúgatja mérgesen.
Lenyúl egy ág. Nyakonragad?
nem vagyok gyáva, gyönge sem,
csak fáradt. Hallgatok. S az ág is
némán motoz hajamban és ijedten.
Feledni kellene, de én
soha még semmit sem feledtem.
A holdra tajték zúdúl, az égen
sötétzöld sávot von a méreg.
Cigarettát sodrok magamnak,
lassan, gondosan. Élek.
1 121
Kenneth Rexroth

Kenneth Rexroth

Metempsicose

Dois meses de vida e já passam
Pelo rosto da minha filha
Rostos há muito passados e mortos.
METEMPSYCHOSIS
Two months old, already
Across my daughter’s face
Pass faces long past and dead.
735
Alfred Starr Hamilton

Alfred Starr Hamilton

Galeria Janeiro

Você disse hoje?
Você disse amanhã
Ou o próximo dia, ou o dia seguinte?
Você disse uma foto na Galeria Janeiro?
Você disse um olho de vidro para seu espelho
Para um pé torto para uma moita no bosque invernal?
Por um pouco de lavanda que o encara de volta
Hoje e amanhã, e nos dias seguintes.
:
January Gallery
Did you say today?
Did you say tomorrow
Or the next day, or the day afterwards?
Did you say a picture at a January Gallery?
Did you say a glass eye for your mirror
For a club foot for a clump of wintery woods?
For a little lavender that stares back at you
Today and tomorrow, and days afterwards.
541
Gregory Corso

Gregory Corso

Ontem à noite guiei um carro

Ontem à noite guiei um carro
sem saber guiar
sem possuir um carro
Guiei e derrubei feito boliche
pessoas que amava
... a 120 sobre o piche.
Parei em Atibaia
e dormi no banco traseiro
... excitado em minha nova vida.
(contextualização de Ricardo Domeneck)
:
Last Night I Drove a Car
Gregory Corso
Last night I drove a car
not knowing how to drive
not owning a car
I drove and knocked down
people I loved
...went 120 through one town.
I stopped at Hedgeville
and slept in the back seat
...excited about my new life.
1 884
Alfred Starr Hamilton

Alfred Starr Hamilton

Lençóis

Quão maravilhosamente a lua deveria ter sido engomada noite passada
E cuidadosamente mantida em seu lugar
E noite passada eu engomei a lua
E levantei o narciso de volta sobre o topo da margarida
E dobrei o narciso de volta sobre o topo da lua
E cuidadosamente levei a lua escada acima
E mantive a lua no armário de narcisos
A última vez que eu engomei a lua
:
Sheets
How wonderfully the moon was to have been ironed last night
And carefully kept the moon in its place
And last night I ironed the moon
And lifted the daffodil back on top of the daisy
And folded the daffodil back on top of the moon
And carefully carried the moon upstairs
And kept the moon in the daffodil closet
Last time I ironed the moon
606
Gerard Manley Hopkins

Gerard Manley Hopkins

Lanterna Externa

Uma lanterna move-se na noite escura,
Que às vezes nos apraz olhar. Quem anda
Ali? – medito. De onde, para onde o manda
Dentro da escuridão essa luz insegura?

Homens passam por mim, cuja beleza pura
Em molde ou mente ou mais um dom maior demanda.
Chovem em nosso ar pesado a sua branda
Luz, até que distância ou morte os desfigura.

Morte ou distância vêm. Por mais que para vê-los
Volteie a vista, é em vão: eu perco o que persigo.
Longe do meu olhar, longe dos meus desvelos

Cristo vela. E o olhar de Cristo, em paz ou perigo,
Os vê, coração quer, amor provê, pé ante pé, com suaves zelos:
Resgate e redenção, primeiro, íntimo e último amigo.

(tradução de Augusto de Campos)

:

The Lantern out of Doors
Gerard Manley Hopkins

SOMETIMES a lantern moves along the night,
That interests our eyes. And who goes there?
I think; where from and bound, I wonder, where,
With, all down darkness wide, his wading light?

Men go by me whom either beauty bright
In mould or mind or what not else makes rare:
They rain against our much-thick and marsh air
Rich beams, till death or distance buys them quite.

Death or distance soon consumes them: wind
What most I may eye after, be in at the end
I cannot, and out of sight is out of mind.

Christ minds: Christ’s interest, what to avow or amend
There, éyes them, heart wánts, care haúnts, foot fóllows kínd,
Their ránsom, théir rescue, ánd first, fást, last friénd.

849
Barbara Guest

Barbara Guest

Lírios vermelhos

Alguém lembrou-se de secar a louça;
retiraram o acidente do fogão.
Depois, lírios para a janta; ali
as linhas diante da janela
esfregam-se à mesa de pedra

O papel alça voo
e aterrissa à medida que o vento
repete, repete seu canto de ave.

Aqueles braços sob o travesseiro
os braços que escavam que clivam na noite
enquanto o rebocador dá molde à água
chamando-se a si próprios de galhos

É você a árvore
a manta é o que a aquece
neve irrompe do cardo;
a neve derrama de você.

Uma mão fria sobre os pratos
colocando um pires dentro

dela que se despiu para a janta
flutuando aquele cabelo rumo à neve

apagou-se a luz-piloto
do fogão

O papel dobrou-se como um guardanapo
outras asas colidiram com a pedra.

:

Red lillies (in Moscow Mansions, 1973)

Someone has remembered to dry the dishes;
they have taken the accident out of the stove.
Afterwards lilies for supper; there
the lines in front of the window
are rubbed on the table of stone

The paper flies up
then down as the wind
repeats, repeats its birdsong.

Those arms under the pillow
the burrowing arms they cleave
at night as the tug kneads water
calling themselves branches

The tree is you
the blanked is what warms it
snow erupts from thistle;
the snow pours out of you.

A cold hand on the dishes
placing a saucer inside

her who undressed for supper
gliding that hair to the snow

The pilot light
went out of the stove

The paper folded like a napkin
other wings flew into the stone.


.
.
.


606
D. Dinis

D. Dinis

Deus! Com'ora perdeu Joam Simiom

Deus! Com'ora perdeu Joam Simiom
três bestas - nom vi de maior cajom,
nem perdudas nunca tam sem razom:
ca, teendo-as sãas e vivas
e bem sangradas com [boa] sazom,
morrerom-lhi toda[s] com olivas.
Des aquel[e] dia em que naci
nunca bestas assi perdudas vi,
ca as fez ant'el sangrar ante si;
e ante que saíssem daquel mês,
per com'eu a Joam Simiom oí,
com olivas morrerom todas três.
Ben'as cuidara de morte guardar
todas três, quando as fez[o] sangrar;
mais havia-lhas o Dem'a levar,
pois se par [a]tal cajom perderom;
e Joam Simiom quer-s'ora matar
porque lhi com olivas morrerom.
1 548
Torquato Neto

Torquato Neto

Let’s Play That

quando eu nasci
um anjo louco muito louco
veio ler a minha mão
não era um anjo barroco
era um anjo muito louco, torto
com asas de avião
eis que esse anjo me disse
apertando a minha mão
com um sorriso entre dentes
vai bicho desafinar
o coro dos contentes
vai bicho desafinar
o coro dos contentes
let"s play that
4 135
Barbara Guest

Barbara Guest

Perdendo pessoas

para Ira Morris

Os dias em que você tenta recompor
as ideias são dias perdidos
porém simples como sanduíche
de três camadas a mordida
isto é fácil

Perda
"pura" perda
você comparece à sua reconstrução
na qual você é três pessoas e também
um sanduíche

Perda
não ouvir uma voz
outra vez como trenodia

Perda
você começa a rimá-la com paredes
ou graxa de sapato

Perda
da sua presença com um trote
e matizes

a superfície de pessoas
em restaurantes comendo sanduíches
elas sabem que há um carro estacionado lá fora

Ó imagens viscosas e audazes com o apertão
de um garfo dentro de suas coxas que se deleitam
de atmosfera e clima real

missões
por sobre as curvas contrárias bem como a água
que passa este dia
por debaixo da ponte:

você resolveu
a pedra
não mais sustenta a ponte
bom. Ira morreu.

:

Losing people (in Moscow Mansions, 1973)

for Ira Morris

The days when you try to recover
your wits are lost days
yet simple as sandwich
of three layers the crunch
that’s easy

Loss
“pure” loss
you attend its reconstruction
where you are three persons also
a sandwich

Loss
not hearing a voice
again as threnody

Loss
you begin to rhyme it with walls
or shoeshine

Loss
of your presence with a gait
and hues

the surface of persons
in restaurants eating sandwiches
they know there is a car parked outside

O images viscous and daring with the squeeze
of a fork inside your thighs that are delighted
with atmosphere and real weather

missions
over the backward curves rather like water
that moves this day
under the bridge:

you decided
the stone
no longer supports the bridge
well. Ira died.

669
Isabel Câmara

Isabel Câmara

Light-cock-song

só para gênios, tímidos
e alguns porcos chauvinistas
desses que o padre vem me
benzer todo dia, e que quando
não vem ele cá vou eu lá:
Leva este caralho compra-me um maço
de cigarros Continental, umas cem
gramas de alho e o tempero, que te der na cuca.
E se o dinheiro render, um lacinho de fita
de seda ou crepom. Depois, na saída do cinema,
vem cedo pra casa, me leva pra cama, sem se
esquecer que o alho é para um aglio-olio.



797
Kenneth Rexroth

Kenneth Rexroth

Sobrevivência do mais forte

Me dou conta
Quando alcanço o lago
A treze mil pés –
Não sei onde você está.
Já se vão anos desde que
Casamos e tivemos filhos
Por pessoas que sequer
Conhecíamos naqueles dias.
Mas eu ainda pesco peixes com anzóis
Feitos com os teus pentelhos loiros.


SURVIVAL OF THE FITTEST

I realize as I
Cast out over the lake
At thirteen thousand feet –
I don’t know where you are.
It has been years since we
Married and had children
By people neither of
Us knew in the old days.
But I still catch fish with flies
Made from your blonde pubic hair.


750
Kenneth Rexroth

Kenneth Rexroth

Perdidos Etc.

Os expatriados dos anos
Vinte e seu líder Pound
Foram aqueles que, em tempos de
Revolta mundial, não acharam nada
Melhor pra combater
Que a lei seca.


LOST ETC.

The expatriates of the
Twenties and their leader Pound
Were those who, in an age of
World revolt, found nothing more
Important to revolt against
Than the Eighteenth Amendment.



966
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