Dor e Desespero

Poemas neste tema

Fernando Pessoa

Fernando Pessoa

Lágrimas, chorar-vos-ei

Lágrimas, chorar-vos-ei
E a vida em vós, pouco a pouco,
E chorando ficarei
Num silêncio d'alma louco.
1 958
Fernando Pessoa

Fernando Pessoa

Eu tenho um colar de pérolas

Eu tenho um colar de pérolas
Enfiado para te dar:
As pérolas são os meus beijos,
O fio é o meu penar.
2 935
Fernando Pessoa

Fernando Pessoa

Diferentemente o mesmo

Diferentemente o mesmo
Ligado a um meu passado estranho e vago
Por um negrume e continuar de dor.
1 254
Fernando Pessoa

Fernando Pessoa

Ah, não poder dormir (eu não sei como,

Ah, não poder dormir (eu não sei como,
Não na verdade o quero) eternamente,
Acabar não comigo, nem com isto,
Mas com tudo, causa, efeito, ser...
Ideias vãs que a imaginação
Vazia dum momento em quietude
Gera sem ilusão, como criança
Embriagando-se indolentemente
Do cheiro transitório duma flor.
1 359
Fernando Pessoa

Fernando Pessoa

O coração é pequeno,

O coração é pequeno,
Coitado, e trabalha tanto!
De dia a ter que chorar,
De noite a fazer o pranto...
1 409
Fernando Pessoa

Fernando Pessoa

Fiz estoirar um cartucho

Fiz estoirar um cartucho
Contra a parede do lado.
Assim farei eu à vida,
Que o sonhar fez-me assoprado.
1 380
Fernando Pessoa

Fernando Pessoa

Nem vã esperança vem, não anos vão,

Nem vã esperança vem, não anos vão,
Desesperança, Lídia, nos governa
        A consumanda vida.
Só espera ou desespera quem conhece
Que há que esperar. Nós, no labento curso
        Do ser, só ignoramos.
Breves no triste gozo desfolhamos
Rosas. Mais breves que nós fingem legar
        A comparada vida.
1 387
Fernando Pessoa

Fernando Pessoa

APOLLO UNTO NEPTUNE

Apollo unto Neptune said:
        «Come, I shall drink the sea!»
But Neptune laughed out like a lad
        In his boyish jollity,
And cried: «You would drink the earth, if you could,
        And infinity.»
And the poet the symbol who understood
        Felt his misery.
1 390
Fernando Pessoa

Fernando Pessoa

Uma boneca de trapos

Uma boneca de trapos
Não se parte se cair.
Fizeste-me a alma em farrapos...
Bem: não se pode partir.
1 566
Fernando Pessoa

Fernando Pessoa

Sorrow came and wept

Sorrow came and wept
By my side.
Slow and light she stept
As I walked towards God
By my side.
But I can never find that Great Abode,
And there is darkness in Descried.
1 207
Fernando Pessoa

Fernando Pessoa

GOD’S WORK

«God's work ‑ how great his power!» said he
As we gazed out upon the sea
Beating the beach tumultuously
        Round the land-head.

The vessel then strikes with a crash,
Over her deck the waters rash
Make horror deep in rent and gash.
        «God's work» , I said.
1 262
Fernando Pessoa

Fernando Pessoa

O meu coração quebrou-se

O meu coração quebrou-se
Como um bocado de vidro
Quis viver e enganou-se...
1 474
Fernando Pessoa

Fernando Pessoa

Filho das trevas,

Filho das trevas,
Não fites a luz
Ai de ti, se te elevas,
Tu apenas te elevas
Aos braços de uma cruz.
Filho das trevas!

Filho da noite,
A manhã não se afoite
Nunca, nunca se afoite.
Toda a esperança é vã,
Filho da noite!
1 484
Fernando Pessoa

Fernando Pessoa

Sucata de alma vendida pelo peso do corpo,

Sucata de alma vendida pelo peso do corpo,
Se algum guindaste te eleva é para te despejar...
Nenhum guindaste te eleva senão para te baixar.

Olho analiticamente sem querer, o que romantizo sem querer...
1 524
Fernando Pessoa

Fernando Pessoa

Num atordoamento e confusão

Num atordoamento e confusão
Arde-me a alma, sinto nos meus olhos
Um fogo estranho, de compreensão
E incompreensão urdido, enorme
Agonia e anseio de existência
Horror e dor, [agonia] sem fim!
1 638
Fernando Pessoa

Fernando Pessoa

Ninguém compreende o meu sofrer

Ninguém compreende o meu sofrer
Nem compreende porque não compreende.
1 408
Fernando Pessoa

Fernando Pessoa

Quando às vezes eu penso em meu futuro,

Quando às vezes eu penso em meu futuro,
Abre-se de repente   (...)   abismo
Perante o qual me cambaleia o ser.
E ponho sobre os olhos as mãos da alma
Para esconder aquilo que não vejo.
— Oh lúgubres gracejos de expressão!
Estorce-se-me a alma sacudida e louca
Até parecer rindo.
1 479
Fernando Pessoa

Fernando Pessoa

Paro, escuto, reconheço-me!

Paro, escuto, reconheço-me!
O som da minha voz caiu no ar sem vida.
Fiquei o mesmo, tu estás morto, tudo é insensível...
Saudar-te foi um modo de eu querer animar-me,
Para que te saudei sem que me julgue capaz
Da energia viva de saudar alguém!

Ó coração por sarar! quem me salva de ti?
1 693
Fernando Pessoa

Fernando Pessoa

Ímpetos de dizer-lhe (....) acorda!

Ímpetos de dizer-lhe (....) acorda!
Acorda, olha o mistério ao pé de ti!
E assim pensando rio amargamente
Dentro em mim rio como se chorasse.
1 401
Fernando Pessoa

Fernando Pessoa

É o maior horror da alma

É o maior horror da alma
Ver claro em pensamento que é profundo
Ver o Terror Supremo! a ambição
De morrer p'ra não pensar, já não
Por duvidar — mas — oh maior horror!
Por ver, por ver, por ver!
1 435
Fernando Pessoa

Fernando Pessoa

UMA VOZ NA ESCURIDÃO: Melodia vaga,

Melodia vaga,
        Para ti se eleva
        E chorando, leva
        O teu coração,
        Já de dor exausto,
        E sonhando o afaga.
        Os teus olhos, Fausto,
        Não mais chorarão.
1 545
Fernando Pessoa

Fernando Pessoa

IV - A QUEDA

IV

A QUEDA

Da minha ideia do mundo
        Caí...
Vácuo além de profundo,
Sem ter Eu nem Ali...

Vácuo sem si-próprio, caos
De ser pensado como ser. .
Escada absoluta sem degraus..
Visão que se não pode ver

Além-Deus! Além-Deus! Negra calma...
Clarão de Desconhecido...
Tudo tem outro sentido, ó alma,
Mesmo o ter-um-sentido..
1 630
Florbela Espanca

Florbela Espanca

As Quadras D’Ele

Em noites calmas, serenas
Quando passeia o luar,
Para sempre á tua porta
E encosta-se a chorar...

E eu que passo também
Na minha dor a cismar,
Paro ao pé dele e ficamos
Abraçados a chorar!

1 728
Antidio Cabal

Antidio Cabal

Epitáfio de Creencio Álvarez, vulgo O Dentro

O caixão me dói menos que o berço.

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