Solidão
Poemas neste tema
Susana Thénon
Um
Te dizer
que eu sou mais 1
dentro do NÃO mundo.
Te dizer
idiomas com espinhos sob as unhas.
Te dizer
nada
para você algo quase nada.
que eu sou mais 1
dentro do NÃO mundo.
Te dizer
idiomas com espinhos sob as unhas.
Te dizer
nada
para você algo quase nada.
888
Susana Thénon
Habitante do Nada
Vivo entre pedras
sua forma se parece à minha.
Eu sou uma pedra,
um brinquedo no túmulo de uma criança,
uma medalha escurecida?
Sou antes um espelho gasto
uma superfície que não reflete,
um rosto estranho
um dia que termina.
sua forma se parece à minha.
Eu sou uma pedra,
um brinquedo no túmulo de uma criança,
uma medalha escurecida?
Sou antes um espelho gasto
uma superfície que não reflete,
um rosto estranho
um dia que termina.
661
Raquel Nobre Guerra
Vir às mãos / Aforismos terceiros
subindo rei no horizonte sou rei de luzes apagadas
sou rei na divina loucura do trono
o trono vazio sou eu
sou rei na divina loucura do trono
o trono vazio sou eu
1 234
Raquel Nobre Guerra
deus por cima
deus por cima
o grande abandono
o grande abandono
1 178
José Miguel Silva
Estela Funerária
Era um rapaz sem vocação para o caminho,
um arco sem arqueiro.
Chama-se Elpenor.
Mais do que a palavra preocupava-o a lama
na sandália do poeta,
a mancha no tapete.
Movia-o a coragem de estar só,
divisão dos que celebram
o massacre da esperança.
Caiu a sua casa, vendeu as suas veias,
partiu para o desastre,
chegou à nossa frente.
um arco sem arqueiro.
Chama-se Elpenor.
Mais do que a palavra preocupava-o a lama
na sandália do poeta,
a mancha no tapete.
Movia-o a coragem de estar só,
divisão dos que celebram
o massacre da esperança.
Caiu a sua casa, vendeu as suas veias,
partiu para o desastre,
chegou à nossa frente.
995
Fernando Pessoa
Leve sonho, vais no chão
Leve sonho, vais no chão
A andares sem teres ser.
És como o meu coração
Que sente sem nada ter.
A andares sem teres ser.
És como o meu coração
Que sente sem nada ter.
1 239
Fernando Pessoa
O soslaio do operário estúpido para o engenheiro doido —
O soslaio do operário estúpido para o engenheiro doido —
O engenheiro doido fora da engenharia —
O sorriso trocado que sinto nas costas quando passo entre os normais...
(Quando me olham cara a cara não os sinto sorrir).
O engenheiro doido fora da engenharia —
O sorriso trocado que sinto nas costas quando passo entre os normais...
(Quando me olham cara a cara não os sinto sorrir).
1 426
Fernando Pessoa
Por cima da saia azul
Por cima da saia azul
Há uma blusa encarnada,
E por cima disso os olhos
Que nunca me dizem nada.
Há uma blusa encarnada,
E por cima disso os olhos
Que nunca me dizem nada.
1 349
Fernando Pessoa
A vida é pouco aos bocados.
A vida é pouco aos bocados.
O amor é vida a sonhar.
Olho para ambos os lados
E ninguém me vem falar.
O amor é vida a sonhar.
Olho para ambos os lados
E ninguém me vem falar.
806
Fernando Pessoa
Nuvem alta, nuvem alta,
Nuvem alta, nuvem alta,
Porque é que tão alta vais?
Se tens o amor que me falta,
Desce um pouco, desce mais.
Porque é que tão alta vais?
Se tens o amor que me falta,
Desce um pouco, desce mais.
1 444
Fernando Pessoa
Sometimes in the middle of life a change
Sometimes in the middle of life a change
Suddenly comes like an alienation
A sense of voidness enormous, strange
And a void, deep desolation.
A sense of being left alone
And more and more than abandoned
(…)
'Tis a sense half as if I were dead.
Suddenly comes like an alienation
A sense of voidness enormous, strange
And a void, deep desolation.
A sense of being left alone
And more and more than abandoned
(…)
'Tis a sense half as if I were dead.
1 303
Fernando Pessoa
Traz-me um copo com água
Traze-me um copo com água
E a maneira de o trazer.
Quero ter a minha mágoa
Sem mostrar que a estou a ter.
E a maneira de o trazer.
Quero ter a minha mágoa
Sem mostrar que a estou a ter.
1 731
Fernando Pessoa
Tem a filha da caseira
Tem a filha da caseira
Rosas na caixa que tem.
Toda ela é uma rosa inteira
Mas não a cheira ninguém.
Rosas na caixa que tem.
Toda ela é uma rosa inteira
Mas não a cheira ninguém.
1 536
Fernando Pessoa
A Senhora da Agonia
A Senhora da Agonia
Tem um nicho na Igreja.
Mas a dor que me agonia
Não tem ninguém quem a veja.
Tem um nicho na Igreja.
Mas a dor que me agonia
Não tem ninguém quem a veja.
1 548
Fernando Pessoa
Quando passas pela rua
Quando passas pela rua
Sem reparar em quem passa,
A alegria é toda tua
E minha toda a desgraça.
Sem reparar em quem passa,
A alegria é toda tua
E minha toda a desgraça.
2 172
Fernando Pessoa
Vai alta sobre a montanha
Vai alta sobre a montanha
Uma nuvem sem razão.
Meu coração acompanha
O não teres coração.
Uma nuvem sem razão.
Meu coração acompanha
O não teres coração.
1 452
Fernando Pessoa
No grande espaço de não haver nada
No grande espaço de não haver nada
Que a noite finge, brilham mal os astros.
Não há lua, e ainda bem.
Neste momento, Lídia, considero
Tudo, e um frio que não há me entra
Na alma. Não existes.
Que a noite finge, brilham mal os astros.
Não há lua, e ainda bem.
Neste momento, Lídia, considero
Tudo, e um frio que não há me entra
Na alma. Não existes.
1 320
Fernando Pessoa
Nunca houve romaria
Nunca houve romaria
Que se lembrassem de mim...
Também quem se lembraria
De quem se lamenta assim?
Que se lembrassem de mim...
Também quem se lembraria
De quem se lamenta assim?
1 264
Fernando Pessoa
Mas eu, alheio sempre, sempre entrando
Mas eu, alheio sempre, sempre entrando
O mais íntimo ser da minha vida,
Vou dentro em mim a sombra procurando.
O mais íntimo ser da minha vida,
Vou dentro em mim a sombra procurando.
1 330
Fernando Pessoa
O ribeiro bate, bate
O ribeiro bate, bate
Nas pedras que nele estão,
Mas nem há nada em que bata
O meu pobre coração.
Nas pedras que nele estão,
Mas nem há nada em que bata
O meu pobre coração.
1 357
Fernando Pessoa
Os ranchos das raparigas
Os ranchos das raparigas
Vão a cantar pela estrada...
Não oiço as suas cantigas
Só tenho pena de nada.
Vão a cantar pela estrada...
Não oiço as suas cantigas
Só tenho pena de nada.
1 194
Fernando Pessoa
Velha cadeira deixada
Velha cadeira deixada
No canto da casa antiga
Quem dera ver lá sentada
Qualquer alma minha amiga.
No canto da casa antiga
Quem dera ver lá sentada
Qualquer alma minha amiga.
2 590
Fernando Pessoa
Longe de mim em mim existo
Longe de mim em mim existo
À parte de quem sou,
A sombra e o movimento em que consisto.
À parte de quem sou,
A sombra e o movimento em que consisto.
1 234
Fernando Pessoa
Estou acima do que agrada aos grandes
Estou acima do que agrada aos grandes
Ou aos cultos apraz, a sós comigo
E com o mistério.
Tornei a minha alma exterior a mim.
Ou aos cultos apraz, a sós comigo
E com o mistério.
Tornei a minha alma exterior a mim.
1 231
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