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Poemas neste tema

Walmir Ayala

Walmir Ayala

XII [O que É o Ciúme?

Afiadas as unhas, não baixarás amor.
Te sangro, amor. Te incito e te assassino,
amor. E te assassino.
E me assassino, amor. E sou silêncio
corroído de inveja
de amor.


Publicado no livro Questionário (1967).

In: AYALA, Walmir. Poesia revisada. Rio de Janeiro: Olímpica; Brasília: INL, 1972. p.28
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Gregório de Matos

Gregório de Matos

Queixa-se o Poeta

Carregado de mim ando no mundo,
E o grande peso embarga-me as passadas,
Que como ando por vias desusadas,
Faço o peso crescer e vou-me ao fundo.

O remédio será seguir o imundo
Caminho, onde dos mais vejo as pisadas,
Que as bestas andam juntas mais ornadas,
Do que anda só o engenho mais profundo.

Não é fácil viver entre os insanos,
Erra, quem presumir, que sabe tudo,
Se o atalho não soube dos seus danos.

O prudente varão há de ser mudo,
Que é melhor neste mundo o mar de enganos
Ser louco cos demais, que ser sisudo.


In: MATOS, Gregório de. Obra poética. Org. James Amado. Prep. e notas Emanuel Araújo. Apres. Jorge Amado. 3.ed. Rio de Janeiro: Record, 1992
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Manuel Botelho de Oliveira

Manuel Botelho de Oliveira

A Santa Maria Madalena aos Pés de Cristo

Soneto XCVII

Solicita, procura, reconhece,
com desvelo, com ânsia, com ventura,
sem temor, sem soberba, sem loucura,
a quem ama, a quem crê, por quem padece.

Ajoelha-se, chora, se enternece,
com pranto, com afeto, com ternura,
e se foi indiscreta, falsa, impura,
despe o mal, veste a graça, o bem conhece.

A seu Mestre, a seu Deus, a seu querido,
rega os pés, ais derrama, geme logo,
sem melindre, sem medo, sem sentido.

Por assombro, por fé, por desafogo,
nos seus olhos, na boca, no gemido,
água brota, ar respira, exala fogo.


In: OLIVEIRA, Manuel Botelho de. Lira sacra. Leitura paleográfica Heitor Martins. São Paulo: Conselho Estadual de Cultura, 1971. (Textos e documentos, 21)
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Armindo Trevisan

Armindo Trevisan

Uma Doença Chamada Homem

Se dividirmos o corpo, se na unidade
as coisas se arranjarem, à revelia de outros corpos,
se de nós a inteligência partir para fora
e de fora vier até nós; se algo assim
com Kipling não nos obrigar à capitulação
e isto for complicado porque em política

repressão nada significa e as palavras constituem
o que elas constituiriam se pensar fosse comer;
se nem na comida conseguimos unanimidade
mas antes uma laranja é fruto
de divisão; se pensamos que ser é ser indivíduo,
trabalhar com os outros, fornicar com os outros;
se a colisão de bocas na treva
não nos atar as línguas; se
por acaso a vida fosse um abuso

de força a esta atavicamente jorrasse
do bico de um pássaro, do furo de uma baleia;
se cada um de nós de repente se dispusesse
a inverter a evolução, a recomeçar outro movimento.

Que aconteceria? Seríamos
inúteis durante algum tempo. Não saberíamos
manipular um motor, estender uma roupa,
ou juntar as mãos. Seríamos

inúteis. Mas dessa inutilidade
não brotaria mais sentido? Que
aconteceria? Alinhar-nos-íamos entre
os gansos? Que
se passaria com a consciência? Oh! o esforço
de se beijar um mamilo, de
se dizer absolutamente porque somos.
Um esforço do qual
cada pessoa emergeria jovem,
um gesto feito quando chega a notícia.
Seríamos inúteis. Inúteis sem remorso.
Extraviados na liberdade de ignorar

a própria morte. Em vez disso sabemos como as coisas
caminham, temos noções exatas acerca de um
fusível, pagamos nossas dívidas,
e saboreamos a sensação

de morrermos muito antes do tempo.

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In: TREVISAN, Armindo. O abajur de Píndaro. A fabricação do real. Il. Almada Negreiros. São Paulo: Quíron; Brasília: INL, 1975. (Sélesis, 4). Poema integrante da série O Abajur de Píndaro
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Alphonsus de Guimaraens Filho

Alphonsus de Guimaraens Filho

Canto de Natal

A Criança que dorme
é tua e também minha.
Junto dela a grande noite
se apaga, e se avizinha

a madrugada santa,
com seus rumores castos...
E a Criança repousa,
e a Criança se esquece,

enquanto que no espaço
e no tempo se tece
a coroa de espinhos,
como um luar de sangue
sobre os altos caminhos.


In: GUIMARAENS FILHO, Alphonsus de. Poemas reunidos, 1935/1960. Rio de Janeiro: J. Olympio, 1960. Poema integrante da série O Unigênito, 1946/1947
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Tasso da Silveira

Tasso da Silveira

Intróito

Nós temos uma visão clara desta hora.

Sabemos que é de tumulto e de incerteza.
E de confusão de valores.
E de vitória do arrivismo.
E de graves ameaças para o homem.

Mas sabemos, também, que não é esta a primeira
hora de agonia e inquietude que a humanidade vive.

(...)

A arte é sempre a primeira que fala para anunciar
o que virá.
E a arte deste momento é um canto de alegria,
uma reiniciação na esperança,
uma promessa de esplendor.

Passou o profundo desconsolo romântico.
Passou o estéril ceticismo parnasiano.
Passou a angústia das incertezas simbolistas.

O artista canta agora a realidade total:
a do corpo e a do espírito,
a da natureza e a do sonho,
a do homem e a de Deus,

canta-a, porém, porque a percebe e compreende
em toda a sua múltipla beleza,
em sua profundidade e infinitude.

E por isto o seu canto
é feito de inteligência e de instinto
(porque também deve ser total)
e é feito de ritmos livres
elásticos e ágeis como músculos de atletas
velozes e altos como sutilíssimos pensamentos
e sobretudo palpitantes
do triunfo interior
que nasce das adivinhações maravilhosas...

O artista voltou a ter os olhos adolescentes
e encantou-se novamente com a Vida:

todos os homens o acompanharão!


Publicado no livro Definição do Modernismo Brasileiro (1932).

In: CACCESE, Neusa Pinsard. Festa: contribuição para o estudo do Modernismo. São Paulo: IEB, 1971. p.190-19
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Augusto dos Anjos

Augusto dos Anjos

Os Doentes

I

Como uma cascavel que se enroscava,
A cidade dos lázaros dormia...
Somente, na metrópole vazia,
Minha cabeça autônoma pensava!

Mordia-me a obsessão má de que havia,
Sob os meus pés, na terra onde eu pisava,
Um fígado doente que sangrava
E uma garganta de orfã que gemia!

Tentava compreender com as conceptivas
Funções do encéfalo as substâncias vivas
Que nem Spencer, nem Haeckel compreenderam...

E via em mim, coberto de desgraças,
O resultado de biliões de raças
Que há muitos anos desapareceram!


Publicado no livro Eu (1912).

In: REIS, Zenir Campos. Augusto dos Anjos: poesia e prosa. São Paulo: Ática, 1977. p.92. (Ensaios, 32)

NOTA: Poema composto de 9 parte
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Ilka Brunhilde Laurito

Ilka Brunhilde Laurito

Comunhão

Já que me sinto muito digna
de me assentar à tua mesa,
não quero migalhas, não,
eu quero o pão inteiro.

Tu e eu, massa e fermento
em ávido silêncio:
casca e miolo,
o bolo
e o seu recheio

Vem.
Estende os lençóis sobre esta
mesa
com cheiro de suor e de
alfazema.
E vamos trabalhar a noite
e o seu levedo
com as mãos,
a boca,
o corpo aceso,
para que a aurora nos en-
tregue,
ainda quentes,
as últimas fatias de amor
amanhecente
com gosto de café, de leite
e de manteiga.


Poema integrante da série Oficina Passionária.

In: LAURITO, Ilka Brunhilde. Canteiro de obras. São Paulo: Edicon: J. Scortecci, 1985. (Aldebarã)
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Thiago de Mello

Thiago de Mello

Breve Será Dezembro

Somos homens e sabemos
que breve será dezembro
no tempo de nossa carne.
Se habitaremos um tempo
de limites impossíveis,
somos homens, não sabemos.

E a despeito do cansaço.
quase nada percorremos
da estrada que nos tocou.

De nosso tivemos pouco:
tivemos crenças legadas,
herdamos o sangue antigo
e sobretudo o desejo.

Prolongamos o roteiro
que a mão primeira traçou.
Nosso corpo limitado
serviu de atalho à infinita
substância do pecado.

De tudo, apenas foi nosso
o débil gesto esboçado
que se extinguiu muito aquém
da fronteira.

Contudo, algo esperamos.


Publicado no livro Silêncio e Palavra (1951).

In: MELLO, Thiago de. Vento geral, 1951/1981: doze livros de poemas. 2.ed. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 198
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Teófilo Dias

Teófilo Dias

Os Seios

Como serpente arquejante
Se enrosca em férvida areia,
Meu ávido olhar se enleia
No teu colo deslumbrante.

Quando o descobres, no ar
Morno calor se dissolve
Do aroma, em que ele se envolve,
Como em neblina o luar.

Se ao corpo te enrosco os braços,
A terra e os céus estremecem,
E os mundos febris parecem
Derreter-se nos espaços!

E tu nem sequer presumes
Que então, querida, até creio,
Sorver, desfeito em perfumes,
Todo o sangue do teu seio.

Depois que aspiro, ansiado,
Do teu níveo colo o incenso,
Minh'alma semelha um lenço
De viva essência molhado.

Deixa que a louca se deite
Nesse torpor, que extasia,
E que o vinho do deleite
Me espume na fantasia;

Pois não há ópio ou haschis
Que me abrilhante as idéias
Como as fragrâncias sutis
Que fervem nas tuas veias!


Publicado no livro Fanfarras (1882). Poema integrante da série Flores Funestas.

In: DIAS, Teófilo. Poesias escolhidas. Sel. introd. e notas Antonio Candido. São Paulo: Conselho Estadual de Cultura, 196
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Raimundo Correia

Raimundo Correia

Ofélia

Num recesso da selva ínvia e sombria,
Estrelada de flores, vicejante,
Onde um rio entre seixos, espumante,
Cursando o vale, túrgido, fluía;

A coma esparsa, lívido o semblante,
Desvairados os olhos, como fria
Aparição dos túmulos, um dia
Surgiu de Hamlet a lacrimosa amante;

Símplices flores o seu porte lindo
Ornavam... como um pranto, iam caindo
As folhas de um salgueiro na corrente...

E na corrente ela também tombando,
Foi-se-lhe o corpo alvíssimo boiando
Por sobre as águas indolentemente.


Publicado no livro Sinfonias (1882). Primeiro da série Perfis Românticos, constituída por oito sonetos.

In: CORREIA, Raimundo. Poesias completas. Org. pref. e notas Múcio Leão. São Paulo: Ed. Nacional, 1948. v.2, p.142
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Artur de Azevedo

Artur de Azevedo

Uma Valsa

(...)
Valsa ditosa
Vertiginosa
Que delícia nos fazes gozar!
Débil cintura
Com mão impura
O direito nos dás de apertar!
Túmidos seios,
Cerúleos veios
Junto ao peito sentimos arfar!
Há melhor gosto
Que um lindo rosto
A' distância de um beijo fitar?
Quatro imprudentes
Lábios ardentes
Por acaso se podem tocar...
Eternas horas,
Noites e auroras,
Uma valsa devera durar!

(...)

É agora!
Lá vão,
Embora
Cansados!
Danados
Estão!
O moço
Destroço
Na trança
Causou:
O cravo
— Que agravo! —
Na dança
Roubou!
A trança
Rolou!
E todos
Tais modos
Lamentam,
Comentam:
— Audácia!
— Filáucia!
— Tunante!
— Tratante!
Já chovem
Protestos.
— Que horror! —
E o jovem,
Os restos
Beijando
Da flor,
Pulando,
Suando,
Mostrando
Furor,
Não pára,
E, a cara
Metendo,
Vai tendo
Lugar!
A triste
Resiste
Nos braços
Devassos
Do par.
O esposo,
Furioso,
A banda
Não manda
Calar!
A bela
Senhora
Desmaia:
Na sala,
Sem fala
Descai!
Descaia!
Que, embora
Sem ela,
O ovante
Dançante
Lá vai!
— Mas pare!
— Repare!
— Faz mal!
Aviso
De siso
Não val!
— Pisou-me!
— Matou-me!
— Socorro,
Que eu morro
Papai!
— Borracho
Estará?
— Eu acho
Que está!
E a banda
Tão rara,
Nefanda,
Não pára!
O amigo
Co'as pernas
Ligeiras
E eternas
Levando
Consigo
Cadeiras,
Quebrando
Sofás,
A gente
Pisando
Que frente
Lhe faz,
Não cansa
Na dança,
Zás, traz!
E lhe ouço
— Que moço!
Girando,
Gritando,
Dizer:
— Almejo,
Desejo
Dançando,
Valsando
Morrer! —

(...)

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In: AZEVEDO, Artur. Contos em verso. Rio de Janeiro: Garnier, 1910. Poema integrante da série Contos Brasileiros
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Colombina

Colombina

Posse

Abrindo o meu roupão de seda malva,
deslumbrado, contemplas a nudez,
magnífica da minha carne alva,
pela primeira vez.

Enlaçam-me os teus braços loucamente
e os teus lábios macios e sensuais
vão, no meu corpo — que é uma pira ardente —
deixando seus sinais.

Teus dedos, numa escala volutuosa,
percorrem-me as espáduas. Com ardor
une-se à minha a tua boca ansiosa
de amar com muito amor!

Oferenda de gozo aos teus anseios
(que, pálido e ofegante, à luz expões),
magnólias de luar meus brancos seios
te entregam seus botões.

E os róseos guizos, duros, empinados
pela lascívia, sugas com avidez...
Sou toda tua; teu, os meus pecados,
pela primeira vez!


Publicado no livro Rapsódia rubra: poemas à carne (1961).

In: CAVALHEIRO, Maria Thereza. Colombina e sua poesia romântica e erótica: esboço biográfico e seleção de poemas. São Paulo: J. Scortecci, 1987, p.33-10
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Amadeu Amaral

Amadeu Amaral

A Vida

Impressão do Moisés, de Menotti del Picchia

Eis a Vida: seguir umas quimeras vagas,
lançando a mão em sangue aos cardos e aos espinhos;
rolar no pó; gemer; deixar pelos caminhos
mil farrapos de carne e o sangue de mil chagas;

sorver o horrendo fel que anda em todos os vinhos,
o veneno que jaz em todas as teriagas;
persistir, todavia, entre as chufas e as pragas
dos que vão, a ulular, por trilhos convizinhos;

chegar, enfim, exausto, ao fastígio da idade,
ver desfeito o jardim de encanto que sonhamos,
cair desfalecido e — supremo revés —

olhando para trás, ver que a felicidade
ficou além, no vale, onde, espectros, passamos,
ficou além, na flor que calcamos aos pés...


Publicado no livro Espumas: versos (1917).

In: Poesias completas. São Paulo: HUCITEC: Secretaria da Cultura, Ciência e Tecnologia do Estado, 1977. p.192. (Obras de Amadeu Amaral
1 579 2
Manuela Amaral

Manuela Amaral

Rebeldia

Soltem-me
as algemas

Quero
a minha alma livre
meu corpo livre
meu pensamento livre

Esbofetear o mundo
e cuspir
na vida.



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Augusto dos Anjos

Augusto dos Anjos

Soneto

Ao meu primeiro filho nascido
morto com sete meses incompletos

2 de fevereiro de 1911

Agregado infeliz de sangue e cal,
Fruto rubro de carne agonizante,
Filho da grande força fecundante
De minha brônzea trama neuronial,

Que poder embriológico fatal
Destruiu, com a sinergia de um gigante,
Em tua morfogênese de infante
A minha morfogênese ancestral ?!...

Porção de minha plásmica substância,
Em que lugar irás passar a infância,
Tragicamente anônimo, a feder?!...

Ah! Possas tu dormir, feto esquecido,
Panteisteicamente dissolvido
Na noumenalidade do NÃO SER !

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Arthur Rimbaud

Arthur Rimbaud

A ESTRELA CHOROU ROSA

A estrela chorou rosa ao céu de tua orelha.
O infinito rolou branco, da nuca aos rins.
O mar perolou ruivo em tua teta vermelha.
E o Homem sangrou negro o altar dos teus quadris.


5 475 2
Manuela Amaral

Manuela Amaral

Teu corpo-meu espaço

Teu corpo é raiz
rasgando a terra nua
do meu sexo

Teu corpo é vertical
onde os meus dedos tocam as distâncias

Teu corpo é diálogo sem palavras
O grito em ressonância
no meu espaço



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Antônio Augusto de Lima

Antônio Augusto de Lima

A um Otimista

Pensas que são inteiramente nossos
nossos corpos de argila ? Não no creias.
Para reter a vida, em vão anseias:
dela não guardarás sequer destroços.

Não tens, fingido herdeiro de colossos,
destinado a guardar coisas alheias,
nem o sangue que corre em tuas veias,
nem a sutil medula de teus ossos.

Uma voz noutra voz reproduzida,
reproduzindo antiga voz perdida,
o eco responde à voz — eco também...

Ris-te da sombra que refletes ? Ri-se
também de ti a sombra: — quem te disse
que não és — olha atrás! — sombra de alguém?

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Ferreira Gullar

Ferreira Gullar

Isso e Aquilo

Você é
seu corpo
sua voz seu osso

você é seu cheiro
e o cheiro do outro

o prazer do beijo
você é seu gozo

o que vai morrer
quando o corpo morra

mas também aquela
alegria (verso
melodia)
que intangível, adeja
acima
do que a morte beija.

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Herberto Helder

Herberto Helder

Demão

Retorna à escuridão
o rosto: entre centelhas, Ficasse tão maduro quando
de te tragar
estremecesses, Que o animassem
os elementos: um interior: um limite do mundo,
E se afinasse como
um galho de marfim
cheio de lume, Que fosse um instrumento
de crescer na terra: um golpe
nela, Abraço,
Com a mão coroada,
Até à bolsa com a lua dentro,
No ovo está o astro, Se pelos dedos
nesse rosto
te plantasses todo na riqueza do sono,
Soldado a nervos: osso:
feixes de fibras:
tímpanos, E as faíscas saltando pelas unhas
as deixassem ígneas,
E uma veia arpoasse igneamente a massa
muscular, Ou
a aorta sorvesse a matéria
tremenda
ao seu abismo, E te encharcasse até às pálpebras,
Essa púrpura por válvulas
contra os dentes, Nos fundamentos há
vezes
em que és ligeiro ao movimento da água,
Ou nas paredes onde os canos se cruzam
como um corpo onde se cruzam
órgãos
tubos, Um alento das coisas: dos tecidos
do mundo, E por exemplo se a louça e o inox
brilhados de dentro: à mesa,
E a madeira respira mais rápida,
E uma grande massa orgânica magnífica
cercada de membros
como um homem,
Essas pinças na cabeça entre as meninges
extraindo
uma estrela, Os canais luminosos da cabeça
iluminam-te todo, Iluminas-te
quando se arranca a língua e há um soluço da fala,
Levantas-te soberbamente
ao rosto, Como a vara
do vèdor fica acesa
pelas ramas de água, Como que salga
o aparelho
do corpo: e o torna substância
alta: giratória, Ou se fulgura a trama
cristalográfica
terrífica da música, Se levanta
entre dedos e cordas
fundidos, De sangue e ar no escuro:
música,
O medo do poder: esta ferida
tão de um nó de músculos estrangulando
uma leveza,
O barro violento, A manobra
das vozes, Fechas os olhos: e as
coisas não te vêem,
As mãos brilham-te abertas,
A morte aumenta a cara


1981.
5 056 2
Ferreira Gullar

Ferreira Gullar

Os Vivos

Os vivos
são vorazes
são glutões ferozes:
até dos mortos comem
carnes e vozes

Se devoram os mortos
devoram os outros vivos:
pelos olhos e sexo
elogio, sorrisos

Os vivos são dotados
de famintas bocas:
devoram o que vêem
o que cheiram e tocam

Os vivos são fornalhas
em sempre operação:
em sua mente e ventre
tudo vira carvão

O mar a pedra a manhã
são ali combustível:
o vivo, voraz, muda
o visível em visível

O mar a pedra a manhã
- que ele queima em seus risos -
viram pele e cabelos
do corpo, que é ele vivo

e onde habita alguém
- seja espírito ou não -
alimentado também
por essa combustão

que tudo vaporiza.

Mas que agora na pele
desta efêmera mão
é afago de brisa.

1 980 2
Reinaldo Ferreira

Reinaldo Ferreira

No amor que sentes põe amor, mais nada

No amor que sentes põe amor, mais nada.
Guarda o ciúme para quem odeias
E, se algum dia hás-de cortar as veias,
Seja a do tédio ou da renúncia a estrada
Que tu escolheres, não da paixão frustrada...

Pede à carne só carne, e não ideias;
Triste recurso das solteiras feias...

2 117 2
Angela Santos

Angela Santos

Crepúsculo

A
nudez e o frio do que era
acordaram o sonho
maior que o quase - nada
dentro de mim

Eu crescia
por dentro, crescia por fora
ante o espanto e a espera.
e os meus olhos cresciam,
assustados cresciam
e dentro deles um sonho,
mundos
outros.

O meu corpo eternizava
o crepúsculo da Primavera
os cheiros as cores
Maio nos sentidos perpetuado.

Fora de mim,
indiferente
o suceder de estações
pétalas, réstias de sol
árvores despidas, vergadas
pelos ventos outonais.

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