Arte

Poemas neste tema

Sophia de Mello Breyner Andresen

Sophia de Mello Breyner Andresen

Landgrave Ou Maria Helena Vieira da Silva

Lugar de convocação como um poema muito antigo.
Lugar de aparição. Diálogo do visual e da visão. Onde do visível emerge a aparição. Assim no verso de Pascoaes vemos «O que há de aparição no seio da aparência».
Um rebrilhar de teatro. Multiplicando a luz imaginária da noite.
A luz inventada da noite.
As paredes, o chão, o tecto avançam para o fundo. Mas no fundo outro espaço desponta. E em cada espelho um novo espaço nasce.
É um lugar onde tudo está atento, denso de memória e de veemência. Lugar de revelação, de espanto e cismar e descobrimento.
As cores estão acesas como as luzes de um teatro à hora da representação. O mundo é «re-presentado», tornado mais uma vez presente. O ar está queimado pelas luzes como o ar de um palco. Todas as cores se reflectem umas nas outras. Há um difuso tremular luminoso como o das escamas de um peixe. Os múltiplos espelhos formam uma rede de escamas: amarelas, cor de barro, cinzentas, rosadas, negras, cor de nácar, cor de pedra. Um pouco atrás as musas da penumbra tocam suas finas flautas. É o rigor da música que estrutura a ordem das formas, as variações, o retomar dos temas, o contraponto da repetição.
Reconhecemos o tão atento olhar. Os olhos muito abertos como os olhos que estão pintados à proa dos barcos. O olhar que busca o aparecer do mundo, o surgir do mundo, o emergir do visível e da visão. Reconhecemos a viagem, a longa navegação, a memória acumulada. A atenção da Sibila, da bússola, do sismógrafo, da antena.
Fevereiro de 1988
1 933
Sophia de Mello Breyner Andresen

Sophia de Mello Breyner Andresen

Deus Puro, Apolo Musageta

Deus puro, Apolo Musageta,
Deus sem espinhos e sem cruz,
Ofereço-te a plenitude secreta
Em que bebi e vivi a tua luz.

Ofereço-te a minha alma transbordante
De mil exaltações,
Purificada em mil confissões
Da sua longa tristeza delirante.

Ofereço-te as horas deste dia completas
No teu sol tocando as coisas materiais,
Ofereço-te as nostalgias secretas
Que se perderam em gestos irreais.
2 207
Sophia de Mello Breyner Andresen

Sophia de Mello Breyner Andresen

Poema de Geometria E de Silêncio

Poema de geometria e de silêncio
Ângulos agudos e lisos
Entre duas linhas vive o branco.
1 913
Susana Thénon

Susana Thénon

O Dançarino

O dançarino disse, danço,
meu vestido é ar e sombra,
meu cabelo é fumaça.
O passado e o futuro dançam em mim.
Cada minuto deixa uma âncora em meu rosto.
Sou o tempo a cada passo,
a morte em minha quietude.
Bailo todos os bailes, me desafogo
e me uno.
Sou mar, o homem do mar:
meu corpo é onda, minha mão é peixe,
minha dor é pedra e sal.
867
Sophia de Mello Breyner Andresen

Sophia de Mello Breyner Andresen

Manuel Bandeira

Este poeta está
Do outro lado do mar
Mas reconheço a sua voz há muitos anos
E digo ao silêncio os seus versos devagar

Relembrando
O antigo jovem tempo tempo quando
Pelos sombrios corredores da casa antiga
Nas solenes penumbras do silêncio
Eu recitava
«As três mulheres do sabonete Araxá»
E minha avó se espantava

Manuel Bandeira era o maior espanto da minha avó
Quando em manhãs intactas e perdidas
No quarto já então pleno de futura
Saudade
Eu lia
A canção do «Trem de ferro»
E o «Poema do beco»

Tempo antigo lembrança demorada
Quando deixei uma tesoura esquecida nos ramos da cerejeira
Quando
Me sentava nos bancos pintados de fresco
E no Junho inquieto e transparente
As três mulheres do sabonete Araxá
Me acompanhavam
Tão visíveis
Que um eléctrico amarelo as decepava

Estes poemas caminharam comigo e com a brisa
Nos passeados campos da minha juventude
Estes poemas poisaram a sua mão sobre o meu ombro
E foram parte do tempo respirado
2 370
Sophia de Mello Breyner Andresen

Sophia de Mello Breyner Andresen

Um Poeta Clássico

Um poeta clássico
Fará da ausência uma parte do seu jogo:
Prumo esteio coluna
Combate esculpido nas métopas do templo

Una e múltipla
Cada encontro a recomeça:
Agudo gume quando a música ressoa
Venenosa rosa do Junho mais antigo

Um poeta clássico
Fará da ausência uma parte do seu jogo
Nem integrada nem assumida
Apenas companheira
Segunda mão poisada sobre a mesa
Mão esquerda

Companheira serena
Das coisas serenas:
Parede livro fruto
E fogosa condutora dos desastres
Que nos esperam em seus pátios lisos
2 412
Nuno Júdice

Nuno Júdice

Pedra

A pedra escreve-se em torno
do nome. Um banco de pedra serve
de assento a quem escreve,
com esse nome, a pedra. Os lábios
não a atiram quando dizem:
pedra. Nem a pedra rola
na boca, como a palavra.



Nuno Júdice | "Meditação sobre Ruínas", 1994
1 174
José Miguel Silva

José Miguel Silva

Nocturno

A arte já sabemos nasce
da imperfeição das coisas
que trazemos para casa
com o pó da rua
quando a tarde finda
e não temos água quente
para lavar a cabeça.
Tentamos regular
com açudes de orações
o curso da tristeza
mudamos de cadeira
e levamos a noite
a dizer oxalá
como se a palavra
praticasse anestesia.
1 067
Nuno Júdice

Nuno Júdice

Explicação

O poema é esta casa abandonada, o rosto belíssimo de imagens mortas.


Nuno Júdice | "Obra poética 1972 - 1985", contracapa | Quetzal Editores, 1999

1 140
Fernando Pessoa

Fernando Pessoa

CEIFEIRA

Mas não, é abstracta, é uma ave
De som volteando no ar do ar,
E a alma canta sem entrave
Pois que o canto é que faz cantar.
1 195
Fernando Pessoa

Fernando Pessoa

EPIGRAMS - VIII

He asked me, half in his fine compassion,
To sketch in two strokes his portrait high;
'Tis done: a coat strikingly in fashion
        And a red tie.
1 188
Fernando Pessoa

Fernando Pessoa

THE PICTURE

In a saloon that is a sleep
Mine eyes did a picture meet,
And wondrously wise and woefully deep
        And horribly complete.
A profound meaning more than tears
Are seen to give, and human fears,
And human madness and woe,
Come as a scent from that picture weird.

The name of the painter is ignored
        And his purpose none do know.
1 321
Fernando Pessoa

Fernando Pessoa

Outros com liras ou com harpas narram,

Outros com liras ou com harpas narram,
       Eu com meu pensamento.
Que, por meio de música, acham nada
        Se acham só o que sentem.
Mais pesam as palavras que, medidas,
        Dizem que o mundo existe.
1 246
Fernando Pessoa

Fernando Pessoa

Doce é o fruto à vista, e à boca amaro,

Doce é o fruto à vista, e à boca amaro,
Breve é a vida ao tempo e longa à alma.
        A arte, com que todos,
—  Ora sem saber  virando os copos,
Ora, enchendo-os, consiste em nos ousarmos,
        Chegada a morte, despi-la.
1 330
Fernando Pessoa

Fernando Pessoa

O verdadeiro poema moderno é a vida sem poemas,

O verdadeiro poema moderno é a vida sem poemas,
E o comboio real e não os versos que o cantam
É o ferro dos rails, dos rails quentes, é o ferro das rodas, é o giro real delas.
E não os meus poemas falando de rails e de rodas sem eles.
1 405
Fernando Pessoa

Fernando Pessoa

APOLLO UNTO NEPTUNE

Apollo unto Neptune said:
        «Come, I shall drink the sea!»
But Neptune laughed out like a lad
        In his boyish jollity,
And cried: «You would drink the earth, if you could,
        And infinity.»
And the poet the symbol who understood
        Felt his misery.
1 391
Fernando Pessoa

Fernando Pessoa

Vem Orfeu, uma sombra

Vem Orpheu, uma sombra
Que traz nas mãos um vago filho — a lira.
1 506
Fernando Pessoa

Fernando Pessoa

III - Análogo começo,

III

Análogo começo,
Uníssono me peço,
Gaia ciência o assomo —
Falha no último tomo,

Onde prolixo ameaço
Paralelo transpasso
O entreaberto haver
Diagonal a ser.

O interlúdio vernal,
Conquista do fatal,
Onde, veludo, afaga
A última que alaga.

Timbre do vespertino,
Ali, caricia, o hino
Outonou entre preces
Antes que, água, comeces.
902
Fernando Pessoa

Fernando Pessoa

Cesário, que conseguiu

Cesário, que conseguiu
Ver claro, ver simples ver puro,
Ver o mundo nas suas coisas,
Ser um olhar com uma alma por trás, e que vida tão breve!
Criança alfacinha do Universo.
Bendita sejas com tudo quanto está à vista!
Enfeito, no meu coração, a Praça da Figueira para ti
E não há recanto que não veja para ti, nos recantos de seus recantos.
1 199
Orides Fontela

Orides Fontela

Cisne

Humanizar o cisne
é violentá-lo. Mas
também quem nos dirá
o arisco esplendor
- a presença do cisne?


Como dizê-lo? Densa
a palavra fere
o branco
expulsa a presença e - humana -
é esplendor memória
e sangue.


E
resta
não o cisne: a
palavra


- a palavra mesmo
cisne.


do livro Alba (1983)
1 739
Bob Cobbing

Bob Cobbing

Este é um poema quadrado

Este é um poema quadrado.
Este poema é um quadrado.
É um poema este quadrado?
Este quadrado é um poema,
Este quadrado é. Um poema
É um poema – este quadrado.
Este é um quadrado-poema.
Um quadrado-poema é este
Poema. Este é um quadrado.
Um poema quadrado é este
Quadrado. Este é um poema,
este é. Um quadrado-poema.
937
Sebastião Alba

Sebastião Alba

Não sou anterior à escolha

Não sou anterior à escolha
ou nexo do ofício
Nada em mim começou por um acorde
Escrevo com saliva
e a fuligem da noite
no meio de mobília
inarredável
atento à efusão
da névoa na sala.


1 095
Akiko Yosano

Akiko Yosano

Tanka VII

Na ponte Shijô
a dançarina
de rosto maquilado
golpeada em sua testa estreita
pelo granizo miúdo do entardecer
 

914
Adão Ventura

Adão Ventura

Paisagens do Jequitinhonha

Quem dança no vento
no ventre das águas
do Jequitinhonha?
Quem percorre o leve
de breves passos
nas margens do Araçuaí?
Quem detém dos pássaros
o ziguezaguear de vôos
recompondo sombras
sobre lixívias e lavras
de Chapada do Norte?
Quem imprime
em argila
a singeleza dos gestos
dos artesãos de Minas Novas?
1 163