Desejo

Poemas neste tema

Martha Medeiros

Martha Medeiros

rock

rock
me faz sentir
de preto
gostosa
me faz dançar o pelo
me pela
me faz sentar de cócoras
1 032
Martha Medeiros

Martha Medeiros

era uma vez um gato chinês

era uma vez um gato chinês
que me chamou para comer um frango
xadrez
no boteco onde ele era freguês


e eu, como gata vadia
topei porque sempre podia
e fiz dele meu prato do dia
1 145
Martha Medeiros

Martha Medeiros

era uma vez uma foto em preto e branco

era uma vez uma foto em preto e branco
em que eu me via fumando um charo
com o olho vidrado em você
minhas mãos tinham algo de estátua
mas a cabeça vibrava que eu via


a boca entreaberta pedia
um beijo pra me tatuar
980
Martha Medeiros

Martha Medeiros

quero um homem quente

quero um homem quente
que me queira beijar fundo e único
que me queira cheirar
mundo e tímido
1 007
Martha Medeiros

Martha Medeiros

eu quero

eu quero
amor piscina
que sobe e desce trampolins
cai e sai nadando
amor em que se afunda e simplesmente
sai se amando
1 050
Sophia de Mello Breyner Andresen

Sophia de Mello Breyner Andresen

Lá num país de selvas e lianas
De mágicos tantans e de fantásticos
Animais venenosos que elásticos
Entram à noite pelas persianas

Onde há flores à flor das ondas finas
— Flores que olhá-las só é uma festa —
E rápidas gazelas nas campinas
E homens nus e pintados na floresta

Lá é que está essa vida de mil cores
A que nós todos fomos destinados
Por isso é que paramos perturbados
Ante os cais onde sonham os vapores
1940
1 224
Sophia de Mello Breyner Andresen

Sophia de Mello Breyner Andresen

Glosa

«Dá a surpresa de ser
É alta de um loiro escuro»
Fernando Pessoa

Dá a surpresa de ser
É alto de um loiro escuro
Faz bem só pensar em ver
Seu gesto firme e seguro

Tem qualquer coisa de mastro
Tem qualquer coisa de sol
Saber que existe sossega
Como no mar o farol

Há qualquer coisa de rude
Em sua beleza extrema
Como saber a crueza
Que há no dentro do poema

Tem qualquer coisa de limpo
Apetece como o sal
Espanta que seja real
Sua perfeição de Olimpo

Há qualquer coisa de toiro
Na largura dos seus ombros
Navegam brilhos e assombros
No obscuro do seu loiro
1968 (?)
1 148
Sophia de Mello Breyner Andresen

Sophia de Mello Breyner Andresen

Vi. Irmão do Que Escrevi

Irmão do que escrevi
Distante me desejo
Como quem ante o quadro
Pra melhor ver recua.
Mas tu, Neera, impões
Leis que não são as minhas.
Teus pés batem a dança
De sombra e desmesura
Em frente da varanda
Fugidia cintilas
Longas mãos brancos pulsos
Torcem os teus cabelos
Quando irrompe da noite
Tua face de toira
E acordas as imagens
Mais antigas que os deuses.
1 351
Sophia de Mello Breyner Andresen

Sophia de Mello Breyner Andresen

Morte

Que triângulo ou círculo poderá cercar-te
Para que te detenhas demorada e minha
Para que não desças toda pela escada
1 187
Sophia de Mello Breyner Andresen

Sophia de Mello Breyner Andresen

Iii. (Antinoos)

Noite diurna
Até à mais funda limpidez do instinto
Sob os teus cabelos em anel sombria vinha
Corpo terrestre e solene como o azul mais aceso da montanha
O quase imóvel fogo dos teus beiços
Pesa como o fruto pleno no rumor de brisa da árvore
Porta aberta para toda a natureza
É através de ti que os meus rios caminham como veias
Novilho de testa curta no secreto silêncio do bosque
Sobre os teus ombros poisa terrível o meio-dia
Do divino celebrado no terrestre
1 035
Sophia de Mello Breyner Andresen

Sophia de Mello Breyner Andresen

Vii. Eros, Neera, Sacudiu Os Seus

Eros, Neera, sacudiu os seus
Cabelos sobre a testa larga e baixa
Eros-Neera-Antinoos
Irrompe no terraço.

Palmeiras nas ruínas de Palmira.
Eros poisou seu rosto no teu ombro,
Eros soltou as feras
Do halali, Neera.
1 053
Sophia de Mello Breyner Andresen

Sophia de Mello Breyner Andresen

Porque Nos Outros Há Sempre Qualquer Nojo

Porque nos outros há sempre qualquer nojo
Que me gela e me afasta
E em ti há sempre um pouco de mar largo
Que de olhos cegos atrás de ti me arrasta.
1 237
Sophia de Mello Breyner Andresen

Sophia de Mello Breyner Andresen

Senti Que Estava Às Portas do Meu Reino

Entre as sombras brilhavam as paisagens
Que os meus sonhos antigos desejavam.
Mas o terror expulsou-me das imagens
Onde já os meus membros penetravam.
1 043
Sophia de Mello Breyner Andresen

Sophia de Mello Breyner Andresen

Esgotei o Meu Mal, Agora

Queria tudo esquecer, tudo abandonar,
Caminhar pela noite fora
Num barco em pleno mar.

Mergulhar as mãos nas ondas escuras
Até que elas fossem essas mãos
Solitárias e puras
Que eu sonhei ter.
1 507
Sophia de Mello Breyner Andresen

Sophia de Mello Breyner Andresen

Exílio

Espero tecendo os dias
Imagino e contemplo.

Num país sem flores onde o mar não é mar
E enigma são os navios,
Eu não entendo o sentido das velas
Tenho fome e sede de horizontes frios.
1 451
Sophia de Mello Breyner Andresen

Sophia de Mello Breyner Andresen

Dançam As Árvores Puras Sacudidas

Pelas chuvas verdes
O dia tem em si mãos interrompidas
Que um desejo absurdo ergue.
1 068
Sophia de Mello Breyner Andresen

Sophia de Mello Breyner Andresen

Viii. Não Te Chamo Para Te Conhecer

Não te chamo para te conhecer
Eu quero abrir os braços e sentir-te
Como a vela de um barco sente o vento

Não te chamo para te conhecer
Conheço tudo à força de não ser

Peço-te que venhas e me dês
Um pouco de ti mesmo onde eu habite
1 785
Adélia Prado

Adélia Prado

Anjo Mau

O que desejo é o corpo
e não beijo.
O que desejo é o corpo
e não toco.
Quando vem a dádiva
já tenho o lábio torto de irrisão.
Vai morrer, digo à boca.
Vai secar, digo à mão.
Bela como um arcanjo,
uma força de danação
quer me perder.
1 176
Adélia Prado

Adélia Prado

O Vivente

Sem avisos se mostra
a duração perfeita,
forma que de si mesma se acrescenta
e na mesma medida permanece.
Contemplá-la
é querer para si toda a pobreza.
Não causa medo,
só o belo tremor da noiva
deixando a casa paterna.
O que diz é: vem.
O que é: abismo.
Puro gozo
que à medida que come
mais tem fome.
1 034
Adélia Prado

Adélia Prado

Branco E Branco

Fervor, afoiteza, beco estreito,
menino com menina,
flores chamadas lírios,
dente novo mordendo talo verde,
como se o sangue deles fosse branco.
1 085
Adélia Prado

Adélia Prado

O Noviço E a Abstinência de Preceito

Tenho dificuldade em comer folhas,
mesmo as que eu próprio lavo
com óculos de aumento e rios d’água.
Minha carne quer outra carne,
vermelha entre dourados
de gordura amarela gotejante.
Não me vale saber das excelências do verde,
meu lábio treme à vista de suculências.
Aos rigores da lei
— paulina ou não —
minha fortaleza é a da mostarda.
Um grão.
1 130
Adélia Prado

Adélia Prado

Outubro

El macaquito diria
se falasse espanhol
mas só sei português
e bater um coco no outro
ignorante e atrevida.
Outubro me dá desejos
secretos e confessáveis.
Grito alto
pelos mesmos motivos das cigarras.
1 170
Adélia Prado

Adélia Prado

Memória Amorosa

Quando ele aparece
bonito e mudo se posta
entre moitas de murici.
Faz alto-verão no corpo,
no tempo dilatado de resinas.
Como quem treina para ver Deus,
olho a curva do lábio, a testa,
o nariz afrontoso.
Não se despede nunca.
Quando sai não vejo,
extenuada por tamanha abundância:
seus dedos com unhas, inacreditáveis!
1 128
Adélia Prado

Adélia Prado

Gregoriano

O que há de mais sensual?
Os monges no cantochão.
Espalmo como só pode fazê-lo
uma flor toda aberta,
desperta a espumilha-rosa
contra o melancólico e o cinza.
“Um dia veremos a Deus com nossa carne.”
Nem é o espírito quem sabe,
é o corpo mesmo,
o ouvido,
o canal lacrimal,
o peito aprendendo:
respirar é difícil.
1 001