Amor
Poemas neste tema
Carlos Falck
Canção Cigana
Mulher de narciso e lua!
Caracol de meu silêncio,
véu pintado na janela
com guizos e tempestades.
Aspiro na tarde branca
o cheiro de tuas pernas;
há um frio desesperado
por fora do teu vestido.
E porque teu corpo leve
foge do sonho e do beijo,
o homem cai na pedreira
e morre no teu deserto.
Mulher, de narciso e lua!
Poltra na planície, nua,
correndo, com serafins,
pelos caminhos dos lírios,
vim de longe no teu rasto,
quero beijar teus mamilos;
e se nada disso for
mais do que sonho dourado,
vou caminhar sem destino
(meu destino é desatino),
gritando por ti na rua,
mulher de narciso e lua!
Caracol de meu silêncio,
véu pintado na janela
com guizos e tempestades.
Aspiro na tarde branca
o cheiro de tuas pernas;
há um frio desesperado
por fora do teu vestido.
E porque teu corpo leve
foge do sonho e do beijo,
o homem cai na pedreira
e morre no teu deserto.
Mulher, de narciso e lua!
Poltra na planície, nua,
correndo, com serafins,
pelos caminhos dos lírios,
vim de longe no teu rasto,
quero beijar teus mamilos;
e se nada disso for
mais do que sonho dourado,
vou caminhar sem destino
(meu destino é desatino),
gritando por ti na rua,
mulher de narciso e lua!
825
Carlos Felipe Moisés
Gramática
1. Fonética
Datilo
grafo
meu espasmo rude
em teu peito
e os dedos cravam
entre a bilabial
e a sibilante
o Ó
inaudível.
2. Vogais
Adiar
odiar
ode e ar.
As vogais se espalham
no céu da boca
e o sopro adiado
imobiliza
a língua
em forma de U.
3. Morfologia
Mastigo
um naco de sombra
e um assombro
de sílabas mudas
escorre dos dentes
entre os escombros
da memória calcinada.
4. Etimologia
Saber de cor
a água
a cor da pele
cada anseio
que a língua
recolhe.
Saber de cor
o coração.
5. Pontuação
Fotograma
atrás de fotograma
teu rosto
é a prolongada pausa
impressa na retina
entre parênteses
do travesseiro.
6. Linguagem figurada
Tropel de trapos
lençol amarfanhado
a convulsão
de umas sílabas rebeldes
desarrumando a cama
& a folha em branco:
o peito de quem ama.
7. Conjugação
Eu me arquipélago
tu te maravilhas
ele se istma
nós nos montanhamos
vós vos espraiais
eles se eclipsam.
(Inédito em livro. Publicado em O Estado de São Paulo, 16/9/89.)
Datilo
grafo
meu espasmo rude
em teu peito
e os dedos cravam
entre a bilabial
e a sibilante
o Ó
inaudível.
2. Vogais
Adiar
odiar
ode e ar.
As vogais se espalham
no céu da boca
e o sopro adiado
imobiliza
a língua
em forma de U.
3. Morfologia
Mastigo
um naco de sombra
e um assombro
de sílabas mudas
escorre dos dentes
entre os escombros
da memória calcinada.
4. Etimologia
Saber de cor
a água
a cor da pele
cada anseio
que a língua
recolhe.
Saber de cor
o coração.
5. Pontuação
Fotograma
atrás de fotograma
teu rosto
é a prolongada pausa
impressa na retina
entre parênteses
do travesseiro.
6. Linguagem figurada
Tropel de trapos
lençol amarfanhado
a convulsão
de umas sílabas rebeldes
desarrumando a cama
& a folha em branco:
o peito de quem ama.
7. Conjugação
Eu me arquipélago
tu te maravilhas
ele se istma
nós nos montanhamos
vós vos espraiais
eles se eclipsam.
(Inédito em livro. Publicado em O Estado de São Paulo, 16/9/89.)
859
Gilson Nascimento
A n i v e r s á r i o
Um ano a mais tens hoje, caro filho
Um instante na vida – longa estrada
Dos teus olhos relembro o vivo brilho
No alvorecer de tua caminhada
Àquele tempo quando articulavas
Os vocábulos que aos poucos aprendias
E com teu riso infância os libertavas
O amor interpretava o que dizias
Homem, guardas, contudo, da criança
Algo que às vezes ao adulto cansa
Ser sincero, leal e bom amigo
Que ao longo do caminho a percorrer
A flor do bem não deixes perecer
Ao sol da vida; rega-a, dá-lhe abrigo
Um instante na vida – longa estrada
Dos teus olhos relembro o vivo brilho
No alvorecer de tua caminhada
Àquele tempo quando articulavas
Os vocábulos que aos poucos aprendias
E com teu riso infância os libertavas
O amor interpretava o que dizias
Homem, guardas, contudo, da criança
Algo que às vezes ao adulto cansa
Ser sincero, leal e bom amigo
Que ao longo do caminho a percorrer
A flor do bem não deixes perecer
Ao sol da vida; rega-a, dá-lhe abrigo
665
Gilson Nascimento
Brincando de criança
Mergulhar no passado de mansinho
É tarefa que cumpro a cada instante
Detendo-me da existência no caminho
Alço vôo e então pouso no distante
Quem me leva de volta é a saudade
Que vive no meu peito se aninhando
No entardecer da vida quem não-há-de
Viver sempre o seu ontem namorando
Namoro-o, sim, e é o pensamento
Que tudo alcança dentro de um momento
De tão ardente amor a viva chama
Apagá-la? Jamais! Pois, na verdade,
De criança brincar, fugir à idade
É algo que a velhice sempre ama.
É tarefa que cumpro a cada instante
Detendo-me da existência no caminho
Alço vôo e então pouso no distante
Quem me leva de volta é a saudade
Que vive no meu peito se aninhando
No entardecer da vida quem não-há-de
Viver sempre o seu ontem namorando
Namoro-o, sim, e é o pensamento
Que tudo alcança dentro de um momento
De tão ardente amor a viva chama
Apagá-la? Jamais! Pois, na verdade,
De criança brincar, fugir à idade
É algo que a velhice sempre ama.
760
Carlos Felipe Moisés
Coração Endurecido (II)
Porém meu coração endurecido
não duvidou mil vezes ser culpado.
Marquesa de Alorna
Se eu pudesse dizer,
se eu pudesse deixar de perguntar
o que pode amor
contra a fúria de amar;
se eu pudesse impedir
que a noite chegasse;
se este dia azul,
se minhas mãos pudessem --
do fundo do coração endurecido
talvez brotasse a palavra alada que dorme
em mim e voasse
liberta,
para te dizer (se eu pudesse).
(Círculo imperfeito, Salvador, Fundação Cultural do Estado da Bahia, 1978)
não duvidou mil vezes ser culpado.
Marquesa de Alorna
Se eu pudesse dizer,
se eu pudesse deixar de perguntar
o que pode amor
contra a fúria de amar;
se eu pudesse impedir
que a noite chegasse;
se este dia azul,
se minhas mãos pudessem --
do fundo do coração endurecido
talvez brotasse a palavra alada que dorme
em mim e voasse
liberta,
para te dizer (se eu pudesse).
(Círculo imperfeito, Salvador, Fundação Cultural do Estado da Bahia, 1978)
881
Giselda Medeiros
Ventania
No mármore adormecido
finquei estacas do sonho
e poli na pedra bruta
a bruta insensatez do amor.
Refiz a escultura.
Escrevi com sangue
o nome que era efêmero
na efemeridade do momento.
Passou o vento ventando ventania
sobre as estacas fincadas
profundamente.
Pó - nova fuligem de sonhos...
E outros mármores
escandalosamente adormecidos.
finquei estacas do sonho
e poli na pedra bruta
a bruta insensatez do amor.
Refiz a escultura.
Escrevi com sangue
o nome que era efêmero
na efemeridade do momento.
Passou o vento ventando ventania
sobre as estacas fincadas
profundamente.
Pó - nova fuligem de sonhos...
E outros mármores
escandalosamente adormecidos.
849
Cláudio Ferro
Pensando em Mim
Pensando em mim
este fim é o fim.
Ai de mim,
que amando sou descartado.
Que descartado saio amando,
e no fim, igual ao começo,
me envolvo em novos tropeços,
num sem fim de findar.
Findar novos tropeços.
Igual ao começo, saio amando.
Sou descartado.
Ai de mim.
É o fim em mim.
Num sem fim me envolvo.
E no fim...
Que descartado!
Que amando!
Ai de mim!
Este fim...
Pensando...em mim...
Ai de mim.
Descartado e no fim...findar!
Este fim é o fim!
Ai de mim!
05 de Junho de 1997 19:59
este fim é o fim.
Ai de mim,
que amando sou descartado.
Que descartado saio amando,
e no fim, igual ao começo,
me envolvo em novos tropeços,
num sem fim de findar.
Findar novos tropeços.
Igual ao começo, saio amando.
Sou descartado.
Ai de mim.
É o fim em mim.
Num sem fim me envolvo.
E no fim...
Que descartado!
Que amando!
Ai de mim!
Este fim...
Pensando...em mim...
Ai de mim.
Descartado e no fim...findar!
Este fim é o fim!
Ai de mim!
05 de Junho de 1997 19:59
929
Alexandre S. Santos
Uma Alternativa
Deixar frouxos os arreios;
atentar para o instinto;
não depender de esteios;
tornar o medo extinto;
voar por vias invisíveis,
em travessia por mar,
sobre ondas aprazíveis,
espelhos turvos de luar;
Gozar o olor da mata,
e na pele o verde rocio
dos galhos altos, acrobata,
mergulhado em branco cicio;
orbitar com os cometas,
no negro sorriso de Deus;
Fruir o maná de rubras tetas,
de ti Natura, filhos teus;
No colo do afeto sentido
recostar os lábios soantes,
fazer do sopro emitido
o diálogo entre amantes;
e, desta anarquia natural
o fim - quem sabe?- do mal,
do velho conceito de certo,
um mundo são descoberto.
atentar para o instinto;
não depender de esteios;
tornar o medo extinto;
voar por vias invisíveis,
em travessia por mar,
sobre ondas aprazíveis,
espelhos turvos de luar;
Gozar o olor da mata,
e na pele o verde rocio
dos galhos altos, acrobata,
mergulhado em branco cicio;
orbitar com os cometas,
no negro sorriso de Deus;
Fruir o maná de rubras tetas,
de ti Natura, filhos teus;
No colo do afeto sentido
recostar os lábios soantes,
fazer do sopro emitido
o diálogo entre amantes;
e, desta anarquia natural
o fim - quem sabe?- do mal,
do velho conceito de certo,
um mundo são descoberto.
855
Carlos Eduardo Bandeira de Mello Gomes
A Centelha do Absurdo
A centelha do absurdo
O grito do centeio
O horizonte de vidro surdo
Ama-me? Sei-o
Sei que o perfil das araras
Dobra-se sobre o espaço das noites claras
Aquelas em que nos beijamos
Com o gás azul-lilás
Que eu respiro com olhares de sempre jamais
O grito do centeio
O horizonte de vidro surdo
Ama-me? Sei-o
Sei que o perfil das araras
Dobra-se sobre o espaço das noites claras
Aquelas em que nos beijamos
Com o gás azul-lilás
Que eu respiro com olhares de sempre jamais
904
Adriana Sampaio
Ponto de Mutação
Ponto de Mutação
Hoje choveu, e o dia estava lindo
Na estrada verde lhe vi
E você estava ali
Meu menino grande...
Os dois entregues
Igualmente humanos
E a nossa humanidade nos fez sublimes
A sua doçura lhe fez príncipe
O meu amor lhe enterneceu
E pude ver que a beleza
Que encontro nos seus olhos
Vem da expressividade imensa
Que de você transborda
Você foi o mar, onde mergulhei
E as suas águas calmas e quentes
Me inundaram de paixão
Assim, depois desse dia chuvoso e lindo
Alguma mágica se derramou sobre nós
E nas palavras que me restaram
Não coube a imensidão
De tanto mar.
Hoje choveu, e o dia estava lindo
Na estrada verde lhe vi
E você estava ali
Meu menino grande...
Os dois entregues
Igualmente humanos
E a nossa humanidade nos fez sublimes
A sua doçura lhe fez príncipe
O meu amor lhe enterneceu
E pude ver que a beleza
Que encontro nos seus olhos
Vem da expressividade imensa
Que de você transborda
Você foi o mar, onde mergulhei
E as suas águas calmas e quentes
Me inundaram de paixão
Assim, depois desse dia chuvoso e lindo
Alguma mágica se derramou sobre nós
E nas palavras que me restaram
Não coube a imensidão
De tanto mar.
878
Alexandre S. Santos
Hora Tardia
Não falta a cadência dos sentidos ignotos
perscrutando as incontáveis horas mortas
sobre o véu insondável do tempo esquecido.
Não resta a peripécia da mente excitada
gozando a possível resposta à esfinge famigerada.
Não importam os piscares vítreos dissimulando
os afagos, dando corda às batidas no peito.
Não há traços da saliva que silenciara
os poemas, mortos antes do parto.
Não mais o sentido dos corpos,
a ilusão do desejo incontido,
das mortes pequenas.
Não!
Findou a vida e transpus
o portal da morte, perguntando:
por que não aprendi a amar?
perscrutando as incontáveis horas mortas
sobre o véu insondável do tempo esquecido.
Não resta a peripécia da mente excitada
gozando a possível resposta à esfinge famigerada.
Não importam os piscares vítreos dissimulando
os afagos, dando corda às batidas no peito.
Não há traços da saliva que silenciara
os poemas, mortos antes do parto.
Não mais o sentido dos corpos,
a ilusão do desejo incontido,
das mortes pequenas.
Não!
Findou a vida e transpus
o portal da morte, perguntando:
por que não aprendi a amar?
924
Cláudio Ferro
O Vento Leve
O vento breve,
assim tão leve,
carregou a flor.
Ai! Que dor!
Sem detê-lo,
ou tê-la ao zelo,
penso:
O amor é grande besteira.
De todas, a maior asneira,
que os meus olhos vêem.
Que os meus olhos vêem?
Que será aquilo?
Que doce cor!
Que belo perfume!
Que Flor!
E se for?
Será o fim deste azedume?
05 de Junho de 1997 01:36
assim tão leve,
carregou a flor.
Ai! Que dor!
Sem detê-lo,
ou tê-la ao zelo,
penso:
O amor é grande besteira.
De todas, a maior asneira,
que os meus olhos vêem.
Que os meus olhos vêem?
Que será aquilo?
Que doce cor!
Que belo perfume!
Que Flor!
E se for?
Será o fim deste azedume?
05 de Junho de 1997 01:36
853
Adriana Sampaio
Separação
Separação
Isso é uma declaração de amor:
Declaro que te quero
E isso é claro como meu desejo.
Declaro que te admiro
Todo ato teu me é visível, claro.
Declaro que cresço a cada passo
Que nossas mãos, dadas, acompanham.
Declaro que sou tua
Livremente e espontaneamente tua,
Como só meu sentimento puro
Pode lindamente me levar a ser.
Declaro que sou uma, única
E que és igualmente único para mim
Como derivados da mais pura diversidade.
Declaro toda inspiração a que me inspiras
Levando-me através da mais completa fantasia.
Declaro minha loucura
Que assim retorna mansamente
E torna essa declaração
Declaração de independência.
Isso é uma declaração de amor:
Declaro que te quero
E isso é claro como meu desejo.
Declaro que te admiro
Todo ato teu me é visível, claro.
Declaro que cresço a cada passo
Que nossas mãos, dadas, acompanham.
Declaro que sou tua
Livremente e espontaneamente tua,
Como só meu sentimento puro
Pode lindamente me levar a ser.
Declaro que sou uma, única
E que és igualmente único para mim
Como derivados da mais pura diversidade.
Declaro toda inspiração a que me inspiras
Levando-me através da mais completa fantasia.
Declaro minha loucura
Que assim retorna mansamente
E torna essa declaração
Declaração de independência.
974
Alexandre S. Santos
Carne e Alma
Contrai o espaço informe
ante o encontrar de vistas;
desperta aquela que dorme,
indica o vero e dá pistas.
Reprimida por vãos simulacros
ruge ferina a paixão liberta;
estertora contra motivos sacros;
transpõe altiva a jaula aberta.
Urge ao abraço do gozo insano,
Reclamando o que se perdeu outrora.
Quer o desfrute do que é humano;
exige a nudez da alma, agora!
E chega o desejo ao cúmulo:
O que brota borbulha, extrapola;
vasa em força que abate o êmulo;
permanece o fruto que não se imola.
ante o encontrar de vistas;
desperta aquela que dorme,
indica o vero e dá pistas.
Reprimida por vãos simulacros
ruge ferina a paixão liberta;
estertora contra motivos sacros;
transpõe altiva a jaula aberta.
Urge ao abraço do gozo insano,
Reclamando o que se perdeu outrora.
Quer o desfrute do que é humano;
exige a nudez da alma, agora!
E chega o desejo ao cúmulo:
O que brota borbulha, extrapola;
vasa em força que abate o êmulo;
permanece o fruto que não se imola.
935
Alexandre S. Santos
Vê
Vê, lá longe, no horizonte?
Costumo, lá, deitar meus sentimentos;
recosto no mais alto monte
a fronte envolta por escarlates momentos.
Lá longe, no horizonte.
Vê aqueles galhos verdes na herdade?
Sob eles brincam minhas fantasias;
ornadas de risos, de lágrimas - saudade
do que não houve e do porvir - de alegrias.
Naqueles galhos verdes na herdade.
Vê aquela penugem a bailar no vento?
Deposito nela a esperança do encontrar
nas vindouras dobras do tempo
o amor, como onda que chega do mar.
Naquela penugem a bailar no vento.
Vê, essa lua, prenhe de lume?
Aguarda nossos sonhos num enlace,
feito ninho onde se aprume:
onde pouse a penugem e morra o impasse.
Sob a lua prenhe de lume.
Costumo, lá, deitar meus sentimentos;
recosto no mais alto monte
a fronte envolta por escarlates momentos.
Lá longe, no horizonte.
Vê aqueles galhos verdes na herdade?
Sob eles brincam minhas fantasias;
ornadas de risos, de lágrimas - saudade
do que não houve e do porvir - de alegrias.
Naqueles galhos verdes na herdade.
Vê aquela penugem a bailar no vento?
Deposito nela a esperança do encontrar
nas vindouras dobras do tempo
o amor, como onda que chega do mar.
Naquela penugem a bailar no vento.
Vê, essa lua, prenhe de lume?
Aguarda nossos sonhos num enlace,
feito ninho onde se aprume:
onde pouse a penugem e morra o impasse.
Sob a lua prenhe de lume.
898
Artur Eduardo Benevides
De um Tema de Ronsard
Por que, tão bela sendo, me maltratas,
Se sabes que me dóis e me magoas
E me deixas igual a essas pessoas
De almas quase errantes, inexatas?
Abri-te a porta e a vida, mas me matas
E não ouves as súplicas e loas.
Eu te daria tantas cousas boas,
Mas te afastas qual som de serenatas.
A vida é curta, Amada, para tudo.
O tempo fica logo tão desnudo
Que brilho, e sonho, e viço — tudo passa.
Só temo que se um dia resolveres
Aceitar de uma vez os meus quereres
Eu já seja, num cais, velha barcaça.
Se sabes que me dóis e me magoas
E me deixas igual a essas pessoas
De almas quase errantes, inexatas?
Abri-te a porta e a vida, mas me matas
E não ouves as súplicas e loas.
Eu te daria tantas cousas boas,
Mas te afastas qual som de serenatas.
A vida é curta, Amada, para tudo.
O tempo fica logo tão desnudo
Que brilho, e sonho, e viço — tudo passa.
Só temo que se um dia resolveres
Aceitar de uma vez os meus quereres
Eu já seja, num cais, velha barcaça.
1 218
José Augusto de Carvalho
Desmistificação
Trago nos pés o cansaço
que há em todas as estradas!
Palmilhei-as passo a passo
e nunca as dei por andadas!...
Descansei junto aos valados
Dormia comigo a lua,
e a meu lado, toda nua,
os dois, num só, abraçados!
O sol vinha com o orvalho,
acordar-nos!
Eu voltava ao meu trabalho;
ela, ao céu, já manhã cedo.
Até que à noite, em segredo,
vinha de novo abraçar-nos...
que há em todas as estradas!
Palmilhei-as passo a passo
e nunca as dei por andadas!...
Descansei junto aos valados
Dormia comigo a lua,
e a meu lado, toda nua,
os dois, num só, abraçados!
O sol vinha com o orvalho,
acordar-nos!
Eu voltava ao meu trabalho;
ela, ao céu, já manhã cedo.
Até que à noite, em segredo,
vinha de novo abraçar-nos...
788
Artur Eduardo Benevides
Soneto de Mágoa e de Esperança
Por que de mim te alongas ou te afastas?
Será que em ti perdi meu gesto e rosto?
As minhas horas todas já são gastas
Em sonhar-te ditosa ou sem desgosto.
És glória, luz e amor. E eu? Sol-posto.
Mas, fugindo de mim, tu me vergastas
E deixas-me ferido, e pobre, exposto
Às vinganças do tempo, iconoclastas.
Para agradar-te, finjo que sou jovem.
Busco enganar-te, a ver se te comovem
As palavras que oferto, de afeição,
A fim de que, qual dádiva, me olhes
Com toda a tua graça e não desfolhes
As pétalas da última ilusão.
Será que em ti perdi meu gesto e rosto?
As minhas horas todas já são gastas
Em sonhar-te ditosa ou sem desgosto.
És glória, luz e amor. E eu? Sol-posto.
Mas, fugindo de mim, tu me vergastas
E deixas-me ferido, e pobre, exposto
Às vinganças do tempo, iconoclastas.
Para agradar-te, finjo que sou jovem.
Busco enganar-te, a ver se te comovem
As palavras que oferto, de afeição,
A fim de que, qual dádiva, me olhes
Com toda a tua graça e não desfolhes
As pétalas da última ilusão.
1 581
Artemídoro Alves de Oliveira
Caminhada
Segue o teu caminho, sem temores.
Não te detenhas, não te voltes, não vaciles.
No amanhã que te espera, encontrarás abrigo
e haverá trégua na luta que tu travas.
Segue adiante, sem lamentos vãos
e atenta para o rumo que escolheste.
Esquece os males todos já sofridos
e semeia em tua esteira o bem que tu puderes.
Não aguardes, do favor que tu fizeres,
o gesto da gratidão que não virá.
Ama por amor ao amor e segue avante!
Procura agradecer o bem que te fizerem,
porque não podes e não deves ser indiferente
à mão que te ampara, à mão que te conforta.
Não te detenhas, não te voltes, não vaciles.
No amanhã que te espera, encontrarás abrigo
e haverá trégua na luta que tu travas.
Segue adiante, sem lamentos vãos
e atenta para o rumo que escolheste.
Esquece os males todos já sofridos
e semeia em tua esteira o bem que tu puderes.
Não aguardes, do favor que tu fizeres,
o gesto da gratidão que não virá.
Ama por amor ao amor e segue avante!
Procura agradecer o bem que te fizerem,
porque não podes e não deves ser indiferente
à mão que te ampara, à mão que te conforta.
898
Caio Valério Catulo
Gozemos a vida, Lésbia
V
Gozemos a vida, Lésbia, fazendo amor,
desprezando o falatório dos velhos puritanos.
A luz do sol pode morrer e renascer
mas a nós, quando de vez se nos apaga a breve luz da vida,
resta-nos dormir toda uma noite sem fim.
Beija-me mil vezes, mais cem;
outras mil, outras cem.
Depois, quando tivermos ajuntado muitos milhares,
vamos baralhá-los, perdendo-lhes a conta,
para que nenhum invejoso, incapaz de contar beijos tantos,
possa mau-olhado nos lançar.
Gozemos a vida, Lésbia, fazendo amor,
desprezando o falatório dos velhos puritanos.
A luz do sol pode morrer e renascer
mas a nós, quando de vez se nos apaga a breve luz da vida,
resta-nos dormir toda uma noite sem fim.
Beija-me mil vezes, mais cem;
outras mil, outras cem.
Depois, quando tivermos ajuntado muitos milhares,
vamos baralhá-los, perdendo-lhes a conta,
para que nenhum invejoso, incapaz de contar beijos tantos,
possa mau-olhado nos lançar.
1 814
Amália de Alarcão Ribeiro Martins
Amanhecer
Hoje o dia amanheceu mais florido,
porque mais amor tenho por você.
Hoje amanheci mais feliz,
porque sei que estarás
constantemente ao meu lado.
Hoje amanheci te querendo
mais do que a própria vida.
Amo e farei tudo
o que tu quiseres
para estar
sempre e eternamente
ao teu lado.
porque mais amor tenho por você.
Hoje amanheci mais feliz,
porque sei que estarás
constantemente ao meu lado.
Hoje amanheci te querendo
mais do que a própria vida.
Amo e farei tudo
o que tu quiseres
para estar
sempre e eternamente
ao teu lado.
479
António Botto
Andava a lua nos céus
Andava a lua nos céus
Com o seu bando de estrelas
Na minha alcova
Ardiam velas
Em candelabros de bronza
Pelo chão em desalinho
Os veludos pareciam
Ondas de sangue e ondas de vinho
Ele, olhava-me cismando;
E eu,
Plácidamente, fumava,
Vendo a lua branca e nua
Que pelos céus caminhava.
Aproximou-se; e em delírio
Procurou avidamente
E avidamente beijou
A minha boca de cravo
Que a beijar se recusou.
Arrastou-me para ele,
E encostado ao meu hombro
Falou-me de um pagem loiro
Que morrera de saudade
À beira-mar, a cantar...
Olhei o céu!
Agora, a lua, fugia,
Entre nuvens que tornavam
A inda noite sombria.
Deram-se as bocas num beijo,
Um beijo nervoso e lento...
O homem cede ao desejo
Como a nuvem cede ao vento
Vinha longe a madrugada.
Por fim,
Largando esse corpo
Que adormecera cansado
E que eu beijara, loucamente,
Sem sentir,
Bebia vinho, perdidamente
Bebia vinha..., até cair.
Com o seu bando de estrelas
Na minha alcova
Ardiam velas
Em candelabros de bronza
Pelo chão em desalinho
Os veludos pareciam
Ondas de sangue e ondas de vinho
Ele, olhava-me cismando;
E eu,
Plácidamente, fumava,
Vendo a lua branca e nua
Que pelos céus caminhava.
Aproximou-se; e em delírio
Procurou avidamente
E avidamente beijou
A minha boca de cravo
Que a beijar se recusou.
Arrastou-me para ele,
E encostado ao meu hombro
Falou-me de um pagem loiro
Que morrera de saudade
À beira-mar, a cantar...
Olhei o céu!
Agora, a lua, fugia,
Entre nuvens que tornavam
A inda noite sombria.
Deram-se as bocas num beijo,
Um beijo nervoso e lento...
O homem cede ao desejo
Como a nuvem cede ao vento
Vinha longe a madrugada.
Por fim,
Largando esse corpo
Que adormecera cansado
E que eu beijara, loucamente,
Sem sentir,
Bebia vinho, perdidamente
Bebia vinha..., até cair.
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Angelo Augusto Ferreira
TV Espanhola Internacional
Noticiário Via Satélite
Sua voz habita o éter
Abstrato
Nos ventos, nos ares
Nas cores do espectro da luz,
Convive com os satélites
Passeia com o sol
A lua, as estrelas.
Permanece no céu
Formosa, linda
No corpo, nas falas dos anjos
Ligada na terra !
Nossos olhos embevecidos
Com o seu jeito pleno de ternura,
Do ventre da Criação,
Surgiu resplandecente, divina.
Mulher laboriosa
Valiosa na comunicação
Jornalismo, informação!
A fala de MADRID enfeita o mundo.
Tomara, por dias, anos infindos
Assistiremos
Atentos com alegrias.
A flor perfeita na vitrine da vida
Faz bem à visão.
Linda, bela, sem disfarces
SANDRA SUTHERLAND
O valor da mulher jornalista-reporter
No mundo, no vídeo, chama atenção
Na tela da televisão!
Sua voz habita o éter
Abstrato
Nos ventos, nos ares
Nas cores do espectro da luz,
Convive com os satélites
Passeia com o sol
A lua, as estrelas.
Permanece no céu
Formosa, linda
No corpo, nas falas dos anjos
Ligada na terra !
Nossos olhos embevecidos
Com o seu jeito pleno de ternura,
Do ventre da Criação,
Surgiu resplandecente, divina.
Mulher laboriosa
Valiosa na comunicação
Jornalismo, informação!
A fala de MADRID enfeita o mundo.
Tomara, por dias, anos infindos
Assistiremos
Atentos com alegrias.
A flor perfeita na vitrine da vida
Faz bem à visão.
Linda, bela, sem disfarces
SANDRA SUTHERLAND
O valor da mulher jornalista-reporter
No mundo, no vídeo, chama atenção
Na tela da televisão!
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Emiliano Perneta
Súcubo
Desde que te amo, vê, quase infalivelmente,
Todas as noites vens aqui. E às minhas cegas
Paixões, e ao teu furor, ninfa concupiscente,
Como um súcubo, assim, de fato, tu te entregas...
Longe que estejas, pois, tenho-te aqui presente.
Como tu vens, não sei. Eu te invoco e tu chegas.
Trazes sobre a nudez, flutuando docemente,
Uma túnica azul, como as túnicas gregas...
E de leve, em redor do meu leito flutuas,
Ó Demônio ideal, de uma beleza louca,
De umas palpitações radiantemente nuas!
Até, até que enfim, em carícias felinas,
O teu busto gentil ligeiramente inclinas,
E te enrolas em mim, e me mordes a boca!
Todas as noites vens aqui. E às minhas cegas
Paixões, e ao teu furor, ninfa concupiscente,
Como um súcubo, assim, de fato, tu te entregas...
Longe que estejas, pois, tenho-te aqui presente.
Como tu vens, não sei. Eu te invoco e tu chegas.
Trazes sobre a nudez, flutuando docemente,
Uma túnica azul, como as túnicas gregas...
E de leve, em redor do meu leito flutuas,
Ó Demônio ideal, de uma beleza louca,
De umas palpitações radiantemente nuas!
Até, até que enfim, em carícias felinas,
O teu busto gentil ligeiramente inclinas,
E te enrolas em mim, e me mordes a boca!
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