Escritas

Condição Humana

Poemas neste tema

Júlio Maria dos Reis Pereira

Júlio Maria dos Reis Pereira

A tarde

À tarde
ascenderam círios na procissão
— a Procissão das Dores e dos Martírios

Os anjinhos na mão seguram lírios
da cor
dorida dos Poentes
e perfume
intenso como o lume dos delírios.

E, inocentes,
transportam
os negros suplícios
que a carne frágil cortam
— tal qual os nossos vícios ...

E trazem misturados
os cravos e os dados,
pombas, maçãs, um cordeirinho plácido,
as sete espadas,
o cálix repleto de ácido...
.................................................................
E a procissão
prossegue
no domingo plácido! ...

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Raul Seixas

Raul Seixas

Treinando Compor

Não quero mais amor
Nem quero mais cantar minha terra
Me perco nesse mundo
Não quero mais o pau Brasil
As rosas que eu colho
Não são essas frementes na iluminação da manhã
São, se as colho, as dum jardim contrário
Nascido desses vossos
Na leiteira ou no bar a tarde se reparte
em iogurtes, coalhadas, copos
São quatro horas da tarde ou da manhã
Em algum mês que não me vem à cabeça
Tenho trinta e oito anos e uma angústia
Amo a vida que é cheia de crianças,
de flores e mulheres...
A vida. Esse direito de estar no mundo
Ter dois pés e duas mãos, uma cara
e a fome de tudo... a esperança
Esse direito de Kika e demais
que nenhum ato institucional
ou inconstitucional
Pode cassar ou legar.
Meus quantos amigos - gente presa
Quantos cárceres escuros
Onde a tarde fede a urina e terror
Existem muitas famílias sem rumo
Essa tarde nos subúrbios de ferro e gás
Brinca irremida a infância da falada
classe operária
Estou aqui!
O espelho não guardará a marca deste rosto
Se simplesmente saio do lugar
Ou se morro... se me matam...
Um dia eu parto
Que importa pois?
A luta comum me incendeia o sangue
E bato no peito
Como o coice de uma lembrança.

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Jorge de Sena

Jorge de Sena

Declaração

Sinto que vou voltar-me para Ti,
Para Ti — como te descrevem e não há que fugir,
não como te penso.
Mesmo o que eu sinto
é que, mais tarde ou mais cedo, cairei rendido.
Contudo sei que vou acreditar
e esquecer o resto porque é lógico, tão lógico!,
tão claro que enraivece e cansa e desconsola...
Ah eu bem conheço que não somos racionais,
mas sempre somos nós e sermo-nos
é o haver mistérios na alma e no mundo
e o não haver necessidade de mistérios em Ti.
Contudo sei que um dia cairei rendido
e hei de acreditar nos dogmas
e nessa crença encontrarei a alegria
de quem contempla paredes verdadeiras
só do seu lado, encontrarei uma alegria de sedução poética ...
Sei também que hei de acabar por ter
piedade dos que não acreditarem
e que hei de deixar de compreender o mundo
uma maneira de sentir de cada um,
para primeiro sinceramente o considerar maneira vaga de
Tu seres,
de Tu te revelares,
e depois me esquecer de tudo
e ir ajoelhar diante dos teus altares
com crepitações mansas de felicidade
e achando poucas todas as velas e flores
para o trono em que estarás por dentro dos meus olhos.
Sei que hei de repetir inefavelmente as orações
e todos esses requerimentos divinos em que há um espaço
para o meu nome;
sei que me hei de entregar a quanto dizem a Teu respeito
e que a minha alma passará a ser minha
e de quem a pesquisar e dormirá tranqüila;
sei que hei de beijar a mão aos íntimos dos teus símbolos
e que os hei de ouvir como se tivesses bocas terrenas,
ah sei que hei de ter preferência por uma ou outra das formas
que dão a Tua Mãe,
sei que hei de olhar enlevado o que não é o Teu retrato,
principalmente aquele de quando eras menino,
e que hei de admitir a Tua presença atual e simultânea
do Teu corpo em todas as Tuas idades e seus acontecimentos;
sei que poderei servir a propaganda
— olhem-no!, como se converteu —
e sei que o meu orgulho se revoltará
e tirarei prazer de Ti nessa revolta;
sei que hei de distinguir entre Ti e o Teu coração,
sei que hei de ser sincero em tudo por não dar por isso,
e sei que hei de esperar confiado a hora de ir ter conTigo,
atribuindo-Te entretanto,
sem querer e sem pensar,
qualidades mesquinhamente humanas e quimericamente divinas,
vendo sinais de Ti em todas as coisas até na minha inércia,
sinais da Tua justiça no mínimo contratempo,
sinais dos Teus desígnios na maior catástrofe...
E SEI QUE, ENTÃO ME HEI DE RENEGAR E ESTE POEMA
À FRENTE?
que hei de renegar tudo,
e por isso Te previno do que sei
para que toda a gente possa ver que eu sinto o que hás de ser
— é que eu conheço-me e adivinho os outros
ou julgo adivinhá-los, tanto faz para o caso.
Talvez que eu me engane e esteja a sustentar-me de erros,
mas os meus erros também são eu próprio!
e eu sei que hei de ser eu e Tu
e os meus erros entre nós dois
enquanto não fechar os olhos e os não reabrir
tal como te descrevem e não há que fugir.
Por tudo, por nada, por mim, que eu abandonarei,
Por Ti, sim, por Ti!... e tudo é tudo,
eu Te previno e mais Te digo:
não irei para Ti..., Perdoa-me! ...
(Olha, já Te peço perdão!)
não caminharei para Ti por hábito ou por fé,
nem por tradição,
nem por interesse,
mas porque o Outro, cá dentro, abdicará, não tarda...
e para onde me voltarei eu, eu!. . ., senão por Ti
até acreditar em Ti como te fazem?
É melhor assim — não procurar.
Tudo está feito, tudo está escrito,
tudo está murado, e bem, com alicerces nos nossos próprios defeitos
— é só ouvir,
é só ler,
é só pasmar sereno,
é só ficar.

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Sá de Miranda

Sá de Miranda

Carta

Rei de muitos reis, se um dia,
Se uma hora só mal me atrevo
Ocupar-vos, mal faria,
E ao bem comum não teria
Os respeitos que ter devo.

Que em outras partes da esfera,
Em outros céus diferentes,
Que Deus até agora escondera,
Tanta multidão de gentes
Vossos mandados espera.

Que sois vós tal, que eles sós,
justo e poderoso rei,
Ou lhe desdais os seus nós,
Ou cortais; porque entre nós
Vós sois nossa viva lei.

Onde há homens há cobiça,
Cá e lá, tudo ela empeça,
Se a santa, se a igual justiça
Não corta, ou não desempena
O que a má malícia enliça.

Senhor, que é muito atrevida,
E onde ela nós cegos deu,
Cortar é coisa devida;
Exemplo o justo de Mida,
Que el-rei vosso avô fez seu.

Ora eu, que respeito havendo
Ao tempo, mais que ao estilo,
Irei fugindo ao que entendo;
Farei como os cães do Nilo,
Que correm, e vão bebendo.

A dignidade real,
Que o mundo a direito tem,
Sem ela ter-se-ia mal,
É sagrada, e não leal
quem limpo ante ela não vem.

Não falemos nos tiranos,
Falemos nos reis ungidos;
Remedeiam nossos danos;
Socorrem os afligidos;
Cortam pelos maus enganos.

As vossas velas, que vão,
Dando quase ó mundo volta,
Raramente contarão
Gente doutro algum rei solta;
Sem cabeça o corpo é vão.

Dignidade alta e suprema,
Que há que a não reconheça?
Viu-se em Marco Antônio tema
De pôr real diadema
A César sobre a cabeça.

Que nome de imperador
Dantes a César se dera
Sem suspeita, e sem temor;
Que inda então muito mais era
Ser cônsul, ser ditador.

Um rei ao reino convém;
Vemos que alumia o mundo;
Um sol, um Deus o sustém:
Certa a queda, e o fim tem
O reino onde há rei segundo.

Não ao sabor das orelhas,
Arenga estudada e branda;
Abastam as razões velhas:
A cabeça os membros manda;
Seu rei seguem as abelhas.

A tempo o bom rei perdoa;
A tempo o ferro é mezinha:
Forças e condição boa
Deram ao leão coroa
De sua grei montezinha.

Às aves, tamanho bando
Doutra liga, e doutra lei,
Por vencer todas voando,
A águia foi dada por rei,
Que o sol claro atura olhando.

Quanto que sempre guardou
David lealdade e fé
A Saul, quanto o chorou!
Quanta maldição lançou
Aos montes de Gelboé!

Onde caíra o escudo
De seu rei, inda que inimigo,
Inda que já mal sisudo
Saindo de tal perigo,
E subindo a mandar tudo.

O senhor da natureza,
De quem céu e terra é cheia,
Vindo a esta nossa baixeza,
Do real sangue se preza:
Por rei na cruz se nomeia.

Sobre obrigações tamanhas
Velem-se contudo os reis
Dos rostos falsos, das manhas
Com que lhe querem das leis,
Fazer teias das aranhas.

Oue se não pode fazer
Por arte, por força ou graça,
Salvo o que a justiça quer;
Senhor, não chamam valer,
Salvo ao que lhes val na praça.

E por muito que os reis olhem,
Vão por fora mil inchaços,
Que ante vós, senhor, se encolhem
Duns gigantes de cem braços
Com que dão, e com que tolhem.

Quem graça ante el-rei alcança,
E lhe fala o que não deve,
Mal grande da má privança,
Peçonha na fonte lança,
De que toda a terra breve.

Quem joga, onde engano vai,
Em vão corre e torna atrás;
Em vão sobre a face cai:
Mal hajam as manhas más
Donde tanto dano sai!

Homem de um só parecer,
Dum só rosto, uma só fé,
Dantes quebrar que torcer,
Ele tudo pode ser,
Mas de corte homem não é.

Gracejar ouço de cá
De quem vai inteiro e são,
Nem se contrafaz mais lá;
Como este vem aldeão,
Que cortesão tornará?

As santidades da praça,
Aqueles rostos tristonhos,
Cos quais este, e aquele caça;
Para Deus, senhor, é graça;
Para nós tudo são sonhos.

E os discursos que fazemos,
Pode ser, não pode ser,
Mais diante o entenderemos:
Agora mortos por ver;
Então todos nós veremos.

Senhor, hei-vos de falar
(Vossa mansidão me esforça)
Claro o que posso alcançar;
Andam para vos tomar
Por manhas, que não por força.

Por minas trazem suas azes
Os rostos de tintureiros,
Falsas guerras, falsas pazes;
De fora mansos cordeiros;
De dentro lobos roazes.

Tudo seu remédio tem
E que assim bem o sabeis,
E ao remédio também;
Querei-los conhecer bem,
No fruto os conhecereis.

Obras, que palavras não:
Porém, senhor, somos muitos,
E entre tanta multidão
Tresmalham-se-vos os frutos,
Que não sabeis cujos são.

Um que por outro se vende,
Lança a pedra, e a mão esconde;
O dano longe se estende;
Aquele a quem dói e entende,
Com só suspiros responde.

A vida desaparece,
E entretanto geme e jaz
O que caiu: e acontece,
Que dum mal, que se lhe faz,
Outro mor se lhe recresce.

Pena e galardão igual
O mundo a direito tem,
A uma regra geral;
Que a pena se deve ao mal,
E o galardão ao bem.

Se alguma hora aconteceu
Na paz, muito mais na guerra,
Que a balança mais pendeu,
Faz-se engano às leis da terra;
Nunca se faz às do céu.

Entre os lombardos havia
Lei escrita, e lei usada,
Como se sabe hoje em dia;
Que onde a prova falecia,
Que o provasse a espada.

Ali no campo às singelas,
Enfim morrer ou vencer,
Fosse qual quisesse delas:
Não era melhor morrer
A ferro, que de cautelas?

Ao nosso alto e excelente
Dom Dinis, rei tão louvado,
Tão justo, a Deus tão temente,
Falsa e maliciosamente,
Foi grande aleive assacado.

Ele posto em tal perigo,
Rei que rei fez e desfez;
Contra o malicioso inimigo,
Foi-lhe forçado esta vez
Chamar-se a esta lei que digo.

E juntamente às cidades
A quem cumpriu de acudir,
Pelas suas lealdades:
Que tão más são as verdades
Às vezes de descobrir!

Neste tempo quem mal cai,
Mal jaz; e dizem que à luz
Por tempo a verdade sai;
Entretanto põem na cruz
O justo, o ladrão se vai.

Da mesma casa real,
Em verdade um grande infante
Tratado às escuras mal,
Bradava por campo igual,
E inimigos claros diante.

Enfim vendo a indústria e arte
Quanto que podem, chamou
Um leal conde de parte;
Só com ele se apartou;
Foi viver a melhor parte.

Onde tudo é certo e claro,
Onde são sempre umas leis;
Príncipe no mundo raro,
Sobre tanto desamparo
Foram três seus filhos reis.

Ó senhor! quantos suores
Passa o corpo e alma em vão
Em poder de envolvedores!
Enfim, batalhas que são?
Salvo desafios mores.

Com a mão sobre um ouvido
Ouvia Alexandre as partes,
Como quem tinha entendido,
Por fazer certo o fingido,
Quantas que se buscam dartes.

Guardava ele o outro inteiro
A parte não inda ouvida:
Não vai nada em ser primeiro:
Quem muito sabe duvida;
Só Deus é o verdadeiro.

A tudo dão novas cores
Com que enleiam os sentidos:
Ah maus! ah enliçadores!
Ante os reis vossos senhores,
Andais com rostos fingidos!
4 303 2
Vitorino Nemésio

Vitorino Nemésio

A Concha

A minha casa é concha. Como os bichos
Segreguei-a de mim com paciência:
Fachada de marés, a sonho e lixos,
O horto e os muros só areia e ausência.

Minha casa sou eu e os meus caprichos.
O orgulho carregado de inocência
Se às vezes dá uma varanda, vence-a
O sal que os santos esboroou nos nichos.

E telhados de vidro, e escadarias
Frágeis, cobertas de hera, oh bronze falso!
Lareira aberta ao vento, as salas frias.

A minha casa. . . Mas é outra a história:
Sou eu ao vento e à chuva, aqui descalço,
Sentado numa pedra de memória.

(Poesia, 1935-1940)

3 158 2
Ribeiro Couto

Ribeiro Couto

Elegia

Que quer o vento?
A cada instante
Este lamento
Passa na porta
Dizendo: abre...

Vento que assusta
Nas horas frias
Na noite feia,
Vindo de longe,
Das ermas praias.

Andam de ronda
Nesse violento
Longo queixume,
As invisíveis
Bocas dos mortos.

Também um dia,
Estando eu morto,
Virei queixar-me
Na tua porta
Virei no vento
Mas não de inverno,
Nas horas frias
Das noites feias.

Virei no vento
Da primavera.
Em tua boca
Serei carícia,
Cheiro de flores
Que estão lá fora
Na noite quente.

Virei no vento...
Direi: acorda...

2 118 2
Moreira Campos

Moreira Campos

Registro Civil

Quando nasci,
minha mãe não
deixou que meu pai me registrasse.
Temia que o governo
(mandão como ele é),
de posse de meu nome
e minha data,
me convocasse para o exército
e para a guerra,
remota naquele tempo,
mas hoje tão freqüente, minha mãe.

Espécie de sonegação,
não de imposto,
que os bens de minha mãe
vinham só do coração.

Claro que depois,
quando moço me fiz,
o registro me deu trabalho grande,
com custas, testemunhas e cartório.

De qualquer modo,
restou-me o carinho dessa proteção.

1 523 2
Mário Dionísio

Mário Dionísio

Silenciosa Música do Cosmos

As bocas que estão fechadas
não estão caladas

Os braços que estão caídos
não estão imóveis

E os olhos que estão voltados
não estão sem ver

Homem só homem só
tu bem me compreendes quando digo
que não estás só
e bem entendes bem entendes
este longo discurso enchendo o ar
que vem de toda a parte e vai a toda a parte
eternamente
em surdina

1 914 2
Matheus Tonello

Matheus Tonello

Agonia

Cai-se uma gota de orvalho,
Na fria e ríspida manhã
É tão fácil sentir-se doente, uma pessoa carente,
Que só resta ao descrente, inundar a relva de lágrimas.

É claro, logicamente, inconstante,
Que traz na rua, o sentimento errante,
Da mulher nua, presa ao relento
Do desespero, cíngulo e fatal.

Ao encorajar-se no dia, único, presente...
Não se deve abaixar, ó vidente, tu és prudente?
Que digas para mim o quão me queres
Que se edifique entre os poucos as chacotas...

De um sentimento insano, indistinguível
Que perturba o coração desesperado
Que grita, pede que retornes
Se desvaria na rústica senzala, seu interior é oco e desumano...

Ó criatura que ajoelha e pede,
Em tom de adeus, chora o fim do anunciado;
Às linhas tortas, se tornaram erradas
Na insanidade nega o perdão: pobre algoz!

O globo que gira sem cessar,
E que o guerreiro fortemente armado,
Possa fazer da lágrima escorrida,
Uma bela canção de amor...

Esse guerreiro que clama por justiça,
Briga, luta, excede-se à raiva,
Beija aquela boca proibida, porém desejada,
Tornando realidade, ao ímpeto desejo de te amar.

De querer, muito mais e mais
Exigir do destino, um final feliz,
Para que eu lhe diga, que foi válida
A vontade de te ter que eu sempre quis.

988 2
Antero de Quental

Antero de Quental

Maria

Tenho cantado esperancas...
Tenho falado damores...
Das saudades e dos sonhos
Com que embalo as minhas dores...

Entre os ventos suspirando
Vagas, tenues harmonias,
Tendes visto como correm
Minhas doidas fantasias.

E eu cuidei que era poesia
Todo esse louco sonhar...
Cuidei saber o que e vida
So porque sei delirar...

So porque a noite, dormindo
Ao seio duma visao,
Encontrava algum alivio,
Meu dorido coracao,

Cuidei ser amor aquilo
E ser aquilo viver...
Oh! que sonhos que se abracam
Quando se quer esquecer !

Eram fantasmas que a noite
Trouxe, e o dia ja levou...
A luz d?estranha alvorada
Hoje minha alma acordou !

Esquecei aqueles cantos...
So agora sei falar !
Perdoa-me esses delirios...
So agora soube amar !

7 763 2
Ricardo Madeira

Ricardo Madeira

Azathoth

Um turbilhão de imagens
Arasta consigo a consciência,
Perdido em estranhas viagens
Ao sabor da demência.

Ao som de flautas partidas
A sanidade desfaz-se em pó,
Rodeada por estrelas caídas,
A ordem do caos reina só.

Amorfo, cego, Deus e idiota,
No centro de toda a entropia,
O Criador da matéria morta,
O único inimigo da harmonia.

Nos seus vómitos profundos,
Envoltos em nevoeiro escuro,
Universos, estrelas e mundos
Giram em volta do Mal puro...
Tão puro que atrai e arrasta a luz,
Tão negro que a sufoca completamente,
Onde nem mesmo a morte pode viver,
Um pesadelo sonhando permanentemente.

"That last amorphous blight of nethermost confusion which
blasphemes and bubbles at the centre of all infinity -- the
boundless daemon sultan Azathoth, whose name no lips dare
speak aloud, and who gnaws hungrily in inconceivable, unlighted
chambers beyond time amidst the muffled, maddening beating of
vile drums and the thin monotonous whine of accursed flutes."
- H.P. Lovecraft

2 043 2
Osvaldo Chaves

Osvaldo Chaves

A Granja dos Séculos

A Natureza, enamorada, um dia,
Pôs um beijo de amor e simpatia
Na face do sertão.
E esse beijo fecundo fez brotar
Entre as brisas do mar e o fogo do deserto
— Granja — o pátrio rincão.

E hoje, a fim de observá-la,
Detenho o passo, absorto viajor:
A terra é boa. A natureza é bela.
Contemplo-a em derredor:
O rio!...
Olha também:
Também o rio
Represou na Barragem para vê-la.
Mas vê-la é enamorá-la, e o rio não sabia.
É vassalo, é escravo do oceano,
Não pode demorar-se.
Fita-a por um momento.
E, de despeito,
Precipita-se do alto da parede,
Como o rio do poeta, e cai desfeito
Em vísceras de espuma e de arco-íris.
Um escravo não desposa uma rainha:
Na dor da frustração, em ondas multifárias,
Tristonho e saudoso vai seguindo
Seu destino de águas tributárias...
Para a rainha — um rei!
O mar é um rei.
Mas, feroz e sombrio,
Um tigre de ciúmes,
Tem ciúmes do rio.
Por isso,
Desde mais de dois séculos, vem,
Sorrateiramente,
Duas vezes por dia impreterivelmente,
Para ver a cidade dos seus sonhos.
E, na doce viagem,
Traz-lhe sal, e traz peixe, e traz conchinhas,
E um abraço de posse, largo, de oceano...

E a cidade, tão meiga e conjugal,
Sorri-se ao mar.
E em resposta aos carinhos
Cochicha-lhe, talvez, uma promessa em segredo.
E o mar vai-se de novo, e ela pensa no mar...

Pensa... Mas pensa mais nos seus filhos,
Vive mais para eles.
E, se um deles morreu,
Silente e lacrimosa sobe a sepultá-lo
Ali perto, bem alto, numa esplanada de outeiro,
Porque quer vê-lo já perto do céu.

E eu vejo agora a Granja do passado,
Redivivo, glorioso, retratado
Num cenário de sonho.
Silêncio.
A noite é tropical. O luar é lindo.
E a cidade parece
Uma virgem de mármore dormindo.
O espírito de Lívio vagueia
A vigiar-lhe o sono.
Eternizado em seus vinte e seis anos
Lívio Barreto, pálido, romântico,
Passeia pelas ruas
Vendo em cada janela os cravos brancos
Que as mãos dolentes da prateada lua
Derramam em profusão.
E o poeta vai clamando...
Eu o ouço ainda clamando:
Umbelina! Umbelina! Estela, Estela!

Sonho de adolescente, sonho vão...
Agora,
Somente agora é que o poeta colhe
Os seus "brancos soluços de alvorada,
Os cravos brancos que plantou no coração."
Silêncio para dor.
Meu poeta, silêncio: a Imortalidade
É a tua Verônica...

Há um sussurro de notas, um tropel de acordes,
Trêmulo, soluçante, irradiando
Das paredes que foram Filarmônica.
A lua
Continua
Como prata.

O vento,
Sonolento,
Açoita e zine.
O espírito melódico de Ciarlini
Pulverizou-se em luz, pulverizou-se em sons,
Encheu de fosforescências a alma desta terra,
E Granja adora a música.
Beethoven, Rubinstein, Debussy
E Tchaikovski ainda agora
Têm cultores aqui.
O frêmito dos teclados dos pianos
É uma mediunização.
O saxofone lânguido da esquina,
Com o boêmio violão das serenatas,
É vida, é organismo, é evolução.

E os tamarindos velhos, ah! se eles falassem!
Recordações
De infâncias dos tempos que volveram
Trepam-lhes pelos galhos
E enroscam-se nos troncos
Que as brisas livres dos séculos enegreceram.
O nosso avô menino...
O nosso bisavô...
Paula Pessoa, o Senador...

E o Pessoa Anta
Brincando à sombra deles aguçava
Os instintos de libertação da grande Raça
Para a Confederação do Equador:
"Soldados, apontar! Certeiro ao coração!"
E Granja ia escrevendo a pátria História,
E o padre Mororó, rolando no Passeio,
Contava para a glória
Um companheiro igual.

Maior que isto, ó Granja, só o grande ideal
De tua religião.
Retas como a verdade,
As torres da Matriz são dois braços alçados:
Um marcando o tempo
E o outro nos apontando a eternidade.
São as torres dois braços levantados
Para o céu,
Em prece vertical.
E o sino badalando é uma grande harpa eólia,
Um tenor de metal.
Um badalo sorrindo
Diz adeus a um anjinho.

Um badalo chorando
Anuncia angustiado:
Era pai e morreu. Era mãe e morreu.
Era irmão, era filho, era esposo e morreu...
Bem... muito além... Bem... muito além...
No céu nos veremos, no céu nos veremos...
Um badalo cantando,
Um badalo chorando,
Um badalo chamando
Para os pêsames,
Para a prece,
Para o amor
E para as núpcias.
Noitários, procissões e a alvorada das bandas...
Vejo o padre Galvão e Vicente Martins:
Almas de impávidas Vestais, almas irmãs,
Guardam o fogo sagrado
De cultura e de fé das gerações cristãs
De cem e mais cem anos.

Granja de um,
Granja de dois,
Granja dos séculos!
Debaixo deste céu tão azul e tão puro,
A minha musa ingênua de criança
É hoje uma canção de inteira confiança
No teu futuro!

Boa terra,
Minha musa criança é hoje um hino
De gratidão a ti:
Granja dos carnaubais, Granja de São José,
Foi no teu seio que eu primeiro
Amei a terra, reconheci a Raça e exercitei a Fé.

Granja de gente boa,
Foi em ti que aprendi a confiar no Povo
Cuja voz de trovão reboará em ecos
Dentro da História, eternos, no porvir.
Granja no Brasil
E a Pátria pelos séculos!

Granja, 30 de agosto de 1957

2 153 2
Roberto Evangelista

Roberto Evangelista

Haicai

No casco da tarta-
ruga as rugas do
tempo em fuga.

Pequeno arbusto,
já sombreias a senda
das formigas.

1 300 2
Marly de Oliveira

Marly de Oliveira

Quando um dia estiver morta

Quando um dia estiver morta
e sobre mim caírem os adjetivos mais ternos,
não vou mover um dedo
de dentro do meu silêncio:
vou desdenhar do eterno
o que sempre chegou tarde,
demais, quando já nem era preciso.

1 226 2
Fernando Pessoa

Fernando Pessoa

Estás só. Ninguém o sabe. Cala e finge.

Estás só. Ninguém o sabe. Cala e finge.
Mas finge sem fingimento.
Nada speres que em ti já não exista,
Cada um consigo é triste.
Tens sol se há sol, ramos se ramos buscas,
Sorte se a sorte é dada.

3 770 2
Nogueira Tapety

Nogueira Tapety

Primaveril

É tempo de partir para o campo, Maria...
Vamos, que a Natureza em festa nos espera;
E na pompa da luz rebrilha a primavera,
Deslumbrante de sons, de aromas, de alegria...

convalesce a floresta, a adusta ramaria,
Que o outono desfolhara, as cores recupera
E a jitirana em flor faz de cada tapera
Uma alcova nupcial perfumada e macia...

Vamos... Quando nós dois passarmos nos caminhos
Do côncavo do céu ao côncavo dos ninhos,
Hão de em coro aclamar cada passo que deres.

Vamos... Tu há e ser, como eu sou, panteísta,
A amar a natureza, a implacável artista,
Que te fez a mais pura e a melhor das mulheres.

1 359 2
Murillo Mendes

Murillo Mendes

Cantiga de Malazarte

Eu sou o olhar que penetra nas camadas do mundo,
ando debaixo da pele e sacudo os sonhos.
Não desprezo nada que tenha visto,
todas as coisas se gravam pra sempre na minha cachola.
Toco nas flores, nas almas, nos sons, nos movimentos,
destelho as casas penduradas na terra,
tiro os cheiros dos corpos das meninas sonhando.
Desloco as consciências,
a rua estala com os meus passos,
e ando nos quatro cantos da vida.
Consolo o herói vagabundo, glorifico o soldado vencido,
não posso amar ninguém porque sou o amor,
tenho me surpreendido a cumprimentar os gatos
e a pedir desculpas ao mendigo.
Sou o espírito que assiste à Criação
e que bole em todas as almas que encontra.
Múltiplo, desarticulado, longe como o diabo.
Nada me fixa nos caminhos do mundo.

4 248 2
António Nobre

António Nobre

Viagens na Minha Terra

Às vezes, passo horas inteiras
Olhos fitos nestas braseiras,
Sonhando o tempo que lá vai;
E jornadeio em fantasia
Essas jornadas que eu fazia
Ao velho Douro, mais meu Pai.

Que pitoresca era a jornada!
Logo, ao subir da madrugada,
Prontos os dois para partir:
- Adeus! adeus! é curta a ausência,
Adeus! - rodava a diligência
Com campainhas a tinir!

E, dia e noite, aurora a aurora,
Por essa doida terra fora,
Cheia de Cor, de Luz, de Som,
Habituado à minha alcova
Em tudo eu via coisa nova,
Que bom era, meu Deus! que bom!

Moinhos ao vento! Eiras! Solares!
Antepassados! Rios! Luares!
Tudo isso eu guardo, aqui ficou:
ó paisagem etérea e doce,
Depois do Ventre que me trouxe
A ti devo eu tudo que soul

No arame oscilante do Fio,
Amavam (era o mês do cio)
Lavandiscas e tentilhões...
Águas do rio vão passando
Muito mansinhas, mas, chegando
Ao Mar, transformam-se em leões!

Ao Sol, fulgura o Oiro dos milhos!
Os lavradores mai-los filhos
A terra estrumam, e depois
Os bois atrelam ao arado
E ouve-se além, no descampado
Num ímpeto, aos berros: - Eh! bois!

E, enquanto a velha mala-posta,
A custo vai subindo a encosta
Em mira ao lar dos meus Avós,
Os aldeãos, de longe, alerta,
Olham pasmados, boca aberta...
A gente segue e deixa-os sós.

Que pena faz ver os que ficam!
Pobres, humildes, não implicam,
Tiram com respeito o chapéu:
Outros, passando a nosso lado,
Diziam: "Deus seja louvado!"
"Louvado sejal" dizia eu.

E, meiga, tombava a tardinha...
No chão, jogando a vermelhinha,
Outros vejo a discutir.
Carpiam, místicas, as fontes...
Água fria de Trás-os-Montes
Que faz sede só de se ouvir!

E, na subida de Novelas,
O rubro e gordo Cabanelas
Dava-me as guias para a mão:
Isso... queriam os cavalos!
Que eu não podia chicoteá-los...
Era uma dor de coração.

Depois, cansados da viagem,
Repoisávamos na estalagem
(Que era em Casais, mesmo ao dobrar... )
Vinha a Sra Ana das Dores
"Que hão de querer os meus Senhores?
Há pão e carne para assar..."

Oh! ingênuas mesas, honradas!
Toalhas brancas, marmeladas,
Vinho virgem no copo a rir...
O cuco da sala, cantando. . .
(Mas o Cabanelas, entrando,
Vendo a hora: "É preciso partir").

Caía a noite. Eu ia fora,
Vendo uma estrela que lá mora,
No Firmamento português:
E ela traçava-me o meu fado
"Serás Poeta e desgraçado!"
Assim se disse, assim se fez.

Meu pobre Infante, em que cismavas,
Por que é que os olhos profundavas
No Céu sem-par do teu País?
Ias, talvez, moço troveiro,
A cismar num amor primeiro:
Por primeiro, logo infeliz...

E o carro ia aos solavancos.
Os passageiros, todos brancos,
Ressonavam nos seus gabões:
E eu ia alerta, olhando a estrada,
Que em certo sítio, na Trovoada,
Costumavam sair ladrões.

Ladrões! Ó sonho! Ó maravilha!
Fazer parte duma quadrilha,
Rondar, à Lua, entre pinhais!
Ser Capitão! trazer pistolas,
Mas não roubando, - dando esmolas
Dependuradas dos punhais ...

E a mala-posta ia indo, ia indo.
o luar, cada vez mais lindo,
Caía em lágrimas, - e, enfim,
Tão pontual, às onze e meia,
Entrava, soberba, na aldeia
Cheia de guizos, tlim, tlim, tlim!

Lá vejo ainda a nossa Casa
Toda de lume, cor de brasa,
Altiva, entre árvores, tão só!
Lá se abrem os portões gradeados,
Lá vêm com velas os criados,
Lá vem, sorrindo, a minha Avó.

E então, Jesus! quantos abraços!
- Qué dos teus olhos, dos teus braços,
Valha-me Deus! como ele vem!
E admirada, com as mãos juntas,
Toda me enchia de perguntas,
Como se eu viesse de Betlém!

- E os teus estudos, tens-me andado?
Tomara eu ver-te formado!
Livre de Coimbra, minha flor!
Mas vens tão magro, tão sumido...
Trazes tu no peito escondido,
E que eu não saiba, algum amor?

No entanto entrava no meu quarto:
Tudo tão bom, tudo tão farto!
Que leito aquele! e a água, Jesus!
E os lençóis! rico cheiro a linho!
- Vá, dorme, que vens cansadinho.
Não adormeças com a luz!

E eu deitava-me, mudo e triste.
(- Reza também o Terço, ouviste?)
Versos, bailando dentro em mim...
Não tinha tempo de ir na sala,
De novo: - Apaga a luz! - Que rala!
Descansa, minha Avó, que sim!

Ora, às ocultas, eu trazia
No seio, um livro e lia, lia,
Garrett da minha paixão...
Daí a pouco a mesma reza:
- Não vás dormir de luz acesa,
Apaga a luz! ... (E eu ainda... não!)

E continuava, lendo, lendo...
O dia vinha já rompendo,
De novo: - Já dormes, diz?
- Bff!... e dormia com a idéia
Naquela tia Dorotéia,
De que fala Júlio Dinis.

Ó Portugal da minha infância,
Não sei que é, amo-te a distância,
Amo-te mais, quando estou só...
Qual de vós não teve na Vida
Uma jornada parecida,
Ou assim, como eu, uma Avó?

Paris, 1892.
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Odorico Mendes

Odorico Mendes

Hino à Tarde

Que amável hora! Expiram os favônios;
Transmonta o Sol; o rio se espreguiça;
E, a cinzenta alcatifa desdobrando
Pelas azuis diáfanas campinas,
Na carroça de chumbo assoma a tarde...
Salve, moça tão meiga e sossegada;
Salve, formosa virgem pudibunda,
Que insinuas cos olhos doce afeto,
Não criminosa abrasadora chama!
Em ti repousa a triste humana prole
Do trabalho do dia, nem já lavra
Juiz severo a bárbara sentença,
Que há de a fraqueza conduzir ao túmulo.
Lasso o colono, mal avista ao longe
A irmã da noite coa-lhe nos membros
Plácido alívio: — posta a dura enxada,
Limpa o suor que em bagas vai caindo..
Que ventura! A mulher o espera ansiosa
Cos filhinhos em braço, e já deslembra
O homem dos campos a diurna lida;
Com entranhas de pai ledo abençoa
A progênie gentil que a olho pula.
Não vês como o fantasma do silêncio
Erra, e pára o bulício dos viventes?
Só quebra esta mudez o pastor simples,
Que, trazendo o rebanho dos pastios,
Coa suspirosa frauta ameiga os bosques...
Feliz! que nunca o ruído dos banquetes
Do estrangeiro escutou, nem alta noite
Foi à porta bater de alheio alvergue.
Acha no humilde colmo os seus penates,
Como acha o grande em soberbões palácios.

Ali também no ouvido lhe estremecem
De mãe, de amigo os maviosos nomes;
Conviva dos festins da natureza,
Vê perfazerem-se as funções mais altas:
— O homem nascer, morrer, e deixar prantos...
Agora ia entre prados, após Laura,
O ardido vate magoando as cordas;
E a selvática virgem, recolhendo
A grave dor cristã, que a assoberbava
Do mancebo cedia à paixão nobre,
Grande e sublime, como os troncos do ermo...
Ai! mísera Atalá!... mas rasga o fogo,
E o sino soa pelas brenhas broncas.
Tarde, serena e pura, que lembranças
Não nos vens despertar no seio dalma?
Amiga terna, diz-me, onde colhes
O bálsamo que esparges nas feridas
Do coração? Que apenas dás rebate,
Cala-se a dor; só geras no imo peito
Mansa melancolia, qual ressumbra
Em quem sob os seus pés tem visto as flores
Irem murchando, e a treva do infortúnio
Ante os olhos medonha condensar-se.
Longe dos pátrios lares, quem não sente
Os arrebóis da tarde contemplando
Um súbito alvoroço? Então pendíamos
Dos contos arroubados que verteram
Propícios deuses nos maternos lábios;
E branda mão apercebia o berço
Em que ternos vagidos
Infausto anúncio de vindouras penas.
Sobre o poial sentada a fiel serva
Que vezes atentei chamando ao pouso
A ave tão útil que arrebanha os filhos,
E adeja e canta, e pressurosa acode!
Coa turba de inocentes companheiros,
Agora sobre a encosta da colina,
A casta Lua como mãe saudávamos,
E suplicando que nos fosse amparo,
Em jubilosa grita o ar rompíamos.
Mas da puerícia o gênio prazenteiro
Já transpôs a montanha; e com seus risos
Recentes gerações vai bafejando.
A quem ficou a angústia que moderas,
Ó compassiva tarde? Olha-te o escravo,
Sopeia em si os agros pesadumes:
Ao som dos ferros o instrumento rude
Tange, bem como em África adorada,
Quando (tão livre) o filho do deserto
Lá te aguardava; e o eco da floresta,
Da ave o gorjeio, o trépido regato,
Zunindo os ventos, murmurando as sombras,
Tudo, em cadência harmônica, lhe rouba
A alma em mágico sonho embevecida.
Não mais, ó musa, basta; que da noite
Os pardos horizontes se tingiram,
E me pesa e carrega a escuridade.
Oh! venha a feliz era que da pátria
Nessas fecundas, dilatadas veigas
Tu mais suave a lira me temperes
Da singela Eponina acompanhado
Na escura gruta que nos cava o tempo
Hei de ao vale ensinar canções melífluas
Nos lindos olhos, nos mimosos beiços,
Nos alvos pomos, no ademã altivo
Irei tomar as cores que retratem
Da natureza os íntimos segredos.
Do ardor da esposa; do sorrir da filha;
Do rio que espontâneo se oferece
Da terra que dá fruto sem o arado
Da árvore agreste que na densa grenha
Abriga da pendente tempestade
A sobreolhar aprenderei haveres,
A fazer boa sombra ao peregrino,
A dar quartel a errado viandante
Lá estendendo pelos livres ares
Longas vistas, nas dobras do futuro,
Entreverei o derradeiro dia...
Venha; que acha os despojos do homem justo
Ó esperança, toma-me em teus braços;
Com a imagem da pátria me consola!

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Nauro Machado

Nauro Machado

Pequena Ode a Tróia

Como te massacraram, ó cidade minha!
Antes, mil vezes antes fosses arrasada
por legiões de abutres do infinito vindos
sobre coisas preditas ao fim do infortúnio
(ânsias, labéus, lábios, mortalhas, augúrios),
a seres, ó cidade minha, pária da alma,
esse corredor de ecos de buzinas pútridas,
esse vai-e-vem de carros sem orfeus por dentro,
que sem destino certo, exceto o do destino
cumprido por estômagos de usuras cheios,
por bailarinos bascos sem balé nenhum,
por procissões sem deuses de alfarrábios velhos,
por úteros no prego dos cachos sem flores,
por proxenetas próstatas de outras vizinhas,
ou por desesperanças dos desenganados,
conduzem promissórias, anticonceptivos,
calvos livros de cheques e de agiotagem,
esses lunfas políticos que em manhãs — outras
que aquelas já havidas, as manhãs do Sol —
saem, quais ratazanas pelo ouro nutridas,
apodrecendo o podre, nutrindo o cadáver.
Se Caim matou Abel e em renovado crime
Abel espera o dia de novamente ser
assassinado em cunha de rota bandeira,
que inveja paira em Tróia ou em outro nome qualquer
da terra podre e azul de água e cotonifícios?
Mutiladas manhãs expõem-se nas vitrinas
de sapatos humanos mendigando pés,
de vestidos humanos mendigando peitos,
de saias humanas mendigando sexos.
Esta é Tróia!, o vigésimo século em Tróia,
blasfemam as fanfarras de súbito mudas
nos ouvidos mareando a pancada da Terra.

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Vinicius de Moraes

Vinicius de Moraes

Rosário

E eu que era um menino puro
Não fui perder minha infância
No mangue daquela carne!
Dizia que era morena
Sabendo que era mulata
Dizia que era donzela
Nem isso não era ela
Era uma moça que dava.
Deixava... mesmo no mar
Onde se fazia em água
Onde de um peixe que era
Em mil se multiplicava
Onde suas mãos de alga
Sobre meu corpo boiavam
Trazendo à tona águas-vivas
Onde antes não tinha nada.
Quanto meus olhos não viram
No céu da areia da praia
Duas estrelas escuras
Brilhando entre aquelas duas
Nebulosas desmanchadas
E não beberam meus beijos
Aqueles olhos noturnos
Luzindo de luz parada
Na imensa noite da ilha!
Era minha namorada
Primeiro nome de amada
Primeiro chamar de filha...
Grande filha de uma vaca!
Como não me seduzia
Como não me alucinava
Como deixava, fingindo
Fingindo que não deixava!
Aquela noite entre todas
Que cica os cajus! travavam!
Como era quieto o sossego
Cheirando a jasmim-do-cabo!
Lembro que nem se mexia
O luar esverdeado
Lembro que longe, nos Ionges
Um gramofone tocava
Lembro dos seus anos vinte
Junto aos meus quinze deitados
Sob a luz verde da lua.
Ergueu a saia de um gesto
Por sobre a perna dobrada
Mordendo a carne da mão
Me olhando sem dizer nada
Enquanto jazente eu via
Como uma anêmona na água
A coisa que se movia
Ao vento que a farfalhava.
Toquei-lhe a dura pevide
Entre o pêlo que a guardava
Beijando-lhe a coxa fria
Com gosto de cana brava.
Senti à pressão do dedo
Desfazer-se desmanchada
Como um dedal de segredo
A pequenina castanha
Gulosa de ser tocada.
Era uma dança morena
Era uma dança mulata
Era o cheiro de amarugem
Era a lua cor de prata
Mas foi só naquela noite!
Passava dando risada
Carregando os peitos loucos
Quem sabe para quem, quem sabe?
Mas como me seduzia
A negra visão escrava
Daquele feixe de águas
Que sabia ela guardava
No fundo das coxas frias!
Mas como me desbragava
Na areia mole e macia!
A areia me recebia
E eu baixinho me entregava
Com medo que Deus ouvisse
Os gemidos que não dava!
Os gemidos que não dava...
Por amor do que ela dava
Aos outros de mais idade
Que a carregaram da ilha
Para as ruas da cidade
Meu grande sonho da infância
Angústia da mocidade.

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Maria Thereza Cavalheiro

Maria Thereza Cavalheiro

Haicai

Um zunir de abelhas.
Forte aroma na redoma
de frutas vermelhas.

O asfalto molhado.
Cai o dia em nostalgia.
Desliza o passado.

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Silvino Pirauá de Lima

Silvino Pirauá de Lima

E Tudo Vem a Ser Nada

Tanta riqueza inserida
Por tanta gente orgulhosa,
Se julgando poderosa
No curto espaço da vida;
Oh! que idéia perdida.
Oh! que mente tão errada,
Dessa gente que enlevada
Nessa fingida grandeza
Junta montões de riqueza,
E tudo vem a ser nada.

Vemos um rico pomposo
Afetando gravidade,
Ali só reina bondade,
Nesse mortal orgulhoso,
Quer se fazer caprichoso,
Vive de venta inchada,
Sua cara empantufada,
Só apresenta denodos
Tem esses inchaços todos
E tudo vem a ser nada.

Trabalha o homem, peleja
Mesmo a ponto de morrer,
É somente para ter,
Que ele se esmoreja,
As vezes chove e troveja
E ele nessa enredada
À lama, ao sol, ao chuveiro,
Ajuntam muito dinheiro,
E tudo vem a ser nada.

Temos palácios pomposos
Dos grandes imperadores,
Ministros e senadores,
E mais vultos magestosos;
Temos papas virtuosos
De uma vida regrada,
Temos também a espada
De soberbos generais,
Comandantes, Marechais,
E tudo vem a ser nada.

Honra, grandezas, brazões;
Entusiasmos, bondades;
São completas vaidades
São perfeitas ilusões,
Argumentos, discursões;
Algazarra, palavrada,
Sinagoga, caçoada,
Murmúrios, tricas, censura,
Muito tem a criatura,
E tudo vem a ser nada.

Vai tudo numa carreira
Envelhece a mocidade,
A avareza e a vaidade
É quer queira ou não queira;
Tudo se torna em poeira,
Cá nesta vida cançada
É uma lei promulgada
Que vem pela mão Divina,
O dever assim destina
E tudo vem a ser nada.

Formosuras e ilusões,
Passa-tempos e prazeres;
Mandatos, altos poderes;
De distintos figurões,
Cantilenas de salões;
E festa engalanada,
Virgem-donzela enfeitada
No gozo de namorar,
Mancebos a flautear,
E tudo vem a ser nada.

Lascivas, depravações
Na imoral petulância,
São enlevos da infância,
São infames Corrupções;
São fingidas seduções
Que faz a dama enfeitada
Influi-se a rapaziada
Velhos também de permeio
E vivem nesse paleio,
E tudo vem a ser nada.

Bailes, teatros, festins,
Comadre, drama, assembléa,
Club, liceu, epopéa;
Todos aguardam seus fins,
Flores, relvas e jardins,
Festas com grande zuada,
Outeiro e Campinada
Frondam, compam e florescem,
Brilham, luzem, resplandecem
E tudo vem a ser nada.

O homem se julga honrado,
Repleto de garantia,
De brazões e fidalguia
É ele considerado,
Mas, quanto está enganado
Nesta ilusória pousada
Cá nesta breve morada.
Não vemos nada imortal
Temos um ponto final;
E tudo vem a ser nada.

Tudo quanto se divisa
Neste cruento torrão,
As árvores, a criação,
Tudo em fim se finaliza,
Até mesmo a própria brisa,
Soprando a terra escarpada,
Com força descompassada
Se transformando em tufão,
Deita pau rola no chão,
E tudo vem a ser nada.

Infindo só temos Deus,
Senhor de toda a grandeza,
Dos céus e da natureza,
De todos os mundos seus.
Do Brasil, dos Europeus,
Da terra toda englobada
Até mesmo da manada
Que vemos no arrebol:
Nuvem, lua, estrela e sol,
Tudo mais vem a ser nada.

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Joaquim Namorado

Joaquim Namorado

Legenda para a vida de um vagabundo

Nasci vagabundo em qualquer país,
minhas fronteiras são as do mundo.
Esta sina vem-me no sangue:
não me fartar! Um desejo morto,
mais de dez a matar.

O caminho é longo!…
— Mas nada é longe e distante
quando se quer realmente…
E nunca o cansaço é tão grande
que um passo mais senão possa dar.

(in Antologia de Poetas Alentejanos)

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