Memórias e Lembranças

Poemas neste tema

Sophia de Mello Breyner Andresen

Sophia de Mello Breyner Andresen

O Opaco

Recuperei a minha memória da morte da lacuna da perca e do desastre
O opaco regressou de seu abismo antigo
A sombra de Ingrina não toca nem sequer as minhas mãos
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Sophia de Mello Breyner Andresen

Sophia de Mello Breyner Andresen

Retrato

O jovem lord Byron é americano
E jornalista. Consigo traz
— Mais do que Escócias de outras eras —
Um futuro de eficácia errância e pressa

Porém seu perfil de estátua desenha a noite morna
E negro se anela na brisa o seu cabelo

Com ele vem um rumor de amor perdido
E a seu bem talhado rosto conviria
Turbante de palikare ou de fakir
E parece surgir de um filme antigo
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Sophia de Mello Breyner Andresen

Sophia de Mello Breyner Andresen

Escrita Ii

Escreve numa sala grande e quase
Vazia
Não precisa de livro nem de arquivos
A sua arte é filha da memória
Diz o que viu
E o sol do que olhou para sempre o aclara
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Sophia de Mello Breyner Andresen

Sophia de Mello Breyner Andresen

Vii. Outros Dirão Senhor As Singraduras

Outros dirão senhor as singraduras
Eu vos direi a praia onde luzia
A primitiva manhã da criação

Eu vos direi a nudez recém-criada
A esquiva doçura a leve rapidez
De homens ainda cor de barro que julgaram
Sermos seus antigos deuses tutelares
Que regressavam
1982
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Sophia de Mello Breyner Andresen

Sophia de Mello Breyner Andresen

Projecto Ii

Esta foi sua empresa: reencontrar o limpo
Do dia primordial. Reencontrar a inteireza
Reencontrar o acordo livre e justo
E recomeçar cada coisa a partir do princípio

Em sua empresa falharam e o relato
De sua errância erros e derrotas
De seus desencontros e desencontradas lutas
É moroso e confuso

Porém restam
Do quebrado projecto de sua empresa em ruína
Canto e pranto clamor palavras harpas
Que de geração em geração ecoam
Em contínua memória de um projecto
Que sem cessar de novo tentaremos
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Sophia de Mello Breyner Andresen

Sophia de Mello Breyner Andresen

As Fotografias

Era quase no inverno aquele dia
Tempo de grandes passeios
Confusamente agora recordados —
A estrada atravessava a serra pelo meio
Em rugosos muros de pedra e musgo a mão deslizava —
Tempo de retratos tirados
De olhos franzidos sob um sol de frente
Retratos que guardam para sempre
O perfume de pinhal das tardes
E o perfume de lenha e mosto das aldeias
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Sophia de Mello Breyner Andresen

Sophia de Mello Breyner Andresen

Iv. Falamos Junto À Luz. Lá Fora a Noite

Falamos junto à luz. Lá fora a noite
Imóvel brilha sobre o mar parado.
À sombra das palavras o teu rosto
Em mim se inscreve como se durasse.
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Sophia de Mello Breyner Andresen

Sophia de Mello Breyner Andresen

Portas da Vila

I

A casa está na tarde
Actual mas nos espelhos
Há o brilho febril de um tempo antigo
Que se debate emerge balbucia
II

Com um barulho de papel o vento range na palmeira
O brilho das estrelas suspende nosso rosto
Com seu jardim nocturno de paixão e perfume
A casa nos invade e nos rodeia
III

A casa vê-se de longe porque é branca
Mas sombrio
É o quarto atravessado pelo rio
IV

A casa jaz com mil portas abertas
O interior dos armários é obscuro e vazio
A ausência começa poisando seus primeiros passos
No quarto onde poisei o rosto sobre a lua
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Sophia de Mello Breyner Andresen

Sophia de Mello Breyner Andresen

Vila Adriana

A ânfora cria à sua roda um espaço de silêncio
Como aquela
Tarde de outono sob os pinheiros da Vila Adriana

Tempo da fina areia agudamente medido
Os séculos derrubaram estátuas e paredes
Eu destruída serei por breves anos

Mas de repente recupero a antiga
Divindade do ar entre as colunas
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Sophia de Mello Breyner Andresen

Sophia de Mello Breyner Andresen

Primavera

As heras de outras eras água pedra
E passa devagar memória antiga
Com brisa madressilva e Primavera
E o desejo da jovem noite nua
Música passando pelas veias
E a sombra das folhagens nas paredes
Descalço o passo sobre os musgos verdes
E a noite transparente e distraída
Com seu sabor de rosa densa e breve
Onde me lembro amor de ter morrido
— Sangue feroz do tempo possuído
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Sophia de Mello Breyner Andresen

Sophia de Mello Breyner Andresen

Dia

Pela sua mão levou-me o dia.
Aérea e dispersa eu dançava
Enquanto a luz azul se dividia.

Escuros e longos eram
Os corredores vazios
O chão brilhava e dormia.

E pela sua mão levou-me o dia.

O mapa na parede desenhava
Verde e cor-de-rosa a geografia:
Aérea e dispersa eu vivia
No colo das viagens que inventava.

Outro rosto nascia
No interior das horas
Prisioneiro e velado
Por incertas demoras.

Das páginas dos livros escorriam
Antigas e solenes histórias
Como um rio meu coração descia
O curso das memórias.

E pela sua mão levou-me o dia.
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Sophia de Mello Breyner Andresen

Sophia de Mello Breyner Andresen

Saga

Aos outros dei aquilo que não eram
E por isso depois me arrependi.
Um homem morto em tudo o que perdi —
E olhos que são meus e não me esperam.
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Sophia de Mello Breyner Andresen

Sophia de Mello Breyner Andresen

Jardim

Alguém diz:
«Aqui antigamente houve roseiras» —
Então as horas
Afastam-se estrangeiras,
Como se o tempo fosse feito de demoras.
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Sophia de Mello Breyner Andresen

Sophia de Mello Breyner Andresen

I. a Memória Longínqua de Uma Pátria

A memória longínqua de uma pátria
Eterna mas perdida e não sabemos
Se é passado ou futuro onde a perdemos
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Sophia de Mello Breyner Andresen

Sophia de Mello Breyner Andresen

Intacta Memória

Intacta memória — se eu chamasse
Uma por uma as coisas que adorei
Talvez que a minha vida regressasse
Vencida pelo amor com que a lembrei.
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Sophia de Mello Breyner Andresen

Sophia de Mello Breyner Andresen

Iv. Na Minha Vida Há Sempre Um Silêncio Morto

Na minha vida há sempre um silêncio morto
Uma parte de mim que não se pode
Nem desligar nem partir nem regressar
Aonde as coisas eram uma intimamente
Como no seio morno de uma noite
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Adélia Prado

Adélia Prado

Abrasada

Só trinta anos tinha minha mãe
e já suspirava:
‘Por que não vai todo mundo pro convento?
Qualquer dia, ô cruz, estes peitinhos,
seus paninhos manchados...’
Por que me deixou órfã, minha mãe?
Apesar de seus olhos tristes
e sua boca selada,
vou me casar assim mesmo.
Só vai lhe doer agora
e não muito.
1 337
Adélia Prado

Adélia Prado

Sítio Arqueológico

As múmias me viram,
daí meu desassossego.
A vida, ainda que no Vale Sagrado
coberto de milharais,
está ligada às sorridentes caveiras,
ao seixo, a mim,
à folha que vi desprender-se
e me provocou arrepios.
Quis minha mãe morta há cinquenta anos e ela
à distância de um grito respondeu-me.
E nenhuma de nós abrira a boca.
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Adélia Prado

Adélia Prado

Anamnese

Na hora mais calma do dia
o frango assustado
atravessou o terreiro
em desabalado viés.
Era carijó,
minha mãe era viva,
eu era muito pequena.
Sem palavra para o despropósito
ela falou:
frango mais bobo.
Comecei a chorar,
era como estar sem calcinhas.
1 095
Adélia Prado

Adélia Prado

A Rua da Vida Feliz

Ao sol do meio-dia
ela fica suspensa,
a fala de minha mãe
sossega as borboletas:
‘flor bonita é no pé’.
Vi o quintal vibrando,
reagi brutamente
porque era inarticulável.
Quiseram me bater
por causa da minha cara
de quem tinha brincado com menino.
Só achei pra dizer:
Deus mora, mãe,
nunca morreu ninguém.
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Adélia Prado

Adélia Prado

Pedido de Adoção

Estou com muita saudade
de ter mãe,
pele vincada,
cabelos para trás,
os dedos cheios de nós,
tão velha,
quase podendo ser a mãe de Deus
— não fosse tão pecadora.
Mas esta velha sou eu,
minha mãe morreu moça,
os olhos cheios de brilho,
a cara cheia de susto.
Ó meu Deus, pensava
que só de crianças se falava:
as órfãs.
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Adélia Prado

Adélia Prado

Justiça

Nos tinha à roda
ao peito
aos cachorros
diferente da moradora de posses
que ia à missa de carro
e a quem os meninos
não puxavam a saia.
Mas muito mais bonita
era nossa mãe.
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Adélia Prado

Adélia Prado

Branco

É no sonho que voltam para dar testemunho,
insistentes e fustigados,
batidos de halo e nimbo, uma legenda só: pungência pura.
O que sempre falam as palavras não dizem.
Sustidos no alto clima de claridade e pedras,
sol sobre tufos verdes e areia, vento desencadeado,
os fixos olhos dos que viram Deus avisam.
Misericordiosos e imóveis.
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Adélia Prado

Adélia Prado

A Poesia, a Salvação E a Vida Ii

Eu vivo sob um poder
que às vezes está no sonho,
no som de certas palavras agrupadas,
em coisas que dentro de mim
refulgem como ouro:
a baciinha de lata onde meu pai
fazia espuma com o pincel de barba.
De tudo uma veste teço e me cubro.
Mas, se esqueço a paciência,
me escapam o céu
e a margarida-do-campo.
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