Tristeza e Melancolia

Poemas neste tema

Fernando Pessoa

Fernando Pessoa

Sinto esse frio coração eu mesmo

Sinto esse frio coração eu mesmo
Admirado de ser um coração,
Tão frio está! Já o sonho
Porque quis fingir para mim mesmo
Esquecê-lo
1 538
Fernando Pessoa

Fernando Pessoa

Sucata de alma vendida pelo peso do corpo,

Sucata de alma vendida pelo peso do corpo,
Se algum guindaste te eleva é para te despejar...
Nenhum guindaste te eleva senão para te baixar.

Olho analiticamente sem querer, o que romantizo sem querer...
1 524
Fernando Pessoa

Fernando Pessoa

ENDINGS

Farewells, departures, goings - these are most sad:
They are endings, dissolutions; they drive sentiment mad.
Even the fall of priests, of tyrants, of slaves and of kings
Has the bitterness and the sadness of the finishing of things.
1 518
Fernando Pessoa

Fernando Pessoa

SUNSET SONG

Leaning my chin on my hands,
        I looked far away to sea
Where the dying sunset a sense commands
        Of half‑mystical majesty.
And I felt a strange sorrow, a fear,
        A desire like a sudden love
        For something that is not here
        And that I can never have.
2 005
Fernando Pessoa

Fernando Pessoa

Puseram-me uma tampa —

Puseram-me uma tampa —
Todo o céu.
Puseram-me uma tampa.

Que grandes aspirações!.
Que magnas plenitudes!
E algumas verdadeiras...
Mas sobre todas elas
Puseram-me um tampa.
Como a um daqueles penicos antigos —
Lá nos longes tradicionais da província —
Uma tampa.
1 534
Fernando Pessoa

Fernando Pessoa

Ímpetos de dizer-lhe (....) acorda!

Ímpetos de dizer-lhe (....) acorda!
Acorda, olha o mistério ao pé de ti!
E assim pensando rio amargamente
Dentro em mim rio como se chorasse.
1 401
Fernando Pessoa

Fernando Pessoa

UMA VOZ NA ESCURIDÃO: Melodia vaga,

Melodia vaga,
        Para ti se eleva
        E chorando, leva
        O teu coração,
        Já de dor exausto,
        E sonhando o afaga.
        Os teus olhos, Fausto,
        Não mais chorarão.
1 545
Fernando Pessoa

Fernando Pessoa

Onde, em jardins exaustos

Onde, em jardins exaustos
Nada já tenha fim,
Forma teus fúteis faustos
De tédio e de cetim.
Meus sonhos são exaustos,
Dorme comigo e em mim.
991
Fernando Pessoa

Fernando Pessoa

Teu corpo real que dorme

Teu corpo real que dorme
É um frio no meu ser.
865
Fernando Pessoa

Fernando Pessoa

Sad lot of all on earth

Sad lot of all on earth,
        Sad and lone!
We go to death from birth
Cheerless in laugh or groan;
And the greatest of us that here must sigh
Is but a meteor hurled on high
        From the unknown to the unknown.
1 263
Fernando Pessoa

Fernando Pessoa

Teus olhos tristes, parados,

Teus olhos tristes, parados,
Coisa nenhuma a fitar...
Ah meu amor, meu amor,
Se eu fora nenhum lugar!
1 111
Florbela Espanca

Florbela Espanca

As Quadras D’Ele

Em noites calmas, serenas
Quando passeia o luar,
Para sempre á tua porta
E encosta-se a chorar...

E eu que passo também
Na minha dor a cismar,
Paro ao pé dele e ficamos
Abraçados a chorar!

1 727
Florbela Espanca

Florbela Espanca

Pus-me a colher

Pus-me a colher ’mas saudades,
Do campo, singelos bens,
Quando as ouvi: «Não nos leves,
Não te bastam as que tens?!»
1 433
Florbela Espanca

Florbela Espanca

Anda o luar

Anda o luar adormecido e triste
Cantando urna canção ás doces águas...
Assim eu ando á tua imagem doce
Cantando a oração das minhas mágoas...
1 468
Vasko Popa

Vasko Popa

Musgo

Sonho amarelo da ausência
Do alto das telhas ingênuas
Aguarda

Aguarda para descer
Sobre as pálpebras fechadas da terra
Sobre as faces apagadas das casas
Sobre as mãos apaziguadas das árvores

Aguarda imperceptível
Para a mobília enviuvada
Abaixo no quarto
Revestir cuidadoso
De uma capa amarela


850
Gerard Reve

Gerard Reve

Poema para o Doutor Trimbos

"Vinho barato, masturbação e cinema,"
escreve Céline.
O vinho acabou, não há cinemas aqui.
A existência torna-se tão monocórdica.

:

Gedicht voor Dokter Trimbos

"Goedkope wijn, masturbatie, bioscoop,"
schrijft Céline.
De wijn is op, en bioscopen zijn hier niet.
Het bestaan wordt wel eenzijdig.


952
Leónidas Lamborghini

Leónidas Lamborghini

O sabotador arrependido

No meu rosto está escrita a aceita
renúncia
tanto vil ostracismo
depois soube
o trabalho é saúde, é fator
dignifica
e o outro é o crime
a poesia maldita

Eu era o braço direito agora não sou nada

Esta guitarra já cai
tombada da minha alma
sua última nota
espera.

739
Akiko Yosano

Akiko Yosano

Tanka III

“Kyoto é um lugar
de dolorosas recordações...”
escrevi até aí
quando olhei para baixo
e notei a brancura do rio Kamo
777
Lalla Romano

Lalla Romano

Até o ar está morto

Até o ar está morto
o céu é como uma pedra
Os pássaros não sabem mais voar
atiram-se como cegos
dos beirais dos tetos
:
Anche l'aria è morta
il cielo è come una pietra
Gli uccelli non sanno più volare
si buttano come ciechi
giù dall'orlo dei tetti
712
Adão Ventura

Adão Ventura

Natal

um natal lerdo
num lençol de embira
mesmo qu´uma fonte
de estimada ira.

um menino lama
num anzol que fira
algum porte e corpo
e alma de safira.

um menino cápsula
de tesoura e crime
— ritual de crisma
sem fé ou parafina.

um menino-corpo
de machado e chão
a arrastar cueiros
de chistes e trovão.

1 240
Luís Anriques

Luís Anriques

Tristeza, dor e cuidado

Tristeza, dor e cuidado,
leixai-me, que me quereis?
Por ventura não sabeis
que sou já desesperado?

Sabei vós que vivo morto
sem esperança de vivo,
nem espero já conforto
de amor cruel, esquivo.
E pois sou já condenado,
vossas forças não mostreis,
ca sabei, se não sabeis,
que sou já desesperado.
819
Luís Filipe Castro Mendes

Luís Filipe Castro Mendes

Pessoana Pobre

Como nas ruas de Roma
ou no caos de Deli,
esta ruína que assoma
diz que não somos daqui.

Passado, terra estrangeira:
e o nosso em particular
é palavra derradeira,
não se pode articular.

Toda a memória que fui
longe de mim se escondeu.
E de muitos céus azuis
se fez noite neste céu.

1 422
Alexandre Dáskalos

Alexandre Dáskalos

O meu amor

O meu amor está triste
e enche-me de cuidados.

Onde está a almofada dos bilros?
Já provaste os dendêns com açucar?

Não reduzas a valsa a um cheese-burguer
num pub desconhecido!

Ele disse-me - não canses os olhos nos bilros.

O meu amor está triste e enche-me de cuidados.
1 462
Zeto Cunha Gonçalves

Zeto Cunha Gonçalves

Os ombros modulam o vento

Entristece
a tua tristeza - e canta

(os ombros modulam o vento
modulam a noite
a soberana voz
dos horizontes)

entristece
a tua tristeza - e canta
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