Protesto Resistência e Revolução

Poemas neste tema

Alice Vieira

Alice Vieira

Precisa-se de poetas na América Latina

precisa-se de poetas na América Latina
precisa-se de poetas como precisa-se de vermute
fuzis de assalto
precisa-se de poetas na América Latina
precisa-se de poetas para
matar a fome com a ambivalência
de repulsivos moluscos bivalves
precisa-se de poetas na América Latina
com carta de apresentação
aos caudilhos precisa-se
quando a única via for
quando a corda no pescoço
servir de arrimo
precisa-se de poetas na América Latina
precisa-se de poetas como se um Sol anguloso
partisse
o edifício de fogo da ruína
616
João Airas de Santiago

João Airas de Santiago

U, Com Dom Beeito, Aos Preitos Veerom

U, com Dom Beeito, aos preitos veerom,
cuspirom as donas e assi disserom:
       - Talhou Dom Beeito
       aqui o feeito.

E pois que houveram já feita sa voda,
cuspiram as donas, e diz Dona Toda:
       - Talhou Dom Beeito
       aqui o feeito.

Todas se da casa com coita saíam
e iam cuspindo todas e diziam:
       - Talhou Dom Beeito
       aqui o feeito.
562
Mário-Henrique Leiria

Mário-Henrique Leiria

REBOLA-A-BOLA

Sete crianças
resolveram
ir procurar a bola
que tinham perdido
e não voltara
a correr tiraram
os sapatos
e foram a correr

Sete senhores
resolveram
ficar com aquela bola
que tinham encontrado
e que ali estava
apressados puseram
os chapéus
e seguiram apressados

Sete polícias
obedeceram
a guardar a bola
que tinham esquecido
na infância
disciplinados tiraram
os cacetes
e ficaram disciplinados

Sete crianças
decidiram
voltar a ter
a bola que rebola
e mijar
com alegria e prazer
em sete senhores
em sete polícias
e tirar-lhes
a bola de correr

e tiraram
614
Mário-Henrique Leiria

Mário-Henrique Leiria

WILHELM REICH

Passando como a faca profissional
cortante e exacta
através da porta da noite rigorosa
riscando a pedra clara
com a última fúria armada de granada
solitário como a árvore
na véspera do funeral familiar
dirigindo a máquina
de esfolar fascismos ditos socialistas
organizados em comités de salvação
fazendo a ligação feroz
entre a disciplina proletária
do sexo atento
e a rapidez agressiva de viver
por sim

acabaste extremamente lúcido
no fracasso de inventar
a liberdade certa.
581
Mário-Henrique Leiria

Mário-Henrique Leiria

Depois de fuzilado

Depois de fuzilado
ao levar
o tiro na nuca pra acabar
chateou-se
e viu-se obrigado
a explicar
ao major
que comandava o pelotão
que o tinha fuzilado
por favor
preste atenção
e não me obrigue a repetir
a repreensão
na próxima vez
que mandar matar
dê tempo ao morto
pra gritar
convicto
um último viva de revolução
352
Mário-Henrique Leiria

Mário-Henrique Leiria

canção do mundo novo

Entre eternos dias de poeira
entre noites imensas de ferrugem
bebendo a cinza que nos dão por vida
cuspindo nevoeiros de silêncio
de mãos amarradas pelo medo
e bocas sufocadas pela sombra
com os pés viscosamente presos
num solo de pântano e repulsa
olhos perdidos e sem luz
reflectindo apenas um remoto horizonte
a desfazer-se em treva

assim vamos quotidianamente

mastigando sem força a própria cobardia
afagando a vergonha podre em que vivemos
entre uma longa interminável
estrada de baionetas
na obediência inútil e servil
a uma voz sem rosto e sem presença
cumprindo surdas ordens de ódio e mentira
marchando sem razão e sem destino

assim vamos quotidianamente
499
Wanda Ramos

Wanda Ramos

E correram os rios

Correram como rios as palavras
altas e soltas correram os rios na gente
rios de lava Lisboa inflamada acorrendo fremente
nos dias eu se abriram vinda das faldas vertida
dos dormitórios da cintura fumegante e mecanizada
Lisboa livre acorreu
enxameadas as veias avenida da liberdade
rossio terreiro do paço Belém
– e além na outra banda absurdo o cristo:
braços em cruz impotente –
e correndo os rios cada vez mais latos
até o súbito despedaçar-se da seda contra a amurada
afundadas as olheiras da vigília entornadas
as falas em busca do nexo – e achámos esta sorte
o sangue agitado o tempo:
uníssono o nosso grito
escancarado em cada rua
em passo de estar alerta
uníssono ressoou porém mais fundo.
E assim nos pergunto que águas nos lavaram tão de dentro
e levaram alamedas da liberdade acima
que rios tão feitos de luta e punhos? alegria?
601
Sidónio Muralha

Sidónio Muralha

Amanhã

Na hora que vem de longe,
cresce e vem, cresce e vem,

– os que tiverem frio hão-de lançar os meus versos ao lume,
e a chama há-de subir…
– os que tiverem fome hão-de lançar os meus versos à terra,
como se fossem estrume,
e a terra há-de florir…

Os meus poemas de tragédia são degraus

da hora que vem,
– cresce e vem,
– cresce e vem… –
Nos meus poemas cresceu, e sofreu, e aprendeu
nos meus poemas revoltos,
por isso vem de longe, nua, nua,
e traz os cabelos soltos…

Hora que vens de longe,
de longe vens, de rua em rua:
– hás-de passar e hás-de parar por toda a parte,
nua, formosamente, nua,

– para que já não possam desnudar-te.
749
Sidónio Muralha

Sidónio Muralha

Já não há mordaças

Já não há mordaças, nem ameaças, nem algemas
que possam perturbar a nossa caminhada, em que os
poetas são os próprios versos dos poemas e onde
cada poema é uma bandeira desfraldada.

Ninguém fala em parar ou regressar. Ninguém
teme as mordaças ou algemas. – O braço que
bater há-de cansar e os poetas são os próprios
versos dos poemas.

Versos brandos… Ninguém mos peça agora.
Eu já não me pertenço: Sou da hora.
E não há mordaças, nem ameaças, nem algemas

que possam perturbar a nossa caminhada, onde
cada poema é uma bandeira desfraldada e os
poetas são os próprios versos dos poemas.
799
Reynaldo Jardim

Reynaldo Jardim

A coisa útil

Um fruto (ou mesmo o pão)
é útil à proporção que alimenta.
A couve-flor (ou mesmo o ar)
é bela porque germina.
Assim o trigo e o canavial,
o café e o porto,
a mulher e o tempo.
Sementes de gordos horizontes.
Comei deste poema
um gomo ou a laranja integral.
O pó não alimenta,
mas na terra o pasto viceja.
No pensamento vazio nada vive,
mas onde houver substância,
ali o alimento existe.
Mastigai o poema,
com casca, polpa, germens, ácidos.
Os resíduos seguirão o doloroso fim.
A seiva enriquecerá teu plasma sanguíneo:
em ferro e iodo,
em sol e tempo
e horizontes palpáveis.
Uma fruta (ou mesmo a harmonia),
o agrião, as greves e as alfaces,
- palavras indigestas à poesia…
No entanto, o nutritivo poema se fermenta
e sobre cidades, soldado, fábrica, menino,
explica a anemia,
nutre a revolução.
697
Ricardo Aleixo

Ricardo Aleixo

Brancos

eles que são brancos e os que não são eles
que são machos e os que não são eles que
são adultos e os que não são eles que são
cristãos e os que não são eles que são ricos
e os que não são eles que são sãos e os que
não são todos os que são mas não acham
que são como os outros que se entendam
que se expliquem que se cuidem que se

993
Horácio Costa

Horácio Costa

DULCÍMERO E FORMAÇÃO BRASILEIRA

Para João Silvério Trevisan

pense em congregar pessoas
para estudar um tópico
que a elas interesse:

o dulcímero

e peça à universidade
e seus oficiais e às fundações
e seus oficiais e a quem
de direito:

queremos estudar o dulcímero
porque ele é fundamental
para a formação brasileira

e sem dúvida haverá compreensão
da universidade e seus oficiais
das fundações e seus oficiais
e de quem de direito

porque sem o dulcímero
não se entende a formação
do Brasil nem de sua gente
e do que seremos quando formos

então está bem estudemos o dulcímero
para evitarmos pedir verba
tutu l’argent recursos
para estudar por exemplo

a homocultura ora bem
a veadagem secular do Brasil
que resultou nesses doze milhões de veados
do Oiapoque ao Chuí

porque aí não estará bem
os oficiais torcerão o nariz
e te darão chá de cadeira e enfim
sempre poderão dizer que o prazo
já passou que o formulário
não foi bem preenchido que a
certidão está caduca e ainda
algo mais como

faltou também pedir para estudar
o dulcímero
senhor professor doutor
sem o dulcímero
não podemos apoiar a sua iniciativa
não é preconceito não
nada de homofobia
menos contra a veadagem
e o senhor:

agora só há verba para estudar
o dulcímero
543
Alexandre Guarnieri

Alexandre Guarnieri

Tirem leite de pedra

Tirem leite de pedra,
extraiam ouro da merda,
nenhuma esquerda ecoa
nada providencia a sombra boa
neste calor da porra, do primeiro
pau-brasil não sobrou sequer o talo
o cepo seco, nenhuma urina insípida
ativa a latrina neste país de pus
e súlfur, aqui é o cu do judas
é onde o vento faz a curva
onde não há cura pro mal, só
carnaval, há curra pra cultura
o show da vida, a mídia burra
a língua culta contra a fala chula
é pau na bunda da turba, é pica
sifilítica pro boquete dos
banguelas “the horror – a merda
– the horror – a merda”
domingos no parque com pique-
niques de alpiste – “é triste” –
farinha e água e mais nada
aqui é o parque da gentalha
ávida por favores e dádivas
terra brasilis sob o piche
nem ave-maria ou reza pra virgem
salvam este projeto inexequível
democracia de cu é rola, no
planalto a apoteose da sandice
onde tudo que existe é alpiste
farinha e água e mais nada
alguma boa intenção resiste?
é, amigos, é triste
647
Alexandre Guarnieri

Alexandre Guarnieri

Motim 2.0

“às ordens, hei-me!”, “às ordens, hei-me!”,
ó rei errado! que cansei de estar calado
aos despautérios do patrão!
contra as egrégoras brutais
deste transporte lento, gangrênico:
ergo-me! contra as regras cegas
desse presente de grego, ergo-me!
contra o determinado tédio inédito,
sem término, sem trégua, numa guerra
contra o dono dessa redoma total
cujo domínio sombrio mina em mim
o dom de homem, ergo-me! entretanto
um nome sempre me reencontra: o meu,
tornado mero número no ministério,
na carteira de trabalho, na zona eleitoral,
a mera estatística nas fileiras da mídia,
um álibi, “eis-me!”, um pobre anônimo,
rasgado e desgraçado, mas apto ao bom combate,
grato pela chance de gritar nas ruas
contra o desrespeito do governo,
nesta câmara de gás lacrimogêneo,
lacrada, a que chamamos, hoje,
Brasil ou
Rio de Janeiro
588
Alexandre Guarnieri

Alexandre Guarnieri

Terrorismo doméstico

toda ira sanguínea direcionada
ao centro político
de um país em ruínas
– quem está comigo ? –
todo menosprezo e escárnio
lançados ao povo ( sufocado
por desgosto e impostos )
enquanto os ricos óbvios
reciclam a pobreza anônima
em periferias que agonizam
por negligência e frieza
– quem está comigo ? –
a massa ignara, manobrada,
alimentando o monstro nacional
cujo apetite desconhece
qualquer limite: estúpida república
de furto e conluio inconclusivo,
os fulcros do lucro auscultam
( incubus/ sucubus/ exus pedem justiça )
evangélicos esconjuram o assunto
jejuando nus a um jesus em decúbito)

– quem está comigo ? –

se somos ilhas, se somos bichos,
se somos lixo, se somos nada
além da soma do que é desprezível

– quem está comigo
para explodir Brasília ? –
605
Alexandre Guarnieri

Alexandre Guarnieri

cotidianometria

fitter, healthier and more productive
               a pig in a cage on antibiotics
                      Radiohead (OK Computer, 1997)


suje as digitais de tinta /
não sorria na fotografia / cabelo cortado
apare quaisquer outros pelos /
dentifrício, desodorante / e necessário o asseio
remova óculos ou lentes / renove o ânimo
mantenha a cabeça a um determinado ângulo
sopre o bafômetro / prenda o fôlego
língua para fora, barriga para dentro
inspire, expire / (sexo oral à la marilyn manson)
nunca deixe para amanhã, faça hoje mesmo
submeta-se ao exame / não perca mais tempo
preencha corretamente os dados /
sempre recadastre-se no prazo
silicone nos seios / correção de septo
as quatro cópias no cartório / melhor prevenir
do que remediar / beba mais água, evite o álcool
livre-se da gordura hidrogenada
(opte pela salada crua) / não esqueça a data
se confesse com marcelo rossi
ao som do padre fábio de melo
guarde-se para o rapaz certo / sexo
só depois do casamento / não gaste água,
mas escove os dentes sempre
mocinhas vestem-se com decência
respeite a fila / pague em dia
seja condescendente diante da ignorância alheia
tome o remédio / tudo no horário
vá ao cinema (assista a um filme inédito)
em caso de vida ou morte: aperte o botão vermelho
568
Golgona Anghel

Golgona Anghel

Querido Félix, a vida continua cruel

Querido Félix, a vida continua cruel,
mas igualmente necessária.
Alegra-me sobremaneira saber que estejas mais perto,
embora não menos difícil de imaginar.
Alegra-me e posso, até, dizer que me entusiasma
a esperança de que haja ainda atalhos que funcionam,
de modo que brindo em honra dos teus exílios
enquanto me curo com aguardente as feridas dos pés.
Há regressos que nos tiram pedaços do corpo,
em troca de um lugar para sentar-nos, embora
os dissidentes não se sentem nunca,
por mais baratos que nos vendam os sofás.
Não se sentam nem se cansam.
Gastamo-nos apenas,
como meros bocados de sabão
onde os nossos pais cravaram
as suas lâminas de barbear.
817
Golgona Anghel

Golgona Anghel

Em vez de continuarem a cuspir

Em vez de continuarem a cuspir,
enxuguem a baba,
metam os sapatinhos de vela
o colarinho branco,
e olhem fixamente para a câmara:
podem dizer mal de mim,
mas sorriam.
Não desperdicem
as últimas três gotas de Chanel n.º 5
que o ódio vos borrifou nos pulsos.
Usem sempre as melhores cartas,
citem-me,
sejam lordes quando espetam a navalha.

Eu sei quem são,
conheço o vosso heiro.
Eu também ganho as minhas medalhas
em lares, creches e hospitais.
Podem, se quiserem,
ir ao céu,
mas isso não implica que encontrem Deus.

Agora não façam de mim
este bicho exótico
apanhado de surpresa,
enquanto preparava um cocktail
molotov no penico
do seu habitat natural.
Não me cortem as garras,
nem me domestiquem a cama.
Se não conseguem encontrar a saída,
se acertaram em cheio,
neste buraco vazio,
fiquem e lavem-se!
Daqui ninguém sai com fome.
1 009
Tomas Tranströmer

Tomas Tranströmer

NOVEMBRO

Quando o lacaio se aborrece, torna-se perigoso.
O céu em chamas contrai-se.
Pancadas ecoam de cela em cela.
E o espaço jorra da geada.
Algumas pedras brilham como luas cheias.
654
Mário Chamie

Mário Chamie

Espaço inaugural

O espaço que se mede
e que se perde
não é o tempo perdido
da memória.

Esquece.
O tempo que se perde
é o mesmo que fenece
a cada hora.

Na hora do homem
em casa.
Na hora do homem
na rua.
Na hora do espanto
desse homem
sem tempo
no espaço de cada canto.

Mas o cansaço do tempo
que se perde
não impede o espaço
que se inaugura.

O espaço do homem
na praça.
O espaço do homem
em luta
com a fúria de outro tempo
sua surda fúria muda.
886
António Borges Coelho

António Borges Coelho

Até logo

à Isaura


Há oito meses dissemos:
– Até logo!
Era uma tarde fria de Novembro
uma tarde como qualquer outra
gente regressando a casa do trabalho
lancheiras malas rugas profundas no rosto.

Se houvesse malas de mão
para a saudade a desventura
não havia malas no mundo que chegassem…

Era uma tarde fria de Novembro.
Não sei se alguém sorriu
do beijo que trocámos.
– Até logo – disseste.

Depois passaram oito meses
os meses mais compridos que tenho encontrado.

Que pensamentos levava comigo?
Sei que disseste «até logo»
E era como se levasse as tuas mãos
Abertas sobre o meu peito.

Pensava
que só nas despedidas breves
por horas
se dizia «até logo»
como a alguém que parte
«boa viagem»
ou ao nosso companheiro
«bom trabalho».

Mas já passaram oito meses
duzentos e quarenta dias
cinco mil e setecentas horas.
Porque disseste
«Até logo»?

Se eu não soubesse
aprenderia que na minha pátria
os namorados dizem «até logo»
e estão meses anos
por vezes não voltam mais.

Fecham-nos
atrás de grades de ferro
espancam-nos
matam-nos devagar
e não permitem que apareçam
«logo».

Amiga
o ódio que trago armazenado
destas noite de insónia e abandono
dou-o à luta.
Mas temos que sofrer
sofrer deveras.
Até que um dia
Os homens cantarão livres como os pássaros

os namorados beijarão sem pressa
e as palavras «até logo»
quererão dizer simplesmente
«até logo»
852
José Paulo Paes

José Paulo Paes

L’AFFAIRE SARDINHA

O bispo ensinou ao bugre
Que pão não é pão, mas Deus
Presente em eucaristia
E como um dia faltasse
Pão ao bugre, ele comeu
O bispo, eucaristicamente
611
José Paulo Paes

José Paulo Paes

SEU METALÁXICO

Economiopia
Desenvolvimentir
Utopiada
Consumidoidos
Patriotários
Suicidadãos
630
Charles Bukowski

Charles Bukowski

Ah

dor de flamingo.
dedos queimados tentando
acender o final desta
bituca.
em um lugar descrito
por mulheres apavoradas
com dinheiro em suas bolsas
como "buraco de rato".
"vocês podem cuspir no chão aqui",
eu lhes digo.
mas não, a
uma distância
segura, parece que
preferem discutir
minha poesia.
591