Tristeza e Melancolia
Poemas neste tema
Manuel Machado
Outono
No parque, eu só...
Hão fechado
e, esquecido
no parque velho, só
Hão-me deixado.
A folha seca
vagamente
indolente
roça o solo...
Nada sei,
nada quero,
nada espero,
Nada...
Só
no parque hão-me deixado
esquecido,
...e hão fechado.
Hão fechado
e, esquecido
no parque velho, só
Hão-me deixado.
A folha seca
vagamente
indolente
roça o solo...
Nada sei,
nada quero,
nada espero,
Nada...
Só
no parque hão-me deixado
esquecido,
...e hão fechado.
973
Felipe Vianna
VIDA
Dança dourado luar
No reflexo espelhado do mar.
Este amor platônico
As ondas vêm à praia chorar.
Choras porque tens consciência
Que o que tens é só referência
Já que a verdadeira lua não podes abraçar
Deves contentar-te apenas com a luz do luar.
Mas o que é a vida
Se não apenas um espelho
De uma coisa já ida
Que nunca veio.
24/06/2001
No reflexo espelhado do mar.
Este amor platônico
As ondas vêm à praia chorar.
Choras porque tens consciência
Que o que tens é só referência
Já que a verdadeira lua não podes abraçar
Deves contentar-te apenas com a luz do luar.
Mas o que é a vida
Se não apenas um espelho
De uma coisa já ida
Que nunca veio.
24/06/2001
855
Manuel Machado
Melancolia
Sinto-me, às vezes, triste
como uma tarde do outono velho;
de saudades sem nomes,
de aflições melancólicas tão cheio...
Meu pensamento, então,
vaga junto às tumbas dos mortos
e em torno dos ciprestes e salgueiros
que abatidos, se inclinam... e me lembro
de historias tristes, sem poesia... Historias
que têm quase brancos meus cabelos.
como uma tarde do outono velho;
de saudades sem nomes,
de aflições melancólicas tão cheio...
Meu pensamento, então,
vaga junto às tumbas dos mortos
e em torno dos ciprestes e salgueiros
que abatidos, se inclinam... e me lembro
de historias tristes, sem poesia... Historias
que têm quase brancos meus cabelos.
1 285
Henriqueta Lisboa
Um poeta esteve na guerra
Um poeta esteve na guerra
dia a dia longos anos.
Participou do caos,
da astúcia, da fome.
Um poeta esteve na guerra.
Por entre a neve e a metralha
conheceu mundos e homens.
Homens que matavam e homens
que somente morriam.
Um poeta esteve na guerra
como qualquer, matando.
Para falar da guerra
tem apenas o pranto.
dia a dia longos anos.
Participou do caos,
da astúcia, da fome.
Um poeta esteve na guerra.
Por entre a neve e a metralha
conheceu mundos e homens.
Homens que matavam e homens
que somente morriam.
Um poeta esteve na guerra
como qualquer, matando.
Para falar da guerra
tem apenas o pranto.
1 687
Lenilde Freitas
A Florbela Espanca
Conheço a casa
onde o acordar é infeliz
Na mesma rua, outras casas cintilam
no matiz em que os sonhos aterrissam
Um pássaro cuja plumagem é um pincel
voando torto despinta o céu
A casa que eu conheço
chove por dentro
enquanto a alma
de que lá mora
trinca no centro.
onde o acordar é infeliz
Na mesma rua, outras casas cintilam
no matiz em que os sonhos aterrissam
Um pássaro cuja plumagem é um pincel
voando torto despinta o céu
A casa que eu conheço
chove por dentro
enquanto a alma
de que lá mora
trinca no centro.
810
Eugénia Tabosa
Esse olhar
Esse olhar parado
sem hoje nem passado
Esse olhar sem espera
como canto preso
em boca entreaberta
Esse olhar cansado
desfeito
sem jeito
não grita
não chora
Esse olhar desarmado
como barco sem leme
Existe
Não posso ignorá-lo!
sem hoje nem passado
Esse olhar sem espera
como canto preso
em boca entreaberta
Esse olhar cansado
desfeito
sem jeito
não grita
não chora
Esse olhar desarmado
como barco sem leme
Existe
Não posso ignorá-lo!
972
Sylvia Plath
Criança
O olho claro é a coisa mais bonita em você.
Quem dera enchê-lo de patos e cores,
Zôo do novo,
Nomes em que você pensa –
Campânula-de-abril, Cachimbo-de-índio,
Pequenino
Caule sem espinhos,
Lago em cujas margens, imagens
Pudessem ser clássicas e imensas
Não esse tenso
Torcer de mãos, esse teto
Escuro e sem estrela.
Quem dera enchê-lo de patos e cores,
Zôo do novo,
Nomes em que você pensa –
Campânula-de-abril, Cachimbo-de-índio,
Pequenino
Caule sem espinhos,
Lago em cujas margens, imagens
Pudessem ser clássicas e imensas
Não esse tenso
Torcer de mãos, esse teto
Escuro e sem estrela.
1 174
Angela Santos
Inércia
Como
onda que se tivesse desfeito
sem mais regressar à maré
olho-me…
estendida na praia em que me desfiz
Nem um desejo macula a limpidez
do vazio
sinto-me movimento mecânico
que algo anima,
mas será que vibra ?
Não sei porque se desfaz a gente
e se cansa em nós a vida
quando o sol está a pino
e é pleno Verão ainda.
onda que se tivesse desfeito
sem mais regressar à maré
olho-me…
estendida na praia em que me desfiz
Nem um desejo macula a limpidez
do vazio
sinto-me movimento mecânico
que algo anima,
mas será que vibra ?
Não sei porque se desfaz a gente
e se cansa em nós a vida
quando o sol está a pino
e é pleno Verão ainda.
1 361
Angela Santos
Mundo
Tudo
me lembra o imundo
e de beleza é a sede
dos meus olhos
de cada fibra do meu corpo
de cada nervo que me percorre
Tudo me lembra o imundo
e cada gesto, cada rosto
cada palavra
renova a lembrança da náusea
Sacode o meu corpo um leve estertor
e numa sonata de luz
lavo os resquícios
da sujidade humana que trago em mim.
me lembra o imundo
e de beleza é a sede
dos meus olhos
de cada fibra do meu corpo
de cada nervo que me percorre
Tudo me lembra o imundo
e cada gesto, cada rosto
cada palavra
renova a lembrança da náusea
Sacode o meu corpo um leve estertor
e numa sonata de luz
lavo os resquícios
da sujidade humana que trago em mim.
1 045
Angela Santos
A um Suicída
(11/12/85)
A
manhã chegava
de orlas nocturnas adornada
Nos trilhos de um comboio
a vida parara de correr…
A manhã chegava
e despontava negro
o dia
a lógica e o absurdo
sob o manto matinal de brumas
nas letras a preto e branco
de um jornal.
A
manhã chegava
de orlas nocturnas adornada
Nos trilhos de um comboio
a vida parara de correr…
A manhã chegava
e despontava negro
o dia
a lógica e o absurdo
sob o manto matinal de brumas
nas letras a preto e branco
de um jornal.
1 062
Ana Cristina Cesar
Dias Não
Menos Dias
Chora-se
com a facilidade das nascentes
Nasce-se sem querer, de um jato, como uma dádiva
(às primeiras virações vi corações se entrefugindo todos
ninguém soubera antes o que havia de ser não bater
as pálpebras em monocorde
e a tarde
pendurada ro raminho de um
fogáceo arborescente
deixava-se ir
muda feita uma coisa ultima.
Chora-se
com a facilidade das nascentes
Nasce-se sem querer, de um jato, como uma dádiva
(às primeiras virações vi corações se entrefugindo todos
ninguém soubera antes o que havia de ser não bater
as pálpebras em monocorde
e a tarde
pendurada ro raminho de um
fogáceo arborescente
deixava-se ir
muda feita uma coisa ultima.
1 674
Almandrade
VI
Agora devo
dormir
e deixar
o apetite
dos morcegos
devorar
as lágrimas noturnas
indiferentes
aos meus afetos
dormir
e deixar
o apetite
dos morcegos
devorar
as lágrimas noturnas
indiferentes
aos meus afetos
935
Luiz Felipe Coelho
No princípio, era o verbo
Ando,
mesmo sem saber as respostas,
nem ao menos as perguntas,
tropeçando,
quando triste,
em vermelhos céus do fim da tarde,
esquecendo,
quando a chuva vem me acordar,
da alegria de um novo dia...
Meus sentimentos reclamam comigo
Como é desastrado! - furiosos,
varro os cacos e saio,
assobiando para disfarçar.
mesmo sem saber as respostas,
nem ao menos as perguntas,
tropeçando,
quando triste,
em vermelhos céus do fim da tarde,
esquecendo,
quando a chuva vem me acordar,
da alegria de um novo dia...
Meus sentimentos reclamam comigo
Como é desastrado! - furiosos,
varro os cacos e saio,
assobiando para disfarçar.
854
Vitor Casimiro
Mais um Desesperado
Algum dia já sentistes
Que rápido, o tempo passa
Talvez isso nos faça
Amargamente tristes
só espero, um dia
acordar com um grito
e ter 100 gramas de liberdade
Por fim nessa agonia
Que me deixa aflito
A beira da insanidade
Que rápido, o tempo passa
Talvez isso nos faça
Amargamente tristes
só espero, um dia
acordar com um grito
e ter 100 gramas de liberdade
Por fim nessa agonia
Que me deixa aflito
A beira da insanidade
825
Valdir L. Queiroz
Dissertação
Tenho medo
medo de flor do deserto
que teme o olhar do jardineiro
e ama os olhos do abutre.
tenho amor
amor de flor que "nasce"
no asfalto;
amor de peixe que "vive"
em aquário;
amor de pássaro que "morre"
em gaiola;
amor de gente que espera
outrora.
medo de flor do deserto
que teme o olhar do jardineiro
e ama os olhos do abutre.
tenho amor
amor de flor que "nasce"
no asfalto;
amor de peixe que "vive"
em aquário;
amor de pássaro que "morre"
em gaiola;
amor de gente que espera
outrora.
715
Sílvia Rocha
Haicai
chuva de verão
transito no trânsito
chora coração
solidão
não te come não te mata
te retrata
transito no trânsito
chora coração
solidão
não te come não te mata
te retrata
961
Roberto Saito
Inverno
Depois da geada
nas faces do espantalho
lágrimas geladas.
Cálidos casacos
todos rodeando um morto —
pálido, gelado.
nas faces do espantalho
lágrimas geladas.
Cálidos casacos
todos rodeando um morto —
pálido, gelado.
944
Rogério F. P.
Não sei o que incomoda
Não sei o que incomoda
aquela bela jovem que chora.
Estará agora perdida a
bailarina louca de outrora?
Comercializaste teu amor,
bacante insaciável,
agora pende sobre a sua cabeça
a triste sombra da morte.
E, enquanto seu corpo repousa,
eis que a criatura que em
seu sangue esta envolta
se alimenta dessa tua carne escrota!
aquela bela jovem que chora.
Estará agora perdida a
bailarina louca de outrora?
Comercializaste teu amor,
bacante insaciável,
agora pende sobre a sua cabeça
a triste sombra da morte.
E, enquanto seu corpo repousa,
eis que a criatura que em
seu sangue esta envolta
se alimenta dessa tua carne escrota!
827
Rodrigo Guidi Peplau
Poêmio
Poêmio
sou eu
um poêmio
que foge se o sol nasceu
que tem várias paixões
mas nenhuma namorada
que é amigo das ilusões
e dorme com a tristeza
agarrada.
Poêmio
e toda sua papelada
o poêmio
que sem ela não é nada
que trata cada emoção
como sua afilhada
e cria seu coração
com as dores que tomou
das pancadas
sou eu
um poêmio
que foge se o sol nasceu
que tem várias paixões
mas nenhuma namorada
que é amigo das ilusões
e dorme com a tristeza
agarrada.
Poêmio
e toda sua papelada
o poêmio
que sem ela não é nada
que trata cada emoção
como sua afilhada
e cria seu coração
com as dores que tomou
das pancadas
1 086
Olinda Marques de Azevedo
Inverno
Como uma mortalha
branca geada
sobre o cafezal.
Céu iluminado
balões subindo
ao clarão da lua.
O velho casaco
esquecido no cabide.
Frio da ausência.
branca geada
sobre o cafezal.
Céu iluminado
balões subindo
ao clarão da lua.
O velho casaco
esquecido no cabide.
Frio da ausência.
1 002
Neusa Peçanha
Haicai
Começa a ventar:
o velho apanha o casaco,
o menino, a pipa.
O bonde da praça,
entre balanços vadios,
é brinquedo triste.
o velho apanha o casaco,
o menino, a pipa.
O bonde da praça,
entre balanços vadios,
é brinquedo triste.
662
Moreira Campos
Antecipação
Este fim de tarde,
estes túmulos,
a visita aos meus.
Esta solidão,
o silêncio dos meus próprios passos
entre carrapichos,
que se grudaram às minhas calças.
O apito longo da velha máquina
(perto é a oficina da Estrada de Ferro)
vem de longe,
tem tons de queixa e modulações de chamado.
Dominam-me a renúncia
e um desejo de antecipação.
estes túmulos,
a visita aos meus.
Esta solidão,
o silêncio dos meus próprios passos
entre carrapichos,
que se grudaram às minhas calças.
O apito longo da velha máquina
(perto é a oficina da Estrada de Ferro)
vem de longe,
tem tons de queixa e modulações de chamado.
Dominam-me a renúncia
e um desejo de antecipação.
1 110
Maria de Lourdes Hortas
Fado Noturno
Cala-te porque não sabes
dos comboios que passaram
nos carris do mar sem naves
onde os sonhos se mataram.
Cala-te porque insone
nas noites adormecidas
tecelã teci teu nome
de estrelas destecidas.
Sobre o mar morto contemplo
minha vida em agonia
minha saudade é um templo
onde rezo cada dia.
dos comboios que passaram
nos carris do mar sem naves
onde os sonhos se mataram.
Cala-te porque insone
nas noites adormecidas
tecelã teci teu nome
de estrelas destecidas.
Sobre o mar morto contemplo
minha vida em agonia
minha saudade é um templo
onde rezo cada dia.
906
Mônica Banderas
Terra e Eva
Tanto útero, tantas mágoas.
A mulher tem 70 de água.
A mulher tem 70 de água.
792
Português
English
Español